Pierre Lemaitre: Até nos vermos lá em cima

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Pierre Lemaitre. Até nos vermos lá em cima. (Nos vemos allá arriba. Salamandra. Barcelona. (2014). 443 pgs)

até nos vermos lá em cimaChegou às minhas mãos a tradução espanhola deste premiado escritor francês. Algo comentava a crítica de um romance policial, situado no final da Primeira Grande guerra. A verdade é que não encontrei a tal intriga policial por nenhum lado, e sim uma crítica contumaz à hipocrisia humana, em todas suas variantes: a pessoal, a do Estado, e a da própria sociedade.

Lemaitre descreve as venturas e desventuras (muito mais estas últimas) de três soldados franceses quando está para ser assinado o armistício no fim da primeira grande guerra. Um aristocrata sem escrúpulos, um artista de família rica, um plebeu com espasmos de heroísmo. Os elogios da crítica, e os prêmios conferidos imagino se devem à descrição das personagens que é, de longe, o ponto alto do livro. Um aspecto que certamente deve apreciar-se melhor quando se lê o original em francês.

Mas a trama sobre a qual se constrói o romance, é cinza, anódina. Como a própria guerra que critica sem piedade. “No fundo, uma guerra mundial não é mais do que uma tentativa de assassinato generalizado num continente (…)

As mulheres buscavam um filho, um marido, ensinavam fotos estendendo o braço. Sempre eram elas as que se moviam, as que continuavam sua luta silenciosa, as que acordavam cada manhã com um resto de esperança para esgotar”.

Julgamento impiedoso que critica a mentira hipócrita de um estado que louva os heróis desaparecidos, enquanto ignora os sobreviventes mutilados. “Édouard não pensou mais do que em sobreviver; e agora que a guerra acabou e está vivo, o seu único propósito é desaparecer. Se mesmo os sobreviventes desejam morrer, é um desastre”.

Aqui e ali, surgem personagens secundários, sempre delineados com maestria, como a esposa de um dos protagonistas:  “Madeleine não era uma aberração extravagante, era uma mulher sem amor. O homem de quem esperava um olhar de aprovação, o único que podia lhe dar segurança, era um homem ocupado”. Ou o funcionário público que gasta seus dias na rotina cinza:  “Havia nele algo profundamente egocêntrico. Como não tinha nada nem ninguém, nem mesmo um gato, tudo se resumia a ele próprio, e sua vida estava enroscada sobre si mesmo, como uma folha seca”. Ou mesmo a criada aventureira, “uma morena de cabelo curto, linda, porque em casa dos ricos tudo é bonito, até os pobres”.

Mas os atores, mesmo virtuosos, não conseguem dar vida a um filme que carece de um roteiro consistente. Essa foi a minha impressão quando acabei o livro; de vazio, quase de perda de tempo. Porque as personagens que impactam a imaginação -e a vida- dos leitores, o fazem por estarem inseridos numa trama sólida, ancorados numa história imaginável. Assim nascem os clássicos, que oferecem uma leitura permanente, que não se desgasta com o passar do tempo. Algo que no presente livro, brilha pela sua ausência. Pode ter sido premiado, mas nem sombra de sabor clássico.Pierre Lemaitre. Até nos vermos lá em cima. (Nos vemos allá arriba. Salamandra. Barcelona. (2014). 443 pgs)

até nos vermos lá em cimaChegou às minhas mãos a tradução espanhola deste premiado escritor francês. Algo comentava a crítica de um romance policial, situado no final da Primeira Grande guerra. A verdade é que não encontrei a tal intriga policial por nenhum lado, e sim uma crítica contumaz à hipocrisia humana, em todas suas variantes: a pessoal, a do Estado, e a da própria sociedade.

Lemaitre descreve as venturas e desventuras (muito mais estas últimas) de três soldados franceses quando está para ser assinado o armistício no fim da primeira grande guerra. Um aristocrata sem escrúpulos, um artista de família rica, um plebeu com espasmos de heroísmo. Os elogios da crítica, e os prêmios conferidos imagino se devem à descrição das personagens que é, de longe, o ponto alto do livro. Um aspecto que certamente deve apreciar-se melhor quando se lê o original em francês.

Mas a trama sobre a qual se constrói o romance, é cinza, anódina. Como a própria guerra que critica sem piedade. “No fundo, uma guerra mundial não é mais do que uma tentativa de assassinato generalizado num continente (…)

As mulheres buscavam um filho, um marido, ensinavam fotos estendendo o braço. Sempre eram elas as que se moviam, as que continuavam sua luta silenciosa, as que acordavam cada manhã com um resto de esperança para esgotar”.

Julgamento impiedoso que critica a mentira hipócrita de um estado que louva os heróis desaparecidos, enquanto ignora os sobreviventes mutilados. “Édouard não pensou mais do que em sobreviver; e agora que a guerra acabou e está vivo, o seu único propósito é desaparecer. Se mesmo os sobreviventes desejam morrer, é um desastre”.

Aqui e ali, surgem personagens secundários, sempre delineados com maestria, como a esposa de um dos protagonistas:  “Madeleine não era uma aberração extravagante, era uma mulher sem amor. O homem de quem esperava um olhar de aprovação, o único que podia lhe dar segurança, era um homem ocupado”. Ou o funcionário público que gasta seus dias na rotina cinza:  “Havia nele algo profundamente egocêntrico. Como não tinha nada nem ninguém, nem mesmo um gato, tudo se resumia a ele próprio, e sua vida estava enroscada sobre si mesmo, como uma folha seca”. Ou mesmo a criada aventureira, “uma morena de cabelo curto, linda, porque em casa dos ricos tudo é bonito, até os pobres”.

Mas os atores, mesmo virtuosos, não conseguem dar vida a um filme que carece de um roteiro consistente. Essa foi a minha impressão quando acabei o livro; de vazio, quase de perda de tempo. Porque as personagens que impactam a imaginação -e a vida- dos leitores, o fazem por estarem inseridos numa trama sólida, ancorados numa história imaginável. Assim nascem os clássicos, que oferecem uma leitura permanente, que não se desgasta com o passar do tempo. Algo que no presente livro, brilha pela sua ausência. Pode ter sido premiado, mas nem sombra de sabor clássico.

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