Joaquim Nabuco: “Minha Formação”.

Pablo González Blasco Livros 2 Comments

Joaquim Nabuco: “Minha Formação”. Domínio Público do Governo Federal www.dominiopublico.gov.br 215 pgs. Maio 2013

Faz tempo que, fruto da recomendação sempre certeira de um amigo leitor, este livro estava à espera na prateleira. Chegou o momento dele, em simples troca pelo tempo investido em ler jornais -quer dizer, manchetes de jornais- que insistem em criticar tudo e todos, enquanto destilam um pessimismo tóxico. 

Assim, substitui por alguns dias a inútil leitura da imprensa, pelas memórias curtas e simples de um brasileiro que soube amar o Brasil. O mesmo que eu aprendi a amar quando aqui cheguei há quase 50 anos. Joaquim Nabuco, historiador, quase político -não gostava de se inserir na política já naquele tempo, hoje abominaria esse cenário medíocre- debruça-se, desde a sua cultura, sobre a sua própria história, a realidade do mundo, e reflete. “Sou antes um espectador do meu século do que do meu país: a peça é para mim a civilização, e se está representando em todos os teatros da humanidade”

E com essa serenidade, inicia as páginas desta obra, onde faz questão absoluta de condenar o pessimismo. Já sai lucrando -eu pensei- com deixar de lado os jornais…. “Se alguma coisa observei no estudo do nosso passado, é quanto são fúteis as nossas tentativas para deprimir, e como sempre vinga a generosidade… Infeliz de quem entre nós não tem outro talento ou outro gosto senão o de abater! A nossa natureza está votada à indulgência, à doçura, ao entusiasmo, à simpatia, e cada um pode contar com a benevolência ilimitada de todos. Estou convencido de que isso não enfraquecerá em ninguém o espírito de ação e de luta, a coragem e a resolução de combater por ideias que repute essenciais, mas somente indicará algumas das condições para que o triunfo possa ser considerado uma vitória nacional, ou uma vitória humana, e para que a vida, sem ser uma obra d’arte, o que é dado a muito poucas, realize ao menos uma parcela de beleza”. 

Magnífico parágrafo, pletórico de sonhos e idealismo, onde não falta o realismo irónico desta afirmação: “Para conquistar a liberdade como uma herança perpétua há épocas em que se precisa mais dos vícios dos reis do que das suas virtudes”. 

Na sua trajetória, após uma primeira admiração pelo sistema de governo dos Estados Unidos, acaba despertando para o modelo inglês como mais adequado às suas ideias e projetos. Eis a explicação que oferece Nabuco sobre as vantagens ou desvantagens dos sistemas presidencialista ou de gabinete (entendido como o governo ativo da monarquia britânica): “O sistema inglês, diz ele, não consiste na absorção do Poder Executivo pelo Legislativo; consiste na fusão deles. O rival desse sistema é o sistema presidencial. A qualidade distintiva do governo presidencial é a independência mútua do Legislativo e do Executivo, ao passo que a fusão e a combinação desses poderes serve de princípio ao governo de gabinete. Além do enfraquecimento causado por esse antagonismo do Legislativo, o sistema presidencial enfraquece o Poder Executivo, diminuindo-lhe o seu valor intrínseco. Os homens de Estado entre quem a nação tem o direito de escolher sob o governo presidencial são de qualidade muito inferior aos que lhe oferece o governo de gabinete, e o corpo eleitoral encarregado de escolher a administração é também muito menos perspicaz.”

E continua se estendendo nas consequências de ambos os modelos: “Uma vez que o povo americano escolheu o seu presidente, ele não pode mais nada, e o mesmo se dá com o colégio eleitoral que lhe serviu de intermediário.  A Câmara dos Comuns, essa, porém, faz e desfaz o gabinete, de modo que o governo está sempre nas mãos da representação nacional. Se se dá um desacordo entre eles, em que o ministério supunha ter de seu lado a opinião, dissolve a Câmara, e, dentro de dias, a nação se pronuncia. Comparados os dois governos, o norte-americano ficou-me parecendo um relógio que marca as horas da opinião, o inglês, um relógio que marca até os segundos (…) A ideia principal que percebi foi essa da superioridade prática do governo de gabinete inglês sobre o sistema presidencial americano: por outra, que uma monarquia secular, de origens feudais, cercada de tradições e formas aristocráticas, como é a inglesa, podia ser um governo mais direta e imediatamente do povo do que a república”. 

Consequências, ironias, e exemplos práticos que é possível apreciar quando se contempla a realidade política, de modo isento, como um espectador. Primeiro o americano: “Não há vida particular nos Estados Unidos. Para a reportagem não existe linha divisória entre a vida pública e a privada. O adversário está sujeito a uma investigação sem limites e sem escrúpulos, e não ele, somente – todos que lhe dizem respeito. Se um candidato à Presidência tiver tido na mocidade a menor aventura, terá o desgosto de vê-la fotografada, apregoada nas ruas, colorida em cartazes, cantada nos music-halls, por todos os modos e invenções que o ridículo sugerir e parecerem mais próprios para captar o eleitorado. Os americanos são uma nação que quisera viver sem governo e agradece aos seus governantes suspeitarem-lhe a intenção”.  

Depois, como contraponto, o inglês: “O rei da Inglaterra, se quiser influir na política com as suas ideias próprias e a sua iniciativa, tem primeiro que abdicar e – se a hipótese é admissível –, fazer-se eleger à Câmara dos Comuns ou tomar a decisão da casa dos Lordes. A tradição, como base do temperamento nacional, produz no inglês a faculdade de admirar a massa histórica de uma instituição, como o arquiteto admira a grandeza e o detalhe de uma catedral gótica. Mesmo o sistema planetário é monárquico, diz Schopenhauer”. E reconhece sua veia monárquica: “O que me impediu de ser republicano na mocidade foi muito provavelmente o ter sido sensível à impressão aristocrática da vida”

Mas o miolo do livro, o tocante -com eco enorme nos dias atuais- é a perspectiva que Nabuco oferece sobre o que deveria ser a política e o bem público: “A situação de espírito cosmopolita ou, antes, mundana, caracteriza-se pela compreensão das soluções opostas dos mesmos problemas sociais, pela tolerância de todas as opiniões, pela igual familiaridade com correligionários e adversários, pela ideia, para dizer tudo, de que acima de quaisquer partidos está a boa sociedade. Esse modo de ser, em política, não é necessariamente eclético, nem, ainda menos, cético; é somente incompatível com o fanatismo, isto é, com a intolerância, qualquer que ela seja”. 

E acrescenta uma pauta que deveria servir para um exame de consciência do político de turno, se tivesse a coragem de ler Nabuco: “Uma grande e nobre nação não separa a sua vida política da sua vida moral. Um governo, a menos que desconheça a sua missão, não pode por amor de um interesse comprometer os outros interesses da sociedade: é na combinação de todos eles em que consiste o grande problema da administração pública”

A sua trajetória pessoal, as lembranças da infância, o compromisso com o abolicionismo é o capítulo final, de imensa força pela sua sinceridade, que transpira a honestidade de um homem íntegro. Para esse auto exame é preciso serenidade: “A primeira condição para o espírito receber a impressão de uma grande criação qualquer, seja ela de Deus, seja das épocas – nada é puramente individual –, é o repouso, a ocasião, a passividade, o apagamento do pensamento próprio; dar à forma divina o tempo que ela quiser para refletir-se em nós, para deixar-nos compreendê-la e admirá-la, para revelar-nos o pensamento originário donde nasceu (….) Em viagem, sempre que um lugar me fala, eu me deixo prender por ele e me esqueço de viajar”. 

Assim justifica suas recordações dos primeiros tempos  “Pude reunir no meu coração os fragmentos quebrados da cruz e com ela recompor os sentimentos esquecidos da infância. O traço todo da vida é para muitos um desenho da criança esquecido pelo homem, e ao qual este terá sempre que se cingir sem o saber. A criança sustenta muitas vezes entre os seus fracos dedos uma verdade que a idade madura com toda sua fortaleza não poderia suspender e que só a velhice terá novamente o privilégio de carregar”.

Segue-se o episódio magnífico do escravo que vem lhe pedir ajuda: “Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o qual se abraça aos meus pés suplicando-me, pelo amor de Deus, que o fizesse comprar por minha madrinha, para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida. Foi este o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição, com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava”. 

E a seguir, as consequências tomam conta das suas lembranças: “ O sacrifício dos pobres negros que haviam incorporado as suas vidas ao futuro daquela propriedade, não existia mais talvez senão na minha lembrança… Debaixo dos meus pés estava tudo o que restava deles, defronte dos columbaria onde dormiam na estreita capela aqueles que eles haviam amado e livremente servido, ali, invoquei todas as minhas reminiscências, chamei-os a muitos pelos nomes, aspirei no ar carregado de aromas agrestes, que entretém a vegetação sobre suas covas, o sopro que lhes dilatava o coração e lhes inspirava a sua alegria perpétua  (…) Não só esses escravos não se tinham queixado de sua senhora, como a tinham até o fim abençoado… A gratidão estava do lado de quem dava. Eles morreram acreditando-se os devedores… seu carinho não teria deixado germinar a mais leve suspeita de que o senhor pudesse ter uma obrigação com eles, que lhe pertenciam. Deus conservara ali o coração do escravo, como o do animal fiel, longe do contato com tudo que o pudesse revoltar contra a sua dedicação”.  E conclui com emoção: “É que tanto a parte do senhor era inocentemente egoísta, tanto a do escravo era inocentemente generosa. A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”

Faz uma breve menção, obrigatória, e Rebouças com quem teve amizade e sonhos abolicionistas conjuntos. “Matemático e astrônomo, botânico e geólogo, industrial e moralista, higienista e filantropo, poeta e filósofo, Rebouças foi talvez dos homens nascidos no Brasil o único universal pelo espírito e pelo coração… Pelo espírito teremos alguns, pelo coração outros; mas somente ele foi capaz de refletir em si ao mesmo tempo a universalidade dos conhecimentos e a dos sentimentos humanos”. 

E conclui estas memórias com um profundo sentimento de gratidão: “Meu único ativo é a gratidão. O passivo é ilimitado… Foram milhares os que me ofereceram tudo o que tinham, isto é, como nada tinham, o que eram, o que podiam ser, e posso dizer que o aceitei em nome dos escravos. O fato para mim dominante é que em um momento da minha vida pedi e aceitei o sacrifício absoluto de muitos pela causa que eu defendia. A satisfação de realizar, por mais humilde que seja a esfera de cada um, uma parcela de bem para outrem, de ajudar a iluminar com um raio, quando, quando não fosse senão de esperança, vidas escuras e subterrâneas como eram as dos escravos, é uma alegria intensa que apaga por si só a lembrança das privações pessoais e preserva da inveja e da decepção”. 

Conversando com um jovem estudante de direito sobre este livro que estava lendo -e que emprestei depois para ele- me disse: um dos grandes do Brasil. Não creio que na faculdade de direito frequentem os escritos de Joaquim Nabuco, mas a esperança do autodidatismo é o que nos salva. E, também, a possível salvação deste Brasil por essas futuras gerações: o país que Nabuco, eu mesmo, e o jovem estudante aprenderam a amar!

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