Higinio Marin: Teoría de la cordura y de los hábitos del corazón.

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Higinio Marin: Teoría de la cordura y de los hábitos del corazón. Pre-textos. Valencia (2010). 288 págs.

Um livro que estimula a pensar. Também levava tempo repousando na minha estante. Parece que nestes momento singulares que vivemos, onde a voz confinamento tem repercussões variadas -no meu caso, um impulso para a leitura- vai tirando o atraso dos livros acumulados. É verdade, que nunca completamente, porque sempre adquirimos mais livros dos que seremos capazes de ler. Faz parte da atmosfera dos bibliófilos; Borges dizia que mesmo cego continuava a comprar livros, porque precisava da sentir-se rodeado da sua presença.

Este livro dor professor espanhol,  mais do que uma teoria da cordura (vamos traduzir por sensatez, mesmo sabendo que é insuficiente) onde em cada capítulo aborda os distinto hábitos do coração, é um exercício filosófico do autor, e faz o leitor entrar em sintonia, ressonância, e acaba elaborando suas próprias ideias. Assim, longe de mim, a tentativa de oferecer um resumo do livro nestas linhas. São, sim, o produto da interação entre o que Marin escreve e o que eu me atrevo a pensar, no vácuo das suas considerações. Ler este livro implica uma experiência fenomenológica onde cada um poderá ir recolhendo a colheita das suas próprias conclusões.

Os capítulos, adverte, “não são fruto de uma eleição deliberada, mas dos pensamentos que tomavam corpo seguindo as classes e leituras de um professor de antropologia e das leituras que me guiavam nessa aventura, pouco ortodoxa, e nada obediente aos protocolos de investigação de publicações “de impacto”. As questões tratadas -diz Marin- se me impuseram pelo seu próprio impulso. É uma docência repleta de vitalismo, como se pode deduzir. 

O que faz possível uma certa visão do mundo que Tocqueville chama “hábitos do coração”? Tornar explícitos estes supostos -estas lentes- através das quais vemos e nos posicionamos no mundo. O coração -pensa ele,  Tocqueville- tem costumes que constituem o caráter emocional de uma nação. E acrescenta o autor, do qual traduzimos livremente para o português: “O que podemos ou não acreditar está regulado por aquilo que sentimos. Para poder acreditar no inacreditável, é preciso modificar os sentimentos em relação a isso. A afetividade é o lugar de onde certificamos a realidade. Esse vínculo entre o que sentimos e o que tem sentido podemos chamar cordura, aproveitando a ligação etimológica entre o sentido e a cordialidade, entre a realidade e o coração”

Por isso, “não ter coração é carecer do órgão de reconhecimento, não poder ser afetado pelo que acontece com os outros. É esquecer a condição que se comparte com os semelhantes vulneráveis , dependentes, mortais (…) Memoria, cordura, sensatez que se tece no tear da memória como Penélope, a esposa prudente que espera o retorno de Ulisses. Quem carece de memória e recordações, perde-se como os companheiros de Ulisses. O coração é também um critério de autenticidade (o que se diz ou se faz ‘de coração’) e de integridade. Não são atos isolados, mas uma disposição habitual”.

Fala-se da morte, e da importância da memória do coração: “Os segredos dos mortos, suas recordações,  são necessárias para entender-nos  a nós mesmos. Uma tradição é como um coro em que os vivos e os mortos nos completamos uns aos outros, alcançando o sentido do que dizemos. A perdida da vida dos mortos constitui a morte dos vivos- diz Santo Agostinho nas Confissões…”. Também a sepultura e o túmulo tem espaço nestes hábitos do coração. “Um esforço por domesticar a morte, para resgatar a memória. Uma cicatriz na terra e na memória(…) O modo de vida dos habitantes depende da classe de sepultura que damos aos defuntos. Nossas cidades carecem de habitantes pelo mesmo motivo que nossos mortos carecem de memória, lembrança e sepultura.  O preço que os mortos fazem pagar aos vivos que não guardam sua memória é deixá-los sem um lugar onde possam chamar-se habitantes: os mortos sem sepulturas e memória, deixam o mundo sem casas nem habitantes. Somente a memória edifica, porque se opõe ao tempo, abre o espaço, o revela e o mostra na sua própria obra”.

Lembrei de Hans Jonas quando  afirma que a distinção entre os humanos e os animais está constituída por um tripé integrado pelo utensílio, pela imagem e pelo túmulo. O utensílio é a técnica, e neste ponto não há dúvidas quanto a distinguir-se dos animais porque os humanos conseguem incorporar em pouco tempo toda a técnica acumulada na história que lhes precede.  O segundo elemento, imagem, inclui a capacidade que o homem tem de representar a realidade através da arte. A arte e as humanidades são caminhos para melhor conhecer a realidade na qual o ser humano está imerso, e melhor conhecer-se a si próprio, na sua dimensão corporal e espiritual. A terceira perna do tripé está representada pelo túmulo. Somente o ser humano tem consciência da transcendência, e a representação da morte o coloca em contato com a dimensão que se estende além do seu próprio ser. Perder o sentido da transcendência, a dimensão espiritual, o sentido de eternidade e a duração do tempo próprio e do universo que lhe rodeia tem consequências funestas, porque à base de não frequentar o túmulo, “porta da transcendência”, acaba esquecendo o sentido de missão e a importância de sentir-se útil, como elemento integrante da própria felicidade.

Da morte o autor volta-se para a vida que é trajetória, destino, em vocação de liberdade, incluindo uma bela citação de Ortega: “A vida é converter a viagem em bagagem”. A vocação implica precedência, mas pendente de reposta e aberta ao diálogo. O destino nos converte em “atores” representando um papel de liberdade que não é absoluta. A noção moderna de liberdade é afirmar que o homem é autor absoluto da sua vida , descartando tudo o que suponha certa prefiguração da sua existência (incluído gênero, e outras coisas, que se distanciam da natureza). Autoria e autenticidade como critério único da liberdade moderna, conceito que é questionado. Porque afinal, a forma mais importante de liberdade, não é eleger, mas ser escolhido, e saber responder.  Ai está a vocação, que vai além da liberdade de escolha, mas de resposta a uma eleição. Daí a importância dos  hábitos do coração que facilitam a reposta a esse convite….A vocação é a forma livre do destino, a forma em que a liberdade prevalece sobre o destino. Deste modo se faz original, o homem se faz filho dos próprios atos sem ter que eliminar pai, mãe, tradição e natureza. E por isso, é capaz de agradecer. A liberdade nos permite responder e fugir ao destino da tragédia grega, para assinar em baixo dos nossos atos.

Fala-se da inveja: Cain não invejava as posses de Abel, mas suas oferendas. A inveja não é tanto do que se possui,  mas do que é possível dar, ou dar-se.

Paternidade e filiação: o coração dos ímpios não valoriza o peso da própria ascendência. E da compaixão ligada à piedade, que se inicia pelo reconhecimento de filiação: A compaixão se estabelece entre iguais de fortuna desigual; a piedade inclui o sentimento de ascendência familiar. Depois se expande em fraternidade. É impossível compaixão sem piedade familiar, sem veneração da ascendência; um ímpio de coração nega a vinculação com os seus maiores, dependentes e impedidos. Piedade é o sentimento da existência como dívida , como gratidão e oferenda (por isso o parricídio em Roma, era punido com severidade, eliminando-se da face da terra qualquer traço do parricida, qualquer lembrança de que existiu). A piedade não sobrevive quando não se tem hospitalidade, reconhecimento do estranho; um desdobramento que nos levam até a pureza de linhagem e os campos de extermínio. 

A hospitalidade é tema amplamente desenvolvido pelo autor. “O animal com mãos é o único que sorri, e quando o faz mostra os dentes de modo inofensivo, e abre um espaço interior onde a acolhida é possível. Mãos livres para exprimir gestos de acolhida, de hospitalidade tipicamente humana. Se a diferença entre o humano e o divino se dá pela mortalidade dos homens, o âmbito do humano se abre lá onde se oferece a hospitalidade, de uns homens aos outros. Fora da mortalidade, estão os deuses; sem hospitalidade, encontram-se as bestas e os degenerados. Os homens são mortais e hospitalários. Há homens no mundo pela hospitalidade: nem deuses, nem bestas (…) O viageiro nos situa no dilema: ou comer ele, ou dar-lhe de comer (invocação a Ulisses e os  ciclopes). 

“A hospitalidade é uma obrigação do anfitrião à qual o hóspede não tem nenhum direito. A gratidão é o correlato apropriado para a hospitalidade. O hóspede é quem salva nossa casa de ser uma antro de ciclopes; o hóspede nos libera do sequestro que exerce o próprio eu  e faz de nós reféns, citando a Levinas. Hospitalidade é um alarde de confiança , um poder para nos sobrepor ao medo que produz apalpar nossa vulnerabilidade. Deixa exposto a boa vontade do anfitrião ao hóspede; um hóspede de caráter imprevisto que revela uma disposição aberta e incondicional, atenta ao caráter suplicante do viageiro” Abrir a casa nos humaniza; o isolamento -ficar longe dos problemas dos outros- nos desumaniza….suavemente, sem perceber. O egoísmo da blindagem!

A hospitalidade é um hábito do coração, mais do que um simples cômodo ou lugar. Na história foram os monges hospitalários os que fizeram hábito e profissão da acolhida, segregando a hospitalidade da casa do habitante, levando-a até o local da profissão: o hospital! Hoje, um paradoxo: tanto as profissões mais hospitalarias como os locais de hospitalidade, figuram entre os cenário mais inóspitos. Temos ai servido todo o tema da humanização das profissões da saúde…Um prato suculento, um tema infindável no meio da sedução da técnica. Hospitalidade é abertura ao convite e mesmo ao estranho. Mas hospitalidade não é simples familiaridade.  Há organizações criminosas que “respeitam a familiaridade” e praticam o crime organizado, como a Máfia…..

Sucedem-se temas convidativos e atuais, nesta excursão antropológica: “Surpreende que a cultura contemporânea se resista a reconhecer a relação entre pudor -a falta dele- e a violência. Falta o sentimento do eu, do outro, próprio do pudor, abre-se espaço para a agressão e violência”. A religião: lembrando Ortega quando esclarece que religioso implica ser escrupuloso, sem se comportar ligeiramente, mas com cuidado. O contrário é negligencia, abandono. Nec-ligere…..contrário de religo e de diligere. Para isso, diz Ortega, o homem tem de contar com o que está além dele, para a realidade transcendente…Esse é o sentido de religio para os romanos.

A ilusão do falso controle: a pretensão de suficiência converte em culpável todo evento indesejado: as mortes por incompetência médica, os acidentes por negligencia de gestão, as catástrofes por negligencia política, os crimes por omissão policial. A tecnologia nos seduz hoje com uma pulsão de suficiência, que lembra o poder dos ciclopes grego, que nos faz pensar em que tudo teria de estar sob o controle da técnica…..

O rancor é um modo de preservar uma lembrança, de perpetuar a dor. Pelo rancor não é a ferida a que doe mas a lembrança, que se faz ferida. Ter rancor é possuir uma cicatriz cujo autor não é quem nos produziu o dano, mas nós mesmos; é o rancor da vítima o que mantem quente a intenção do agressor, e lhe dá um poder do qual carece por si mesmo. O rancor é a cooperação livre e eficiente da vítima com os desejos do agressor; faz-se dano a si mesmo para manter e justificar o desejo de vingança. Um hábito do coração que é mutilação, uma velhice prematura.

O perdão é a restauração do domínio de si da vítima, uma restauração da soberania do eu . Perdoar o agressor é colocar-se a salvo do poder alheio  maléfico, limitar sua pretensão de se perpetuar na nossa alma. O perdão é uma lembrança do acontecido: recorda-se o que aconteceu mas como se não tivesse acontecido. O perdão nos coloca mais a salvo de nós mesmos do que dos outros.  Perdoar, per-donnare, dar em abundancia , dar mais da conta…..

E, naturalmente, a admiração e o conhecimento. A inclinação a conhecer (admiração) é nosso modo de estar no mundo. A capacidade para o assombro é a que permite a admiração. Filósofo é quem sabe olhar o mundo de modo que o obvio deixa de sê-lo, ou melhor, sem deixar de sê-lo, torna-se interessante. (destaque por nossa conta!)  A modéstia transforma o saber em sabedoria. É autoconsciência da finitude humana, e do seu conhecimento. Quando há admiração e modéstia, o saber e a ignorância não se anulam entre si, pois a consciência da ignorância faz crescer o conhecimento. Mas quando a regra é a dúvida, (como Descartes) o conhecimento e ignorância se excluem, não convivem porque se busca a segurança da evidência. Aqui entra todo o fascinante tema da incerteza, de como conviver com ela sem perder a classe, de como funcionar na vida sem ansiedades de falsas seguranças. A reflexão sobre isto também dá pano para manga.

Lembra-nos o autor que na Ética a Nicómaco, Aristóteles lembra que  uma vida virtuosa, esforçada e meritória não é necessariamente uma vida feliz, pois precisa da amizade para estar a salvo dos desastres da existência. Um belo epílogo para estes hábitos do coração que requerem a convivência com os semelhantes. Para isso é preciso uma ingenuidade sadia, ter capacidade de sonhar e alimentar a esperança. Uma última anotação a modo de fechamento desta aventura antropológica.

“O diabo menospreza a liberdade do homem porque não espera nada bom. Não é por ignorância mas por conhecer tudo (aquilo de…. este filme eu já vi). O diabo é conservador, em palavras de Claudio Magris, porque não acredita no futuro nem na esperança; cínico e conservador, não acredita que a humanidade pode se regenerar, e aceita todos os males como inevitáveis. A desesperação é um erro moral e intelectual, que dá o destino humano como sabido. Um erro com sabor diabólico”. E como antídoto do erro diabólico e conservador, a cordura saturada de esperança: “A cordura do humanamente possível requer a serena paciência de quem não dá tudo por perdido, e espera o melhor  A esperança é o hábito do coração que nos permite habitar o mundo desde os sonhos dos ideais, sem estar adormecidos; desde os encantamentos das fábulas infantis sem criancices, da paixão pelo bem e a felicidade do humano, sem estar ofuscado. A esperança nos permite habitar o mundo desde fora do mundo e incorpora  a temporalidade finita da nossa presença nele, e a terna inclinação ao seu favor. A esperança define o homem”

Sándor Márai; “ O Legado de Eszter”.

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Sándor Márai; “ O Legado de Eszter”.Companhia das Letras. São Paulo. 2001. 113 págs.

Por recomendação de um amigo, grande leitor, que sabe da nossa Tertúlia Literária, escalamos Sándor Márai na lista dos “autores necessários”. O livro escolhido foi outro, mas como eu tinha este na nossa biblioteca, decidi ler primeiro a modo de “aquecimento”. Afinal, é um livro curto, apuro em uma semana, e parto para outro- assim pensei….. e me enganei! Como era mesmo aquele ditado de que os melhores perfumes vem sempre em pequenos vidros?

Uma pancada contundente. Li o livro -devagar, apreciando a prosa do escritor húngaro;  elegante, precisa, desgarradora como instrumental cirúrgico que penetra nos tecidos da alma humana. Tomei algumas notas, poucas. Deixei o livro repousar. E voltei a ler após enfrentar a outra obra de Márai, que foi a designada para a Tertúlia Literária. Mais notas, agora com respeito e agradecimento a quem me apresentou este escritor notável. O que temos diante, não é propriamente um romance, mas um ensaio antropológico que causa vertigem, e descortina as possibilidades -sublimes e rasteiras- do ser humano. De modo que sem me atrever a fazer comentários, vou alinhavando com cuidado as notas que emprestei dos pensamentos de Eszter.

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Fiódor Dostoiévski: “Noites Brancas”.

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Fiódor Dostoiévski: “Noites Brancas”. Ed. 34. São Paulo, 2009. 96 págs..

Leituras na Pandemia – 10

Iniciamos a primeira tertúlia literária do ano com as noites brancas de S. Petersburgo. Noites curtas de verão, onde o sol teima em permanecer, como corresponde à latitude desta cidade imperial dos russos. Noites que convidam a sonhar num clima de paz e concórdia: “Como pode viver sob um céu assim toda sorte de gente irritadiça e caprichosa?” -pergunta-se o protagonista sonhador, como o mesmo Dostoiévski o qualifica no subtítulo: romance sentimental, das recordações de um sonhador.

O sonhador feliz abre estas recordações: “Eu seguia e cantava, porque quando estou feliz cantarolo sem falta algo para mim mesmo, como qualquer pessoa feliz que não tem nem amigos, nem bons conhecidos, e que num momento alegre não tem com quem dividir sua alegria (…) Sou um sonhador; tenho tão pouca vida real que momentos assim, como este, me são tão raros que não posso deixar de reproduzi-los em meus devaneios”.

Mas o nosso sonhador encontra, por acidente, uma interlocutora: uma “senhorita, assim a teria chamado, se não soubesse que essa expressão já fora pronunciada mil vezes em todos os romances russos mundanos”. A moça,  Nástienka, parece estar em apuros, o sonhador acode para resgatá-la. Segue-se um diálogo peculiar: “Escute, o senhor fala maravilhosamente, mas será que não pode falar de uma maneira menos maravilhosa? O senhor fala exatamente como se lesse um livro”.  “Nesta hora o nosso herói… Permita-me, pois, Nástienka, contar na terceira pessoa, porque é terrivelmente vergonhoso contar tudo isso na primeira pessoa”.

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Gregorio Marañón: “Ensayo Biológico sobre Enrique IV de Castilla y su tiempo”.

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Colección Austral. Ed . Espasa Calpe. Buenos Aires, 1941. 138 págs.

Um amigo, médico humanista, surpreendeu-me no final de uma reunião clínica com este libro. Certamente conhecia minha admiração por Gregorio Marañón,  e deve ter desentocado este volume de um sebo, como é fácil perceber pelo desgaste do uso.

Marañon o denomina “retrato morfológico daquele rei Trastámara, que a história apresenta como um degenerado, esquizoide, com impotência relativa”. E ainda aponta que “poderia tratar-se de um ser com traços de eunuco e acromegálico, com insuficiência de secreção interna sexual; isso explicaria sua tendência ao isolamento e à solidão, a fraqueza de vontade com a qual se entregou ao comando alheio, ligado ao instinto sexual vacilante”. O retrato morfológico de Enrique IV, que parece tinha boa envergadura,  continua: “Aos homens de grande talha sempre se lhes exige mais do que são capazes de dar; assim se origina o complexo de inferioridade. Isso faz com que os gigantes sejam muitas vezes tímidos sociais, fracos para a luta e para o amor. A timidez sexual também coincide com as estaturas elevadas”.

Já tinha conhecimento de este ensaio de Marañón, mas nunca me aventurei na sua leitura. Sei -também por conversas com outro amigo- que o médico espanhol buscava com alguma frequência nas figuras da história, o recurso para falar dos seus próprios pacientes (algo que por sigilo é lhe vedado ao médico). Daí o nome de ensaio biológico: uma aproximação com olhos clínicos da personagem histórica, fazendo convergir nela o conhecimento científico disponível.

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O Segredo: Ouse Sonhar. Um filme com sabor clássico

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The Secret:  Dare to Dream. USA 2020. Diretor:  Katie HolmesJosh LucasCelia WestonJerry O’ConnellSarah Hoffmeister, Aidan Pierce Brennan. 107 min.

Nem sempre as críticas cinematográficas produzem o efeito desejado. Foi o meu caso com este filme -que me encantou!- apesar de que o comentário que li em revista especializada, o qualificava como um romance cheio de clichés, moralizador, com boas pessoas boas que optam por ter uma atitude positiva diante de vida. E ainda acrescentava que lhe falta garra e suspense, embora tenha boas intenções. Como disse, vi o filme, gostei muito, mas não esqueci da crítica; é mais, voltei a lê-la…..e se produziu a faísca que dá lugar a estas linhas. “Com todo o respeito que os críticos merecem, vou dizer o que penso do filme….e dos críticos” – discorri. E comecei a digitar no computador.

Talvez o erro principal dos críticos é não ter atentado para o título que nos fala de um segredo -um código, um password por dizê-lo em linguagem atual- que nos permite entrar no sistema do filme….e da vida. Segredo simples de enunciar, mas difícil de executar porque exige disposição de ânimo e coragem: atrever-se a sonhar!

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Adela Cortina: “Ética de la razón cordial. Educar en la ciudadanía en el siglo XXI”.

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Adela Cortina: “Ética de la razón cordial. Educar en la ciudadanía en el siglo XXI”. Ediciones Nobel, Oviedo, 2009. 270 págs.

Tinha este livro na minha estante, há muito tempo,  quase uma década. Por algum motivo, ele piscou para mim às portas de umas breves férias no final do ano. Como dizia Borges, os livros tem o seu momento, não porque eles mudem, mas porque nós mudamos, tornamo-nos disponíveis e alinhados com essa leitura. Como dizem os anglófonos, encontramo-nos “in the mood for” , um estado convidativo para empreender esse mano-a-mano com a letra impressa.  Neste caso, trata-se de um ensaio filosófico, que é na verdade um passeio agradável da mão da autora que domina o sentir dos pensadores na sua implicação com a ética. Variedade de autores e suas respectivas posturas éticas, e o modo de ver o mundo.  Um passeio que desemboca no que a escritora denomina a ética da razão cordial, uma contribuição para educar na cidadania nos dias de hoje. Leio o original espanhol, e me permito uma tradução de bate pronto nestas linhas para facilitar a mensagem: a da escritora, e das minhas próprias reflexões.

A busca da conciliação -requisito para qualquer educação na cidadania- torna-se presente já no primeiro momento. “Os entusiastas do conflito -não os agravados, mas os ressentidos- alegram-se de não encontrar valores compartilhados. Quanto pior, melhor -essa é a sua consigna (…) Descobrir conjuntamente o ‘capital ético’ compartilhado, sem o qual uma sociedade torna-se desumana, por carecer de mínimos de humanidade. Esse era o sentido da “ética de mínimos” que escrevi há 3 décadas”.

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Edmondo de Amicis: “Cuore”.

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Edmondo de Amicis: “Cuore”.Ed. Autêntica. Belo Horizonte. 2019. 282 págs.

Leituras na Pandemia – 9

Foi uma paciente, há mais de 30 anos, quem me falou deste livro por primeira vez. Ela uma senhora avançada na década dos 50, eu um médico jovem mas já com o gosto humanista que sempre me perseguiu, trocava ideias de livros e de arte com os meus pacientes. Aprendi -e aprendo- muito com eles. “Sim, doutor, livros inesquecíveis, como aquele Coração de Edmondo de Amicis, que todas liamos na escola normal”. Parece-me lembrar que ela era professora, e que o livro em questão tinha um significado especial para as moças que estudavam magistério.

Por isso não é de se estranhar quando  na abertura deste diário de um garoto, e da suas vivencias no colégio, encontramos esta overture do professor: “Temos de passar um ano juntos. Estudem e sejam bons. Eu não tenho família. A minha família são vocês. No ano passado, eu ainda tinha a minha mãe, mas ela morreu. Fiquei sozinho. Não tenho mais ninguém no mundo, não tenho outros amigos nem outro pensamento senão vocês. Eu lhes quero bem, é preciso que vocês também me queiram bem. Não quero ter de castigar ninguém. Mostrem-me que vocês têm coração; nossa escola será uma família e vocês serão a minha consolação e o meu orgulho. Não peço que me prometam com palavras; tenho certeza de que, nos seus corações, vocês já me disseram “sim”. E eu lhes agradeço”.

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Graham Greene: “O Fator Humano”.

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Graham Greene: “O Fator Humano”.Círculo do Livro. São Paulo. 1978. 330 págs.

Tinha esta obra de Graham Greene na mira faz já algum tempo. O tema do fator humano – a sempre surpreendente imprevisibilidade em tempos que vivemos nos rodeando de seguranças e certezas  a qualquer custo- é algo que me seduz. Ou melhor, que me ajuda a entender como é a vida real, que sempre foge de previsões  e protocolos. 

Após ler um ensaio-tratado sobre Escritores Conversos (onde Greene aparece várias vezes), decidi-me a saldar esta pendência. Deparei-me com uma história policial,  de figuras que não parecem estar cômodas fazendo o que fazem; que seguem os processos e também não têm muito espaço para a criatividade, que é o que eu supunha. 

A trama nos situa numa divisão do serviço secreto britânico, perdida em burocracias, onde “nada jamais era realmente urgente”. Castle, o protagonista, velho policial saturado da sua profissão, almejando a aposentadoria, mantinha na sua casa “o vitral um tanto espalhafatoso por cima da porta da frente. Não gostava dele, porque o associava com os consultórios de dentistas. É que, nas pequenas cidade do interior, os vitrais coloridos geralmente ocultam a cadeira da agonia da vista dos que passam”. Tem no seu histórico uma longa experiencia na Africa, acabou casando com uma nativa, mãe de um garoto: “Gostaria que Sam fosse criado num só lugar. Assim, se algum dia eu tiver de ir embora, ele sempre teria para onde voltar. Para algum lugar a que se acostumou na infância. Para algo velho. Algo seguro”

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O Dilema das Redes e O Rei Lear: Uma reflexão desde a maturidade.

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The Social Dilemma (USA, 2020) Diretor: Jeff Orlowski. Roteiro:Davis CoombeVickie CurtisJeff Orlowski, Com: Kara HaywardCatalina GarayoaBarbara GehringSkyler GisondoChris GrundySophia HammonsVincent KartheiserMarty LindseyTristan HarrisTim KendallAza RaskinJustin RosensteinShoshana Zuboff, Fotografía: John Behrens, Jonathan Pope Montaje: Davis Coombe. 93 min

Nada grandioso entra na vida dos mortais sem carregar junto uma maldição – Essa é a frase de Sófocles que inaugura o magnífico documentário sobre as Redes Sociais recentemente lançado por Netflix. Qualquer tentativa de resumir o recado -que são muitos, sendo no fundo um só- seria uma pretensão arrogante. Até porque cada um saberá extrair suas próprias consequências….E com elas, advertências, avisos, receios, e dúvidas. Muitas dúvidas, porque afinal a questão é:  o que fazer com essa bomba que nos é servida? 

Depoimentos pontuais de executivos que militaram em Google, Facebook, Instagram, Youtube, num “mano a mano” entre eles, trazem dados contundentes e verosímeis. Ninguém tem uma atitude xiita, retrógrada, de condenar o progresso, pois afinal é a criatura deles. Reconhecem as maravilhosas conquistas -desde reunir famílias dispersas, até facilitar o transplante de órgãos; mas todos apontam para o alto imposto que estamos pagando com essas incríveis novidades tecnológicas. O  mais sério e preocupante é a adição, e os próprios executivos se confessam viciados: “Trabalho todo o dia em algo do qual não consigo desligar”. Algo sutil, uma escravidão imperceptível, que lembra aqueles filmes de gangster que eliminavam suas vítimas com escapamentos em garagens fechados: a morte doce do monóxido de carbono, que não se percebe até que dá conta do sujeito. 

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Olga Tokarczuk: “Sobre os ossos dos mortos”.

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Olga Tokarczuk:  “Sobre os ossos dos mortos”. Todavia. São Paulo, 2019. 256 pgs.

Leituras na  Pandemia – 8

A tertúlia literária levou-nos desta vez até a escritora prêmio Nobel 2018,  uma polonesa formada em psicologia. Não é supérfluo citar seu background acadêmico, porque -como se verá- permeia a narrativa. E até parece que brinca com o leitor -como se fosse um paciente deitado no divã do psicanalista….

‘Não dá para saber a idade da protagonista’ – assim começaram os comentários na tertúlia. Parece ser uma anciã, depois se mostra como uma mulher decidida, uma engenheira que fabrica pontes, depois uma professora  e…..por ai afora. Um arquétipo? pensei eu, tendo o divã como pano de fundo. 

Os mortos e seus ossos, são os vizinhos -os cadáveres- que vão aparecendo ao longo do romance. Vizinhos sem nome, apenas com apelidos que a protagonista vai dando: “Acredito que cada um de nós vê o outro a seu modo, portanto tem o direito de chamá-lo da maneira que acha adequada e conveniente (…) O sobrenome deles era Poceiros. Demorei pensando se deveria inventar meu nome particular para eles, mas depois cheguei à conclusão de que constituíam um dos dois únicos casos em que o sobrenome combinava com a pessoa. Realmente eram pessoas que viviam num poço — caíram nele há muito tempo e agora ajeitavam a vida em seu fundo, pensando que o poço era o mundo inteiro”. 

Cada evento -cada morto- dispara a reflexão de Janina, a protagonista que odeia seu próprio nome. “Não era um paradoxo sinistro que agora nós precisássemos nos ocupar com o corpo de Pé Grande, que ele tivesse nos deixado esse último problema? Nós, os vizinhos que ele nunca respeitou, de quem não gostava, e com quem nunca se importou?  Você não gostaria de ser encontrada assim, não é? Nessas condições. Isso é desumano. Pois é, o corpo humano é certamente desumano. Especialmente um corpo morto. A morte de alguém conhecido tira a autoconfiança de qualquer pessoa”. 

E do cadáver a reflexão vai até  o próprio corpo: “Com a minha idade e nas minhas condições atuais, deveria sempre lavar bem os pés antes de dormir, caso uma ambulância precise vir me buscar à noite. Sempre tive a impressão de que os pés são a parte do corpo mais íntima e pessoal, e não os genitais, ou o coração, nem mesmo o cérebro — órgãos insignificantes e supervalorizados. É nos pés que se encontra todo o conhecimento sobre o ser humano, é para lá que flui todo o sentido fundamental daquilo que realmente somos e de como nos relacionamos com a terra. Todo o mistério — o fato de sermos compostos de elementos da matéria e, ao mesmo tempo, estranhos a ela, isolados — jaz no contato com a terra, em sua ligação com o corpo. Os pés são nossos pinos da tomada”. 

Aparece a velha em versão antropóloga: “Temos este corpo, esta bagagem que só causa problemas, e, de fato, não sabemos nada sobre ele. Precisamos de diversas ferramentas para nos informar sobre os processos mais simples. A única ferramenta primitiva e grosseira que nos foi dada como consolação é a dor. Os anjos, caso existam, morrem de rir de nós. É nisso que dá ganhar um corpo e não saber nada sobre ele. Nem sequer ter um manual de uso. As pessoas não vivem apressadas, não rivalizam com os outros por qualquer motivo. Não correm atrás das ilusões. Vivem contentes com aquilo que são e gostam daquilo que têm”. 

A narrativa mais do que prender, surpreende. Em alguns momentos transpira ironia caustica: “Às vezes, quando um ser humano experimenta a ira, tudo parece óbvio e fácil. A ira põe as coisas em ordem, mostra um claro resumo do mundo. A ira também restaura o dom da clarividência, difícil de ser alcançado em outros estados (…) A prisão não está lá fora, mas dentro de cada um de nós. Talvez não consigamos viver sem ela. Longos anos de infelicidade degradam um homem mais do que uma doença letal (..) Não tem lanterna? — perguntou. Claro que tinha, mas conseguiria achá-la apenas de manhã, à luz do dia. Com as lanternas é sempre assim: são visíveis só durante o dia”. 

Em outros momentos revela-se tremendamente feminina, parece que o receio do convívio com os outros se acalma, deixa-se cativar pelos semelhantes: “A casa era clara, quente e aconchegante. É uma grande felicidade ter uma cozinha limpa e quente. Eu nunca tive essa satisfação. Não sabia manter a ordem à minha volta. E já havia aceitado esse fato (..) O amor de Esquisito pela ordem é evidente em seu pequeno quintal: a lenha para o inverno está empilhada em montes engenhosos que lembram espirais. O resultado é uma pilha de proporção áurea. Essas pilhas podem ser consideradas uma obra-prima local. Não consigo resistir a uma bela ordem em espiral. Quando passo por lá sempre paro um instante e admiro essa cooperação construtiva das mãos e da mente que, mesmo com uma coisa tão banal como a lenha, expressa o movimento mais perfeito no universo. Esquisito foi feito para uma vida de solidão, exatamente como eu, mas não havia forma de juntar nossas solidões”. 

Feminina e observadora, como quando fala da escritora de cuja casa cuida, outra das ocupações que vai aparecendo ao longo do romance. Prosa fácil, elegante e precisa que torna as descrições fotografias e ao mesmo tempo transpirando interpretação psicanalítica:  “Usava um colar cervical; parece ter sofrido um acidente no passado. Ou talvez tenha ficado mal da coluna de tanto escrever. Lembrava um sobrevivente de Pompeia — como se estivesse coberta de cinzas. Seu rosto era cinzento; até mesmo os lábios e os olhos eram cinza. Prendia os longos cabelos com um elástico e fazia um pequeno coque no topo da cabeça. Se eu a conhecesse um pouco menos, certamente leria seus livros. Mas, por conhecê-la, tinha medo de os ler. Era possível que eu me achasse neles, descrita de uma forma que não conseguiria entender?  Ou os lugares que amo seriam completamente diferentes do que são para mim? De alguma forma as pessoas como ela, que dominam a escrita, costumam ser perigosas”. 

Até as tímidas tentativas de romantismo sucumbem à análise fria e prosaica: “A presença de Boros me lembrou como era morar com alguém. E como isso pode ser constrangedor. E o quanto nos desvia dos nossos próprios pensamentos e nos distrai. Como a outra pessoa começa a nos irritar não por fazer algo irritante, mas pelo simples fato de estar ali. E quando ele saía de manhã para a floresta, abençoava minha bela solidão. Como é possível, pensei, que as pessoas convivam durante décadas compartilhando um pequeno espaço? E dormem juntas na mesma cama, bafejando e esbarrando uma na outra sem querer durante o sono (…) Notei também que não entendia tudo o que eu dizia — primeiro, porque obviamente eu usava argumentos que lhe eram estranhos, mas também por causa do seu vocabulário limitado. E porque era o tipo de homem que desprezava o que não podia entender (…) Parecíamos, agora, um casal de velhinhos indo a um enterro e, de certa maneira, era isso mesmo — íamos ao meu próprio funeral”. 

E o realismo que lhe faz assumir a culpa: de novo a velha rabugenta. “Quando chegamos a uma certa idade, precisamos entender que as pessoas sempre ficarão irritadas conosco. Antes, nunca tinha percebido a existência ou o significado de gestos como acenar com a cabeça rapidamente, desviar o olhar, repetir “sim, sim”, feito um relógio. Ou checar as horas, ou esfregar o nariz. Mas agora entendo muito bem que esse teatro todo só quer expressar uma simples frase: “Dá um tempo, sua velha”. Às vezes fico pensando se um jovem bonitão ou uma morena curvilínea seriam tratados da mesma forma se dissessem as mesmas coisas que eu. As melhores conversas são as que temos com nós mesmos. Ao menos não há risco de desentendimentos”. 

Um aspecto que domina o livro -e que na época foi comentado na mídia- é a defesa fundamentalista dos animais e da natureza. Elemento que virá explicar grande parte da trama do romance, dica que aponta desde o início: — Ele se engasgou com o osso de uma corça caçada ilegalmente. Foi uma vingança do além-túmulo (…) Um cão com dono e esfomeado prediz a ruína do estado. Os animais mostram a verdade sobre um país — eu disse. — A atitude em relação aos animais. Se as pessoas tratarem os animais com crueldade, não adiantará de nada a democracia ou qualquer outra coisa. Tristeza, senti uma grande tristeza, e um luto interminável por cada animal morto. Termina um luto e logo começa outro, então estou em constante luto. É meu estado natural (…) A senhora sente mais pena dos animais do que das pessoas. — Não é verdade. Sinto pena de ambos, de modo igual. Contudo, ninguém atira contra pessoas indefesas — disse ao funcionário da Guarda Municipal naquela mesma noite. — Ao menos nos dias de hoje — acrescentei. — Sim, é verdade. Somos um estado de direito — o guarda confirmou. Pareceu-me bondoso e pouco sagaz”. 

Junto com os animais, a astrologia -outra das paixões de Janina (quem sabe da escritora também?) que tornam, na minha opinião, o relato por vezes tedioso, embora conecte com a realidade: “Gosto particularmente quando os mapas mostram a pressão que explica a inesperada resistência na hora de se levantar da cama ou a dor nos joelhos, ou ainda outras coisas — uma tristeza inexplicável que tem exatamente o mesmo caráter de uma frente atmosférica, uma caprichosa figura serpenteando na atmosfera terrestre”. 

Mas as paixões ecológicas -animais, natureza- combinadas com os mapas astrais não liberam Janina da profunda tristeza que toma conta do seu ser. “Enquanto olhava para o planalto e sua paisagem em branco e preto, entendi que a tristeza é uma palavra importante na definição do mundo. Constitui a base de tudo, é o quinto elemento, a quintessência(…) Os morcegos veem o mundo; queria, ao menos uma vez, sobrevoar o planalto em seu corpo. Como todos parecemos aqui embaixo quando somos vistos por seus sentidos? Essencialmente, tinha muito em comum com eles — eu também enxergava o mundo em outras frequências, às avessas. Eu também preferia o crepúsculo. Não prestava para viver ao sol”. 

O pessimismo toma conta da protagonista, e o leitor se pergunta se todas as paixões ecológicas e astrológicas não serão um substituto para as decepções sofridas com …..o ser humano: com os outros, com ela mesma. Sob esse prisma, vale reler com calma estas considerações pinçadas ao longo do romance, que são verdadeiras cargas de profundidade: antropológicas, psicológicas, um grito buscando a solidariedade.

“Hoje em dia ninguém mais tem a coragem de inventar algo novo. Fala-se apenas sobre como as coisas já são e se continua lançando as mesmas ideias antigas. A realidade envelheceu e ficou senil; está sujeita às mesmas leis que qualquer organismo vivo — envelhece. Assim como as células do corpo, seus componentes mais elementares — os sentidos — sucumbem à apoptose. A apoptose é a morte natural, provocada pelo cansaço e pelo esgotamento da matéria. Em grego essa palavra significa “a queda das pétalas”. As pétalas do mundo caíram (…)  Não suporto isso nas pessoas — essa ironia fria. É uma postura muito covarde; tudo pode ser ridicularizado, desrespeitado, não é preciso se envolver em nada ou estabelecer qualquer laço. Como um homem impotente que não consegue sentir prazer, mas fará de tudo para estragar o prazer dos outros. A ironia fria é o armamento da impotência. Os irônicos sempre têm uma visão de mundo da qual se gabam triunfalmente. Entretanto, se alguém começar a insistir e os questionar sobre os pormenores, descobre-se que ela é composta de trivialidades e banalidades”. 

A crítica social, política e, como não poderia faltar, aos meios de comunicação está presente: “As pessoas em nosso país não possuíam absolutamente nenhuma capacidade de se associar ou constituir uma comunidade, mesmo sob o estandarte de um cogumelo. É um país de individualistas neuróticos que, no meio de outras pessoas, começam a instruir, criticar, ofender e demonstrar sua indubitável superioridade (…)Os jornais procuram nos manter num estado de desassossego permanente para manipular nossas emoções, desviar nossas atenções do que realmente importa. Por que deveria me submeter ao seu poder e pensar da maneira que eles obrigam a pensar?”. 

Aparece a formação acadêmica, a modo de explicação desta catarse de sentimentos: “Acho que a psique humana se constituiu para nos incapacitar de enxergar a verdade. Para nos impedir de ver o mecanismo sem obstáculos. A psique é nosso sistema de defesa — é responsável por não nos permitir entender aquilo que nos rodeia. Ocupa-se principalmente de filtrar as informações, embora as possibilidades do cérebro sejam enormes. Seria impossível suportar tamanho conhecimento, visto que todas as partículas do mundo, por menores que sejam, estão compostas de sofrimento. As pessoas são capazes de entender apenas aquilo que inventam para si mesmas e é com isso que se alimentam”. 

No final do túnel, uma luz, esperança, saudades de um mundo melhor que, certamente existe, como o das crianças que “são flexíveis e maleáveis, abertas e despretensiosas. E não se ocupam das conversas fiadas com as quais qualquer adulto consegue complicar sua vida”. Por isso lembra: “Quando se olha para certas pessoas, a garganta fica apertada e os olhos se enchem de lágrimas de emoção. É como se elas guardassem uma forte memória da nossa antiga inocência, como se fossem uma anomalia da natureza, não totalmente atingidas pela queda. As histórias da vida de alguém não são um assunto para ser discutido. Deve-se ouvi-las e retribuir na mesma moeda (….) Nessas horas não precisava esconder a mais problemática de minhas moléstias — o choro. Lá, as lágrimas podiam fluir, limpando os olhos e melhorando a vista. Talvez esse fosse o motivo pelo qual eu enxergava mais que as pessoas com olhos secos”. 

É a redenção de Janina, da escritora, de cada um de nós que se abre à transcendência, à beleza, às possibilidades do ser humano. “É um grande mistério como os desafios despertam em nós forças verdadeiramente vivificantes”. E para facilitar a catarse e a redenção, nada como escrever: “Quando não se pode falar, é preciso escrever — disse. — Isso ajuda muito — acrescentou e se calou”. Escrever, cada um do seu jeito, lavando a alma e a mente, abrindo o coração. Sem pretensões. Embora, por vezes, essa atitude que nos torna claros a nós mesmos -e não somente aos outros, como quando simplesmente falamos- pode até render um prêmio Nobel.