Milagre na Cela 7 : Um amor forte como a morte

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Koğuştaki Mucize. Diretor:  Mehmet Ada Öztekin. Aras Bulut IynemliCelile Toyon UysalDeniz Baysalİlker AksumMesut AkustaNisa Sofiya Aksongur. Turquia 2019. 132 min.

Quando chegam  pisando firme produções de países, vamos dizer, não convencionais é preciso estar de olho aberto. Assim foi com libanês  O Insulto uma magnífica apologia do perdão; ou com o finlandês- estoniano O Esgrimista que nos fez vibrar com a paixão por ensinar. Agora surge sem fazer barulho, através de Netflix, este filme turco singular. Justamente em momentos de confinamento e pandemia, onde o desespero corre solto e a busca por respostas se faz esperar, um homem oligofrênico, injustamente encarcerado, nos oferece um exemplo resumível numa palavra: amor!

“Teu pai tem a mesma idade que você” -explica a avó matriarca para a menina que se perguntava o que havia de errado com o pai dela. A história remete, como arco voltaico, para aquela interpretação sublime de Sean Penn em Uma Lição de Amor. Se naquele filme o duelo era entre a legalidade da custodia da criança e o amor insubstituível de um pai,  neste caso é a vida a que está em jogo. Mesmo assim, as armas do homem diminuído -do retrasado mental- são as mesmas. “Ele tem o cérebro do tamanho de uma ervilha” -diz o companheiro de cela, o durão que controle os  presos. Mas, em palavras bíblicas, o amor é forte como a morte, e no caso que nos ocupa nunca a sentença foi tão apropriada.

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Jordan Peterson: “Mapas do Significado. A Arquitetura da Crença”.

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Jordan Peterson: “Mapas do Significado. A Arquitetura da crença”. É Realizações. São Paulo. 2018. 696 págs.

Animado por alguns comentários que tinha escutado sobre este autor, e talvez por manifestá-los em voz alta -devo ter dito que nunca tinha lido nada dele- eis que caiu no meu colo este livro no último Natal. Toca enfrentar as quase 700 páginas. E com alguns dias de relativa folga pela frente, dediquei-me à tarefa.

Um verdadeiro tour de force, que me deixou esgotado, ou melhor, desnorteado. Tinha tanta árvore por lá que não conseguia enxergar o bosque. Lembro que alguém me perguntou: “Afinal, qual é a tese dele?”. Eu tinha lido 150 páginas e confesso que não consegui me situar.  A tentativa de centrar  o tema -nessas 150 páginas – ficava embaçado por ser repetitivo. Também me surpreendeu o excesso de “aspas”. Sempre pensei que quando se colocam muitas aspas é que falta solidez ao conceito, ou pobreza de vocabulário; ou, neste caso, a carência pode correr por conta da tradução.

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Immaculée Ilibagiza; “Sobrevivi para contar”

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Immaculée Ilibagiza; “Sobrevivi para contar”. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro. 2006. 340 pgs.

“Se não podemos mudar uma situação, mudar a nós mesmos se torna o desafio”. Esse pensamento de Viktor Frankl encontra-se estampado na primeira página deste livro singular. Confesso que me ajudou logo de cara: estava num avião, no assento do meio –não consegui marcar o lugar com antecedência- com uma viagem de 6 horas por diante, entre Nova York e Dublin. Acomodei-me do melhor modo possível e dei sequência à leitura. Li o livro em dois tempos, sendo que no segundo me encontrava um pouco mais confortável, no assento do corredor, voo de volta entre Dublin e São Paulo. Mais 10 horas de aperto.

     Mas nessa altura eu já estava dando risada de gol contra depois de surpreender-me com a história desta jovem de 24 anos que ficou fechada num banheiro, de pouco mais de 1 mjunto com outras seis mulheres, por quase três meses. Minha situação era, por tanto, de um conforto equivalente a um hotel de 5 estrelas, e o serviço de bordo equiparável aos melhores restaurantes do planeta. Vamos parar de reclamar. Foi a frase que me acudiu à cabeça: não sei se a formulei em voz alta, ou se foi um propósito para incorporar na minha vida, ou se foi alguém –uma voz divina, como as que Immaculée escutava no seu cativeiro- quem a formulou com clareza meridiana.

     O cenário do livro é o genocídio que aconteceu em Ruanda na década de 90, onde morreram milhares de pessoas, em assassinatos sangrentos, praticados pelos Hutus contra os Tutsis, etnia esta à qual pertence a autora do livro. Tentar entender o tamanho deste drama está fora do propósito do livro. E penso que está fora do alcance de qualquer estudo sociológico que os intelectuais dos assim chamados países civilizados costumam produzir. É algo incompreensível, perante o qual se pode reagir com revolta, desespero, sede de vingança, descrédito absoluto pela humanidade. Ultrapassa os parâmetros racionais, supera a ficção, e não adianta perguntar-se quem são os bandidos e quem os mocinhos da história. É uma tragédia social e pública.

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Balduin Schwarz: “Del Agradecimiento”.

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Balduin Schwarz:  “Del Agradecimiento”. Ed. Encuentro . Madrid. 2004, 47 págs. 

Tropecei -literalmente- com este pequeno opúsculo filosófico, enquanto colocava ordem numa das estantes de livros. Nem sei como foi parar lá. Encontrei algumas marcas na margem, que não reconheci como minhas. Talvez algum amigo? Já começa a surtir efeito o título do livro, pelo agradecimento que, no meu caso, brilhou pela sua ausência. Quem será que me deu isto e eu nem me lembro?

Confesso que o título da obra, um volume mínimo de 50 páginas, piscou para mim. A gratidão é virtude ausente, esquecida. Quando alguma vez ocorreu-me comentar sobre ela, houve quem me fez notar que o ensinamento é antigo: bíblico, para ser exato, evangélico. Daqueles dez leprosos que foram curados por Jesús, somente um voltou para agradecer. “Se a taxa de retorno na Bíblia é de 10% o que você espera dos mortais comuns?”

O autor, discípulo de Von Hildebrand e que transitou pela fenomenologia, centra o tema do com precisão: “O fenômeno agradecimento somente se refere a pessoas, a outras pessoas. A relação entre pessoas nas quais surge o agradecimento é entender que aquela pessoa nos fez um bem gratuitamente, mostrou sua benevolência. Aliás, é preciso entender que não há outros motivos para a gratidão a não ser a própria benevolência de quem a teve conosco”.  E faz uma importante advertência para não confundir agradecimento com simples manifestações de entusiasmo: “Podemos nos contentar com as formas convencionais de agradecer sem estar, de fato, agradecidos (..) Não se deve  confundir a alegria que sentimos (porque recuperamos algo, porque alguém nos ajudou) com o agradecimento. Tem de ir além da alegria. E ser manifesto”.

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