UMA LIÇÃO DE AMOR

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 (I am Sam) Diretor:  Jessie Nelson. Sean Penn, Michelle Pfeiffer, Laura Dern. 132 min. USA 2001.

É mesmo de amor a lição que Sam, um oligofrênico com idade mental de sete anos nos transmite nas duas horas de filme. Uma feliz tradução do título original já que Sam entende apenas de Beatles e de amor. Um amor sólido, comprometido e forte que educa, e faz crescer a filha que, provavelmente por acidente, acabou tendo de uma mãe que com rápido egoísmo se desentende de ambas as criaturas. A menina alcança em idade o limite de compreensão mental que o pai possui e o Estado, ciumento aplicador de leis, entende que Sam não terá capacidade para educar a filha que vai cumprir os 8 anos. Tudo muito lógico, faz sentido, se pensamos nos problemas ordinários que a educação traz para os pais, e os desafios que deverão enfrentar.  Afinal, como alguém que não vai além de um raciocínio próprio de uma criança de sete anos será capaz de educar uma adolescente?

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O OITAVO DIA

Pablo González Blasco Filmes Leave a Comment

(Le huitième jour) Diretor: Jaco Van Dormael.  Daniel Autauil, Pasqual Duquemne, Miou-Miou, Henri Garcin. França 1996 114 min.

A imprensa noticiou que um ator com Síndrome de Down tinha ganhado a palma de ouro de Cannes. O seu parceiro no filme atreveu-se a dizer que Pasqual Duquemne era uma espécie de Marlon Brando dos mongoloides. Não era necessário mais nada para criar uma expectativa singular diante de um filme que demorou em chegar ao mercado do vídeo.

            Assisti “O oitavo dia” na volta das férias. Gostei. Desfrutei, pois gostar é pouco -quase vulgar- para definir a sensação de algo que nos carrega, e se adianta aos nossos desejos, envolvendo-nos em clima de perfeita sintonia. É como essas músicas cativantes que, de início, mexem com nossos pés, convidando-os a acompanhar o ritmo timidamente; dos pés se passa para o balanço da cabeça, das mãos, do corpo, que, já sem vergonha,  entra no embalo fundindo-se com a melodia. Uma sensação de bom sabor de boca -no paladar da alma- permanece quando o filme acaba; e perdura, em serena quietude. Imagino que deve ser como quando Deus criou Georges, no oitavo dia, e viu que era bom.

            A inércia das férias e a avalanche de emoções me fizeram demorar em escrever. Noto como uma resistência a trazer para o papel -em expressões insuficientes, sempre desbotadas- aquilo que simplesmente é bom. Assim mesmo: bom; nada mais, e também nada menos. Não sem motivo os clássicos incluíam a bondade entre os atributos do ser; os transcendentais, diziam. E, falar do bem, que é falar do ser, é sempre complicado para nós pobres mortais que somente conseguimos enxergá-lo por partes, fruto da miopia da nossa limitação. Mas o bem é difusivo, expande-se aos que temos à nossa volta, reclama seu poder transitivo. Por isso não resta se não vencer a preguiça, subtilmente encoberta em inquisições filosóficas, e passar o recado.  Abrir o coração e deixar fluir a bondade para que os outros possam também beneficiar-se dela.

            Vem à memória o comentário, trazido e levado com os amigos que amam a vida, e a arte fílmica -que é a vida concentrada no celuloide- que o cinema recorre, nestes tempos de paquiderme espiritual, a crianças, loucos, e pessoas peculiares para transmitir os valores de modo politicamente correto. Assim ninguém se ofende, pois a criança, o louco, o excepcional são seres “de outro mundo”. Um mundo, por sinal, fantástico, que causa inveja e desperta em nós vontades de melhora. Mas andamos muito ocupados com as formas, as sistemáticas, a produtividade – o sucesso!- para termos coragem de comprar uma briga de ideais, briga conosco mesmos e não com as estruturas. Respiramos um tédio que nos enjoa, como as torradas que pulam, pontualmente, as 07h30min AM prontas para um café fast-food, largada para uma jornada saturada de vazios. É preciso mostrar as realidades em versão caricaturesca para chamar a atenção do espectador médio, condicionado com estímulos fortes, insensível ao sugestivo, ao delicado, à borboleta que é flor que aprendeu a voar. Tragamos, pois, os mongoloides para que nos ensinem sobre a vida; ou, pelo menos, nos ajudem a repensá-la.

            Isto se é que podemos chamar vida ao desenrolar biológico que muitos vivem, em permanente passividade. Ortega já advertia sobre este equívoco elementar quando aponta que costumamos chamar viver a sentir-se empurrados pelas coisas ao invés de conduzir-se pela própria mão, com o uso da liberdade, num querer decisivo e vital. Mas o problema é que muitos homens querem em sentido econômico, resvalando de um objeto para outro sem ter o valor de exigir-se uma meta. Uma vontade enferrujada pela falta de uso, que cedeu ao sentimento e ao prazer toda hegemonia de governo. “Quando todo o nosso ser -diz Ortega- quer algo, sem reservas, sem temor, integralmente, cumprimos com o nosso dever, porque é o maior dever a fidelidade a nós mesmos”. Fidelidade a ideais que a vontade estabeleceu em desafio de perfeição, de projeto de vida. A vontade enfraquecida não consegue penetrar as porosidades do egoísmo que torna o homem impermeável ao amor, que é sempre alegria com dor, benefício e doação, aventura de gozos, de sangue e lágrimas.

            As canções mexicanas de Luis Mariano emolduram os gestos de Georges, que acompanha a melodia com alma delicada enquanto desafina ostensivamente na música. É como um grito que clama pelo profundo do ser humano, que faz troça das formas – essas que a sociedade julga perfeitas, na epidemia de frivolidade que nos rodeia. Cultuamos os exteriores, fabricados com um visual de grifes, melecados em perfume de marca, que nos impõem meia dúzia de “prima-donas” da superficialidade. São os heróis da moda, os modelos que cantam afinadamente, com sorriso de plástico, mas que carecem da virtude que faz vibrar as cordas do espírito. Uma autêntica afonia da alma.

            Georges é um canto ao amor, à compreensão, ao resgate do ser humano das violências e egoísmos. Um desajustado que encanta e semeia carinho com a naturalidade de quem vive para os outros, e dos outros mendiga um amor que não sabem dar… porque nunca deram nada. “Você é o maior presente que tive na vida”: é a mãe de Georges, âncora dos seus sonhos e dos nossos anseios, que em aparições precisas esbofeteia com seu amor maciço nossa sociedade que, egoísta e superficial teima em querer ser eugênica, seletiva, sim, elitista. E isso quando precisamos mais do que nunca dos deficientes, dos carentes, dos necessitados para desentocar-nos do conforto repugnante do individualismo. Precisamos deles de modo permanente, junto de nós, como marca passo que faça bater nosso coração em sintonia com as indigências alheias.

            Não basta o tilintar de moedas no farol, as campanhas institucionais, a esmola que nos livra da visão incômoda que bate na nossa porta. A miséria nos molesta, aperta nossa consciência e até nos pode lembrar do pouco que fizemos para desempenhar um papel mais confortável neste cenário que é o mundo. Mas a memória da filantropia é curta, e facilmente abafamos os apelos que nos dirige a penúria alheia. Duradouras são as solicitações constantes de carinho, de cuidado e desvelo que nos dirigem os seres que nos rodeiam. Reclamam de nós tempo, paciência, compreensão. Um olhar, um sorriso, um interlocutor que escute, um ombro para chorar. Fazer que os que vivem à nossa volta se sintam amados é tarefa que ocupa a vida toda, que sangra nossas energias depurando-as do amor próprio. Um desafio no qual se empenha a vida, acessível a qualquer um, muito mais comprometedor que a gorjeta ou o cheque polpudo, onde toda a dedicação se esgota no débito na conta corrente.

Esse é o ensinamento, necessário, que nos traz a doença, a limitação, a deficiência que se encarna naquele que partilha conosco a sua existência, corporalmente mutilada, mas em plenitude de alma. Por que essa vontade doentia de se livrar dos deficientes, advogando hipocritamente pela pouca qualidade da sua vida? Não será que é a nossa vida a que queremos defender, em qualidade total, livrando-nos do incômodo lembrete das reclamações permanentes de carinho?

            “Mãe, este mundo não é para mim. Ninguém me entende. Não há amor. Eu sou diferente”. “Você é diferente, Georges; você é melhor”. Assistimos os diálogos -sonhos, realidades, toadas mexicanas em francês- com um nó na garganta, que os toques cômicos do protagonista afrouxa, mas não desfaz, pronto a se esticar de novo, mal pensemos no dilema que se debate. E constatamos já convencidos de que o mundo não está preparado -triste despreparo fabricado pela avareza do espírito- para as lições de Georges, que transbordam sabedoria. Consola a irmã, injeta vontade de viver no executivo frustrado, arranca o sorriso das crianças, e nos faz acreditar na bondade humana; lições que ministra com sua única arma, o amor, que supre amplamente as deficiências da doença. Quantos, com os cromossomos certos e bem colocados, são incapazes de chegar perto desta epopeia

de carinho? O cuidador acaba sendo cuidado, o complicado se simplifica, o sorriso conquista e desmonta a mesquinhez.

            “O oitavo dia” é tudo isto, e mais, muito mais, pois as lições não acabam nunca e se desdobram ao compasso das próprias vivências; a arte se mistura com a vida, dando-lhe novas perspectivas. E nessas considerações, íntimas já, pois houve tempo de fazer uma boa amizade com Georges, temos a coragem de lhe perguntar: “É assim também quando nos sentimos incompreendidos, quando percebemos que o mundo -este mundo louco e definitivamente egoísta- não é o nosso? E quando nossos ideais, nossas brigas, nossos sonhos parecem ser carta fora do baralho, e nos olham como seres de outro planeta? O que fazer então, Georges?” Georges não responde; sobe no seu cavalo e lidera a cavalgada pelas estepes da Mongólia, à frente dos seus homens. Para, olha para nós e sorri como dizendo: “Vem conosco descobrir a aventura da vida”. Uma vida que tem o sabor épico de grandeza quando a alma tem como única fronteira o horizonte do amor.

O SHOW DE TRUMAN

Pablo González Blasco Filmes Leave a Comment

The Truman Show.  Diretor: Peter Weir. Jim Carrey, Ed Harris, Laura Linney, Noah Emmerich, Natasha McElhone. 110 min. 1998 USA.

Truman é uma criatura do seu tempo, ou melhor, do nosso tempo, pois somos nós os que a criamos. Desde o seu nascimento, sem lhe pedir licença, já é parte de um projeto. Uma vida sem nenhum direito à intimidade, onde o que conta é o sistema e o circo que é montado para albergar o cotidiano de Truman que nem desconfia ser o ator principal desse grande teatro. Transmitido sem interrupção, 24 horas no ar, para os 5 continentes, onde as pessoas estão pendentes da vida de Truman, muito mais do que da própria. Até parece que a própria vida careceria de sentido se não tivesse o simpático Truman na TV  –que em rotina encantadora cumprimenta o mundo, pensando apenas cumprimentar o seu vizinho. Bom dia, boa tarde e, caso não veja vocês, boa noite.

            Peter Weir, diretor australiano, tem gosto e sabe tratar, os temas que atingem a pessoa e a enfrentam com um sistema que abdica da liberdade. Enaltece o homem que não abre mão do seu compromisso vital, e que consegue extrair do seu interior riquezas que nem mesmo ele sabia possuir. Baste lembrar a Sociedade dos Poetas Mortos, A Testemunha, Gallipoli e O Mestre dos Mares

            O Show de Truman é um ensaio sobre as possibilidades da liberdade humana. O bom Truman, inofensivo e dócil, marionete do sistema que rende milhões em publicidade e recorde de audiência decide, de repente, exercer a sua liberdade, ser “espontâneo”. Uma atitude que não tinha sido prevista pelos criadores do show, pelo megalomaníaco controlador do sistema. Truman suspeita que algo não anda bem nesse mundo de faz de conta onde nada acontece. Entenda-se, nada ruim, já que tudo é previsto, organizado, contratado, projetado. Quando o ser humano não enfrenta dificuldades desconfia que esteja sonhando. É como aquele velho ditado: “se depois dos 50 anos, acordas de manhã e não doe nada, provavelmente estás morto”. As dificuldades e, sobretudo, os atritos no trato com os nossos semelhantes, que pulem as arestas do temperamento, são coisas de ordinária administração. E nessas dificuldades e desafios é onde a pessoa cresce e se constrói realmente. Uma vida que visa apenas evitar dificuldades é irreal, torna-se aborrecida.

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Parker J. Palmer. “The Courage to Teach”.

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Parker J. Palmer. “The Courage to Teach”. Jossey-Bass. S.Francisco. 1998. 200 pgs.

Eis um livro essencial para todos os que se aventuram a ensinar. Um livro para professores que querem se comprometer com algo que é uma missão, uma vocação, não um trabalho. O autor é claramente um outsider – não deve ser fácil integrá-lo às estruturas rígidas das instituições de ensino – que se dedica à formação de professores e a escrever. Este livro é mais do que uma coleção de conselhos e facilmente se demonstra: são experiências vividas e sobre as quais muito se refletiu. São 200 páginas de sabedoria, para ler em “câmara lenta”, observando na margem as ideias que surgem – com certeza virão! – relativas ao nosso mundo e que as considerações do autor despertam.

Embora o livro não tenha desperdiço, se alguns capítulos precisassem ser destacados, eu o faria com 4 deles:

A Introdução e o Primeiro capítulo (O Coração de um Professor), colocam a questão crucial no início para que ninguém se deixe enganar pelo livro, pensando que é mais um aventura de autoajuda. O autor comenta que os professores muitas vezes se perguntam o que ensinar (o conteúdo da disciplina). Todos eles fazem isso: é uma condição de sobrevivência. Outros, muito menos, pensam no método: como ensinar? Outros, menos ainda, ousam pensar: e a quem devo ensinar isso? E quase ninguém faz a pergunta mais importante: no final, quem ensina? E conclui: Porque, gostemos ou não, ensinamos o que somos. Ensinar bem não se limita às técnicas, mas resulta da identidade e integridade do professor que ensina. A coragem de ensinar – título do livro – é ter o coração aberto para ir além do convencional. Em seguida, ele desenvolve o que seria identidade e integridade, e o que acontece quando o professor “perde o coração” (deixa de ensinar desde o fundo do seu coração).

O Segundo capítulo (Uma cultura do medo) nos coloca diante do desafio dos novos paradigmas educacionais. Os medos que nos ajudam a sobreviver e os que nos paralisam. O medo de perder a posição conquistada – de sair da zona de conforto – de se entregar à missão de ensinar. Sem novos paradigmas, que envolvam correr riscos, o diagnóstico dos alunos será medíocre e a ajuda do professor muito limitada. Aborda a questão de encontrar perguntas que você não sabe como responder e que o ameaçam.  Na verdade, isso é educação: buscar juntos respostas que construam o conhecimento, do professor e do aluno. As responsabilidades que devem ser atribuídas ao aluno, pois ele tem de assumir as suas. Medo de perder popularidade. O medo determina o que aprendemos e o que ensinamos.

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FORREST GUMP -O CONTADOR DE HISTÓRIAS

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(Forrest Gump). Diretor: Robert Zemeckis. Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field. USA, l994. l40 min

A vida humana é um mosaico de paradoxos. Assistimos, neste final de século, a uma proliferação de aberrações, novo renascimento das paixões humanas de sempre, agora formatadas em linguagem atual e pajeadas pela multimídia.  Concomitantemente, o grito à procura da verdade, dos valores e da dignidade humana que encontra neles seu apoio consistente, ecoa de modo ininterrupto. O homem procura a verdade, o bem, a felicidade, no tempo  em que se sente envolvido pela sordidez do meio que ele mesmo criou.

             O cinema, que quando bom é vida, reflete esta procura; e também dá seus gritos de sobrevivência, reclamando para os homens valores mais altos. Atravessamos momentos carentes de simplicidade, de amor, de beleza e harmonia. E, vez por outra, nos chegam filmes como este que é todo ele um canto à simplicidade, uma apologia da virtude, de que fazer o bem compensa. A crítica, nem sempre justa, soube reconhecer a categoria de “Forrest Gump”, agraciando-o com os principais Oscar do ano. Na verdade, não há como não gostar deste filme. Gostar, todos gostam; explicar o atrativo requer algumas reflexões.

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