Milagre na Cela 7 : Um amor forte como a morte

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Koğuştaki Mucize. Diretor:  Mehmet Ada Öztekin. Aras Bulut IynemliCelile Toyon UysalDeniz Baysalİlker AksumMesut AkustaNisa Sofiya Aksongur. Turquia 2019. 132 min.

Quando chegam  pisando firme produções de países, vamos dizer, não convencionais é preciso estar de olho aberto. Assim foi com libanês  O Insulto uma magnífica apologia do perdão; ou com o finlandês- estoniano O Esgrimista que nos fez vibrar com a paixão por ensinar. Agora surge sem fazer barulho, através de Netflix, este filme turco singular. Justamente em momentos de confinamento e pandemia, onde o desespero corre solto e a busca por respostas se faz esperar, um homem oligofrênico, injustamente encarcerado, nos oferece um exemplo resumível numa palavra: amor!

“Teu pai tem a mesma idade que você” -explica a avó matriarca para a menina que se perguntava o que havia de errado com o pai dela. A história remete, como arco voltaico, para aquela interpretação sublime de Sean Penn em Uma Lição de Amor. Se naquele filme o duelo era entre a legalidade da custodia da criança e o amor insubstituível de um pai,  neste caso é a vida a que está em jogo. Mesmo assim, as armas do homem diminuído -do retrasado mental- são as mesmas. “Ele tem o cérebro do tamanho de uma ervilha” -diz o companheiro de cela, o durão que controle os  presos. Mas, em palavras bíblicas, o amor é forte como a morte, e no caso que nos ocupa nunca a sentença foi tão apropriada.

Confesso que esperei o desenrolar do filme para ver como Ova, a menina encantadora,  tinha “aparecido” neste mundo. Questão, aliás, que também intrigava os colegas de Memo. Mas a diferença do caso do Sam de Sean Penn, aqui todos ficamos sem reposta convincente.  Deve ser o modo oriental de apresentar as coisas -sem grandes explicações, sem argumentos racionais, nessa perífrase que desnorteia aos ocidentais. “A vovó disse para eu casar, e a menina apareceu”. Mais ou menos isso, em palavras entrecortadas com risos, carentes de qualquer malícia. E, os que morrem, são aqueles que viraram anjos. Outra sensibilidade, profunda, tocante.

Um amor forte como  a morte, uma torrente silenciosa que inunda, capilarmente, tudo aquilo que lhe rodeia. Esse é o milagre verdadeiro, que vai se aquilatando, cozinhado a fogo lento, com sangue e dor, na cela número 7. É preciso saber tirar das pessoas o seu melhor -rezam as normas da liderança, embutidas em cursos e discursos de impacto esmagador. O cinema se faz eco também, e são inúmeros os exemplos. Até um livro sobre o tema me atrevi a escrever tempos atrás.  Mas aqui o desafio é outro: é preciso tirar as pessoas da lama em que estão mergulhados, para que, aos poucos, desabroche o seu lado bom, provocando a mudança, chegando até o heroísmo.

O recurso é único e simples: esbanjar amor com naturalidade, sem medida. Recurso simples, mas de complexa aplicação, porque exige um desprendimento imenso. O protagonista descapacitado simplifica a equação, porque a inteligência e a sagacidade não são elementos presentes. Somente resta a sua capacidade de amar. Amor à sua filha -um amor concreto, e não amor à humanidade (que, como dizia Unamuno na sua Vida de D. Quijote y Sancho, é um disfarce do amor próprio). E esse amor singelo e absoluto por Ova, contamina salutarmente todo o ambiente, muda as pessoas. Já diziam os clássicos da mística castelhana: onde não há amor, coloca amor, e tiraras amor. E, mais próximo de nós, também apontava o mesmo Forrest Gump: “Eu não sou inteligente, mas sei o que é o amor”.

Com o decorrer do filme, estremecido pela brutalidade de algumas situações que contrastam com a doçura essencial do protagonista, lembrei dos comentários de Ortega naquele ensaio maravilhoso que li há muitos anos, e reli várias vezes: Estudios sobre el amor. O filósofo, a propósito da afetividade feminina, diz que o amor atua como o clima sobre o vegetal, permitindo que cresça fisiologicamente, sem empurrões, facilitando o seu germinar, amparando seu florescer.

Esse amor climático, que arranca do afeto a uma pessoa concreta (como D. Quixote, que amava a humanidade em Sancho, novamente pensamento de Unamuno), preserva a ordem moral estabelecida, tornando-a apetitosa. O certo e o errado são horizonte claro para Memo que, pela sua condição, é incapaz de guardar rancor,  julgar as intenções dos outros, visualizar as maldades e misérias alheias. Lembrei do comentário de um amigo, há muitas décadas, quando falávamos da importância de esquecer, de perdoar, de arrepender-se dos erros. “Tens razão -me disse- até uma criança é capaz de fazer isso”. Hoje penso que talvez por ser criança é possível essa atitude que nos engrandece, e alegra nossa vida.

As reflexões que rodeiam este filme, podem ser muitas, infindáveis. Afinal, estamos nos situando num plano que todos almejamos, mas que nossa condição humana torna árduo conseguir. Um plano definido por duas retas nítidas: a humildade e o amor. E que possivelmente se juntem no infinito numa só, para dar trela à metáfora geométrica.  Naquela que Santo Agostinho resumia com maestria: ama, e faz o que quiseres!

O que sobra para o espectador -fora o impacto e algumas lágrimas- no final do filme? Como digerir tudo isto? A fita turca funciona como uma verdadeira experiência fenomenológica -uma vivencia pessoal, quando se assiste desarmado- que esclarece o pensamento daquele teólogo que afirmava:  “Não é difícil entender porque gostamos tanto de aumentar nosso conhecimento e tão pouco de aumentar a capacidade de amar. O conhecimento traduz-se automaticamente em poder, enquanto o amor se traduz em serviço”. Esse é o resultado, o fruto maduro que floresce no plano desenhado pela humildade e pelo amor: o serviço. E ai sim, entendemos, tratar-se de uma empreitada de vulto, que leva toda uma vida. Um filme para ver, sentir, vivenciar, envergonhar-se…..e deixar que o clima do amor nos tire da miséria, e faça germinar frutos doces. Como o abraço de Memo, como o sorriso de Ova.

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