DUMBO- Celebrando a diversidade e tirando o melhor das pessoas.

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Dumbo. Diretor: Tim Burton. Colin Farrell, Michael Keaton, Danny DeVito, Eva Green, Alan Arkin, Nico Parker, Finley Hobbins, Deobia Oparei. 111 min. USA, 2019.

Como já comentei neste espaço, descobri em mim mesmo uma peculiar sintonia com Tim Burton. Demoraram alguns anos, salpicados de surpresas por vezes bizarras, mas -é preciso reconhecer- também de momentos inesquecíveis: As histórias do Peixe Grande, com um Albert Finney em estado de graça; o visual pictórico sedutor de Big Eyes, e finalmente O Lar das Crianças Peculiares ensinaram-me a olhar para este diretor singular com especial respeito. Burton chega agora com um filme que, conforme li em algum lugar, sempre quis fazer: Dumbo. Parece que também ele, como o elefante voador, sente-se de algum modo “carta fora do baralho”.

O tema é conhecido graças à história que Disney contou-nos há muitas décadas. Naquela época, as crianças chegávamos facilmente às lágrimas vendo as desventuras do pequeno elefante rejeitado, e saíamos do cinema com um impagável bom sabor de boca, vendo ele remontar às alturas, triunfando em final feliz. Mas, nem as crianças -nem os adultos pelo que me recordo- tiravam outras consequências dessa amável fábula, vertida em desenhos animados.

No contexto burtoniano, a história reveste-se de recados profundos, de alto impacto. Não são mais desenhos, mas pessoas reais,  um elenco escolhido a dedo, atores que se encaixam no papel sob medida. Desde o dono do circo (Danny DeVito) até o malvado (Michael Keaton), passando pela trapezista recolhida nas ruas de Paris que é uma garota de coração doce (Eva Green, quem diria). E Colin Farrell, herói e aleijado da primeira guerra, pai das crianças que, como Dumbo, também perderam a mãe. E toda uma trupe de sonhadores sem rumo, gente díspar, aberrações circenses, para fazer a corte ao elefante que, turbinado por efeitos especiais, não deixa em nenhum momento de parecer real. É o olhar de Dumbo, cuidado e magnificamente desenhado, o que o torna real. Como acontecia com King Kong -os olhos do gorila que injetam humanidade no primata!- o filme fetiche daquele diretor (Peter Jackson) que desde os sete anos sonhou com refazer a versão própria dos amores de King Kong.

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Svetlana Aleksiévitch.  “Vozes de  Tchernóbil. A história oral do desastre nuclear”.

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Svetlana Aleksiévitch.  “Vozes de  Tchernóbil. A história oral do desastre nuclear”. Companhia das Letras. São Paulo. 2016. 384 págs.

A narrativa poderosa e impactante da escritora prêmio Nobel da Bielorrússia, protagoniza a leitura mensal e as reflexões da Tertúlia Literária . Escreve o livro em 2005, 20 anos depois da catástrofe, após recolher testemunhos multivariados dos envolvidos no desastre nuclear, que alinhava de modo magnífico -um exemplo notável de história oral- dando voz aos que não têm, imprimindo relevo e colorido humano sobre um evento cinza. Svetlana é de fato uma escritora que humaniza a história,  e nos faz chegar até a alma das personagens.

Assim descreve seu trabalho de garimpo recolhido nesta obra. “Passaram-se mais de 20 anos da catástrofe, mas até hoje persegue-me a mesma pergunta: do que tenho de dar testemunho? Do passado, ou do futuro? É tão fácil cair na banalidade, na banalidade do horror”.

E explica que o foco são, como sempre nas suas obras, as pessoas e não apenas os fatos: “Este livro não trata de Tchernóbil, mas do mundo de Tchernóbil. Sobre o tema escreveram-se milhares de páginas. Eu dedico-me à história omitida, às pegadas do nosso passo pela terra e pelo tempo. Escrevo recolhendo o quotidiano dos sentimentos, das palavras, da vida diária da alma. A vida quotidiana de gente corrente. Aqui tudo é extraordinário: as pessoas e as circunstâncias elevaram esse povo a uma nova condição. Tchernóbil para eles não é uma metáfora, mas sua casa. O nome do meu pais, um pequeno território perdido na Europa, do qual o mundo nunca tinha ouvido falar, começou a ressoar em todas as línguas, converteu-se no laboratório diabólico de Tchernóbil, e nós, os bielorrussos, nos convertemos no povo de Tchernóbil. Escrevi durante muitos anos este livro. Quase vinte. Encontrei-me com trabalhadores, científicos, médicos, soldados, evacuados, residentes ilegais em zonas proibidas. Com as pessoas para as que Tchernóbil representa o principal conteúdo da suas vidas. Reflexionávamos juntos, tinham pressa, temiam não chegar a tempo, e ainda não sabiam que o preço do seu testemunho era a vida”.

Mas os fatos e os números não estão ausentes: “Antes de Tchernóbil por cada 100 mil habitantes de Bielorrússia se produziam cerca de 82 doenças oncológicas. Hoje chegam a 6 mil. Quer dizer, multiplicaram-se por 74” . Embora o que de fato a seduz são as personagens, seus entrevistados: “Tropecei com muita gente boa: uma auxiliar de idade foi me preparando: algumas doenças não se curam. Tens de sentar e acariciar a mão. As mucosas caiam em capas. Chagas que foram crescendo. Mas tudo nele era tão meu, tão querido”.

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Caminhos para a Criatividade

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Kevin Ashton: “How to fly a horse. The secret history of creation, invention and discovery”.  Anchor Books Edition. Penguin Random House. N York. 2015. 314 pgs.

Um amigo me emprestou este livro há alguns meses, mas teve de sofrer a quarentena necessária na estante, em função das pendências -sempre muitas, mais das que o tempo comporta. Coloquei-o  na mala de mão na hora de pegar um voo para Itália, onde tinha agendado compromissos acadêmicos, conferências e congressos, que os anfitriões denominaram “Il Giro Umanístico”. Acabei lendo aos trancos e barrancos durante o itinerário,  entre multidão de imprevistos e deslocamentos em trens,  onde a criatividade teve de ser necessariamente exercitada.

O contexto ajudou-me a perceber o grande recado deste livro: criatividade não é mágica, mas trabalho mesmo. Pegar no batente. O autor desmitifica o gênio criativo, e credita os resultados ao trabalho. Criação não é algo extraordinário, embora as vezes o sejam as consequências. Criar é humano e todos podemos fazê-lo. Pensar que somente os gênios criam, é falácia. O trabalho é mesmo a alma da criação. Levantar-se cedo, chegar tarde à casa, sacrificando lazer e por vezes férias , revisando e revendo, as rotinas diárias, sentar na frente do papel sem saber o que vamos escrever.

Um livro saturado de histórias a modo de exemplos de criação. Não histórias de gênios,  mas de gente trabalhadora e persistente. Na história da humanidade sempre houve criação, e registrou-se como algo normal. Mas apenas a partir do Renascimento é que se começou a conferir crédito aos “criadores”. Por isso, talvez, Gutemberg é mais conhecido do que o criador da roda, ou dos moinhos de vento que, convenhamos, tiveram um impacto pelo menos equivalente. Neste contexto, o autor recorda que a educação moderna enfatiza a importância que deve se dar à criatividade nas crianças, e neste ponto não perde a chance de lembrar desse grande educador –Ken Robinson– de quem já falamos neste espaço.

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Gustave Flaubert: “Madame Bovary”

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Gustave Flaubert: “Madame Bovary”. Unidad Editorial. Madrid 1999. 320 págs. (tradução de Carmen Martín Gaite).

Image result for Gustave Flaubert: “Madame Bovary”Por algum motivo que não alcanço a lembrar -talvez a sugestão de um dos participantes da Tertúlia Literária, associado ao contraste com a última personagem feminina comentada neste cenário (Joana D’Arc)- a leitura mensal nos leva até o obra de Flaubert. Clássica e polêmica na sua época, valeu-lhe processos e proibições por conta de um argumento que hoje não destoaria de uma sessão da tarde na TV.

Leio um exemplar da versão espanhola (comprada por 1 Euro numa rua de Madrid), ciente de ser uma boa tradução do original, por conta de uma escritora destacada. Não lidamos com um simples tradutor; mas com um literato vertendo ao seu idioma a prosa de Flaubert. Eu traduzo para o português, com inegáveis perdas de efeito e de elegância semântica.

A saga de Emma, que toma o nome do seu marido Charles Bovary é, no dizer dos participantes da tertúlia, um ensaio multicolorido sobre a insatisfação humana -nunca estamos bem com o que temos, o quintal do vizinho é sempre melhor. Para outros, com palavras de um comentador afamado, é mesmo um estudo sobre a estupidez humana, aquela que se decorre de não valorizar o que temos na mão, da falta de gratidão, que  leva a sucumbir aos espasmos dos desejos sem forma nem propósito.

Eis a radiografia da protagonista na prosa de Flaubert: “Emma, habituada ao sossego da vida, sentia-se atraída por contraste pelos aspectos turbulentos. Se gostava do mar, era pelas tempestades; e apreciava o verde do campo somente quando aparecia entre as ruínas. Precisava extrair das coisas uma espécie de proveito pessoal, e rejeitava por inútil tudo quanto não contribuía ao consumo fulminante do seu coração, e sendo como era de condição mais sentimental do que artística, preferia as emoções às paisagens (…) Com as leituras acontecia-lhe o mesmo que com os labores domésticos; mal começavam, amontoavam-se com outras dentro do armário. Pegava nelas, as deixava, começava uma nova”. Enquanto lia esta descrição da veleidade total de Emma, veio à memória aquela outra de Tess, a personagem do romance de Thomas Hardy:  “um vaso de emoções sem o conteúdo da experiência”. Quer dizer uma antena parabólica que capta toda e qualquer emoção no ambiente, mas é incapaz de processá-las.

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Bento XVI “O Último Testamento. Uma conversa com Peter Seewald”.

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Bento XVI “O Último Testamento. Uma conversa com Peter Seewald”. Planeta. São Paulo, 2017. 287 pgs.

Eis um belo livro, escrito em formato jornalístico de entrevista, que nos adentra no pensamento do Professor Ratzinger, hoje o Papa Emérito Bento XVI. Perguntas do jornalista alemão que é já um interlocutor consagrado do Papa por obras anteriores, e respostas de Bento XVI. As perguntas são acertadíssimas, o que me faz desconfiar que o papel do Papa Bento nesta obra vai além das respostas, tornando-se presente na mesma densidade das questões colocadas.

Peter Seewald centra o tema na Introdução. O Cardeal Ratzinger protegeu, como verdadeiro muro de contenção, a João Paulo II durante um quarto de século e por isso aguenta muitas pancadas. Sente como sua missão a tarefa de defender o cristianismo contra a reavaliação de valores também no âmbito argumentativo. Tudo isso foi definitivo para o seu pensamento, para toda sua obra. Por isso, já como  Bento XVI afirma com serenidade: “Quando um Papa recebe apenas aplausos o tempo todo, precisa se perguntar se fez algo de errado. Neste mundo a mensagem de Cristo é um escândalo.  O Papa sempre será sinal de contradição”.

Teólogo e professor, Ratzinger afirma que a Teologia é a reflexão sobre o que nos foi previamente dito, previamente pensado por Deus. E nesse esforço reflexivo é normal apalpar as próprias limitações: “Quando não compreendo algo, não é porque seja errado, mas porque sou pequeno demais para compreender”. Um estudioso, escritor prolífico, também no âmbito epistolar: conservam-se 30 mil cartas dele antes da sua nomeação como Bispo. Lembrei do Cardeal Newman -de quem também se guardam outras 30 mil cartas (fazia cópia da maioria delas, antes de enviá-las)- personagem que intuo é santo de especial devoção do Professor Ratzinger. Não à toa, Bento XVI deslocou-se até a Inglaterra para conduzir a beatificação de Newman pessoalmente.

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What the best college teachers do?

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Ken Bain: “What the best college teachers do”.

Havard University Press. Cambridge. Massachusetts. 2004. 207 pgs.

Eis um livro que marcou presença na minha formação como professor. Li muitos anos atrás, tive de voltar sobre ele recentemente, e reparei que deveria publicar -quer dizer, tornar públicas, que isso significa publicar- minhas reflexões para que, sendo o caso, outros possam aproveitar.

O livro recolhe as conclusões de vários estudos sobre professores considerados de excelência. Esse é o título e o propósito da obra. E atenta para as características comuns entre eles, que fazem com que assim sejam considerados. Quais são estas características?

Evidentemente esses professores têm conhecimento sobre o tema que ensinam, mas demonstram compromisso e provocam no aluno um desejo continuado de aprendizado. Quer dizer, são a largada do conhecimento -provocadores de um processo- e não apenas passam conteúdo. O ensino deve promover uma influência permanente e substancial no modo do aluno pensar, agir e sentir. Isto é muito mais do que aprender a matéria ou tirar boas notas.

Ao longo do livro existe uma ideia permanente: o professor está em função do aluno. O aluno é o motivo real da sua profissão. Por isso, mesmo que o professor não possua um curriculum extenso,  estuda e está informado sobre o que ocorre no meio cientifico de sua área. Mas vão por diante, são um exemplo permanente, diapasão de tonalidade no aprendizado: fazem intelectualmente, fisicamente e emocionalmente o que esperam de seus alunos. Os professores usam seu conhecimento para facilitar o aprendizado de outros, facilitam o acesso à informação e provocam os estudantes a pensar no assunto em questão.

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Mark Twain: “Joana D’ Arc”.

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Mark Twain: “Joana D’ Arc”. Record. Rio de Janeiro. 2001. 472 pgs

A tertúlia literária deste mês, leva-nos até Joana D’Arc, no magnífico retrato que dela faz Mark Twain.  O autor americano chegou a afirmar que este livro, o último que escreveu, era a sua melhor produção, mesmo não tendo agradado a todos. Talvez porque Twain, após profunda pesquisa, afeiçoou-se da personagem, até o ponto que o escritor incarna Louis de Conte, o escudeiro de Joana d’Arc, que foi companheiro na infância, e de sangue nobre. O resultado é agradável, encantador, transpira ingenuidade e clareza. Não é apenas um relato histórico frio, mas permita ao leitor envolver-se afetivamente,  a semelhança do próprio autor, que culmina num canto à heroína francesa.

O envolvimento afetivo, porém, não tira seriedade à investigação histórica, e Mark Twain faz questão de explicitá-lo: “Considero pouco razoável formar uma opinião quando não há suficientes provas para fundamentá-la. Criar uma pessoa desprovida de ossos poderia resultar de aspectos agradável, mas seria frágil, não se sustentaria em pé. A evidência é como o osso, o esqueleto, de uma opinião”.

O cenário situa-se no epílogo da Guerra dos Cem anos. Iniciada em 1337, prolongou-se ano após ano, até a Inglaterra submeter a França em Crécy.  Recuperou-se a França até a nova derrota em Poitiers. E finalmente, após nova recuperação, foi humilhada no desastre de Azincourt. Joana surge em 1429 com a missão clara de liberar Orleans do poderio inglês e conduzir o herdeiro da coroa francesa -o Delfim- para ser coroado em Reims.

As lembranças de Louis de Conte iniciam-se na infância, quando Joana, ainda criança, olvidava-se de si mesma e do perigo que corria, sempre em favor dos demais. “Nós o considerávamos normal nela, ninguém reparava nessa generosidade natural que aquela menina demostrava. Mas era indicação de um caráter definido e maduro que nós aceitávamos como algo já sabido”.

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La casa de Papel: a surpreendente imprevisibilidade do fator humano.

Gabriel Brandão Serie Leave a Comment

[:PT]Criada por: Alex Pina.  Úrsula CorberóItziar ItuñoÁlvaro Morte, Pedro Alonso, Alba Flores, Miguel Herrán, Jaime Lorente, Paco Tous, Darko Peric.

Já falei várias vezes,  aqui e em outras ocasiões: as séries são terreno onde não me manejo bem. Minha praia são filmes, garimpados, recomendados por referências confiáveis, e que têm começo, meio e fim. Talvez seja pelo meu viés educacional, uma lente que filtra os recados que o celuloide destila. Mas reconheço que fiz algumas exceções, e acabei bisbilhotando alguma série  e até escrevi sobre os aprendizados.

Desta vez foi por insistência de amigos, pacientes, conhecidos. “Como você não assistiu essa série? É espanhola. Muito original. Uns sujeitos que planejam um assalto à fábrica da moeda em Madrid!”. O apelo do cenário dos meus anos moços, acrescido da insistência, fizeram-me capitular. E lá fui eu ver o assalto-roubo do século… e me deparei com uma fenomenologia das variáveis do fator humano!

Entrar no argumento -o que nunca faço- é neste caso supérfluo. Porque a trama é transparente e facilmente resumível: um planejamento perfeito de um golpe de milhares de Euros….sem lesar ninguém. Não é propriamente roubo, mas produção independente, injeção de liquidez, por usar o eufemismo dos bancos europeus. Os diversos capítulos são um tutorial para chegar lá. Mas, e aqui está o núcleo que motiva estas linhas, o manual tem tudo previsto….salvo o funcionamento vital do ser humano!

O cérebro do golpe, conhecido como Professor, estuda com minúcia até os últimos detalhes, as variações técnicas possíveis, as reações protocolares da polícia e dos órgãos governamentais. Previsão inverossímil, que faz surgir em cena desde instrumentos sofisticados, até comportamentos que se articulam magnificamente, racionalmente, para despistar o adversário. Altíssima competência, anos matutando o golpe. Mas quando chegamos no fundo do ser humano, a surpresa nos espera na moita e nos recantos da consciência.

Talvez porque desconfia da imprevisibilidade desse fator humano, o Professor faz a gangue conviver durante meses. A desculpa é o planejamento técnico, mas na verdade é uma tentativa de expor cada um deles aos desafios que o convívio com os outros vai trazer. Como esses cursos de imersão que se fazem nas empresas, mas com jogo pesado. Uma tentativa para conhecer as reações, as fortalezas e debilidades, as prioridades e os desejos que cada um encerra, como fruto da própria história de vida. E, sem dúvida, fomentar o conhecimento próprio, que se consegue mediante a reflexão que avalia as respostas diante dos desafios. Uma variante do que corporativamente denominamos SWOT Análise, neste caso, de profundidade existencial.Leia mais

Leo Pessini: a Bioética da Amizade

Gabriel Brandão Não categorizado 1 Comment

No dia 24 de julho, a Ordem dos Ministros de Enfermos, os Camilianos, perdeu o Superior Geral em exercício. A Bioética brasileira perdeu uma das figuras mais proeminentes das últimas décadas. E eu perdi um grande amigo. Uma amizade de quase 40 anos, que teve início na década de 80, quando o padre Leocir Pessini iniciava sua caminhada como capelão do Hospital das Clínicas enquanto eu era um médico recém-formado. Brincávamos entre nós, os recém-graduados, que eu era o R1 (em referência ao primeiro ano de residência médica) e ele era o P1, porque acabava de se ordenar sacerdote.

Nos encontrávamos com frequência nos corredores do HC, na capela do décimo primeiro andar – que, por sinal, tinha pinturas de Fúlvio Pennacchi, que coincidentemente acabaria sendo meu paciente anos depois, até seus últimos momentos de vida. Vários colegas da minha turma ainda se lembram dos “pedidos de consulta” que fazíamos ao Pe. Leo para atender espiritualmente nossos pacientes ou conceder a Unção dos Enfermos. Junto com o entusiasmo por exercer a profissão, o hábito de chamar o capelão foi uma “moda que pegou” entre os jovens médicos. Muitas histórias emblemáticas acodem à memória. O paciente que melhorou depois da Unção e que alguém sugeriu ministrar a cada 12 horas… Ou aquele colega que professava um ateísmo formal e mandou chamar o capelão de madrugada, porque o paciente assim o desejava. Diante da expressão de surpresa da enfermeira, o médico explicou: “Sou ateu, sim, mas o paciente não tem nada a ver com isso”.

Poucos anos depois, o Pe. Leo ficou conhecido em todo o Brasil. O Presidente de República recém-eleito, Tancredo Neves, foi trasladado ao Hospital das Clínicas, onde acabaria falecendo semanas depois. Os telejornais acompanharam o longo desfecho da doença, as declarações dos médicos, as taxas diárias de leucócitos e, naturalmente, a figura daquele jovem capelão que atendia o Presidente e a família. Anos depois, num almoço, Leo comentou: “Eu tinha pouco mais de 30 anos e a situação caiu em minhas mãos. Fui várias vezes tomar lanche com D. Paulo Evaristo, que foi quem me ordenou sacerdote, para me aconselhar, pois a pressão da mídia era grande. Ele me disse: Leo, limite-se ao âmbito espiritual, não entre nas fofocas. Foi ótimo, porque teve até jornalista estrangeiro que me ofereceu bastante dinheiro para tirar umas fotos do Tancredo. Eu respondi: sou o capelão, não o fotógrafo. E tenho silêncio de ofício”. Penso que foi nesses momentos, na prolongada agonia de Tancredo, e nos desafios éticos, que o germe do gosto pela Bioética começou a deitar raízes em seu coração.

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