Maurice Leblanc: “Arsène Lupin. Ladrão de Casaca”

Pablo González Blasco Livros Leave a Comment

Maurice Leblanc: “Arsène Lupin. Ladrão de Casaca”Nova Fronteira, São Paulo, 1976. 170 págs.

Alavancado pela ótima série de Netflix, inspirada nas aventuras do ladrão e elegante cavalheiro  –gentleman et  cambrioleur– , agendamos para a tertúlia literária mensal a primeira entrega de Maurice Leblanc, onde nos apresenta Arsène Lupin. O prefácio do livro, situa-nos no contexto: “Vivo, audacioso, impertinente, desafiando sem cessar o comissário (que aqui se chama Inspetor Ganimard), arrastando corações atrás de si e pondo os que riem do seu lado, zombando das posições conquistadas, ridicularizando os burgueses, socorrendo os fracos (….) Arsène Lupin, cavalheiro furtador, é um Robin Hood da Belle Époque.  Um Robin bem francês: não se leva muito a sério; suas armas mais mortíferas são as do engenho; não é um aristocrata que vive como anarquista, mas um anarquista que vive como um aristocrata; nunca é solene, sempre brincalhão; não dá o coração à mulher de sua vida, mas às mulheres de suas vidas”. 

Essa descontração do protagonista, que deixa em segundo plano até as consequências morais dos seus furtos -que nunca são propriamente crimes, mas sempre brincadeiras para acordar os interlocutores- surgiu como um destaque nas nossas conversas de pensadores. Excepcionalmente, por internet, porque no momento que vivemos, é a única maneira de montar uma tertúlia. Lembro de alguém falar: “Vendo o protagonista, pensei que eu também quero bom humor, e gratidão. Não levar-me tão a sério, que não vale a pena. Sem polarizações, sem ódios que dividem, que é o nosso quotidiano destes momentos. Levamo-nos, infelizmente, muito a sério. Um desperdiço”. 

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Rifkin’s Festival.Woody Allen, as saudades do bom cinema…. e da transcendência

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Diretor Woody AllenWallace Shawn, Gina Gershon, Elena AnayaSergi López,  Enrique ArceChristoph Waltz. USA- Espanha, 2020. 92 min

Já ouvi -talvez li- em algum lugar, que os filmes de Woody Allen são como o aniversário da avó. Chega todo ano, o bolo enfeitado com a marca registrada. Pode ser melhor ou pior, mas é garantido. E, nesta altura do campeonato, quando o nosso judeu do Brooklin de classe média (ele que diz isso, não eu) já chegou aos 85, não seria elegante faltar nesse aniversário. 

De modo que, todo ano, estamos lá na expectativa. E, convenhamos, por pior que seja o bolo, o confeiteiro tem muitas horas de voo, de modo que algo mediano por parte dele, vale o tempo a ser investido. Que aliás, nunca é muito, nada de grandes super produções -banquetes pantagruélicos…..Com a idade, é preciso comer menos, talvez de jeito mais sofisticado. Como dizia um amigo -e bem poderia tê-lo dito o próprio Woody- após uma certa idade, só com olhar para a comida, já engordas….Embora, concluía -meu amigo, não Allen- que, sendo honesto, a gente não somente olha…..mas come mesmo. 

A outra ideia que sempre está presente -no aniversário fílmico de Woody- é que as personagens são sempre… ele. Um alter ego completo. Isso sim, parece-me lembrar que foi ele quem disse como resposta a esse interrogante que é evidente. “Woody, mas as personagens parecem-se com você. Por que colocar outro atores?” – Ele desconversou -alter ego, é quase assunto freudiano, também do gosto do diretor- e saiu pela tangente: “ Não tenho já idade para interpretar todas as personagens que estão na minha cabeça”. Creio ter comentado isso, naquele filme que me impactou, Meia Noite em Paris, onde quis fazer as pazes -render quase um tributo- ao baixinho. 

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C. S. Lewis: “Cartas de um diabo a seu aprendiz”

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Thomas Nelson Brasil. Rio de Janeiro. 2017. 150 págs.

Leituras na Pandemia – 13

Ler C.S. Lewis é sempre um desafio. O contundente bom senso, permeado de fino humor britânico e de toneladas de cultura, requerem tempo para a digestão. A dificuldade não está nas ideias que o professor de Oxford coloca, mas na assimilação parcimoniosa, na degustação dos conceitos. Não se pode ler em diagonal, para ver “do que vai o assunto” porque o mais provável é perder o gosto que produz o elegante raciocínio. É preciso estar alerta para as subtilezas, porque Lewis é accessível mas não é simples. Foi isso que se percebeu no início da nossa tertúlia literária do mês: uma mistura de desconcerto e de surpresa.

As tais cartas do demônio sênior ao aprendiz, tem como pano de fundo o processo de conversão do próprio Lewis; daí que dedique o livro ao seu amigo -que foi instrumento nessa trajetória religiosa- J.R.R. Tolkien. As dúvidas que lhe cercaram e que teve de superar são a base do “coaching” do demônio velho para o novo. Por isso, os argumentos, quando saboreados, tem pegada, chegam fundo a cada um de nós que somos, “os pacientes” do tal demônio. O importante, diz o velho demônio, são os resultados, chegar lá, não importa os meios: “Você logo descobrirá que a justiça do Inferno é puramente realista e preocupa-se tão somente com os resultados. Traga-nos comida ou você mesmo virará nossa comida”. Qualquer meio está valendo se conseguimos “conquistar o paciente” para nossa causa: “Os demônios ficam igualmente satisfeitos com ambos os erros e saúdam um materialista ou um bruxo com o mesmo prazer”.

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O Anel de Giges: Um dilema ético sempre atual

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Eduardo Giannetti: “ O Anel de Giges”. Companhia das Letras São Paulo 2020. 313 págs.

Joaquin García- Huidobro: “El anillo de Giges. Una introducción a la tradición central de la ética”.  Ed Notas Universitarias. México. 2019. E- Book. 519 pgs

Por essas coincidências da vida, tropecei, em menos de um ano, três vezes com o anel de Giges e os desafios da ética.  Na verdade não foi com o anel -o que me colocaria numa saia justa- mas com a história relatada na República do Platão: Giges, um pastor, encontra um anel que o torna invisível. E daí, como ninguém o vê, apronta todas…

A primeira vez foi no livro já comentado sobre a Ética da Razão Cordial, onde a autora se pergunta: Continuas sendo justo quando ninguém te vê, quando tua debilidade não está exposta?

Pouco depois, apareceu em cima da mesa do meu consultório o livro de Gianetti. Um amigo, que tinha ouvido no rádio o comentário,  decidiu me dar de presente. Retoma-se a fábula: “Imagine um anel que faculte ao seu dono o privilégio de ficar invisível ao olhar alheio: ao simples girar do engaste no dedo a pessoa desaparece e, ao retorná-lo à posição normal, ela volta a ficar visível aos olhos de todos. O anel de Giges é o salvo-conduto da invisibilidade: transparência física, nudez moral (…) O anel da invisibilidade atiçou a fera da ambição desmedida e tornou visível o sonho de glória, preeminência e poder adormecido na alma do humilde pastor”.

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O Último Lance: Educação Estética num mundo digital

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Tuntematon mestari (The last deal). Diretor: Klaus Härö.  Heikki.NousiainenAmos BrotherusStefan SaukPirjo LonkaHenrikki Haavisto. 95 minutos. 2018.

O artista anônimo. Essa é a tradução correta do título original deste pequeno grande filme. O nome em português – O último lance– segue o pragmatismo americano, as regras do IMDB, base em inglês de todas as produções (One last deal). Felizmente a recomendação chegou-me através de uma crítica espanhola onde, lá sim, estamparam o nome original;  no filme, e no quadro em questão, o imã que aglutina todos os fotogramas, de autoria anônima.

Foi lá também que soube da qualidade impar do protagonista, o velho Olavi, um dos atores consagrados do teatro finlandês. Ele, sua filha Lea, o neto Otto, são o triângulo sobre o qual o diretor finlandês Klaus Härö, monta esta peça encantadora: se não uma sinfonia, sem dúvida um magnífico minueto.

Confesso que a minha curiosidade -por não dizer entusiasmo- já estava em alta e à procura da fita, quando vi o nome do diretor, e lembrei da maravilhosa produção -outra miniatura fascinante- que assisti alguns anos atrás. Aquele filme do professor de esgrima, que é um canto enorme à educação (O Esgrimista).

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Rafael Ruiz: “Intolerância”

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Até me cruzar com este livro, sempre pensei que a intolerância era a minha atitude habitual com a academia nas últimas décadas, uma espécie de mania não superada.  Não foram poucas as vezes que os meus colaboradores, antes de iniciar uma conferência, me advertiam: “Por favor, professor… Não fale mal da Universidade. Os alunos se assustam e não resolve”. Não sei se melhorei -pelo menos não me fizeram mais correções- mas certamente não mudou o meu modo de pensar.

Lembro de certa ocasião, a propósito do pequeno-grande livro de Ortega sobre A Missão da Universidade (escrito em 1920), que emprestei a um jovem médico. Leu, me devolveu e comentou: “Impactante. Vou pedir meu dinheiro de volta”. Não deve ter recebido nenhum reembolso, mas acabamos escrevendo um artigo juntos, para registar o fato.

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Joel Dicker: “O enigma do Quarto 622”

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Ed. Intrínseca. São Paulo. 2021. E-Book. 680 págs.

Leituras na Pandemia – 12

Imagem de Enigma do quarto 622, o

Adentrar-se para comentar o livro é risco desnecessário. Tratando-se de um romance de ficção policial desvendaríamos o segredo, atuaríamos, como se diz hoje, ao modo de um perfeito spoiler. Poderia se pensar que a obra do autor suíço tem um corte clássico dos romances de suspense -de Agatha Christie até Simenon, passando por Conan Dolye e Maurice Leblanc- mas não é verdade. Do ponto de vista literário pareceu-me muito distante dos clássicos do gênero. O que não implica que deixe de  prender a atenção, enganche o leitor.

Aliás, foi assim que o livro entrou na pauta da nossa tertúlia literária. Tinha recebido a sugestão com uma mensagem que dizia, mais ou menos: “parece que foi o livro mais lido na França neste ano; não deve ser grande coisa, mas nestes tempos tumultuados, com nervos à flor de pele, a gente precisa relaxar de vez em quando, deixar as coisas excessivamente sérias”. Como a recomendação procedia de alguém que tem familiaridade com a cultura, aceitamos e disparamos o desafio. Não sem antes pensar que o que relaxa a alguns não é mesmo que funciona com outros. Há quem desfrute das amenidades sem mais, outros conseguem descansar em braços de pensamentos mais profundos, e da beleza.

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Meu Pai: Corrida para o Oscar? Um mergulho no profundo e desconcertante mundo da empatia

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The Father. Diretor: Florian Zeller. Anthony Hopkins, Olivia Colman, Rufus Sewell, Olivia Williams, Mark Gatiss, Imogen Poots.  97 min. UK 2020.

Meu Pai

O filme já vinha com fama e com ganas na corrida do Oscar, quando chegou nas minhas mãos. Escolhi o momento para assistir, com calma. Também a companhia, no ambiente médico em que me movimento. Apertei o play. Um cruzado de esquerda, desconcertante, inesperado. Estou ainda me recuperando, enquanto alinhavo estes pensamentos, desconexos, que brotam dentro de mim, como manancial que não quer parar.

Soube, por comentários de amigos, da força do filme. Atores formidáveis -uma dupla imensa, Anthony Hopkins & Olivia Colman- acompanhados por coadjuvantes de enorme talha. Toda a força do teatro britânico -pois esse é o formato, teatro da melhor qualidade- posto em cena. Embora a encenação teatral implicaria outros desafios que me poupo de comentar para não tirar impacto ao filme. Sem amostras grátis, nem degustações de spoiler. Também pareceu-me escutar que o escritor do roteiro colocou como condição sine qua non, contar com o Anthony Hopkins no papel principal. Dai o nome utilizado no filme e a data de nascimento da personagem, que é a do próprio Hopkins.

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Lucia Berlin. “Manual da Faxineira”.

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Lucia Berlin. “Manual da Faxineira”. Companhia das Letras, São Paulo, 2015. 460 págs.

Leituras na Pandemia 11

Eis um livro singular, protagonista da nossa tertúlia literária mensal. Prosa clara, afiada, expressiva, que a autora faz gotejar em contos. Com uma tradução magnífica, pois conserva o estilo de Lucia Berlin “in natura”. É de se agradecer, porque o impacto do livro não é apenas o que se conta mas a forma peculiar da narrativa. Todo um estilo que impregna estes contos e que sugiro sejam lidos aos poucos, doses homeopáticas, dois ou três no máximo por dia. Com tempo para degustar.

Vale incluir um dos comentários que se recolhe no prefácio do livro, pela sua agudeza e precisão. “Os contos de Lucia Berlin são elétricos, zumbem e estalam quando seus fios vivos se tocam. E, em resposta, também a cabeça do leitor, seduzida, fascinada, ganha vida, com todas as sinapses disparando. É assim que gostamos de ficar quando estamos lendo — usando nosso cérebro, sentindo nosso coração bater”. Como Berlin mesmo diz, “a maioria dos escritores usa acessórios e cenários retirados de sua própria vida” pois de fato, ela escreve sobre uma mulher que tem quatro filhos e empregos como os que ela teve — de faxineira, enfermeira do setor de emergência, secretária de uma ala hospitalar, telefonista de um hospital, professora. Por isso diz: “Eu exagero muito e misturo ficção com realidade, mas nunca chego de fato a mentir”.

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