A Mula- Do Arrependimento e do Perdão: A Sabedoria que decanta com os anos.

Gabriel Brandão Filmes Leave a Comment

The Mule. Diretor: Clint Eastwood. Clint Eastwood, Taissa Farmiga, Bradley Cooper, Michael Peña, Laurence Fishburne, Dianne Wiest, Andy Garcia, Alison Eastwood. 2018. 116 min.

A estas alturas não é nenhuma novidade confessar que admiro Clint Eastwood. Sou fã de carteirinha. Quando alguém se atreve a pensar que já acabou a carreira -eu nunca pensei, acho que só para no túmulo- nos surpreende com um novo filme. A maioria dos últimos na direção (Sully, 15:17 Trem para Paris, Além da Vida, Invictus), embora não  consegue se afastar completamente das telas (Gran Torino, As Curvas da Vida) ou mesmo em papeis sem créditos, como o grande mestre Hitchcock (Snipper Americano).  Chegou a dizer que estava muito velho para os papeis, o mesmo motivo que levou Woody Allen a abrir mão do protagonismo naquela fita encantadora,  Meia Noite em Paris.

Mas agora, Ator e Diretor  juntam-se para uma atuação que  transcende o celuloide. Com 88 anos o velho cowboy da Califórnia , trôpego mas sem perder o charme, reaparece para confessar os erros da vida. Cultivador de lírios, rodeado de flores e de cargas de cocaína que lhe caem no colo, Clint enfrenta um papel que, antes ou depois, todos temos que aprender a desempenhar. Reconhecer os equívocos, pedir perdão, ter a humildade de suplicar o indulto e colocar as prioridades esquecidas no lugar adequado. Convoca um um elenco de luxo -Andy Garcia, Bradley Cooper, Laurence Fishburne, Dianne Wiest- como testemunhas e, no primeiro plano, a filha dele, Alison Eastwood, nascida da primeira mulher após 15 anos, enquanto nesse meio tempo ia montando outras famílias por ai.

Clint é Earl Stone, um nonagenário decadente que, após dilapidar os seus bens -a venda de flores pela internet atropela os velhos cultivadores- tropeça sem querer com um bico de entregas patrocinado por um cartel de drogas. Um velho convertido numa espécie de motoboy, amealha dinheiro polpudo por conta das corridas, começa a cair a ficha -não porque não tem o que comer, mas porque lhe sobre e pode ajudar  muitos- e recupera as prioridades. Um filho pródigo ao contrário, mas com os mesmos efeitos saudáveis do arrependimento.

Arrasta-se para buscar o carinho da família esquecida e o perdão. Leva a porta na cara: “O que te fez pensar que vou esquecer o passado?”. Encaixa o golpe, merecidíssimo. Suplica com discrição: “Tivemos anos muitos bons. Podemos ser civilizados”. Pedir perdão: uma atitude que cura a quem o pede, mais ainda do que aquele que é ofendido que tem seu próprio sistema operacional. Atitude que requer coragem, estar disposto a escutar dos outros o que nem nós mesmos temos coragem de nos dizer. Daí a enorme dificuldade: não tanto por reconciliar-se, mas pelo que entranha de comprovar a falha, de admitir, com serenidade que erramos miseravelmente.

Dessa dificuldade nos fala Susanna Tamaro na sua magnífica obra: “Cometer erros é natural, mas partir sem tê-los compreendido torna completamente vão o sentido de uma vida. As coisas que nos acontecem jamais tem um fim em si mesmas, jamais são gratuitas, cada encontro, cada pequena ocorrência guarda em si uma significação, e a compreensão de nós mesmos nasce da disponibilidade para reconhecer tais fatos, da capacidade de mudar de rumo a qualquer momento e de trocar a pele velha pela nova como os répteis com o passar das estações”. Mas para trocar a pele é necessária coragem, e não pouca. Continua a escritora italiana: “Quando não queremos olhar dentro de nós mesmos, encontrar saídas é a coisa mais fácil do mundo. Sempre há uma culpa externa, é preciso ter muita coragem para aceitar que a culpa -ou melhor, a responsabilidade- é nossa e somente nossa”.

A base da mudança, da retificação, do desnudar os próprios erros é atrever-se olhar para o interior, e parar de colocar a culpa nos outros, nas situações, no sistema, na sogra, na família!. Olhar para o interior enfrenta, como nosso cultivador de flores com as vendas por internet, o desafio do barulho da comunicação. É Tamaro novamente quem adverte que um elemento fundamental na fuga de si mesmo é facilitado pela ausência de espaços onde poder viver em silêncio. Ao que Innerarity, filósofo espanhol acrescenta: “nunca soubemos tanto de nós mesmos, dos valores, costumes, preferências e opiniões. Mas o acúmulo de dados de nada serve se não for articulado. Essa é a ironia da história: a excessiva auto investigação e permanente auto observação no garantem o conhecimento próprio, antes parece que o atrapalham.

Earl enfrenta a situação com decisão e criatividade, com a originalidade desconcertante de quem não liga mais para a plateia ou cultiva a boa imagem. “Você viveu tanto tempo que parece ter perdido o filtro!”. Earl sorri: “Eu acho que nunca tive filtro”. Quer dizer, nunca o tive para fazer o que me deu na telha, agora não o tenho para  desandar os equívocos e retificar. É preciso confrontar a situação real em que nos encontramos para saber a quantas estamos em relação ao nosso projeto de vida. Ortega advertia sobre o assunto: “Se nos embebemos olhando para o projeto de nós mesmos e esquecemos que não o completamos acabaremos por pensar que somos perfeitos. E o pior não é apenas o erro em que incorremos, mas o fato de impedir o progresso. Não há pior maneira de não melhorar do que acreditar que somos perfeitos”.

O serviço de motoboy de mula de cocaína, e as vicissitudes que o acompanham são apenas guarnição para o prato principal que Clint nos serve com força. O eterno ausente dobra-se diante da esposa em atitude penitente: “Você é o amor da minha vida. Amo-te mais do que ontem, mas não tanto como amanhã”. E reconhece que com os progressos, podia comprar tudo….menos o tempo. É a coragem de quem sabe abrir mão das conquistas externas como um moderno Marco Polo -por utilizar a metáfora clássica de Corção- para enfrentar a maior conquista: a descoberta da própria alma. Um recado que Clint Eastwood tem nos oferecido filme após filme, variações sobre o mesmo tema, com o sabor clássico dessa sabedoria que, quando há honestidade e clareza de vida, decanta com o tempo.

 

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