O Artista: A Sabedoria de Envelhecer Sorrindo

Gabriel Brandão Filmes 4 Comments

The Artist. (2011) França. Diretor: Michel Hazanavicius   Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Anne Miller. 100 minutos

 

Há filmes que têm efeito retardado. São como filmes em camadas, nos adentramos aos poucos. Talvez isso não aconteça com todos os espectadores, mas afinal os comentários que aqui alinhavamos são apenas o reflexo que o cinema produz em quem os escreve. Com respeito total e absoluto pelas opiniões contrárias. O mundo das touradas –hoje tão politicamente incorreto- alcunhou uma expressão para indicar a falta de consenso no desempenho do toureiro: divisão de opiniões do respeitável. O respeitável, naturalmente, é o público, os assistentes. Se a tauromaquia permite a divisão de opiniões, o cinema –que é sonho, ficção, acúmulo de almejos, frustrações e alegrias- com maior motivo. O Artista é um destes filmes. Planos que vão se desnudando, impactos que nos atingem aos poucos.

A primeira camada é papel de embrulho: a audácia de fazer um filme branco e preto, mudo, com todos os ingredientes do cinema anterior a 1929. A ousadia de quem produz tem de vencer a resistência natural do espectador que lá no fundo se questiona: valerá a pena? Mas afinal, quem é esse diretor, que aposta neste formato? Parece que é francês, onde já se viu? Esse sujeito não é Chaplin, isto não é Luzes da Cidade. Não será muita pretensão?

A segunda camada – vencida a resistência, quem sabe alavancado pela crítica, pois o marketing é poderoso-, surge quando se assiste ao filme. Um espetáculo bonito, uma estética cuidada, atores de primeira categoria. Não é Chaplin, sem dúvida. Nem poderia. Talvez fosse o filme que Chaplin teria feito hoje, vendo o futuro chegar. Mas isso é puro futurível, quimera que os filósofos repetidamente condenam como inútil. Neste momento, mais ninguém se questiona sobre o formato anacrónico: ambientação perfeita, gestos, caras, situações onde incrivelmente a voz sobra.

O filme acaba. Uma noite bem dormida, e daí começa a reflexão que dispara este comentário. Até ontem não havia o que comentar a não ser que o filme é notável. Nem sabemos por que, mas agrada. Arrojado, bem montado, redondo. Mas tem mais. Ai é que engatamos na pegada que O Artista apresenta. É a terceira camada; um plano profundo, que se desdobra numa sequência de reflexões rápidas que chegam a dar vertigem. Intui-se que nos adentramos em terreno difícil: o universo da mudança, da adaptação, de saber envelhecer com classe, com aceitação das limitações, sem medo de pedir ajuda. Nesse momento a ressonância com pensadores, poetas e filósofos acode para iluminar um mundo que é uma verdadeira explosão nuclear, detonada por um filme branco e preto, mudo, sem pretensões.

Tropeçamos, logo de cara, com os versos de Fernando Pessoa que O Artista talvez nunca leu, mas que nós conhecemos sobejamente: «Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.» Como é difícil empreender esta travessia, desprender-nos dos nossos modos –mais grudados a nós mesmos que as roupas com nossa forma corporal- para abrir-nos a novas possibilidades. Porque no fundo, gostamos imensamente de como somos. Mesmo que reclamemos e salpiquemos de queixas nosso jeito de ser. Afinal é terreno seguro, que conhecemos bem, que não traz o risco do desconhecido, de fazer feio.

Há alguns anos li um livro notável que também ressurgiu enquanto mergulhava na terceira camada. Ética da hospitalidade, todo um tratado antropológico sobre a adaptação, sobre a postura que devemos assumir não com o que temos planejado –uma ética da atuação- mas com aquilo que nos chega, que vem de fora, que entra na nossa vida sem pedir licença e que costuma ser o que predomina. A maior parte da nossa vida compõe-se de coisas que nos acontecem, mais do que de coisas que planejamos; estar disposto, em postura de aceitação e crescimento para essas primeiras, é o núcleo da ética da hospitalidade: uma ética do acolhimento; de pessoas, de coisas, de circunstâncias.

Enquanto as aventuras e desventuras do Artista desfilavam na minha memória, as notas que tomei do livro emolduravam cada quadro. Como as frases que se intercalam, no cinema mudo, a modo de explicação. E as molduras ressaltavam que nossa atuação no mundo é um curioso balanço entre o que nos vem dado e o que somos capazes de fazer com isso, em como damos conta das situações que se nos apresentam inopinadamente, sejam pessoas ou acontecimentos. Um balanço que deve equilibrar espaços de segurança com zonas de risco; uma vida em plena segurança seria aborrecida, enquanto que um viver no puro risco acaba por nos esgotar.

Certamente, uma vida fechada ao imprevisto –à visita de hóspedes que quebram nossos esquemas- nos condenaria a um autismo voluntário, egoísmo cristalizado. Os desafios que nos chegam e que exigem adaptação transpiram sempre algum sofrimento: não só a roupa se adaptou ao corpo, mas também o corpo se acomodou numa postura confortável. Diante desse sofrimento há quem se endurece, desespera e se fecha no ceticismo; e há quem cresce porque aprende a se reorganizar, corrigindo suas perspectivas, e se torna melhor.

Consultando aquelas anotações encontro um parágrafo que não resisto a copiar, porque é uma análise magnífica do sentir do Artista. «A nossa civilização está completamente ocupada com o presente, um viver o instante, órfão de memória e de projeto. Um presente sem memória, que exclui o que não se faz valer na atualidade. É preciso desprender-se desse fetiche que é um presente pleno e absoluto, exercer a responsabilidade para com os ausentes e para com os seres futuros. A detenção do presente fixado em si mesmo desencadeia o medo que é próprio de toda carência de memória e de previsão. Desse presente desmemoriado se apodera um medo difuso, pois não recorda nada similar nem é capaz de prever como afrontar o imprevisível. O medo é a sensação habitual de quem não tem experiência nem confiança, isto é, nem passado nem futuro. A concentração no presente torna ameaçadora qualquer dimensão que faça valer outros aspectos da temporalidade humana.»

Vamos fundo no mergulho na terceira camada que, de acordo com a idade do espectador, pega de cheio no alvo. É possível que os jovens considerem estas molduras filosóficas como exagero, como se diz hoje uma viagem na maionese. Recomendo paciência: o tempo alcança todos.

Com a idade sobrevém a limitação física, desgaste fisiológico inegável. Chegam também as manias, fruto de uma cristalização obstinada do modo de ver o mundo, uma espécie de presbiopia existencial, vista cansada da alma. Mas pouca atenção se dá a outro deterioro que é a susceptibilidade, difícil de reconhecer. Começa a se passar a fatura a tudo o que fizemos pelos outros, nota-se que os outros não percebem os débitos que têm conosco, sente-se a ingratidão de perto. Será possível que não reconheçam –jovens, filhos, amigos, colegas- tudo o que eu fiz por eles?

«A juventude –diz Marañón nos Ensayos Liberales- é essencialmente indelicada. Um jovem que não fere ninguém no seu caminho, é um jovem anormal». E continua o médico humanista: «Mas tão natural como a agressividade do jovem, deve ser a obrigação do homem maduro de mostrar ao de menor idade, com firmeza invariável, qual é o caminho preciso. A rebeldia do moço não se pode reprimir; mas deve se canalizar com a verdade». Mostrar a verdade é descartar a susceptibilidade, prescindir o que de ofensa pessoal possa supor essa atitude desagradecida da juventude, e manter-se sereno, alegre, fiel aos princípios que nos levaram a fazer tudo o que fizemos na vida. Coerência e fidelidade: um exemplo, silencioso e gritante, que irá esculpindo, com o tempo, o caráter do jovem no qual desabrochará a gratidão.

A pedagogia bíblica, com suas histórias e parábolas, nos ensina que a gratidão é atitude rara, que deve ser ensinada, como um hábito a incorporar desde a mais terna infância. Lá encontramos um exemplo gráfico: de um grupo de 10 leprosos que foram curados milagrosamente, apenas um voltou para agradecer. É assim mesmo: os atos de gratidão humana dificilmente atingem o 10%. Quer dizer, matéria prima de qualidade para alimentar a susceptibilidade. A criança não nasce sabendo agradecer. São os pais que devem insistir, uma vez e outra: «Como se diz, fulaninho, quando você recebe um presente?» A criança, encabulada, responde com o olhar fixo no brinquedo que acabou de ganhar: «Obrigado», e sai correndo.

A adaptação da maturidade requer entendimento dessa realidade e passar por cima as ingratidões, lombadas naturais no curso da vida, sem queixar-se, sem desistir. É o momento de lembrar os motivos que nos levam a agir. E viver, de verdade, com a convicção de quem ninguém nos deve nada, porque nunca passamos a conta: o nosso balanço contável situa-se em outro nível. Do contrário, ficaremos azedos, amargurados, ranzinzas.

O Artista não é Chaplin, mas é impossível não evocar Luzes da Ribalta, onde Calvero, o velho cômico em decadência abre o caminho do sucesso para Teresa, a dançarina. Um argumento clássico, com variantes sobre o mesmo tema em filmes como Nasce uma estrela, nas variadas versões. E a estrela que nasce e amadurece oferece ajuda ao veterano que a ajudou a despontar.

Deixar-se ajudar é também adaptar-se. Colaborar com o que de melhor temos. A experiência vivida, a sabedoria serena que os anos dão. É preciso superar o orgulho e aceitar a ajuda. Não a modo de bengala ou de prótese postiça que ajuda grosseiramente num equilíbrio triste e bizarro. Mas como a descoberta de um novo sentido. Essa sabedoria que magistralmente descreve Romano Guardini naquele livro encantador, As Idades da Vida. Ser exemplo vivo de uma meta possível e convidativa. Tudo isso se resume numa expressão que li faz muito tempo e, com o passar dos anos, ganha novo relevo: aprender a envelhecer sorrindo. Um sorriso que resume a paz, a adaptação, a atitude aberta que convive com qualquer mudança e encontra sempre o modo de ser útil.

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