Javier Moro: “Flor da Pele”.

Pablo González Blasco Livros Leave a Comment

Javier Moro: “Flor da Pele”. Ed. Planeta do Brasil. São Paulo. 2016. 433 págs.

O livro escolhido para a Tertúlia Literária, sugestão de algum dos nossos professores, veio a calhar para os momentos que estamos vivendo nestes já quase dois anos de pandemia. Com a sua maestria habitual, Javier Moro romanceia a história e nos apresenta a expedição comandada por dois médicos espanhóis no início do século XIX, para levar a vacina da varíola até América.  

E o primeiro aprendizado -dos muitos que se têm quando se frequenta a História- é que eu, sendo espanhol, nunca tinha ouvido falar desta aventura, quase uma epopeia. A mesma ignorância sobre o tema apontou a minha irmã, professora de filosofia em Madrid, mulher culta e estudada, que participou da nossa tertúlia. Como ela mesma comentou, o reinado de Carlos IV, que de algum modo patrocinou a expedição, é conhecido pelos desastres na História de Espanha: a invasão Napoleónica, as tramoias de Godoy, primeiro ministro que pactuou com os franceses, e outras trapalhadas. Somente se salva Goya com os seus quadros magníficos…. E agora, também, a expedição da vacina para América!

Voltando ao livro que nos ocupa, Moro faz a abertura na Galícia, terra de Isabel Zendal -a protagonista absoluta do livro- onde naquela época se comentava que “cada criança que nasce não é uma boca que come, mas dois braços que trabalham”. Corre o ano 1788, no meio da pobreza, do frio e da analfabetização, da qual Isabel escapa por milagre. “Entre os pobres existia a aceitação tácita de que o destino não era algo que se escolhia. Ele se impunha, na maioria das vezes de um jeito ruim, em outras para o bem. Sempre de forma inelutável (…) naquela época passava-se frio em todos os lugares — nas casas ricas, por avareza; nas pobres, por miséria”

A varíola vai cobrando-se vítimas por dezenas. Nunca se sabe quem vai escapar da doença, recuperando-se; e quem vai sucumbir. As dúvidas científicas misturam-se com lendas e com a dimensão religiosa. “O doutor Posse havia visto centenas de rostos tão belos quanto o de María Josefa, ou mais, serem levados ao túmulo no mais espantoso estado de feiura. Havia visto criaturas inocentes apodrecerem com demasiada frequência. Para ele, a varíola era o mais tirano dos estragos, mas também sabia que nem todos os casos evoluíam da mesma maneira. Por isso, acendeu uma chama de esperança”. Mesmos os ricos não escapam dessa pandemia feroz: “O que ela fez para merecer tamanho castigo? — Nada — respondeu o médico. — A doença não é um mal enviado por Deus contra os homens por causa de seus pecados. Deixemos esse discurso para os curas”. E, os que se recuperam, não é sem cicatrizes e marcas, como aquela aristocrata que acolheu Isabel e que “não chorava pela emoção de continuar viva, chorava pela beleza perdida”. 

Isabel, a protagonista e fio condutor desta aventura histórica, é enganada por um sujeito leviano que “falava em primeira pessoa quando os espanhóis venciam, mas na terceira quando eram derrotados”, e depois acolhida num lar abastado, dando curso a sua carreira como enfermeira e cuidadora. Uma profissão que, formalmente, não existia. Esta mulher “era dócil ao acatar as instruções, mas quando se tratava de crianças tinha um gênio intransponível, herdado da mãe, e atuava conforme os mandos de sua consciência (..) De vez em quando, sentia falta da comodidade e da vida plácida na casa dos Hijosa. Mas ruminava pouco acerca de seu destino — era a vantagem de não ter tempo para si mesma”. Quando aceita embarcar na aventura americana da vacina, “a torneira queria que Isabel levasse para si um enxoval. — Tenho certeza de que você encontrará um marido na América. — Que homem vai querer uma mulher com vinte e duas crianças para cuidar? — Você não conhece os homens — respondeu a mulher. Isabel estava percebendo que aquela expedição, mais que um desafio físico, seria uma constante provação afetiva”

Mulher com as mãos

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

A convocação de Isabel é feita pelo Dr. Balmis, o chefe supremo da expedição, o cientista visionário para quem Isabel “era uma mistura de babá, tutora e enfermeira, de mãe e general, doce e rígida, tudo isso coroado pelo mistério de sua vida passada. Achava-a ao mesmo tempo previsível e surpreendente”. 

Balmis, o outro ator principal, é o contraponto de Isabel. Um médico que vivia num mundo sem espaço para os afetos: “Sua certeza de que a expedição redundaria em benefícios para a humanidade não deixava brechas para que pensasse em um caso individual.  Balmis era um idealista que vivia por e para aquela expedição pioneira e descartava automaticamente tudo o que não a beneficiasse. Não era homem de sentimentalismos; estava tão convencido do sucesso de sua missão que, sem muita reflexão, afastava qualquer pedra no caminho. Que importância tinha o sentimento de pais com saudades do filho para o resto da vida se comparados à grandeza de propagar a vacina pelo mundo? Ser um filantropo acarretava certa arrogância — não era para os fracos (…) Balmis gostava dos prostíbulos porque eram lugares para amar a si mesmo, para se fazer um mimo, não para amar os outros. Sabia Balmis amar aos outros, os mais próximos? 

Continua Javier Moro com a descrição precisa do médico visionário: “Era um grande homem, com reações por vezes mesquinhas. Não havia dúvidas de que era um grande líder com uma enorme capacidade de trabalho e organização, um excelente médico, um valente que nada nem ninguém amedrontava, um entusiasta, um idealista capaz de dar a vida pelos outros.  Mas um homem tosco na hora de lidar com os sentimentos das pessoas e com os próprios. Não ama as pessoas pelo que são, mas pelo que têm para contribuir”. 

O médico ajudante de Balmis, é um catalão: Salvany, que “era um idealista puro, como Balmis, mas com a diferença de que era generoso com seu tempo e sua pessoa. Balmis era respeitado; Salvany era querido”.  Um médico competente e poeta, um artista que confere um toque romântico a toda esta aventura, e que arrasta a sua missão junto com uma doença crônica. Era “paciente e médico a uma só vez, impossibilitado de levar uma vida normal, e apegou-se à convicção de que a entrega aos demais, aos desfavorecidos, era a única coisa pela qual valia a pena viver. As mulheres de sua condição, as mais sedutoras, pensaram que ele tinha vocação para servir a Deus e que logo acabaria em um convento. Mas Salvany não tinha outra paixão além da medicina. Sempre fica algo do bem que fazemos. Do resto, não fica nada.”

Isabel entende-se perfeitamente com Salvany, que lhe é próximo no afeto. “Havia tratado-a com bondade e interesse. Havia lhe dado calor humano, ternura, tempo e atenção. E a felicidade se aprecia quando é perdida”. Um homem singular e delicado, “seu compromisso estava onde estava seu coração, e seu coração estava com eles e com a expedição. Entre o dever e a felicidade, sempre escolhia o dever — era algo entranhado no fundo de seu ser”. Injustiçado por Balmis, que tudo sacrificava à missão, enfrenta o desafio da expedição com saúde precária. E confessa: “No fundo, eu não quis me informar melhor porque isso significaria acabar com a última de minhas esperanças de cura. Às vezes nos deixamos enganar por nossas próprias fantasias. Eu mal sabia o que era calor antes de chegar aqui”. 

Atores secundários aparecem aqui e acolá ao longo das mais de 400 páginas. Os missionários que despertam a admiração de Isabel: “Aquele padre era o mais próximo de um santo que Isabel já havia conhecido. Como devia ser difícil a santidade! Eles, os expedicionários, tão orgulhosos de sua dedicação para salvar o mundo, deparavam com homens muito mais entregues, de uma humildade admirável, que, com baixíssimo orçamento, levavam a cabo uma tarefa elogiável. Sentir o reconhecimento pelo trabalho bem-feito deixava-os em estado de glória”. 

Nesta altura do romance histórico, e da própria conversa na tertúlia, surge a dúvida tão atual -porque, afinal, é uma dúvida humana de raiz. Quem é o bom, quem é o mau? Quem tem razão no seu modo de encarar esta expedição científica, complexa, inédita? Balmis, o cientista duro, aquele que sacrifica tudo aos resultados? Isabel, que se governa pela tónica do carinho maternal, do cuidado de cada uma das crianças que lhe é confiada? Salvany, que injeta sonho e poesia -uma versão do médico humanista- para tornar a ciência palatável? O que é mais importante afinal, os resultados coletivos ou os casos individuais? É possível renunciar aos objetivos claros, cientificos por conta dos detalhes individuais? Onde nos levaria uma atuação científica que se perdesse nesses detalhes, tentando satisfazer a todos, mas sem alcançar o impacto desejado nos resultados científicos? 

A resposta não é simples porque a vida é complicada em si. Os comentários da tertúlia foram alinhavando uma possível saída para este dilema. Talvez o líder seja aquele que, reconhecendo os talentos dos que carece, busca ajuda em colaboradores que os possuem. O necessário equilíbrio da ciência pura, incarnada em Balmis, com a personalização no momento de cuidar da pessoa, que lhe chega através de Isabel. Salvany é também o resultado desse balanceamento difícil, e por isso se constitui numa figura singular e exemplar. Não há bons e maus, mocinhos e bandidos. Há um comando que tem de saber incorporar os colaboradores certos, buscar a interface da ciência -que tem de defender- com a pessoa que receberá seus benefícios. Essa é a verdadeira arte do líder: reconhecer suas limitações, escolher os colaboradores que lhe ajudem a superá-las. Embora, como se vê nesta narrativa, não é fácil, porque somos humanos, e o orgulho sempre está de per meio em qualquer relacionamento. E atrapalha. 

Resolvidos os maniqueísmos aparentes -os bons e os maus- sobra, no entanto, um grupo de personagens que, sem serem maus intrinsicamente, são basicamente complicadores da situação: os políticos! E, novamente, o escritor espanhol nos oferece uma fotografia que, “remasterizada” seria um perfeito retrato da situação mundial que temos vivido nestes meses de pandemia….no século XXI. Aponta Javier Moro: “Aquilo era Madri, a capital de um império onde reinava o despotismo ministerial e a corrupção, onde tudo desmoronava, exceto os preconceitos, a soberba e a inveja. Eram sempre eles (os políticos) que se opunham às inovações”. Não são de melhor naipe, os seus colegas das colônias: “Não eram movidos pela cobiça, mas pelo egoísmo, pelo desejo de serem os primeiros a se proteger, eles e seus conhecidos, passando por cima das normas estipuladas pelo Protomedicato da Espanha. Eles não vêm para governar, mas para roubar”. E conclui: “Os piores inimigos não são os franceses nem os ingleses nem nenhum dos que encontramos nos campos de batalha, mas os inimigos internos, os que não vemos, embora estejam ao nosso redor, fazendo reverência para, então, nos apunhalar pelas costas”. Enfim, são os aproveitadores políticos, aqueles que nos momentos da ciência incerta, oneram com medidas absurdas a boa vontade e a dedicação dos que pretendem melhorar o mundo. Sobram comentários, qualquer semelhança não é mera coincidência. Mais um ensinamento de frequentar a História. 

Aí está, engrandecida, Isabel Zendal, a galega que os espanhóis mal conhecemos, a mulher que se debate “entre sua lealdade à expedição e sua vontade de se desligar do último trecho da viagem e ficou entre o dever e o amor pelo filho. Entre sua vocação de cuidar dos outros, sua paixão por vacinar e prevenir doenças e a necessidade de levar uma vida normal. Entre o dever e o desejo, havia um abismo que não sabia como transpor. Rebelar-se e bater pé diante de Balmis ia contra seu temperamento; em Cuba, fracassara. Mulher de seu tempo, sabia se posicionar com firmeza. Mas não cabia nela a rebeldia —O tempo era uma onda gigantesca que arrasava tudo, a saúde, o amor, e agora varria suas últimas ilusões”. 

Os aprendizados da história -facilitados pelos golpes que uma nova pandemia nos proporciona- desperta a memória dos espanhóis e a justiça com esta mulher. A Comunidade de Madrid, acaba de construir um Hospital que leva seu nome, e que ficará instalado – não é um hospital de campanha – para o combate às futuras pandemias. Um legado para a posteridade que nem a jovem enfermeira, nem os médicos que a acompanharam, poderiam nunca ter sonhado. Mais uma vez, somos nós, quando mergulhamos na História, os que saímos beneficiados. 

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