SEVEN -OS SETE CRIMES CAPITAIS

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 “Seven”Dir: David Fincher. Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow. USA 1995. 129 min.

Um verdadeiro thriller policial -agora chamam-se “killers”-  no género dos velhos filmes negros americanos. O colorido é apenas meio de expressão, pois as personagens, a temática, e o clímax é completamente “noir”. E para que não reste dúvida o diretor coloca várias sequências “à luz de lanternas”, que mais do que iluminar é  detalhe genial que parece lembrar: não se enganem com o tecnicolor, vocês estão vendo autêntico cinema “noir”!!. Os créditos iniciais -sóbrios, pouco legíveis, poluídos- alinham-se na mesma tônica. Um ensaio brilhante de cinema, com uma temática batida abordada de modo original.

         O policial -Somerset- é  solitário, lacônico, descrente do mundo que considera perdido. Uma espécie de filósofo-detetive a quem o convívio com o sangue e a podridão humana fez-lhe aprofundar nas raízes verdadeiras do mal. Contra elas -crimes e atrocidades- não servem as soluções técnicas, o confronto espetacular “padrão Swat”, mas apenas uma virtude que caiu no esquecimento pela falta de uso. “O amor requer esforço e trabalho” e o mundo não está preparado para isso. Mais fácil é abandonar-se à droga, ao crime, à prostituição, à safadeza.

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ROB ROY

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(Rob Roy) Diretor: Michael Caton-Jones. Liam Neeson, Jessica Lange, John Hurt, Tim Roth. USA-Escócia, 1995. 139 min

Escócia, século XVIII, é o ambiente para situar este filme, inspirado num romance de Walter Scott -arauto do romantismo inglês, um romantismo com sabor sempre medieval- que focaliza as lutas entre os nobres da corte e os clãs tradicionais da Escócia. Uma variante tardia de feudalismo, já que na verdade o filme é histórico, até épico poderíamos chamá-lo a não ser pela ausência dos milhares de figurantes, ingrediente necessário nessas superproduções hollywoodianas dos anos 50 e 60.

         Rob Roy, é Robert McGregor, chefe do clã McGregor em luta contra os capangas -por sinal, capangas de peruca, finíssimos e perfumados, mas verdadeiramente malvados- que lhe roubaram seu dinheiro, e tratam seu povo de modo arbitrário. Rob Roy é todo ele um canto à honra, uma versão escocesa, com saia incluída, de “El Cid”. Seu maior argumento de credibilidade, suas credenciais são, nem mais nem menos, a “palavra de cavalheiro”. A honra, que “é um presente que o homem se dá a si mesmo”, seu ideal de vida, correndo parelho com os satélites necessários do cavalheiro: a fidelidade, a verdade, o amor incondicional à mulher que adora.

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UM NOVO HOMEM

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UM NOVO HOMEM (Renaissance Man)  Diretora: Penny Marshall. Danny DeVito, Gregory Hines, James Remar. USA 1995. 138 min

Os filmes de professores voltam à moda, ou melhor, nunca passaram dela. É natural; o poder de cultivar seres humanos é uma das maiores paixões que alguém pode ter na vida. Comunicar o próprio interior, extrair do aluno potencialidades ocultas fazendo-lhe dar o que de melhor tem. Esculpir personalidades, moldar temperamentos: um trabalho de ourives que requer paciência, empenho, arte e muita doação.

            “Um novo homem” é um filme-professor, sem poesia nenhuma. Não tem o romantismo de Adeus Mr. Chips,  nem as doçuras de Ao Mestre com carinho, nem a força dramática de Mr Holland: adorável professor . É uma versão “arroz com feijão” de filme-professor, um retrato do prosaico. Por isso é apresentado em moldes de comédia, abrindo espaço para a caricatura e para o grotesco. Mas o humor não tem porque estar brigado com os valores humanos de fundo, e as comédias, quando de bom gosto -produto cada vez mais difícil de encontrar- são ingrediente importante para ressaltar as qualidades humanas.

            Bill Rego, o nosso professor, é um publicitário cinquentão que, da noite para a manhã, encontra-se desempregado. Competente e com Master universitário não se pode dar ao luxo de escolher o emprego que gostaria. Assim deve aceitar o que vier; e o que vem, através de uma agência, é dar aulas no exército. Um programa experimental que inclui 8 recrutas dos menos favorecidos intelectualmente -os casos difíceis- para um curso intensivo de 6 semanas. Aulas do quê? Tanto faz; em princípio de humanidades, pois, afinal, trata-se de fazer os alunos pensar com a esperança de que à melhora do raciocínio se siga um desempenho castrense aceitável.

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EM NOME DO PAI: A contundente força da Integridade

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(The name of the father) Diretor: Jim Sherridan. Daniel Day-Lewis, Pete Postlethwaite, Emma Thompson. USA 1993. 132 min

A questão da Irlanda do Norte, tema que vem ocupando as páginas da imprensa nas últimas décadas, com maior ou menor destaque, mas sempre presente, é o cenário deste filme. O tema é tratado tomando ocasião de uma acusação injusta feita contra 4 pessoas, supostamente culpados de um atentado praticado pelo IRA. O filme corre com lentidão – porque chega ao detalhe e não por faltar-lhe força-, mas mantém a tensão em todo momento e prende o espectador. É todo ele uma rica descrição do processo e da prisão dos acusados, entremeados com injustiça, violência e situações onde se alterna a degradação com a mais alta categoria humana e a capacidade de perdão.

O diretor, Jim Sherridan, é irlandês até o último fio de cabelo e, como fez em

Meu Pé Esquerdo, sabe destacar com relevo os valores, aparentemente cinzentos, de um pai de família (no filme anterior era a mãe) que se destaca como um gigante no meio da mediocridade, dos rancores e das paixões mais baixas. Daniel Day Lewis, um ator que já provou ser capaz de representar qualquer papel, tem um desempenho notável como protagonista. Emma Thompson, comedida, com grande classe num papel que lhe cabe sob medida. Uma figura Shakespeariana, neoclássica, no meio das agitações revolucionárias. E Pete Postlethwaite, que encarna o pai, é o destaque interpretativo, e a condensação de valores que o filme nos mostra. Atrás do que poderia parecer pusilanimidade e covardia, encerra-se a fortaleza e a honestidade de um homem íntegro.

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FORREST GUMP -O CONTADOR DE HISTÓRIAS

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(Forrest Gump). Diretor: Robert Zemeckis. Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field. USA, l994. l40 min

A vida humana é um mosaico de paradoxos. Assistimos, neste final de século, a uma proliferação de aberrações, novo renascimento das paixões humanas de sempre, agora formatadas em linguagem atual e pajeadas pela multimídia.  Concomitantemente, o grito à procura da verdade, dos valores e da dignidade humana que encontra neles seu apoio consistente, ecoa de modo ininterrupto. O homem procura a verdade, o bem, a felicidade, no tempo  em que se sente envolvido pela sordidez do meio que ele mesmo criou.

             O cinema, que quando bom é vida, reflete esta procura; e também dá seus gritos de sobrevivência, reclamando para os homens valores mais altos. Atravessamos momentos carentes de simplicidade, de amor, de beleza e harmonia. E, vez por outra, nos chegam filmes como este que é todo ele um canto à simplicidade, uma apologia da virtude, de que fazer o bem compensa. A crítica, nem sempre justa, soube reconhecer a categoria de “Forrest Gump”, agraciando-o com os principais Oscar do ano. Na verdade, não há como não gostar deste filme. Gostar, todos gostam; explicar o atrativo requer algumas reflexões.

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UM SONHO DISTANTE

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(Far and away).  Diretor: Ron Howard. Tom Cruise, Nicole Kidman.  USA 1991 136 min.

As lembranças que todos guardamos da infância constituem uma peculiar cultura do ser humano. São pedaços de sabedoria, lições de vida, que o tempo e as circunstâncias se encarregam de desempoeirar no momento certo, tirar brilho e torná-las úteis. Lá estão elas, amontoadas em algum recanto imaterial da nossa memória, sem ocupar espaço nem fazer barulho. Certamente, quando lá foram colocadas, muitas delas contra a nossa vontade, não fazíamos ideia da utilidade que, passados os anos, teriam. Na verdade, as lembranças da infância mal se percebem, nebulosamente, nos primeiros anos de vida. É depois, durante a vida adulta quando adquirem sua verdadeira dimensão. Projetam-se em perspectivas que tinham passado despercebidas.

            As lembranças são fatos, coisas e, sobretudo, pessoas. Ou melhor, atitudes das pessoas. Pensava no Gerardo, amigo do meu avô, enquanto as cenas de “Um sonho distante” acudiam à minha cabeça. Colega de muitos anos, solteirão convicto, vinha nos visitar alguns fins de semana. Gerardo era um bom apreciador do vinho, do vinho fino, do “Jerez” como dizem na minha terra, e que, injustamente, os anglófonos encarregaram-se de divulgá-lo como “Sherry”. Jerez seco, semisseco, doce: cada um tinha o seu momento e os acompanhantes precisos. De tudo isto o Gerardo entendia, além de ser um papo excelente. Embrulhava as histórias em Jerez, ou o vinho em histórias, não sei; mas ambos os elementos caminhavam juntos. Gerardo bebia com moderação, pouco até, mas o fazia com gosto, saboreando, tirando partido de cada gole mínimo, reparando nas essências. Até nós, crianças, que tínhamos vedado o acesso a semelhantes requintes de adultos ficávamos entusiasmados e quase percebíamos no paladar o comentadíssimo sabor, com todos os seus epítetos e qualificações. Como se pode falar tanto de algo tão simples como é um vinho?

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TEMPOS DE GLORIA 

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(Glory) Diretor: Edward Zwick. Matthew Broderick, Denzel Washington, Morgan Freeman. USA 1989. 110 min

Mesmo os que –por gosto ou por profissão- guardamos uma certa intimidade com o cinema, não estamos livres das surpresas que os filmes nos trazem. Surpresas que vem em forma de ressonância afetiva que muda, com o tempo; talvez por que somos nós os que mudamos, e quando nos defrontamos com o mesmo filme, surgem temáticas diferentes, “insights”, porque nós já somos outros. Lembro de um livrinho que repousa na minha prateleira, com algumas conferências que o escritor Jorge Luis Borges pronunciou no final da vida. Numa delas –Borges Oral, chama-se o livro- o autor argentino diz que mesmo sendo cego continua a comprar livros e rodear-se da sua amável presença, porque necessita deles, dos livros. E –comenta abrindo a intimidade- que quando voltamos sobre o mesmo livro, passados os anos, parece que o livro mudou, como mudava o rio do filósofo Heráclito, que não  era o mesmo, por ser diferente a água que nele circulava, impedindo-nos de nos banhar duas vezes no mesmo e idêntico rio. Na verdade, diz Borges, somos nós os que mudamos, nós é que somos outros. 

Tempos de glória é um filme que exerce sobre mim um efeito similar ao que Borges descreve para os livros que lhe rodeiam. Encontro algumas anotações da primeira vez que vi este filme, sem suspeitar as surpresas que, com o passar dos anos, seriam provocadas pelos mesmos fotogramas. No seu dia o filme rendeu os seguintes comentários, que copio o textualmente dos meus arquivos. 

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MEU PÉ ESQUERDO: A virtude gigante de uma mãe.

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(My left foot). Diretor: Jim Sherridan. Daniel Day Lewis, Brenda Fricker, Ray McAnally.
Irlanda, 1989 102 min.

Este é o primeiro filme do diretor Irlandês Jim Sherridan, que tem sido recebido pela crítica com elogios, acumulado prêmios e agradado o público. Narra a vida de Christy Brown, um deficiente com paralisia cerebral, que se converte num pintor célebre usando a única parte do seu corpo sobre a qual tem domínio: o pé esquerdo. Esse mesmo é o título da autobiografia de Christy Brown (1932-1981), na qual se baseia o filme.

            Necessário é destacar a interpretação magnífica de Daniel Day Lewis, que ganhou Oscar de melhor ator. Encarna perfeitamente as limitações físicas da personagem, a personalidade -voluntariosa às vezes, com humor ácido outras- e o seu relacionamento com as pessoas que lhe rodeiam. Sherridan consegue criar um clima, recorrendo ao flash-back, que toca pela sua sensibilidade e delicadeza, embora retrate com crueza os momentos dramáticos.

            Mas por trás de Lewis, do deficiente, em paralelo corre a figura que enche a tela e dá suporte a todo o filme: a mãe de Christy Brown, um concentrado de valores maternos. O filme, com justiça, poderia ser julgado só deste ponto de vista: uma apologia da mãe de família. Brenda Fricker a torna real, em interpretação maravilhosa, cálida, de mãe irlandesa, de família operária, com 22 filhos -conforme consta nas memórias de Christy, embora no filme não seja explícito- dos quais sobreviveram 18. Christy era o décimo.

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O Dom da Fúria: Construindo a harmonia familiar

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(The Great Santini) Diretor: Lewis John Carlino. Robert Duvall, Blythe Dayner, Michael Olkeefe,
Stan Shaw. 116 min. USA 1979.

Um guerreiro sem guerra, é a frase que pode ler-se embaixo do título deste filme. Um fuzileiro naval, excelente piloto de caça, coronel de disciplina rigorosa, que precisa da guerra como do ar para respirar. Como é sua vida em tempo de paz? Como a vida de qualquer um: cheia de trivialidades, rodeado da família,  da qual faz uma extensão do quartel, governando o lar com espírito militar. Um filme aparentemente sem pretensões e que por não tratar de nada importante, toca com acerto os temas de maior transcendência na vida de um homem: a educação, a família, o amor.

            O recado do filme é claro e de importância singular. Em toda a família existem desavenças, atritos, brigas; até algum que outro grito e, por vezes, chega-se às vias de fato, com a consequente humilhação de quem ultrapassou os limites, deixando-se levar por reações temperamentais. Mas por cima disso a unidade familiar, o amor, a fidelidade persiste intocável, como ponto de referência certo. Uma família sem problemas é algo irreal; lá onde os seres humanos convivem existem diferenças, tensões  geradas pelas limitações de cada um, pela variedade dos pontos de vista. Mas gritos e brigas não passam de episódios corriqueiros, coisas de ordinária administração quando, no fundo, permanece intacto o amor, a fidelidade, a consciência de um ideal realizado em família. Um amor que se manifesta nas cartas de uma mãe que parece uma namorada, no presente do pai guardado por 18 anos, nos detalhes diários, nas pequenas coisas que são o tempero do carinho familiar.

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