Roger Scruton: “Bebo, logo existo”.

Pablo González Blasco Livros 7 Comments

Roger Scruton: “Bebo, logo existo”. Octavo. São Paulo 2011. 299 págs.

Faz alguns meses ganhei este livro de um amigo e colega, médico culto, apreciador do vinho, predicados que não raramente caminham juntos como podemos comprovar passeando pelas páginas que o autor salpica dessa substância que ele diz ser “ provavelmente tão antiga quanto a civilização; eu prefiro dizer que ele é a civilização  e que a distinção entre países civilizados e incivilizados é a distinção entre os lugares onde o bebem e os lugares onde não o bebem”.   

Guia de um filósofo para o vinho. Esse é o subtítulo que figura nesta intrigante obra de Scruton. Na verdade, o que ele quer é juntar duas paixões claras: a enologia (nota-se que bebeu de tudo, em amplo espectro) com a filosofia (isso já sabíamos, que tinha lido de tudo). O vinho é uma desculpa agradável, palatável, para dar os recados costumeiros -sutis alguns, cargas de profundidade outros- do pensador britânico. 

Leia mais

Stefan Zweig. “ Maria Stuart”.

Pablo González Blasco Filmes 2 Comments

Ed. Delta Rio de Janeiro 1956. 364 págs.

Leituras na Pandemia – 7

A tertúlia literária mensal leva-nos desta vez até a Escócia do século XVI. Uma viagem da mão da escrita cativante de Stefan Zweig, que torna a história palatável e disseca acontecimentos e personagens,  penetrando nos meandros da alma humana.

Uma biografia de Maria Stuart onde aos fatos juntam-se a interpretação e os pensamentos, audácia que o autor faz questão de esclarecer: “ Talvez não haja outra mulher que tenha sido apresentada sob formas tão diferentes, ora como assassina, ora como mártir, já como desatinada intrigante, já como santa…Quase em nenhum outro caso se pode verificar mais claramente do que no de Maria Stuart com que enorme diferença um fato pode, no mesmo momento, ser narrado por diversos observadores (…)Não se veja uma contradição , no fato de neste livro o longo período dos seus primeiros 23 anos e os da sua prisão, que dura quase 20 anos, juntos, não ocuparem mais espaço do que os dois anos da sua tragédia passional. Na esfera dum acontecimento da vida, só na aparência o tempo subjetiva e objetivamente é o mesmo. Na história de uma existência só importam os momentos de vida intensa, decisivos”. 

Leia mais

Sándor Márai: “ As Brasas”.

Pablo González Blasco Livros 1 Comment

Sándor Márai: “ As Brasas”. Companhia das Letras. São Paulo. 1999. 164 págs.

Escalamos esta obra de Sándor Márai para a nossa Tertúlia Literária. Já comentei neste espaço que fiz um “aquecimento” com a prosa do escritor húngaro, lendo outra obra que merece um comentário aparte. O tal do aquecimento resultou numa corrida de fundo…que me deixou quase sem fôlego, da vertigem produzida pelas descrições das profundezas do ser humano. Quer dizer, já intuía o que poderia esperar de As Brasas sabendo que descrevia o reencontro de dois amigos (amigos?) após 41 anos.

O reencontro é precedido pela expectativa: um prato cheio para a narrativa de Márai, que me lembrou a frase bíblica: como uma espada afiada que disseca as entranhas do espírito. Henrik, o general retirado, prepara-se para rever Konrad. A espera é a pista de decolagem para as reflexões que prendem o leitor. “ Levamos uma vida inteira preparando-nos para alguma coisa. Primeiro, sentimo-nos ofendidos e queremos vingança. Depois, esperamos. Já fazia muito tempo que esperava. Não sabia mais a que ponto o rancor e a sede de vingança tinham se transformado em espera. Com o tempo, tudo se conserva, mas desbota, como essas fotografias de um passado distante que eram fixadas em placa de metal”.

Leia mais

Joseph Pearce: “Escritores Conversos”. Palabra. Madrid. 2009. 571 págs.

Pablo González Blasco Livros 2 Comments

Joseph Pearce: “Escritores Conversos”. Palabra. Madrid. 2009. 571 págs.

Lembro que foi um amigo -aliás, um amigo que a minha família me apresentou- quem me falou de Joseph Pierce por primeira vez. O amigo em questão tinha estudado filologia inglesa e, entre as suas muitas atividades profissionais e uma família numerosa, somava aos projetos educacionais que conduzia a sempre desafiante missão de tradutor. Naquela conversa vespertina num bar em Madrid,  Pierce apareceu em primeiro lugar, e depois muitos dos escritores que se citam no livro que nos ocupa. Quando agora me debrucei sobre ele -mais um efeito salutar dos tempos da pandemia- comecei a juntar as ideias e lembrei desse professor que falava apaixonadamente dos escritores conversos. Até pensei que tinha sido ele o tradutor, mas não era. Faltou tempo para trocar algumas mensagens com ele; é um tarefa que tenho pendente. 

A viagem através das páginas do livro é apaixonante, embora requer comedimento, paciência, e leituras dosadas porque a informação é abundante, e também a enorme cultura que destila. É preciso de tempo para digerir as trajetórias deste escritores ingleses que Pierce junta sob o qualificativo de “conversos”. Até porque não são apenas um par de histórias -como erroneamente poderia se pensar- mas multidão delas, entrelaçadas. Assim afirma textualmente o autor: “Embora nenhum destes escritores respondia a um estereótipo é evidente que existia a unidade na diversidade. Por volta de 1930 a avalanche de conversos tinha se transformado numa torrente e durante esta década, somente em Inglaterra, registraram-se por volta de 12 mil conversões anuais. Os conversos representam somente um dez por cento do conjunto de católicos; o fato de que um 80 % dos escritores de primeira linha pertençam a esse dez por cento, demostra o bem que os conversos estão prodigiosamente organizados, e como os nascidos católicos estão prodigiosamente desorganizados”  A ironia do comentário está importada de Frank Sheed, outro escritor que tinha nascido católico. 

Chesterton, naturalmente, é figura de destaque inicial. Seus polêmicos debates com Bernard Shaw, eram um serviço à verdade e uma repulsa contra a indiferença do secularismo. Afinal, melhor é ter crenças, embora equivocadas, que não ter nenhuma. A Esfera e a Cruz é uma parábola dessa relação polemica. No fundo, um gozava do outro acusando-o, e o que o adversário pretendia era apenas chamar sobre si o foco da atenção. 

Leia mais

Uma vida Oculta: O respeito pela consciência alheia.

Pablo González Blasco Filmes 2 Comments

(A Hidden Life)  Diretor e Roteiro: Terrence Malick. August Diehl, Valerie Pachner Matthias Schoenaerts, , Michael Nyqvist, Jürgen Prochnow, Bruno Ganz. 175 min  EE.UU. 2019.

Já comentei neste espaço que os filmes de Terrence Malick não são propriamente filmes, mas ensaios de transcendência. Como a minha proposta de educar no humanismo através do cinema é muito mais modesta -aliás, é usar os filmes que “o público assiste”- nunca coloco os do diretor-filósofo como prioridade. Mas, novamente, não tem como fugir deles…..e alinhavar algumas reflexões, pelas solicitações que me chegam. “Você já viu Uma Vida Oculta? Não vai comentar nada? É um filme bom para ver ‘em família’? Assim, de bate pronto, minha resposta não foi muito polida: “Isso depende de se você quer ver um filme…..ou uma meditação, talvez um Retiro Espiritual de quase 3 horas”. Mas depois, fiz a lição de casa; ou melhor, a completei, porque o filme já o tinha visto numa empreitada de final de semana, com espaço para que as imagens e pensamentos do Malick ecoassem à  minha volta, com os rios e as montanhas da Áustria. 

Foge completamente ao meu propósito -completar a lição de casa- um comentário exaustivo sobre o filme. Até porque li alguns excelentes  que dissecam a produção, assim como uma magnífica entrevista  com August Diehl, que dá vida ao protagonista, ambos publicados numa revista de cinema espanhola. Entre os muitos temas que podem ser explorados, por algum motivo -sempre a vida dirige o teu olhar na hora de ver um filme- o respeito pela consciência alheia tomou relevo nas minhas reflexões. 

A história é real: Franz Jägerstätte, um camponês austríaco casado com Fani Schwanninger, pai de três filhas, nega-se a jurar fidelidade ao Reich alemão porque o nazismo vai contra a consciência dele. Uma família austríaca, católica, rural e normal (que não é o mesmo que comum, porque o amor que transpira é um poema imenso). Acabará sendo executado por insubordinação pelas autoridades nazistas em 1943. Fani, viúva, viveu até 2013 e carregou a dor com classe. E a Igreja Católica que aplica a frase de Santo Agostinho (Martires non facit poena, sed causa– O que faz de alguém um mártir, não é o modo de morrer, mas o motivo pelo qual morre), beatificou Franz em 2007 (interessante notar que Bento XVI, um Papa Alemão, estava no comando nesse momento). 

Leia mais

Javier Moro: “O Sári Vermelho”.

Pablo González Blasco Livros 2 Comments

Javier Moro: “O Sári Vermelho”. Planeta. São Paulo 2009. 559 págs.

Leituras na Pandemia- 5

A prosa jornalística de Javier Moro já tinha-me  conquistado quando li O Império é Você, o relato da construção do nosso Império Brasileiro, e as andanças de D. Pedro I, que lhe rendeu o Prêmio Planeta, um dos mais destacados galardões literários na Espanha. Na época,  houve quem lhe criticou por não ater-se à realidade histórica. Mas o escritor respondeu de modo contundente: “De fato posso ter inventado os diálogos, mas os fatos foram  esses mesmo”. 

A tertúlia literária mensal leva-nos agora até a Índia, e o relato que nos ocupa é, de algum modo semelhante. Moro faz a história compreensível, a romanceia -diálogos, menus, guarnições- mas sabe ater-se aos fatos. Não são romances históricos -personagens de ficção, encaixados na história real, que alternam com figuras reais, como a costureira de Maria Dueñas, ou  O homem que amava os cachorros, de Padura– mas história romanceada, que é diferente. 

O Sári Vermelho está centrada numa personagem real, Sônia, uma italiana que faz se faz indiana por amor. E à volta dela, desfilam todas as figuras apaixonantes desse pais, que é um continente, talvez mesmo um império, por reunir povos díspares e variadíssimos. Eis a descrição textual: “Um país de maioria hindu, mas com mais de 100 milhões de muçulmanos que o transformavam no segundo país islâmico do planeta. Sem contar os 10 milhões de cristãos, 7 milhões de siques, 200 mil parses e 35 mil judeus, cujos antepassados haviam fugido da Babilônia depois da destruição do templo de Salomão. Um território onde conviviam 4635 comunidades diferentes, cada qual arrastando suas próprias tradições, e línguas tão antigas quanto diversas. Nessa babel eram usados 845 dialetos e dezessete línguas oficiais. Mas o inglês, a língua dos colonizadores, continuava sendo o idioma comum depois de a imposição do híndi ser rejeitada pelos estados do sul. Devoto de 330 milhões de divindades. A despeito do que profetizara um general inglês no momento da independência: “Ninguém pode forjar uma nação em um continente de tantas nações”.

Leia mais