Munique: No Limite da Guerra

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História:  Releitura, interpretação ou aprendizado?

Munich: The Edge of War. 2021. Diretor: Christian Schwochow. Jeremy IronsAugust DiehlGeorge MacKayUlrich MatthesLiv Lisa FriesAlex JenningsJannis Niewöhner. Reino Unido 123 min, 2021.

Motivado por um comentário que me chegou -destacando a intepretação sublime de Jeremy Irons- e por algum outro que li, não me lembro onde, apertei o play para assistir mais um filme sobre a segunda guerra, ou melhor, sobre os prolegômenos.

Uma surpresa agradável, de impacto. E me fez pensar, muito. A conferência de Munique, um ano antes da invasão alemã à Polonia que daria a largada para o conflito mundial que se arrastaria por seis anos, foi uma tentativa de segurar o inevitável. Uma leitura simplista da história mostra que, no final das contas, o teatro montado por Hitler e Mussolini, tendo como coadjuvantes-títeres, os franceses e os ingleses -imenso Jeremy Irons como Chamberlain, insisto porque merece- não adiantou grande coisa. Aparentemente. Mas esse é o ensinamento que o filme me sugeriu.

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Maria Dueñas: SIRA

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Maria Dueñas: SIRA Ed. Planeta. Madrid. 2021. 648 págs.

Por conta da Tertúlia Literária deste mês debruço-me sobre a segunda parte de O tempo entre costuras que, agora estampa como título o nome da protagonista: Sira. Mas, por aquilo de que segundas partes são sempre suspeitas, decido antes, reler -com rapidez e voracidade- a primeira. Consulto as notas que tomei naquela ocasião, embora, inevitavelmente surgem outras que não incluo aqui, para não me estender desnecessariamente.

Mesmo assim, não consigo evitar dois rápidos aspectos que iluminam, em zoom mágico, as páginas de Sira. O primeiro é relativo à protagonista e seus predicados, dois em concreto: a criatividade maravilhosa da costureira, o segundo as mudanças de identidade à qual o destino a empurra continuamente. Uma costureira espiã, de elegância ímpar. Traduzo livremente do original em espanhol, que obviamente foi o que eu li, por questão telúrica, de raízes.

 “E então o inesperado aconteceu. Nunca poderia imaginar que a sensação de ter uma agulha entre os meus dedos pudesse ser tão gratificante. A satisfação de costurar de novo foi tão agradável que durante algumas horas me levou a tempos mais felizes e conseguiu dissolver temporariamente o peso de chumbo das minhas próprias misérias. Era como estar de volta a casa. Quando trabalham bem, as costureiras são capazes de ganhar lealdades até à morte”

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Martha C. Nussbaum. Emociones Políticas.¿Por qué el amor es importante para la justicia?

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Martha C. Nussbaum. Emociones Políticas.¿Por qué el amor es importante para la justicia? Paidós. Barcelona, 2014. 555 págs.

Leio a versão espanhola do ensaio da filósofa e professora americana, exemplar que comprei numa das minhas passagens pela Casa del Libro em Madrid. Deixei-o repousar na prateleira -os livros cada vez se me assemelham mais ao vinhos, precisam de repouso, de encontrar o momento certo- e o desentoquei nas férias no final do ano. O subtítulo -o amor para chegar na justiça- foi, sem dúvida, o que me provocou para adquiri-lo. Afinal, e bom saber o que uma professora de filosofia política tem a dizer da importância do amor para praticar a justiça.

O ensaio é longo, repetitivo. Nota-se que corresponde a uma tese muito pessoal, mais do que a um raciocínio expositivo. Por isso, há momentos em que é preciso exercitar leitura dinâmica, porque já sabemos onde quer chegar. É, na prática, um curso sobre como as emoções devem alavancar as leis para que elas “grudem e cativem” o público. Algo que, no nosso cenário verde amarelo, faz completo sentido.

Diz a professora da Universidade de Chicago: “Todos os princípios políticos, tanto os bons como os maus, precisam para sua materialização e sobrevivência de um apoio emocional que lhes procure estabilidade ao longo do tempo, e todas as sociedades decentes devem proteger-se frente à divisão e a hierarquização, cultivando sentimentos de simpatia e amor. Supor que somente as sociedades fascistas ou agressivas, são intensamente emocionais, e que são as únicas que devem se esforçar para perdurar, é tão errado como perigoso”. Bela advertência, que alerta para a ingenuidade de justiças puras e assépticas, enquanto os carismáticos pintam e bordam, justamente porque sabem usar as emoções como passaporte de entrada nos corações dos povos.

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Finch: Humanizar o robô, para nos humanizar a nós?

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Finch. Diretor: Miguel SapochnikTom HanksCaleb Landry  Jones. 115 min. USA:  2021

Existem atores que enchem a tela. Não porque pequem de narcisismo ou de arrogância estúpida, mas porque funcionam muito bem nesse registro. Também não quer dizer que sejam os melhores, mas que em voo solo sabem incarnar o papel:  dão o recado, desdobram o miolo da mensagem e chegam facilmente no coração e na cabeça do espectador. Porque, isso sim, os atores de performance solitária,  estão necessariamente atrelados a alguma carga de profundidade que destila dos fotogramas. Foi assim recentemente com Sandra Bullock em Imperdoável. É o caso de Tom Hanks em Finch, que agora toma conta destas linhas.

Hanks tem já um bom percurso neste modelo. Naufrago, sem dúvida, um exemplo emblemático, impossível não evocar enquanto assistimos o filme que nos ocupa. Mas também outras atuações como Greyhound ou Sully. E também atuações onde as outras personagens não passam de coadjuvantes, porque o protagonista carrega tudo nas próprias costas. Ai está A Ponte dos Espiões; e, naturalmente Forrest Gump,  o ponto fora da curva, que vive num mundo dele (que gostaríamos fosse o nosso).

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Nelson Rodrigues: “ A Vida como Ela é…..em 100 inéditos”.

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Nelson Rodrigues: “ A Vida como Ela é…..em 100 inéditos”. Ed. Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 2012. 440 págs.

Não sei se a vida é como Nelson a pinta, repleta de bizarrices, de comportamentos chocantes, de virtude pacata desmascarada na hora do vamos ver. Provavelmente não, porque isto lembra Notícias Populares, onde somente o escândalo retorto tinha vez. A vida não é assim. Mas as paixões são essas mesmas, e pode haver muito disto – e também de virtude, que tem menos apelo literário para crónicas- na hora de narrar uma vida.

Mas o que importa é o modo com o Nelson conta, a força da narrativa, rápida, chocante, mordaz, com domínio da língua e da gíria popular. Algumas pérolas: “Durante seis meses foi o que se chama um viúvo inconsolável. Vestido de preto, de alto a baixo, fazia questão da própria tristeza. Era, em verdade, uma tristeza total e minuciosa, que não admitia um vago, um tenso sorriso (…) Sandoval ficou com os defeitos do pai, da mãe e os próprios. Tinha todos os defeitos deste mundo e do outro e, inclusive, tomava dinheiro de mulher (…) Lourdinha percebeu, então, que fora o som deste riso que a conquistara. Sim, era um riso de muitos dentes, escancarado e vital. Ela não teve mais dúvidas: apaixonara-se por esse homem. Só no fim quando pagou a despesa, já completamente bêbado, ele balbuciou: Sou casado, ouviste? Casadinho!”.

Saborear, dar risada, tirar importância das tragédias que nos mesmos montamos na nossa vida, por vezes tão cinzenta, leva tempo. Carece de demora, como diria Guimarães Rosa. Foi por isso que demorei tempo, mais de ano, em degustar os inéditos da vida que o Nelson afirma ser assim. Uma ou duas por dia, nem todos os dias, com paradas estratégicas, deixando chegar a saudade, para voltar a livro.

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Charles Dickens: Um conto de Natal

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L& PM Pocket. 111 pgs.

A releitura do Conto de Natal, o clássico de Dickens, é sempre uma tentação convidativa nesta  época do ano. Sabendo disso, e com a certeza de que muitos dos participantes da tertúlia literária já o tinham lido, decidimos escalá-lo para nossa conversa alguns dias antes do Natal. Afinal, todos somos um pouco como o protagonista, Scrooge, que precisa da lembrança atual dos natais passados para entender o presente, visualizar o futuro, e mesmo assim esquece.

O homem é um ser que esquece , diziam os clássicos latinos. Não esquece os detalhes, a lista de agravos, as desfeitas que fizeram com ele; tudo isso ele o guarda ciosamente, e muitas vezes acaba azedando. O esquecimento é, lamentavelmente, das coisas importantes: dos sonhos, dos projetos, dos propósitos de melhora. Enfim, Scrooge personalizado em cada um. Por isso, a pequena obra maestra de Dickens nunca perde atualidade.

A maestria de Dickens está muito bem descrita no prefácio: “Colocou-se sempre ao lado dos velhos, dos órfãos desamparados, das crianças desumanamente empregadas na indústria, dos pais de família desempregados. Em sua literatura, lamentou sobre a simplicidade e a inocência perdidas e, de modo engajado e edificante – na melhor acepção do termo –, tentou trazer à tona os melhores sentimentos das pessoas, sem nunca deixar de lado o entretenimento. São estes conflitos modernos da vida real, de perda de valores ancestrais e familiares, de degradação dos laços sociais, que Dickens resolve na literatura e, especificamente, em Um Conto de Natal, mas sem jamais manchar, ofender ou criticar abertamente as instituições vitorianas. Dickens esteve entre os primeiros a detectar os males da sociedade moderna, ainda mais partindo do coração da poderosa Inglaterra vitoriana, e Scrooge, com sua ganância pelo lucro, é o seu símbolo maior para toda a crueldade do capitalismo selvagem. Deste modo, onde ainda houver sentimentos  de solidariedade para com os excluídos, amor às reuniões familiares, vontade de congregação entre as pessoas e estranheza frente às frias relações de comércio e trabalho, Um Conto de Natal continuará atual”.

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Imperdoável: Vigiar os pensamentos do coração.

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The Unforgivable. Dir: Nora Fingscheidt. Sandra BullockViola DavisVincent D’Onofrio. USA 2021. 112 min

Tropecei com o filme, ou melhor, com as palavras chave. Sandra Bullock, vinte anos de prisão, assassinato, criminosa rejeitada pela sociedade. Não precisou mais: a faísca saltou, como arco voltaico, e lá estava eu na frente dos fotogramas que, lentos, sem pressa, se sucediam. Pressa para o que? Uma vida partida, vinte anos perdidos, e a reputação no lodo, sem remédio. E tudo concentrado na face desfeita, no olhar triste e conformado, no andar trôpego de uma Sandra Bullock em plenitude. Enchendo a tela, as nossas cabeças, apelando para a consciência. Uma tragédia sem volta, um final conhecido -lembrei de Antígona, de Desdêmona, de Lucia de Lammermoor.

Não há o que descrever, nem é possível aventurar-se com o argumento que, de outra parte, é simples, duro, insolúvel. É preciso assistir com atenção, com respeito, e apalpar o sofrimento que a atriz -insisto, em estado de graça- o torna próximo, verossímil, doloroso. As conclusões -e os aprendizados, imensos- virão em decorrência. E nos cutucarão, porque o filme é isso: uma chacoalhada na consciência do espectador.

Recentemente comentamos na nossa tertúlia literária um livro que adverte do perigo da palavra ociosa, do julgamento frívolo, de manchar a fama do próximo: Reparação . Todos saímos da nossa reunião de pensadores com a ideia clara de que é preciso vigiar -em marcação cerrada- as palavras, o que falamos dos outros, porque o estrago dificilmente tem conserto, como mostra a obra de Mc Ewan.  

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Medicina USP, 64a: Celebrando quatro décadas

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No dia 19 de Dezembro, a turma da Faculdade de Medicina USP na qual me graduei, completa 40 anos. Em 1976 quando ingressamos na “Casa de Arnaldo” (ainda via CESCEM, última turma desse modelo de vestibular), soubemos que os programas pedagógicos de graduação que nos antecederam tinham desaparecido. O curso tradicional e o experimental, juntaram-se para receber-nos de braços abertos: seríamos a turma da Fusão. A ironia criativa da juventude encontrou rapidamente o nome que nos auto impusemos: seríamos Os Fundidos!

Teve jornal próprio da turma –O Fundido, como não poderia deixar de ser- e esse predicado acompanhou-nos ao longo destas quatro décadas. O grupo de WhatsApp, criado nos últimos anos, também tinha o nome predestinado: Fundidos 64. E até no painel comemorativo da formatura -que, por assuntos que não vem ao caso aqui, somente instalamos 18 anos depois daquele 19 de Dezembro de 1981 no auditório do Anhembi- , apontava para a fusão dos fundidos. Desta vez em latim, porque é preciso manter a classe e a tradição: “Amiticia ex junctione oritur”, da união –da fusão- nasce a amizade.

Demoramos em decolar com as reuniões comemorativas da formatura. A primeira, em 1991, celebrando os 10 anos, num final de semana. Depois eventos rápidos, pontuais, para comemorar os 15, os 18 (onde, finalmente, ganhamos vergonha e decidimos instalar o painel….com fotos de 1981, naturalmente). Mais um encontro aos 20 anos, uma jornada para celebrar os 25 no Rancho Silvestre. Depois, para não deixar a peteca cair -e lembrar com carinho da fisionomia de todos- seguiram-se os 28, os 30 e os 33 anos. Finalmente, uma comemoração inesquecível dos 35, um final de semana na fazenda Santa Carolina, estampou a foto que, até hoje, representa o grupo dos fundidos nas redes sociais.

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Ian Mc Ewan: Reparação

Pablo González Blasco Livros 1 Comment

Ian Mc Ewan: Reparação Companhia das Letras . São Paulo. 2002.  448 págs.

Devo confessar que Ian Mc Ewan não era santo da minha devoção. Tinha lido algumas obras dele, e fiquei com um sabor de boca mal definido. O  complicado mistura-se por vezes com o tosco, as realidades com os sonhos, enfim, uma salada que não me resultou agradável. Os comentários de um grande amigo, homem culto e de imenso bom senso, que me consta tinha lido “Reparação” várias vezes, foram o  empurrão para escalar esta obra de Mc Ewan na nossa tertúlia literária mensal. O meu amigo faleceu neste ano, e quero pensar que a escolha -e, certamente, estas linhas- são um tributo agradecido. A distância -que não a ausência, porque ele continua presente- é recurso que aprimora a perspectiva.

Briony, a protagonista absoluta do romance, “era uma dessas crianças possuídas pelo desejo de que o mundo seja exatamente como elas querem”. Ela é também a diretora desta orquestra singular de personagens, onde todos devem agir em função dela. Gosta de escrever -aliás, como se verá, é a autora do romance que estamos lendo- e desenhas as próprias peças de teatro, que são os fios através dos quais movimenta as marionetes, quer dizer, as outras personagens: “A peça não era para os primos, era para o irmão, para comemorar sua volta, despertar sua admiração e afastá-lo daquela sucessão descuidada de namoradas, orientá-lo em direção a uma esposa adequada, aquela que o convenceria a voltar para o interior, que requisitaria, com doçura, a participação de Briony como dama de honra”. Os primos, meros coadjuvantes da sua vontade, por vezes atrapalham seu protagonismo: “A cor de seus primos era viva demais — praticamente fluorescente! — para que fosse possível disfarçá-la”.

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