Júlio Dinis: “Os Fidalgos da Casa Mourisca”.

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Júlio Dinis: “Os Fidalgos da Casa Mourisca”. Edições Best Bolso. Rio de Janeiro 2014. 444 págs.

Com ocasião da Tertúlia Literária mensal, retomei com gosto esta leitura, com a qual me deparei por primeira vez há mais de 30 anos. Desta vez li o prefácio cuidadosamente, porque centra o tema com precisão. Tomo nota quase textual: “Os Fidalgos da Casa Mourisca é um livro póstumo, publicado em 1871, ano em que faleceu, com apenas 31 anos, o médico e escritor português. O romance descreve a história de dois mundos postos em confronto: o dos aristocratas (absolutista) e o da nova burguesia rural (liberal). Os jovens, Jorge e Maurício, descendentes dos ultras monárquicos Negrões de Vilar de Corvos, passam o tempo cavalgando e caçando, enquanto Dom Luís, o pai, se enche de dívidas e a Casa Mourisca ganha um aspecto melancólico e triste. Dinis escreveu uma obra política de reflexão detida sobre um Portugal que queria mudar e efetivamente assim o fez, mas não sem enormes contradições e contramarchas. Afinal, os progressos da civilização não se fazem sem algum tipo de violência”. 

O nome da casa dos fidalgos, obedece a uma tradição portuguesa. “Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palácio, um solar de família, distinto dos edifícios comuns por uma qualquer particularidade arquitetônica mais saliente, ouvireis no sítio designá-lo por nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda aí memória da sua fundação, a crônica lhe assinará infalivelmente, como data, a lendária e misteriosa época dos mouros”. 

O ambiente liberal, que começa a tomar forma na segunda metade do século XIX, é estampado com a prosa fácil e coloquial do escritor, nem por isso menos elegante. Fala-se do “moço imprudente que se viu perseguido, preso, processado, e em quase iminente risco de expiar, como tantos, no suplício o crime de pensar livremente”. Jovens que “iam crescendo afeiçoados aos princípios liberais, que amavam de instinto, antes de os amarem de reflexão” E como réplica, “o enxame de misantropos, a quem o sol da liberdade igualmente incomodava, e que tinha resolvido pedir à natureza conforto contra os supostos delitos da humanidade”. 

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A Luz Entre Oceanos: As dívidas com a própria consciência.

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The Light Between Oceans. Diretor: Derek Cianfrance. Michael FassbenderAlicia VikanderRachel Weisz. 133 min. USA 2016.

Um belo filme, delicado, sensível. Chegou-me até um comentário de ser uma produção excessivamente feminina…. Na verdade, não sei o que isso venha a significar, a não ser que apenas desde uma perspectiva de mulher é possível compreender a profundidade do filme. Algo que, por motivos óbvios, sou incapaz de ponderar. Mas desde a minha perspectiva, absolutamente masculina e por isso em sintonia com a personagem de Michael Fassbender -por sinal, uma performance notável, aliás como a réplica das duas protagonistas- tem sim o que comentar, e profundidade é algo que não falta. Aliás, muito pelo contrário: um verdadeiro abismo, que surge aos poucos, acentuando-se com o tempo, depois dos créditos finais, nas reflexões de cada um. 

Um homem bom, que transita na vida fazendo o bem, que não quer perturbar o próximo, com desejos de serviço, afetuoso, fino. Um gentleman. Mas algo não encaixa, produz um ruído dissonante, que destoa nesta sinfonia estética, que tem o oceano como pano de fundo. O resto somente vendo…. e vivendo.  Porque o filme, mais do que uma história é uma vivência com a qual é possível entrar em sintonia. Eu, pelo menos, entrei, mesmo com efeito retardado, e por isso rabisco estas linhas como uma pendência que se arrasta há alguns meses. 

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Paola Peretti: “A Distância até a cerejeira”.

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Paola Peretti: “A Distância até a cerejeira”. Ed. Outro Planeta. São Paulo 2019. 224pgs.

Eis um livro surpreendente, sugestivo e encantador. Não doce, nem meloso, porque encerra um drama em cada linha: uma menina que padece cegueira progressiva, a Doença de Stardgardt, uma degeneração macular sem remédio. O encanto fica por conta das reflexões da nossa protagonista, Mafalda. A surpresa é saber que a autora, uma jovem jornalista italiana, padece dessa mesma doença, está ficando cega aos poucos. O encanto vem servido por esse cenário peculiar, temperado pelos comentários dos pensadores da nossa Tertúlia Literária. 

Mafalda é uma criança, muito feminina, que transpira perspicácia. Descreve a emoção através das mudanças nos óculos e do relacionamento com o seu gato: “alerta vermelho, óculos embaçados…. algumas notícias deveriam se dar sempre quando temos um gato para abraçar”. Sabe que está ficando cega e gosta de ler, de que lhe contem histórias: “Quem vai ler para mim? Quem vai ler histórias para mim quando eu estiver no escuro e mamãe e papai estiverem trabalhando? (…) Para mim as palavras dos livros são muito pequenas, ainda são formigas pretas que não querem dizer nada”. 

E como toda criança, faz aquelas perguntas difíceis de responder, e as verdades tremendas, contundentes, de quem não tem preocupações politicamente corretas. “Quando alguém da sua família lhe dá roupas, eles sempre estão errados no tamanho e muitas vezes pensam que você gosta de uma cor, quando na verdade você a odeia. Mas você não pode dizer nada porque é rude. E toda vez que você vai visitar essa pessoa, você tem que colocar o suéter que não cabe em você”. Os questionamentos de difícil resposta, motivados pelo seu amor pela cerejeira, e pelas árvores que quando ficam adoentadas “tem de cortar porque estava doente, tinha piolho, mas acho que teria bastado se cortássemos as folhas. Quando pegamos piolhos na escola, eles só cortam nosso cabelo, não nos matam”. 

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Theodore Dalrymple: “A Vida na Sarjeta: O Círculo Vicioso da Miséria Moral”

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“A Vida na Sarjeta: O Círculo Vicioso da Miséria Moral” E Realizações. São Paulo, 2014. 278 págs.

Consultando as minhas publicações -algo que já me recomendaram fazer com mais frequência, até porque há quem diga que a gente escreve para nós mesmos mais do que para os outros- reparei que há quase 3 anos que não leio nada deste autor. Este livro esperava seu momento na estante, e chegou agora. 

Uma coletânea de ensaios/relatos sobre o submundo onde o autor se movimenta. Não um submundo apenas social, mas sobretudo moral. Esta é a linha que costura todos os relatos, e que o médico britânico abre com uma citação contundente de Shakespeare, que resume quase tudo o que aqui está escrito “Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem – muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos – pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbados, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina … Ótima escapatória para o homem mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode!” (Rei Lear, Ato 1, Cena II). 

No primeiro relato centra o tema que se desenvolve ao longo do livro: “Como médico, trabalhei na última década em um hospital geral muito movimentado numa região pobre da Inglaterra, e em uma penitenciária nos arredores, e estive em posição privilegiada para observar a vida dessa subclasse pobre. Além disso, por ter trabalhado anteriormente como médico em alguns dos países mais pobres da África, bem como em comunidades pobres do Pacífico e na América Latina, não hesito em dizer que o empobrecimento mental, cultural, emocional e espiritual da subclasse pobre ocidental é maior que o de qualquer outro grande grupo de pessoas que já tenha conhecido em qualquer outro local”. 

Estamos em situação pior do que os países pobres? É a pergunta que surge inevitavelmente. A resposta afirmativa de Dalrymple está articulada na base “intelectual” que sustenta a miséria moral. “Esse ingrediente é encontrado no campo das ideias. O comportamento humano não pode ser explicado sem fazer referência ao significado e às intenções que as pessoas dão aos próprios atos e omissões; e todos possuem uma visão do mundo, saibam ou não disso (..) A ideia de que a pessoa não é agente, mas uma vítima indefesa das circunstâncias, ou de grandes forças ocultas sociológicas ou econômicas, não surge naturalmente, como uma companheira inevitável da experiência. A ideia foi propagada incessantemente por intelectuais e acadêmicos que não acreditam nisso no que diz respeito a eles mesmos, é claro, mas somente no que concerne a outros em posições menos afortunadas. (…) Se traço um quadro de vida que é totalmente sem encanto ou mérito, e descrevo pouquíssimos atraentes, é importante lembrarmo-nos de que, uma grande parte da culpa disto é devida aos intelectuais. Consideram a pureza das ideias mais importante que as reais consequências”. 

O que não faltam são histórias de vida que ilustram a teoria sociológica do pensador, fruto de inúmeros exemplos que cristalizam em conclusões inapeláveis. “Quando um homem me diz, que se deixou levar pelo impulso para cometer um crime, como algo inevitável, pergunto-lhe se alguma vez se deixou levar pelo estudo da matemática ou do subjuntivo dos verbos franceses. Invariavelmente, o homem começa a rir: o absurdo do que ele disse se toma aparente para ele mesmo (…) Com frequência cada vez maior consulto enfermeiras, tradicionalmente e por muito tempo originárias ou pertencentes à respeitável classe média baixa (ao menos, após Florence Nightingale), que têm filhos ilegítimos de homens que, inicialmente, praticaram algum tipo de abuso, e depois as abandonaram. Violência e posterior abandono são, em geral, muito previsíveis dados o histórico e a personalidade desses homens, mas as enfermeiras que foram tratadas dessa maneira dizem que se abstiveram de julgar o companheiro porque é errado fazer juízos de valor”. 

As histórias se sucedem, até porque o livro reúne um conjunto de crônicas/ensaios escritos em datas diferentes. Continua a toada, como o samba de uma nota só: “O propósito oculto de milhões de pessoas é ser livre para fazer, sem mais nem menos, o que quiserem e ter alguém para assumir quando as coisas derem errado. Como médico que assiste pacientes uma ou duas vezes por semana, fico fascinado com o uso da voz passiva e de outros tipos de discurso utilizados pelos prisioneiros para indicar o suposto desamparo. Descrevem-se como marionetes do acaso. Hoje a concepção prevalecente de vício, em geral, é a de uma doença caracterizada por um ímpeto irresistível (mediado neuro quimicamente e hereditário por natureza) para consumir uma droga ou outra substância, ou para se comportar de maneira autodestrutiva ou antissocial. Um viciado não tem culpa e, por seu comportamento ser a manifestação de uma doença, possui tanto conteúdo moral quanto as condições meteorológicas. A nenhum deles ocorreu que os dramas mesquinhos de suas vidas particulares não justificam uma atividade antissocial. Pensavam que a frustração era como o pus em um abscesso, melhor fora do que dentro, e recordei-me de um assassino que certa vez me disse que teve de matar a vítima, caso contrário não sabia o que poderia ter feito”. E conclui com um pensamento conhecido: “O homem sempre teve a capacidade de enganar os outros e do autoengano. Foi Friedrich Nietzsche quem disse que o orgulho e o amor-próprio não têm dificuldade de superar a memória, dobrando-a”

Pergunta-se pelos motivos deste despropósito. “Por que isso acontece exatamente quando, objetivamente falando a liberdade e a oportunidade para o indivíduo jamais foram tão grandes? Em primeiro lugar, existe hoje um eleitorado muito ampliado para as visões progressistas: legiões de voluntários e cuidadores, assistentes sociais e terapeutas, cujas rendas e carreiras dependem da suposta incapacidade de muitas pessoas de se defender ou de se comportar razoavelmente. Em segundo lugar, há uma ampla disseminação dos conceitos psicoterapêuticos, ainda que de forma adulterada ou mal interpretada. Esses conceitos se tornaram lugar comum, mesmo para os ignorantes. Assim, foi incutida a ideia de que, se a pessoa não conhece ou compreende os motivos inconscientes dos próprios atos, não é verdadeiramente responsável por eles. Terceiro, a anuência geral do determinismo sociológico, em especial, pelas classes médias abarrotadas de culpa. Associações estatísticas têm sido utilizadas indiscriminadamente como provas do nexo causal. Assim, se o comportamento criminoso é mais comum entre as classes pobres, deve ser a pobreza que causa o crime”.

Também se aborda o tema da violência contra a mulher, e dos crimes sexuais, sempre ilustrados com exemplos contundentes. Vejamos um exemplo: 

– Sei tomar conta de mim – disse-me a moça de dezessete anos. 

– Mas os homens são mais fortes que as mulheres – eu disse. – Quando se trata de violência, eles estão na vantagem. 

-Você está sendo muito sexista – respondeu. 

Uma moça que não absorvera nada na escola tinha, contudo, assimilado o jargão do politicamente correto e, em particular, do feminismo. 

– Mas é um fato simples, direto e inescapável – respondi.

-É sexista – a garota reiterou com firmeza.

Continua o médico, não sem a conhecida ironia britânica: “Existe uma excelente razão por que esse tipo de violência deve ter aumentado durante a nova dispensação sexual. Se as pessoas procuram liberdade sexual para si mesmas, mas fidelidade sexual da outra parte, o resultado é a excitação do ciúme, pois é natural supor que aquilo que um faz, está sendo feito da mesma maneira pelo outro- e o ciúme é o precipitador mais frequente da violência entre os sexos. Essas mulheres experimentaram, sucessivamente, uns três ou quatro homens desse tipo e não faz sentido trocar um pelo outro. Os maus-tratos conhecidos são melhores que os desconhecidos. Por que a mulher não abandona o companheiro assim que ele manifesta ser violento? Porque, perversamente, a violência é o único sinal de compromisso que ela possui. Da mesma maneira como ele quer a posse sexual exclusiva da mulher, ela quer um relacionamento permanente com seu homem. Ela imagina – falsamente – que um soco no rosto ou uma esganadura é, ao menos, sinal de contínuo interesse, o único sinal, além das relações sexuais, que provavelmente receberá a esse respeito. Na ausência de uma cerimônia de matrimônio, um olho roxo é uma nota promissória de amor, honra, cuidado e proteção”

Aparecem também as tatuagens, o barulho caótico no sistema de saúde, e toda uma série de elementos que o médico britânico observa na sua prática e que reforçam a teoria da miséria moral. “Formulei pela primeira vez minha teoria virai da criminalidade quando percebi que nove entre dez prisioneiros brancos ingleses são tatuados, três ou quatro vezes mais que a proporção na população geral. Tenho certeza de que associação estatística do crime com a tatuagem, é mais forte do que a existente entre o crime e qualquer fator. Quando perguntei por que infligiam aquelas marcas de Caim neles mesmos, o tatuado citou a pressão do grupo e o tédio. Talvez a dor da tatuagem dê a eles a certeza de que estão vivos: dói, logo existo (…) Agora, no hospital, é visto como algo cruel privar o paciente da televisão diária, tanto que assistir a ela está se tornando praticamente compulsório ou, ao menos, inescapável para aqueles que não estão em condições de se mover. Idos são os dias em que o hospital era um local de quietude (na medida do possível) e repouso. Atualmente ninguém morre sem o benefício do talk show. Há alguém na enfermaria, um pós-modernista, talvez, que acredita que um momento sem entretenimento é um momento perdido, e que uma mente não preenchida pela bobagem de outro alguém é um vácuo do tipo que a natureza abomina”

Não poderia faltar o jogo: “Não precisamos ser revolucionário marxistas para notar como os pobres são espoliados do todo o dinheiro que possuem – com a colaboração ardente deles mesmos- pelos donos do capital, nesse caso, os proprietários das casas de apostas, afiliados a uma ou duas grandes cadeias comerciais. O pobre, escreveu um bispo alemão do século XVI, é uma mina de ouro; e assim, por sua vez, os moradores de rua. Como observa Dostoiévski, não há outra atividade humana que ofereça emoções tão fortes em tão curto tempo: uma esperança febril, desespero, júbilo, miséria, excitação, desapontamento. É um crack de cocaína sem química”

Evidentemente, toda essa coleção de misérias que Dalrymple descreve, apoia-se num sistema de ideias que é onde ele dirige a sua principal crítica, de modo implacável e contundente. “A ideia de que é possível fundamentar uma sociedade sem nenhum pressuposto cultural ou filosófico, ou alternativamente que todos os pressupostos sejam tidos iguais de modo que não se faça nenhuma escolha é absurda. Assim como ninguém é culpado quando todos o são, ninguém é responsável quando todos o são. No ambiente moderno, afinal de contas, os direitos sempre prevalecem sobre os deveres. Para a visão progressista, todos somos igualmente culpados e, portanto, igualmente inocentes (….)  Recentemente ouvi um professor de estudos clássicos de Oxford declarar que em termos de qualidade não existia escolha alguma entre Mozart e as produções dos mais recentes grupos de rap. O mecenato das artes, por conseguinte, transformou-se em mera pesquisa de opinião pública e exploração dos gostos mais baixos e das fraquezas das pessoas. Mesmo no comportamento, a nova ortodoxia para todas as classes é a seguinte: já que nada é melhor e nada é pior, o pior é melhor porque é mais popular”

Num dos capítulos finais, que intitula como os criminologistas promovem o crime, a crítica e a ironia são demolidoras: “Os acadêmicos utilizaram dois argumentos para estabelecer a estatística da normalidade do crime e a consequente ilegitimidade das penas do sistema judiciário criminal. Primeiro, alegam que, em todo caso, somos todos criminosos; e quando todos são culpados, todos são inocentes. O segundo argumento, marxista na inspiração, é que a lei não tem conteúdo moral, sendo simplesmente a expressão do poder de certos grupos de interesse – do rico contra o pobre, por exemplo, ou do capitalista contra o trabalhador. Uma vez que a lei é uma expressão de força bruta, não há distinção moral essencial entre o comportamento criminoso e o não criminoso. É apenas uma questão de qual pé calça a bota. Essa é uma postura que encontramos muitas vezes entre os arrombadores e ladrões de carros. Acreditam que quem quer que possua algo pode suportar que alguém que não tem essa coisa possa tomá-la. O crime seria apenas um ajuste de tributação redistributiva vinda de baixo. Se a humanidade, como expôs T. S. Eliot, não pode tolerar muita realidade, parece que pode suportar qualquer quantidade de irrealidade”

Neste ponto, o autor ilustra com uma lembrança pessoal: quando moleque, acabou levando algo da mercearia da esquina sem pagar. Anota: “Minha mãe não partilhava do ponto de vista de que isso era um episódio momentâneo de delinquência que passaria no devido tempo. Sabia instintivamente (pois naquela época ninguém havia confundido a cabeça das pessoas) que para a delinquência triunfar o requerido era simplesmente não fazer nada. Ela não pensou que meu furto fora um ato natural de autoexpressão, ou revolta contra a desigualdade entre o poder e a riqueza das crianças e o dos adultos, ou, na verdade, algo diferente do meu desejo de ter o chocolate sem pagar por ele. Ela estava certa, é claro. O que fiz foi moralmente errado, e para que gravasse esse fato, ela marchou comigo até a Sra. Marks, dona da loja, onde confessei meu pecado e paguei em dobro, como forma de restituição. Esse foi o fim da minha carreira de furtos em lojas”. 

Este longo resumo não dispensa a leitura pausada -divertida e às vezes chocante do livro. Toda uma experiência em que a sociologia penetra de modo fenomenológico. As conclusões podem ser muitas e variadas, sempre permeadas de reflexão e de luz para desmascarar a podridão que se encobre sob a capa do politicamente correto. Juntamos alguns parágrafos neste final de comentário a modo de provocação para a leitura. 

“A equação demagógica de toda autoridade ser um injustificado autoritarismo político, mesmo para as crianças pequenas, somente conduz ao caos pessoal e social. A experiência ensinou-me que é errado e cruel suspender o juízo, e que não manifestar juízos de valor é, na melhor das hipóteses, indiferença para com o sofrimento alheio e, na pior das hipóteses, uma forma disfarçada de sadismo. Começamos a perceber que o sistema de Bem-Estar, por não fazer quaisquer julgamentos morais promove o egoísmo antissocial. O empobrecimento espiritual da população é pior do que qualquer coisa que já viram antes nos próprios países.  Eu e os médicos da Índia e das Filipinas chegamos à mesma e terrível conclusão: o pior da pobreza está na Inglaterra – e não é a pobreza material, mas a pobreza da alma. A vida nos bairros pobres da Grã-Bretanha demonstra o que acontece quando a maior parte da população, bem como as autoridades, perde e a fé na hierarquia de valores. O resultado é todo tipo de patologia: onde o conhecimento não é preferível à ignorância, e a alta cultura à baixa. As autoridades se portam com tamanha falta de senso comum que devemos considerar algo mais que mera ignorância. Parafraseando ligeiramente o Dr. Johnson, tal estupidez não existe na natureza. Tem de ser trabalhada ou adquirida. Como sempre, devemos buscar a influência perniciosa de ideias equivocadas para explicá-la. A falta de padrões, como observou Ortega y Gasset, é o início do barbarismo: e a moderna Grã-Bretanha já passou desse início há muito tempo”. Está servido o desafio para a leitura!

Orhan Pamuk: “Meu nome é vermelho”.

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Orhan Pamuk: “Meu nome é vermelho”. Companhia das Letras. São Paulo. 2013. 576 págs.

O primeiro escritor turco a ganhar um Nobel de literatura em 2006, considerado um narrador de categoria, foi o incentivo para escalarmos este romance na nossa tertúlia literária. Pesquisando depois, soubemos que Pamuk condenou o genocídio armênio -algo que os turcos continuam afirmando que nunca existiu- e que teve de prestar depoimentos no tribunal em Istambul, sua cidade natal. Fala inglês fluentemente, reside em Nova Iorque, e se apresenta como um escritor de narrativa global. Tudo isso pode se comprovar facilmente na Internet. 

O romance -que mais se assemelha a um sonho onírico de um homem culto nas ruas de Istambul- é denso, repleto de detalhes da história turca. E saturado dessa mesma cultura. Pamuk pode ser sem dúvida um escritor global, mas não há como negar que é turco mesmo. O telúrico -o amor à terra, permeado pela cultura- é a marca deste escrito peculiar e difícil de enfrentar nas suas quase 600 páginas. Dai a dificuldade natural para a mente ocidental, na qual nos encaixamos todos os pensadores da tertúlia, sintonizar com a prosa do Nobel turco. 

Poderíamos resumir o argumento, se existisse tal. Mas, já disse, mais do que argumento o que se apresenta é uma colcha de retalhos que destila pensamentos orientais. Isso me fez lembrar quando estive em Istambul por conta de um congresso médico, e tentei descobrir  por que a Turquia insiste em somar-se à União Europeia: nada encontrei, nem mesmo o inglês, reduzidíssimo e limitante. Para deslocar-se em taxi, era preciso pedir na recepção do hotel que chamassem um veículo, e dessem todas as instruções para o motorista. Qualquer possibilidade de diálogo com o taxista era inútil. A menos que fales turco, é claro. 

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Oslo: o esforço tremendo para compreender o outro.

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Oslo. Diretor:  Bartlett SherRuth Wilson, Andrew Scott, Itzik CohenIgal NaorRotem Keinan,  EE.UU. 2021. 118 min.

Debrucei-me sobre o filme sem grandes expectativas. Tinha lido uma crítica positiva sobre esta versão dos acordos de paz em Oslo, em 1993, entre palestinos e judeus. Quase 30 anos depois já sabemos no que deu: em nada, ou quase nada. Fosse pouco, tropecei nestes mesmos dias com a passagem bíblica onde tudo começou: Abraão, por insistência da sua mulher Sara, expulsa a escrava Agar e seu filho (que era também filho de Abraão). Deus promete que fara de Ismael, o filho expulso, a origem de um grande povo também. Não o povo eleito -isso foi exclusivo para Abraão- mas um povo a final de contas. O resto da história já conhecemos. 

Com este contexto em mente, comecei a ver o filme….e me enganchou. Aqui tem muito mais do que articulação política, pensei. Logo mais, imaginei que poderia ser um bom “case” de estratégia de negociação quando vi Terje, o marido de Mona, explicando em que consiste a tal estratégia: deixar de lado as diferenças, focar-se naquilo que é comum. Lembrei das sessões no master de alta direção de empresas, na tática win-win, e todas essas articulações necessárias, onde se deixa de fora a emoção  e a vontade de ganhar em todos os campos, para chegar a um acordo favorável a ambas as partes. Mas logo percebi que o filme era muito mais do que isso. Não apenas política , ou negociação de um conflito milenar (põe milenar nisso, está enunciado no primeiro livro da Bíblia), mas algo muito maior: um esforço imenso de compreensão, de entender o outro. 

A prima dona da compreensão é Mona, outra mulher, que vai mostrando os caminhos -difíceis, com feridas imensas de ambos lados- de uma possível cicatrização. Ocorreu-me pensar que se foi uma mulher -Sara- a que deflagrou o conflito, seria sensato que outra mulher -Mona- pudesse vir costurar o rasgão da túnica semítica. E com esta perspectiva em mente, adentrei-me nos fotogramas do filme. 

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William Deresiewicz: Excellent Sheep: The Miseducation of the American Elite and the Way to a Meaningful Life

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El rebaño excelente. Cómo superar las carencia de la educación universitaria de Elite. Ed. Rialp. Madrid. 2019. 273 págs.

Chega às minhas mãos -quer dizer, à tela do meu tablet- a versão espanhola deste livro magnífico. Não encontro a tradução para o português, e fica aqui a sugestão para os editores porque o livro não tem desperdício. Enquanto isso, me limitarei a traduzir livremente do espanhol algumas das passagens mais significativas, embora é difícil escolher, porque são muitas as notáveis. Salpicarei com poucos comentários, porque, insisto, o livro é todo ele auto explicativo e…..provocativo!

A crítica, toda ela, é dirigida à academia, e ao sistema vigente e o que este sistema faz com os estudantes, as consequências com a sociedade  e como é possível livrar-se desta ameaça. Algo análogo já tínhamos comentado neste espaço, com motivo de outro livro contundente de um professor do nosso meio. 

Anota o autor:  “ O sistema fabrica estudantes talentosos e motivados, mas também ansiosos, tímidos, perdidos; sem inquietude intelectual, com um sentido do propósito atrofiado. Enclausurados numa bolha de privilégios, todos caminham na mesma direção, são bons naquilo que fazem, mas não têm a menor ideia de por que o fazem”. E acrescenta assumindo a parte de culpa que nos cabe aos professores: “Publicam-se muito livros sobre educação, mas quase nenhum sobre os próprios estudantes aos que nem sequer escutamos. A educação é a via através da qual a sociedade articula seus valores e os transmite. Quando sou critico com o tipo de estudante que inunda as escolas mais seletas, na verdade estou criticando os adultos que lhes fizeram ser o que são; quer dizer, nós mesmos”. 

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Maurice Leblanc: “Arsène Lupin. Ladrão de Casaca”

Pablo González Blasco Livros 1 Comment

Maurice Leblanc: “Arsène Lupin. Ladrão de Casaca”Nova Fronteira, São Paulo, 1976. 170 págs.

Leituras na Pandemia 14

Alavancado pela ótima série de Netflix, inspirada nas aventuras do ladrão e elegante cavalheiro  –gentleman et  cambrioleur– , agendamos para a tertúlia literária mensal a primeira entrega de Maurice Leblanc, onde nos apresenta Arsène Lupin. O prefácio do livro, situa-nos no contexto: “Vivo, audacioso, impertinente, desafiando sem cessar o comissário (que aqui se chama Inspetor Ganimard), arrastando corações atrás de si e pondo os que riem do seu lado, zombando das posições conquistadas, ridicularizando os burgueses, socorrendo os fracos (….) Arsène Lupin, cavalheiro furtador, é um Robin Hood da Belle Époque.  Um Robin bem francês: não se leva muito a sério; suas armas mais mortíferas são as do engenho; não é um aristocrata que vive como anarquista, mas um anarquista que vive como um aristocrata; nunca é solene, sempre brincalhão; não dá o coração à mulher de sua vida, mas às mulheres de suas vidas”. 

Essa descontração do protagonista, que deixa em segundo plano até as consequências morais dos seus furtos -que nunca são propriamente crimes, mas sempre brincadeiras para acordar os interlocutores- surgiu como um destaque nas nossas conversas de pensadores. Excepcionalmente, por internet, porque no momento que vivemos, é a única maneira de montar uma tertúlia. Lembro de alguém falar: “Vendo o protagonista, pensei que eu também quero bom humor, e gratidão. Não levar-me tão a sério, que não vale a pena. Sem polarizações, sem ódios que dividem, que é o nosso quotidiano destes momentos. Levamo-nos, infelizmente, muito a sério. Um desperdiço”. 

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Rifkin’s Festival.Woody Allen, as saudades do bom cinema…. e da transcendência

Pablo González Blasco Filmes 3 Comments

Diretor Woody AllenWallace Shawn, Gina Gershon, Elena AnayaSergi López,  Enrique ArceChristoph Waltz. USA- Espanha, 2020. 92 min

Já ouvi -talvez li- em algum lugar, que os filmes de Woody Allen são como o aniversário da avó. Chega todo ano, o bolo enfeitado com a marca registrada. Pode ser melhor ou pior, mas é garantido. E, nesta altura do campeonato, quando o nosso judeu do Brooklin de classe média (ele que diz isso, não eu) já chegou aos 85, não seria elegante faltar nesse aniversário. 

De modo que, todo ano, estamos lá na expectativa. E, convenhamos, por pior que seja o bolo, o confeiteiro tem muitas horas de voo, de modo que algo mediano por parte dele, vale o tempo a ser investido. Que aliás, nunca é muito, nada de grandes super produções -banquetes pantagruélicos…..Com a idade, é preciso comer menos, talvez de jeito mais sofisticado. Como dizia um amigo -e bem poderia tê-lo dito o próprio Woody- após uma certa idade, só com olhar para a comida, já engordas….Embora, concluía -meu amigo, não Allen- que, sendo honesto, a gente não somente olha…..mas come mesmo. 

A outra ideia que sempre está presente -no aniversário fílmico de Woody- é que as personagens são sempre… ele. Um alter ego completo. Isso sim, parece-me lembrar que foi ele quem disse como resposta a esse interrogante que é evidente. “Woody, mas as personagens parecem-se com você. Por que colocar outro atores?” – Ele desconversou -alter ego, é quase assunto freudiano, também do gosto do diretor- e saiu pela tangente: “ Não tenho já idade para interpretar todas as personagens que estão na minha cabeça”. Creio ter comentado isso, naquele filme que me impactou, Meia Noite em Paris, onde quis fazer as pazes -render quase um tributo- ao baixinho. 

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C. S. Lewis: “Cartas de um diabo a seu aprendiz”

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Thomas Nelson Brasil. Rio de Janeiro. 2017. 150 págs.

Leituras na Pandemia – 13

Ler C.S. Lewis é sempre um desafio. O contundente bom senso, permeado de fino humor britânico e de toneladas de cultura, requerem tempo para a digestão. A dificuldade não está nas ideias que o professor de Oxford coloca, mas na assimilação parcimoniosa, na degustação dos conceitos. Não se pode ler em diagonal, para ver “do que vai o assunto” porque o mais provável é perder o gosto que produz o elegante raciocínio. É preciso estar alerta para as subtilezas, porque Lewis é accessível mas não é simples. Foi isso que se percebeu no início da nossa tertúlia literária do mês: uma mistura de desconcerto e de surpresa.

As tais cartas do demônio sênior ao aprendiz, tem como pano de fundo o processo de conversão do próprio Lewis; daí que dedique o livro ao seu amigo -que foi instrumento nessa trajetória religiosa- J.R.R. Tolkien. As dúvidas que lhe cercaram e que teve de superar são a base do “coaching” do demônio velho para o novo. Por isso, os argumentos, quando saboreados, tem pegada, chegam fundo a cada um de nós que somos, “os pacientes” do tal demônio. O importante, diz o velho demônio, são os resultados, chegar lá, não importa os meios: “Você logo descobrirá que a justiça do Inferno é puramente realista e preocupa-se tão somente com os resultados. Traga-nos comida ou você mesmo virará nossa comida”. Qualquer meio está valendo se conseguimos “conquistar o paciente” para nossa causa: “Os demônios ficam igualmente satisfeitos com ambos os erros e saúdam um materialista ou um bruxo com o mesmo prazer”.

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