Michelle Dean: “Afiadas”

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Michelle Dean: “Afiadas”. Todavia. São Paulo. 2018. 413 pgs.

Quando li o comentário numa página literária, pensei tratar-se de um estudo elaborado e profundo sobre estas mulheres escritoras e, sem dúvida, de reconhecida intelectualidade. Enganei-me. O livro é um texto corrido de  caráter jornalístico: comentam-se fatos, polêmicas, variedades e amenidades, mas não segue uma linha de estudo com certa densidade.  Percebe-se que a autora conhece bem as escritoras, mas não deixa entrever a sua opinião pessoal, ou a tese que costura as personagens descritas. Não é um pois um ensaio, mas uma reportagem. Mais do que um filme com roteiro, são uma série de fotos alinhavadas com trilha sonora afiada: o epíteto que dá nome ao livro.

A bibliografia usada é ampla, o que confere seriedade ao trabalho que, mesmo assim, prima pelo anedótico. Nas escritoras que por outros motivos conheço bem -o caso de Hannah Arendt – é notável a abordagem superficial que faz da pensadora alemã. Talvez o estilo de Dean, por querer imitar as retratadas,  é também algo afiado, embora não sabemos exatamente o que quer cortar….embora nos ofereça alguma pista neste parágrafo: “Não significa que estas mulheres tenham estado sempre certas. Mas elas estavam ali. E tal é o ponto principal deste livro. Sua obra, por si só, constitui uma razão para lhes agradecer por sua existência”.

O desfile de personagens inicia-se com Dorothy Parker: “sua malícia certeira e mortal a tornava menos provinciana do que o restante do grupo. No final dos anos 1920 Parker já não conseguia se livrar da sua própria pessoa. Estava em todos os jornais, todas as revistas. Quase tudo o mundo que você conhece poderia citar, recitar ou mesmo citar incorretamente pelo menos uma dúzia de versos dela. Uma lírica sentimental burlesca….Se superava em relação às críticas que recebia. Ninguém podia odiá-la mais do que ela mesma. Sua adesão ao discurso político parecia devastadoramente sincera em alguém cuja principal habilidade era fazer troça de tudo”

Segue-se Rebeca West, uma espécie de versão inglesa de Parker, que não temia expor suas emoções em seus escritos: “Detesto ser uma dona de casa…Quero ter uma vida sem grilhões e aventureira….Anthony (o filho, era mãe solteira) parece estar muito bem….mas o que eu quero hoje é um Romance. Alguma coisa com rosto claro, cabelos escuros ondulados e um carro de passeio cinza bem grande”.  H. G. Wells, a chamava “o melhor homem da Inglaterra”. E no dizer de Virginia Woolf “era um cruzamento entre uma  faxineira e uma cigana, mas tenaz como um terrier com olhos faiscantes, unhas sujas e muito gastas, imensa vitalidade e mau gosto, que suspeita de intelectuais e possui uma grande inteligência”.

Os capítulos dedicados a Hannah Arendt deixam a desejar, pelo comentado anteriormente. Fala-se do totalitarismo que dependia das promessas simplistas da ideologia, de afirmar sem sustentação que o passado e o futuro poderiam ser explicados com um mero conjunto de leis. A referência a Eichmann e a polêmica que lhe causou o escrito sobre a banalidade do mal também é apontado: estaria Arendt diminuído a reponsabilidade dele pelo Holocausto, ao sugerir que não tinha agido de forma inteligente e calculista e que era simplesmente um burocrata medíocre?  Assuntos conhecidos e melhor estudados em outros trabalhos sobre a autora

Mary McCarthy é a retratada a continuação:  Uma liberdade de espírito inquisitiva que se tornou uma caraterística dos seus textos. A habilidade de classificar as pessoas caminhava junto com a sua soberba. Não era muito boa em ideias abstratas. Era ótima em questões da vida de maneira geral. Pessoas. Sociedade. As reações delas. Uma pessoa capaz de trafegar em meio à guerra interna da esquerda dos anos 1930. Ficar de fora de qualquer consenso específico tem seu valor quando aqueles que o sustentam estão dispostos a ir até o fim uns contra os outros. O seu estilo era pura maldade. Amiga de Arendt até o final da vida.

Depois é a vez de Pauline Kael, crítica de cinema: como de costume ela culpou também os críticos, que haviam se tornado tão prolixos e contra o significado que estavam defendendo filmes com fetiche técnico sem transmitir conteúdo. Comenta-se amplamente um dos livros dela: “Círculos e quadrados”. Os perigos de Pauline, visto que Kael se tornara cada vez mais crítica às motivações das pessoas que estavam fazendo filmes, em vez de se ater aos filmes em si. Ela é entusiasmada, mas sem modos; ela atropela homens educados.

Segue-se um breve retrato de Susan Sontag, mulher desconstruída, solta na sexualidade, atirando para todos os lados, “se houvesse justiça neste mundo, ela seria feia ou, ao menos, simples”. Seja quem for o inventor do casamento era um hábil torturador, disse em certa ocasião. A seguir, é a vez de Joan Didion, e da polemica crítica a Salinger de quem diz: “seduz seus leitores, fazendo com que se sintam parte de uma elite que sabe viver melhor do que os outros, quando na verdade ele não faz outra coisa que enforcar suas trivialidades”. E acerca dos que  escreviam de cinema (Kael incluída) sem ter ideias: “um bordado no lenço de papel que raras vezes sobrevive a muito escrutínio”

As anedotas seguem-se com a Renata Adler, que escreve como um raio laser, menos interessada em deslumbrar o leitor com sua beleza do que em perfurar sua mente com uma ideia. Raramente conta algum tipo de história mas reúne evidências para uma tese e se joga no assunto com a determinação de um bull terrier. E também Nora Ephron, que importa seu nome tirado da famosa peça de Ibsen,  Casa de Bonecas. Depois foi para o cinema e fez filmes água com açúcar. Afinal, quanto duram as intolerâncias e movimentos radicais??

Finalmente fala-se de Janet Malcolm e aponta um interessante pensamento:  “Nossas crianças são o reflexo de uma crença e um campo de testes para a filosofia. Se as educamos para que sejam felizes e não ligamos muito para o comportamento delas, evidentemente acreditamos na bondade essencial dos homens e nas infinitas possibilidades de felicidade que a vida oferece”.

Um livro curioso, episódico, que serve para entrar em contato com este mundo feminino de escritoras, onde uma é diferente da outra, e cada uma repleta de peculiaridades. Anota acertadamente Dean: “As expectativas que as mulheres têm umas em relação às outras e a maneira como cada uma de nós forma uma opinião sobre as demais embutem  muitas expectativas em relação às outras e muitos momentos de decepção. Isso parece fazer parte do fato de ser uma mulher que pensa e que fala publicamente sobre o pensar”. A obra transpira também um ceticismo peculiar, como se a matéria que se baralha nos escritos fosse algo postiço, alheio à paixão da alma de quem escreve: “As histórias são, afinal, decepções. As usamos para esconder um elemento da verdade sobre nós mesmos, porque toda verdade é, de certa forma, insuportável e, especialmente no caso da política, impossível de gerenciar”.

O resumo que fica como saldo desta leitura é que o propósito da autora é uma apologia das escritoras, não tanto pelo conteúdo da obra das mesmas, mas  em função de duas variáveis: serem mulheres, e terem vivido uma afiada polêmica. E assim escreve categoricamente: “O jornalismo feito por mulheres é o preço que o mundo dos homens paga por tê-las decepcionado. Em seu melhor, elas são o olhar que não perdoa, o ouvido que não esquece, o alfinete do chapéu oculto”. Quer dizer uma pedra no sapato de muitos homens….mas também de muitas ativistas do feminismo, como anota a seguir: “Por necessidade estive com muitas pessoas que gostariam de apagar essas mulheres da história justamente porque tiravam vantagem de seu talento e o fizeram sem direcioná-lo ao apoio explícito do feminismo. Isso é visto como um lapso imperdoável”. São modos de ver que merecem respeito, embora não necessariamente concordância. Como o próprio jornalismo editorial onde cada um tira o que lhe aproveita, e descarta o resto.

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