Jordan Peterson: “Mapas do Significado. A Arquitetura da Crença”.

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Jordan Peterson: “Mapas do Significado. A Arquitetura da crença”. É Realizações. São Paulo. 2018. 696 págs.

Animado por alguns comentários que tinha escutado sobre este autor, e talvez por manifestá-los em voz alta -devo ter dito que nunca tinha lido nada dele- eis que caiu no meu colo este livro no último Natal. Toca enfrentar as quase 700 páginas. E com alguns dias de relativa folga pela frente, dediquei-me à tarefa.

Um verdadeiro tour de force, que me deixou esgotado, ou melhor, desnorteado. Tinha tanta árvore por lá que não conseguia enxergar o bosque. Lembro que alguém me perguntou: “Afinal, qual é a tese dele?”. Eu tinha lido 150 páginas e confesso que não consegui me situar.  A tentativa de centrar  o tema -nessas 150 páginas – ficava embaçado por ser repetitivo. Também me surpreendeu o excesso de “aspas”. Sempre pensei que quando se colocam muitas aspas é que falta solidez ao conceito, ou pobreza de vocabulário; ou, neste caso, a carência pode correr por conta da tradução.

A pesar do cansativo da empreitada -já tinha admitido que mais do que uma leitura era mesmo um estudo- alguns conceitos chamaram-me a atenção, e foi anotando. Em primeiro plano, claro, a trajetória pessoal que te indica com quem estás falando, quem escreve. Assim se apresenta o autor:  “Embora tenha crescido em um ambiente cristão eu estava muito disposto a abandonar a estrutura que me havia nutrido. Eu não conseguia racionalmente aceitar as premissas da religião conforma as entendia. Religião era para os ignorantes, fracos e supersticiosos. Parei de ir à igreja e me juntei ao mundo moderno. Então recorri a sonhos de utopia política e poder pessoal. A mesma armadilha ideológica pegou milhões de outras pessoas nos séculos recentes”.

E a seguir descreve a decepção com as opções tomadas, e a insuficiência de argumentos que lhe guiava: “Enveredei  por caminhos ideológicos e socialistas, até que entendi que a grande falha do socialismo e o motivo do seu frequente fracasso era que muitos dos ativistas do partido usavam os ideais da justiça social para racionalizar a busca por vingança pessoal (…) Minha cabeça estava entupida de ideais dos outros, de argumentos que eu não conseguia refutar de maneira lógica; eu não sabia que um argumento irrefutável não é necessariamente verdadeiro”.

É neste momento quando as crenças e os significados aparecem no seu horizonte.  Anota Peterson: “Descobri que as crenças fazem o mundo, de uma maneira real -que as crenças são o mundo, em um sentido mais que metafísico. Tudo é algo e significa algo -e a distinção entre essência e importância não é necessariamente suscitada. Temos um cenário de essências, e um fórum de ação, onde o significado é altamente relevante”.  Significados que estão atrelados às emoções, que impactam a afetividade, porque isso é o que de fato “te afeta”. Lembrei dos versos de Fernando Pessoa: “O que vemos não é o que vemos, mas o que somos”.

Confessa o autor: “Uma coisa deve ter um impacto emocional antes de atrair atenção suficiente para ser explorada e mapeada.  Temos que saber o que as coisas são não para saber o que elas são, mas para manter um registro do que significa, para entender o que significam para nosso comportamento”. E invocando Dostoievski: “os homens ainda são homens e não as teclas de um piano que as leis da natureza ameaçam controlar tão completamente que logo uma pessoa não conseguirá desejar nada senão o calendário. O trabalho do homem consiste em provar a si mesmo a cada minuto que ele é um homem e não uma tecla de piano!”.

Daí o modo, completamente afetivo, como lidamos com as dificuldades. “As inconveniências interferem nos nossos planos. Não gostamos delas e evitamos lidar com elas. Inconveniências ignoradas acumulam-se ao invés de desaparecerem. Quando se acumulam em número suficiente, elas produzem uma catástrofe (…) As coisas não possuem significado absolutamente fixo, apesar de nossa capacidade de generalizar sobre seu valor. Portanto, são nossas preferências que determinam a importância do mundo ( e essas preferências possuem restrições)”.

O gosto pelos escritores russos, e pensadores orientais esclarece-se nesta parágrafo: “Os psicólogos do Ocidente concentraram suas energias no estabelecimento de como o cérebro determina o que existe a partir do ponto de vista objetivo. Os russos, ao contrário, dedicaram-se ao papel do cérebro no controle do comportamento e geração de afetos e emoções associados a esse comportamento”.

Esses parâmetros do significado norteiam a educação: “Pode se pensar em educação como a produção de um adulto talentoso, emocionalmente estável, sem relação com o ambiente no qual esses traços devem aparecer. Mas a educação pode ser vista também como o meio para se estabelecer um ambiente social protetor no qual a estabilidade emocional seja possível (…) Uma história é um mapa de significado, uma ‘estratégia’ para regulação emocional e produção comportamental”

Seguem-se depois mais de 300 páginas onde a descrição de mitos, filosofia, pensadores e neurociências não te permite saber onde quer chegar. A neurociência é cansativa; tentar juntar num livro as conexões cerebrais com os mitos da Mesopotâmia é notável, mas perde-se o fio. Dezenas de páginas sobre mitos, que naturalmente li em diagonal, e pulando parágrafos, vários ao mesmo temo. Afinal o que Peterson pretende com tudo isto? -pensei.

Na altura da página 450 começa a esboçar o que ele realmente pensa, sua postura: e ai sim, tem umas 50 páginas de substância interessante. Fala-se da construção do herói, que nada mais é do que uma resposta criativa aos desafios que vida lhe coloca. “ O contato voluntario do herói com o desconhecido o transforma em algo benevolente -na fonte eterna, na verdade, de força e capacidade (…) O mal é a rejeição e oposição ao processo de exploração criativa O mal é repúdio orgulhoso ao desconhecido e fracasso intencional em compreender, transcender e transformar o mundo social”. É a resposta -e não as circunstâncias- a que  faz de nós heróis ou vilãos.

Depois, assumir a postura individual que permite honrar os compromissos, e as decisões morais. Segue um parágrafo memorável: “Construímos memoriais ao Holocausto e juramos nunca esquecer. Mas o que é que estamos lembrando? Qual a lição que deveríamos ter aprendido? Não sabemos o que as pessoas envolvidas no processo fizeram, ou que deixaram de fazer, passo a passo, que as fizeram se comportar de forma tão terrível. Como Hitler poderia deixar de acreditar que estava correto quando todos em torno dele se curvavam às suas ordens? Não seria excepcional resistir à tentação do poder absoluto, livremente oferecido, democraticamente concedido -até insistido? Como alguém consegue permanecer humilde sob tais condições? Se todos ao redor pensarem que você é o  salvador, quem sobrará para apontar seus defeitos e te manter conscientes deles? Não é uma apologia de Hitler, apenas reconhecer que era humano. Hitler era humano, Stalin também, Idi Amin também. O que isto nos ensina? Concedida a oportunidade quantos de nós não seria Hitler? Nunca esquecer significa conhecer-te a ti mesmo; reconhecer e compreender esse gêmeo ruim, esse inimigo mortal  que faz parte e integra todo indivíduo”.

Naturalmente cita Hannah Arendt e a banalidade do mal; ou mais precisamente, o mal da banalidade. “Nossas pequenas fraquezas acumulam-se, multiplicam-se e se tornam os grandes males do estado, da sociedade (..) Quando estou diante de uma situação frustrante eu não me pergunto o que eu vou fazer. Pergunto-me quem é responsável  por ela, e estou sempre pronto a concluir que se a outra pessoa tivesse agido corretamente, o problema não existiria”.

Ainda nesta altura se aventura com verdadeiras cargas de profundidade antropológica. “A mentira é a adesão voluntária a um esquema de ação e interpretação previamente funcional apesar da nova experiência não poder ser compreendida dentro desse esquema, apesar do novo desejo não conseguir encontrar satisfação dentro desse quadro. A mentira não é tanto um pecado de comissão mas, na maioria dos casos, um pecado de omissão”. E a seguir, expõe seu pensamento sobre a transcendência e as dificuldades que o ideal enfrenta com o pragmatismo: “Foi nos concedida a capacidade de constante transcendência como um antídoto contra nossa existência limitada. Mas frequentemente rejeitamos essa capacidade porque sua utilização significa expormos voluntariamente ao desconhecido (…) Um homem que deposita sua fé no que possui em vez de fazê-lo naquilo que defende, não conseguirá sacrificar o que possui pelo que deveria ser, por aquilo que persegue”.

Finalmente, pensei, aparecem árvores inteligíveis no meio desta floresta de pensamento, cultura e interpretações variadíssimas. Vale pensar que a obra tem muito em comum com a trajetória pessoal de Peterson. Finaliza o livro em 2009, depois de ter investido mais de 10 anos em escrevê-lo. Confessa ter pouca experiência como psicólogo clínico,  o que, imagino,  nesta década deve ter avançado. Na carta que ele escreve ao pai (em 1986) explica sua pretensão literária, que certamente não é criar um best-seller. “Neste livro  espero descrever uma série de tendências históricas e como elas afetam o comportamento individual. Espero descrever não apenas o problema mas onde uma possível solução poderia estar (…) As interpretações mitológicas (como aquelas da Bíblia) são tão verdadeiras quanto as interpretações empíricas ocidentais padrão, mas a forma como são verdadeiras é diferente. Os historiadores ocidentais descrevem o que aconteceu; as tradições da mitologia e religião descrevem a significância do que aconteceu. Perceber que se o que aconteceu não tem significado, então é irrelevante”

Chego ao final desta empreitada, e ainda tomo noto de um par de parágrafos, porque me parecem significativos e, depois deste estudo, consegui “fazer as pazes” com Peterson….talvez entender o significado do que pretende. Diz no primeiro, com recado claro e direto: “Diz-se que é mais difícil governar a si mesmo do que a uma cidade. E precisamente por essa razão é que estamos sempre tentando governar a cidade. Talvez seja mais importante fortalecer nosso caráter do que consertar o mundo. Muita dessa reparação que pensamos fazer é egoísmo e orgulho intelectual mascarado de amor, criando um mundo poluído com boas obras que não funcionam. Quem acredita que são as pequenas escolhas que fazemos todos os dias entre o bem e o mal que transforma o mundo em lixo e a esperança em desespero? Mas esse é o caso. Vemos nossa imensa capacidade para o mal, constantemente percebida, nas coisas grandes e nas pequenas; mas parece que nunca percebemos nossa capacidade infinita para o bem. Quem pode argumentar com Soljenítsin quando afirma: Um homem que para de mentir, derruba uma tirania?”

E no segundo, agora sim, despeja a sua verdadeira teoria sobre a importância do significado no governo da vida humana, e do próprio destino. Um parágrafo que vale degustar no final destas anotações: “O indivíduo cuja vida é sem sentido odeia a si próprio por sua fraqueza e odeia a vida por torna-lo mais fraco. O propósito humano é buscar significado -para estender o domínio da luz, da consciência- apesar da limitação. O significado é a mais profunda manifestação do instinto. O homem é uma criatura atraída pelo desconhecido, uma criatura adaptada para sua conquista. O sentido subjetivo do significado é a taxa de contato com o desconhecido que rege o instinto. Exposição excessiva transforma mudança em caos; pouca exposição promove estagnação e degeneração. O equilíbrio adequado produz um indivíduo poderoso confiante na capacidade de suportar a vida, capaz de lidar com a natureza e a sociedade, cada vez mais próximo do ideal heroico”. Um final épico para estes mapas dos significado, cujos contornos demoramos em encontrar no labirinto das muitas páginas!!

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