Walt nos Bastidores de Mary Poppins: Educar com experiências inesquecíveis

Gabriel Brandão Filmes 1 Comment

«Saving Mr. Banks» (2013). Diretor: John Lee Hancock. Emma Thompson, Tom Hanks, Colin Farrell, Paul Giamatti, Jason Schwartzman, Bradley Whitford, Annie Rose Buckley, Ruth Wilson 125 min.

saving_mr_banks     Assisti o filme, faz já alguns meses. Fascinou-me. Ainda sob o impacto das emoções, mandei uma mensagem para os meu irmãos, que moram na Europa. “Um filme encantador. Para os que éramos crianças nos anos 60. Um despertador de vivências”. Recebi reposta, quase imediata, de um deles: “A tua sobrinha foi assistir ontem com as amigas –todas na casa dos 20 anos- e adorou”.

     Lembrei da teoria do meu pai –muitas vezes comprovada na prática – de que há filmes, ou melhor, trilhas sonoras, que encantam as crianças (com perdão da minha sobrinha) mesmo que nunca o tenham visto antes. De fato, quando os primeiros netos chegaram e ele tinha, vez por outra, que ficar de babá junto com a minha mãe, colocava-lhes o CD de “The Sound of Music” (A Noviça Rebelde)…. e as crianças sorriam placidamente, ficavam calmas, serenas. Aproveitando o ensinamento, eu mesmo ofereci de presente –nessas festas de aniversário de um ano, que nunca sei o que dar, sempre é um dilema- não a música, mas o filme em DVD. Não uma vez, várias, muitas até. E parece –pelo retorno que tenho- que a estratégia continua funcionando.

saving_mr_bansk_1     Mr. Banks não é a Noviça Rebelde, mas o outro musical que a Julie Andrews estreou na década de 60: “Mary Poppins”. Ou melhor, como o título anuncia, os bastidores do filme, a gestação desse grande sucesso infantil….que seduz aos adultos. Faltou-me tempo, depois de ver o filme, de buscar e assistir novamente Mary Poppins. Conhecer as entrelinhas, e a difícil negociação de Walt Disney para que a escritora australiana lhe vendesse os direitos da encantadora babá mágica –foram 20 longos anos- fez me pensar que, quando assisti por primeira vez com 9 anos, não tinha captado o recado principal. Na verdade, captei o que interessava naquele momento. A música que grudava na memória, os limpadores de chaminés dançando, os remédios que provocavam levitações desafiando a lei da gravidade, e o sorriso impactante de Mary Poppins que tinha soluções para tudo. Soluções que tirava de uma bolsa peculiar, elástica como o coração de uma mãe, onde se encontravam todos os recursos para as necessidades próprias e as alheias.

     Seria possível alinhavar alguns comentários sobre o filme, e os motivos que levaram P. Travis a criar Mary Poppins, como expediente para reconciliar-se com os seus fantasmas da infância. Fantasmas que não são exclusivos, porque Walt Disney tinha também os dele. Em ambos os casos, a arte –a escrita, a criação- é o remédio, o modo de entender. E isto sim, já é um bom recado para os nossos desassossegos. Quando escrevemos e damos vazão ao mundo interior na criação artística –que pode ser própria, ou emprestada de outros que têm reconhecido talento- chegamos a compreender as vivências que nos rodeiam. Conversamos com nossas emoções –alegrias, frustrações, expectativas, desânimos- quando as tornamos explícitas. E desse modo nos conhecemos, nos construímos, curamos as chagas da alma. “Nós contamos histórias –diz a personagem de Walt Disney- é isso que fazemos”. O que poderia interpretar-se como: nos arrumamos a nós mesmos através das histórias que contamos.

saving_mr_banks_2     Nosso mundo é rápido, frenético, em tempo real. Não temos tempo para nada, e não parece que queiramos mudar o panorama. Carecemos de serenidade para escrever –aqueles saudosos diários das nossas avós!- , para saborear as próprias emoções, degustando-as da mão da arte, domesticando-as ao ritmo sereno da reflexão que decanta em palavras. “Para que poetas em tempo de indigência?” –exclamava Holderlin. Sempre que tropeço com esta frase, pergunto-me se a indigência não será justamente a causa da falta de poesia, e não o empecilho para que os poetas floresçam.

     Mas a verdade é que a proposta do filme não é um convite a grandes mergulhos psicológicos. Melhor é relaxar e se dispor a assistir um agradabilíssimo espetáculo de duas horas, num mano-a-mano sublime: uma Emma Thompson extraordinária e Tom Hanks que incarna Walt Disney com perfeição. Tive ocasião de assistir novamente com um grupo de amigos, algumas semanas depois. Afinal, promovi-o tanto, que era necessário estar presente na sessão conjunta. Sem reflexões psicológicas mas, novamente, experimentando o despertar das vivências, agora alavancadas pelos comentários e pela satisfação que pude comprovar à minha volta.

saving_mr_banks_3     São vivências que surgem ao compasso das canções que cantarolávamos quando criança. No colégio, entre os amigos, ou na família, muitas vezes lideradas pela minha mãe que tinha uma linda voz de soprano. Naquela época, me dizia muito mais a melodia do Chim Chimney ou do Supercalifragilisticexpialidocious do que Madama Butterfly ou La Boheme. Mesmo assim, tomei nota pois imaginei que o tal de Puccini era uma personagem importante….como vim comprovar e apreciar, muitíssimo, anos depois.

     Aquilo que se planta na infância, dura sempre. Floresce com o tempo, no decorrer da vida que encadeia os acontecimentos e nos faz evocar as raízes. E daqui brota a reflexão mais séria que o filme me acendeu: o que vão evocar os que não tiveram infância, ou passaram por ela sem cultivá-la? Entendemos que quem cultiva a infância nunca é o interessado mas aqueles que lhe nutrem e educam. Pais, professores, familiares, vizinhos. O tempo de indigência que não permite poetas, converte-se hoje na indigência de tempo: ninguém tem tempo para nada, muito menos para os outros, para cultivar pessoas, tarefa artesanal que requer paciência de ourives.

saving_mr_banks_5     A minha inevitável relação com o mundo da educação tem me levado a frequentar as leituras nessa área. Não lembro exatamente onde –provavelmente em mais de um autor- deparei-me com uma consideração relevante para o tema que nos ocupa. Somente o ser humano tem infância. Os outros animais, depois que são desmamados e ganham independência dos progenitores, estão já prontos para se reproduzirem. O ser humano dispõe de um longo período – a infância- antes de tornar-se apto para ser pai ou mãe. São anos de crescimento biológico, psicológico, afetivo. E também intelectual e moral. Mas, são, sobre tudo, anos de acumular vivências, de aprofundar raízes. Não há dúvida de que o desenvolvimento intelectual e de aptidões tem se fomentado muito. O déficit –pela aparente indigência de tempo que leva a um investimento equivocado de recursos- recai sobre o capítulo das vivências.

     As crianças se beneficiam de modernos métodos de ensino, aprendem várias línguas, meia dúzia de esportes, um sem fim de atividades paralelas, ocupadíssimos como um executivo mirim que cursa vários MBA, preparando-se para uma vida….que não está vivendo…e que talvez venha a viver algum dia, mas sem raízes. Vale lembrar que o alemão Froebel, inventor do Kindergarten (jardim da infância), tinha em mente justamente o contrário: colocar, literalmente, cada criança num pedaço de jardim para que o cultive. O objetivo não é aprender a ler, a escrever, e ser um poliglota. Trata-se de entrar em contato com a natureza, o que implica cultivar a terra, caçar insetos, sujar-se de lama, ver as nuvens no céu. É preciso dar tempo ao tempo, sem a ansiedade de acelerar o curriculum, entulhando conhecimentos.

     Uma vida cabal se consegue vivendo com plenitude e apropriadamente cada etapa da vida: sem atalhos que acabarão rendendo problemas posteriores. Não se estica a criança para que cresça: nem física, nem intelectualmente. Este último aspecto está um pouco abafado por uma má entendida educação precoce. Os homens tem um período de latência, grande, longo: a infância. Não se pode encurtar esse tempo –que é onde se descobre o mundo- sem pagar as consequências. Vivências, experiências compartilhadas com os formadores, desenvolver a capacidade de contemplar, de surpreender-se. Enfim, uma educação estética, artística, vital.

saving_mr_banks_4     O progresso tecnológico –que traz inegáveis benefícios- entranha também sérios riscos quando não se ensina a usá-lo convenientemente. Vem à minha cabeça a compulsão fotográfica. Todo o mundo faz fotos de tudo, a toda hora. Nos locais turísticos, nas filas que entopem os museus, nas paisagens de consagrada beleza, e até no quotidiano catalisado pelo festival visual que oferece o Facebook. O registro fotográfico sempre foi uma tentativa de congelar uma vivência, um momento que merece ser registrado porque carrega um sem fim de lembranças, de emoções, de carinho comum. Dai a foto, uma tentativa de eternizar o contingente. Hoje porém, é tanta a sofreguidão com que se dispara a câmara embutida no celular –e maior a rapidez em deletar a imagem que não ficou boa- que mal se encontra espaço para viver o momento. Quer dizer: registram-se momentos não vividos, ou vive-se para registrar o vazio. Guardam-se as fotos –que dificilmente se contemplam- mas ninguém armazena as vivências….simplesmente porque elas não aconteceram. As muitas fotos impedem as pessoas de viver o momento. São as árvores que não deixam ver o bosque. É aquela música que cantava o Julio Iglesias: “ de tanto correr pela vida, me esqueci de viver”.

     Indigência de tempo, que impede a educação pausada, artesanal, o compartilhar as vivências. Indigência de vivências que se supre, erradamente, com toneladas de fotos, com ótima resolução em megapixels mas desbotadas de vitalismo. Indigência de poesia, de arte, que decanta na miséria que todo ser humano carrega.

     Educar –diz outro dos autores que frequento nas minha leituras- é proporcionar experiências inesquecíveis. Eu, felizmente, tive muitas na infância e sou imensamente grato por isso. Tanto que deixei plasmada a minha gratidão por escrito várias vezes. Lembro, por exemplo, de um breve capitulo de um livro, que intitulei: filme-família, uma festa a ser reconquistada.

     Neste momento tenho o livro diante e copio, porque é difícil dar o recado com menos palavras: “Começa o filme. Mamãe já falou tanto deste filme…É, porque o filme-família nunca é desconhecido para todos. Sempre alguém já o viu – faz muitos anos!!, diz- e o recomenda porque…bem, porque é bonito, é ótimo. Não sabe dizer por que é bonito; lembra da sensação que teve quando assistiu. Será parecida com a nossa que o vemos por primeira vez? Não, não é. São o entorno, os sentimentos, as expectativas, o filme enfim, que se gravam fotograficamente no álbum das lembranças entranháveis e que o tempo realça, sem amarelá-las, tornando-as gigantes. O tempo é um ampliador genial das emoções. O filme-família é isso, o evento que marca, que se registra nos sentimentos, que pede «replay»… quando os anos passam. Mas «replay» familiar; se não, perde o encanto. Não se revê um filme-família a modo de lembrança pessoal, para mim. Há que revê-lo para os outros, com os outros. As sensações dos outros -da família- despertam em nós as vibrações antigas do evento de outrora”

     Os bastidores de Mary Poppins levaram-me até os meus próprios bastidores, as experiências inesquecíveis. Um privilégio que desejo a muitos. Um desafio para os que têm de educar as mulheres e os homens que conduzirão o nosso mundo nas próximas décadas. Se tiverem bastidores com experiências inesquecíveis, podemos ter a esperança de que o mundo será melhor do que este que nos toca viver.

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