Gregorio Marañón: “Ensayo Biológico sobre Enrique IV de Castilla y su tiempo”.

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Colección Austral. Ed . Espasa Calpe. Buenos Aires, 1941. 138 págs.

Um amigo, médico humanista, surpreendeu-me no final de uma reunião clínica com este libro. Certamente conhecia minha admiração por Gregorio Marañón,  e deve ter desentocado este volume de um sebo, como é fácil perceber pelo desgaste do uso.

Marañon o denomina “retrato morfológico daquele rei Trastámara, que a história apresenta como um degenerado, esquizoide, com impotência relativa”. E ainda aponta que “poderia tratar-se de um ser com traços de eunuco e acromegálico, com insuficiência de secreção interna sexual; isso explicaria sua tendência ao isolamento e à solidão, a fraqueza de vontade com a qual se entregou ao comando alheio, ligado ao instinto sexual vacilante”. O retrato morfológico de Enrique IV, que parece tinha boa envergadura,  continua: “Aos homens de grande talha sempre se lhes exige mais do que são capazes de dar; assim se origina o complexo de inferioridade. Isso faz com que os gigantes sejam muitas vezes tímidos sociais, fracos para a luta e para o amor. A timidez sexual também coincide com as estaturas elevadas”.

Já tinha conhecimento de este ensaio de Marañón, mas nunca me aventurei na sua leitura. Sei -também por conversas com outro amigo- que o médico espanhol buscava com alguma frequência nas figuras da história, o recurso para falar dos seus próprios pacientes (algo que por sigilo é lhe vedado ao médico). Daí o nome de ensaio biológico: uma aproximação com olhos clínicos da personagem histórica, fazendo convergir nela o conhecimento científico disponível.

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O Segredo: Ouse Sonhar. Um filme com sabor clássico

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The Secret:  Dare to Dream. USA 2020. Diretor:  Katie HolmesJosh LucasCelia WestonJerry O’ConnellSarah Hoffmeister, Aidan Pierce Brennan. 107 min.

Nem sempre as críticas cinematográficas produzem o efeito desejado. Foi o meu caso com este filme -que me encantou!- apesar de que o comentário que li em revista especializada, o qualificava como um romance cheio de clichés, moralizador, com boas pessoas boas que optam por ter uma atitude positiva diante de vida. E ainda acrescentava que lhe falta garra e suspense, embora tenha boas intenções. Como disse, vi o filme, gostei muito, mas não esqueci da crítica; é mais, voltei a lê-la…..e se produziu a faísca que dá lugar a estas linhas. “Com todo o respeito que os críticos merecem, vou dizer o que penso do filme….e dos críticos” – discorri. E comecei a digitar no computador.

Talvez o erro principal dos críticos é não ter atentado para o título que nos fala de um segredo -um código, um password por dizê-lo em linguagem atual- que nos permite entrar no sistema do filme….e da vida. Segredo simples de enunciar, mas difícil de executar porque exige disposição de ânimo e coragem: atrever-se a sonhar!

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Adela Cortina: “Ética de la razón cordial. Educar en la ciudadanía en el siglo XXI”.

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Adela Cortina: “Ética de la razón cordial. Educar en la ciudadanía en el siglo XXI”. Ediciones Nobel, Oviedo, 2009. 270 págs.

Tinha este livro na minha estante, há muito tempo,  quase uma década. Por algum motivo, ele piscou para mim às portas de umas breves férias no final do ano. Como dizia Borges, os livros tem o seu momento, não porque eles mudem, mas porque nós mudamos, tornamo-nos disponíveis e alinhados com essa leitura. Como dizem os anglófonos, encontramo-nos “in the mood for” , um estado convidativo para empreender esse mano-a-mano com a letra impressa.  Neste caso, trata-se de um ensaio filosófico, que é na verdade um passeio agradável da mão da autora que domina o sentir dos pensadores na sua implicação com a ética. Variedade de autores e suas respectivas posturas éticas, e o modo de ver o mundo.  Um passeio que desemboca no que a escritora denomina a ética da razão cordial, uma contribuição para educar na cidadania nos dias de hoje. Leio o original espanhol, e me permito uma tradução de bate pronto nestas linhas para facilitar a mensagem: a da escritora, e das minhas próprias reflexões.

A busca da conciliação -requisito para qualquer educação na cidadania- torna-se presente já no primeiro momento. “Os entusiastas do conflito -não os agravados, mas os ressentidos- alegram-se de não encontrar valores compartilhados. Quanto pior, melhor -essa é a sua consigna (…) Descobrir conjuntamente o ‘capital ético’ compartilhado, sem o qual uma sociedade torna-se desumana, por carecer de mínimos de humanidade. Esse era o sentido da “ética de mínimos” que escrevi há 3 décadas”.

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Edmondo de Amicis: “Cuore”.

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Edmondo de Amicis: “Cuore”.Ed. Autêntica. Belo Horizonte. 2019. 282 págs.

Leituras na Pandemia – 9

Foi uma paciente, há mais de 30 anos, quem me falou deste livro por primeira vez. Ela uma senhora avançada na década dos 50, eu um médico jovem mas já com o gosto humanista que sempre me perseguiu, trocava ideias de livros e de arte com os meus pacientes. Aprendi -e aprendo- muito com eles. “Sim, doutor, livros inesquecíveis, como aquele Coração de Edmondo de Amicis, que todas liamos na escola normal”. Parece-me lembrar que ela era professora, e que o livro em questão tinha um significado especial para as moças que estudavam magistério.

Por isso não é de se estranhar quando  na abertura deste diário de um garoto, e da suas vivencias no colégio, encontramos esta overture do professor: “Temos de passar um ano juntos. Estudem e sejam bons. Eu não tenho família. A minha família são vocês. No ano passado, eu ainda tinha a minha mãe, mas ela morreu. Fiquei sozinho. Não tenho mais ninguém no mundo, não tenho outros amigos nem outro pensamento senão vocês. Eu lhes quero bem, é preciso que vocês também me queiram bem. Não quero ter de castigar ninguém. Mostrem-me que vocês têm coração; nossa escola será uma família e vocês serão a minha consolação e o meu orgulho. Não peço que me prometam com palavras; tenho certeza de que, nos seus corações, vocês já me disseram “sim”. E eu lhes agradeço”.

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Graham Greene: “O Fator Humano”.

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Graham Greene: “O Fator Humano”.Círculo do Livro. São Paulo. 1978. 330 págs.

Tinha esta obra de Graham Greene na mira faz já algum tempo. O tema do fator humano – a sempre surpreendente imprevisibilidade em tempos que vivemos nos rodeando de seguranças e certezas  a qualquer custo- é algo que me seduz. Ou melhor, que me ajuda a entender como é a vida real, que sempre foge de previsões  e protocolos. 

Após ler um ensaio-tratado sobre Escritores Conversos (onde Greene aparece várias vezes), decidi-me a saldar esta pendência. Deparei-me com uma história policial,  de figuras que não parecem estar cômodas fazendo o que fazem; que seguem os processos e também não têm muito espaço para a criatividade, que é o que eu supunha. 

A trama nos situa numa divisão do serviço secreto britânico, perdida em burocracias, onde “nada jamais era realmente urgente”. Castle, o protagonista, velho policial saturado da sua profissão, almejando a aposentadoria, mantinha na sua casa “o vitral um tanto espalhafatoso por cima da porta da frente. Não gostava dele, porque o associava com os consultórios de dentistas. É que, nas pequenas cidade do interior, os vitrais coloridos geralmente ocultam a cadeira da agonia da vista dos que passam”. Tem no seu histórico uma longa experiencia na Africa, acabou casando com uma nativa, mãe de um garoto: “Gostaria que Sam fosse criado num só lugar. Assim, se algum dia eu tiver de ir embora, ele sempre teria para onde voltar. Para algum lugar a que se acostumou na infância. Para algo velho. Algo seguro”

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O Dilema das Redes e O Rei Lear: Uma reflexão desde a maturidade.

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The Social Dilemma (USA, 2020) Diretor: Jeff Orlowski. Roteiro:Davis CoombeVickie CurtisJeff Orlowski, Com: Kara HaywardCatalina GarayoaBarbara GehringSkyler GisondoChris GrundySophia HammonsVincent KartheiserMarty LindseyTristan HarrisTim KendallAza RaskinJustin RosensteinShoshana Zuboff, Fotografía: John Behrens, Jonathan Pope Montaje: Davis Coombe. 93 min

Nada grandioso entra na vida dos mortais sem carregar junto uma maldição – Essa é a frase de Sófocles que inaugura o magnífico documentário sobre as Redes Sociais recentemente lançado por Netflix. Qualquer tentativa de resumir o recado -que são muitos, sendo no fundo um só- seria uma pretensão arrogante. Até porque cada um saberá extrair suas próprias consequências….E com elas, advertências, avisos, receios, e dúvidas. Muitas dúvidas, porque afinal a questão é:  o que fazer com essa bomba que nos é servida? 

Depoimentos pontuais de executivos que militaram em Google, Facebook, Instagram, Youtube, num “mano a mano” entre eles, trazem dados contundentes e verosímeis. Ninguém tem uma atitude xiita, retrógrada, de condenar o progresso, pois afinal é a criatura deles. Reconhecem as maravilhosas conquistas -desde reunir famílias dispersas, até facilitar o transplante de órgãos; mas todos apontam para o alto imposto que estamos pagando com essas incríveis novidades tecnológicas. O  mais sério e preocupante é a adição, e os próprios executivos se confessam viciados: “Trabalho todo o dia em algo do qual não consigo desligar”. Algo sutil, uma escravidão imperceptível, que lembra aqueles filmes de gangster que eliminavam suas vítimas com escapamentos em garagens fechados: a morte doce do monóxido de carbono, que não se percebe até que dá conta do sujeito. 

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Olga Tokarczuk: “Sobre os ossos dos mortos”.

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Olga Tokarczuk:  “Sobre os ossos dos mortos”. Todavia. São Paulo, 2019. 256 pgs.

Leituras na  Pandemia – 8

A tertúlia literária levou-nos desta vez até a escritora prêmio Nobel 2018,  uma polonesa formada em psicologia. Não é supérfluo citar seu background acadêmico, porque -como se verá- permeia a narrativa. E até parece que brinca com o leitor -como se fosse um paciente deitado no divã do psicanalista….

‘Não dá para saber a idade da protagonista’ – assim começaram os comentários na tertúlia. Parece ser uma anciã, depois se mostra como uma mulher decidida, uma engenheira que fabrica pontes, depois uma professora  e…..por ai afora. Um arquétipo? pensei eu, tendo o divã como pano de fundo. 

Os mortos e seus ossos, são os vizinhos -os cadáveres- que vão aparecendo ao longo do romance. Vizinhos sem nome, apenas com apelidos que a protagonista vai dando: “Acredito que cada um de nós vê o outro a seu modo, portanto tem o direito de chamá-lo da maneira que acha adequada e conveniente (…) O sobrenome deles era Poceiros. Demorei pensando se deveria inventar meu nome particular para eles, mas depois cheguei à conclusão de que constituíam um dos dois únicos casos em que o sobrenome combinava com a pessoa. Realmente eram pessoas que viviam num poço — caíram nele há muito tempo e agora ajeitavam a vida em seu fundo, pensando que o poço era o mundo inteiro”. 

Cada evento -cada morto- dispara a reflexão de Janina, a protagonista que odeia seu próprio nome. “Não era um paradoxo sinistro que agora nós precisássemos nos ocupar com o corpo de Pé Grande, que ele tivesse nos deixado esse último problema? Nós, os vizinhos que ele nunca respeitou, de quem não gostava, e com quem nunca se importou?  Você não gostaria de ser encontrada assim, não é? Nessas condições. Isso é desumano. Pois é, o corpo humano é certamente desumano. Especialmente um corpo morto. A morte de alguém conhecido tira a autoconfiança de qualquer pessoa”. 

E do cadáver a reflexão vai até  o próprio corpo: “Com a minha idade e nas minhas condições atuais, deveria sempre lavar bem os pés antes de dormir, caso uma ambulância precise vir me buscar à noite. Sempre tive a impressão de que os pés são a parte do corpo mais íntima e pessoal, e não os genitais, ou o coração, nem mesmo o cérebro — órgãos insignificantes e supervalorizados. É nos pés que se encontra todo o conhecimento sobre o ser humano, é para lá que flui todo o sentido fundamental daquilo que realmente somos e de como nos relacionamos com a terra. Todo o mistério — o fato de sermos compostos de elementos da matéria e, ao mesmo tempo, estranhos a ela, isolados — jaz no contato com a terra, em sua ligação com o corpo. Os pés são nossos pinos da tomada”. 

Aparece a velha em versão antropóloga: “Temos este corpo, esta bagagem que só causa problemas, e, de fato, não sabemos nada sobre ele. Precisamos de diversas ferramentas para nos informar sobre os processos mais simples. A única ferramenta primitiva e grosseira que nos foi dada como consolação é a dor. Os anjos, caso existam, morrem de rir de nós. É nisso que dá ganhar um corpo e não saber nada sobre ele. Nem sequer ter um manual de uso. As pessoas não vivem apressadas, não rivalizam com os outros por qualquer motivo. Não correm atrás das ilusões. Vivem contentes com aquilo que são e gostam daquilo que têm”. 

A narrativa mais do que prender, surpreende. Em alguns momentos transpira ironia caustica: “Às vezes, quando um ser humano experimenta a ira, tudo parece óbvio e fácil. A ira põe as coisas em ordem, mostra um claro resumo do mundo. A ira também restaura o dom da clarividência, difícil de ser alcançado em outros estados (…) A prisão não está lá fora, mas dentro de cada um de nós. Talvez não consigamos viver sem ela. Longos anos de infelicidade degradam um homem mais do que uma doença letal (..) Não tem lanterna? — perguntou. Claro que tinha, mas conseguiria achá-la apenas de manhã, à luz do dia. Com as lanternas é sempre assim: são visíveis só durante o dia”. 

Em outros momentos revela-se tremendamente feminina, parece que o receio do convívio com os outros se acalma, deixa-se cativar pelos semelhantes: “A casa era clara, quente e aconchegante. É uma grande felicidade ter uma cozinha limpa e quente. Eu nunca tive essa satisfação. Não sabia manter a ordem à minha volta. E já havia aceitado esse fato (..) O amor de Esquisito pela ordem é evidente em seu pequeno quintal: a lenha para o inverno está empilhada em montes engenhosos que lembram espirais. O resultado é uma pilha de proporção áurea. Essas pilhas podem ser consideradas uma obra-prima local. Não consigo resistir a uma bela ordem em espiral. Quando passo por lá sempre paro um instante e admiro essa cooperação construtiva das mãos e da mente que, mesmo com uma coisa tão banal como a lenha, expressa o movimento mais perfeito no universo. Esquisito foi feito para uma vida de solidão, exatamente como eu, mas não havia forma de juntar nossas solidões”. 

Feminina e observadora, como quando fala da escritora de cuja casa cuida, outra das ocupações que vai aparecendo ao longo do romance. Prosa fácil, elegante e precisa que torna as descrições fotografias e ao mesmo tempo transpirando interpretação psicanalítica:  “Usava um colar cervical; parece ter sofrido um acidente no passado. Ou talvez tenha ficado mal da coluna de tanto escrever. Lembrava um sobrevivente de Pompeia — como se estivesse coberta de cinzas. Seu rosto era cinzento; até mesmo os lábios e os olhos eram cinza. Prendia os longos cabelos com um elástico e fazia um pequeno coque no topo da cabeça. Se eu a conhecesse um pouco menos, certamente leria seus livros. Mas, por conhecê-la, tinha medo de os ler. Era possível que eu me achasse neles, descrita de uma forma que não conseguiria entender?  Ou os lugares que amo seriam completamente diferentes do que são para mim? De alguma forma as pessoas como ela, que dominam a escrita, costumam ser perigosas”. 

Até as tímidas tentativas de romantismo sucumbem à análise fria e prosaica: “A presença de Boros me lembrou como era morar com alguém. E como isso pode ser constrangedor. E o quanto nos desvia dos nossos próprios pensamentos e nos distrai. Como a outra pessoa começa a nos irritar não por fazer algo irritante, mas pelo simples fato de estar ali. E quando ele saía de manhã para a floresta, abençoava minha bela solidão. Como é possível, pensei, que as pessoas convivam durante décadas compartilhando um pequeno espaço? E dormem juntas na mesma cama, bafejando e esbarrando uma na outra sem querer durante o sono (…) Notei também que não entendia tudo o que eu dizia — primeiro, porque obviamente eu usava argumentos que lhe eram estranhos, mas também por causa do seu vocabulário limitado. E porque era o tipo de homem que desprezava o que não podia entender (…) Parecíamos, agora, um casal de velhinhos indo a um enterro e, de certa maneira, era isso mesmo — íamos ao meu próprio funeral”. 

E o realismo que lhe faz assumir a culpa: de novo a velha rabugenta. “Quando chegamos a uma certa idade, precisamos entender que as pessoas sempre ficarão irritadas conosco. Antes, nunca tinha percebido a existência ou o significado de gestos como acenar com a cabeça rapidamente, desviar o olhar, repetir “sim, sim”, feito um relógio. Ou checar as horas, ou esfregar o nariz. Mas agora entendo muito bem que esse teatro todo só quer expressar uma simples frase: “Dá um tempo, sua velha”. Às vezes fico pensando se um jovem bonitão ou uma morena curvilínea seriam tratados da mesma forma se dissessem as mesmas coisas que eu. As melhores conversas são as que temos com nós mesmos. Ao menos não há risco de desentendimentos”. 

Um aspecto que domina o livro -e que na época foi comentado na mídia- é a defesa fundamentalista dos animais e da natureza. Elemento que virá explicar grande parte da trama do romance, dica que aponta desde o início: — Ele se engasgou com o osso de uma corça caçada ilegalmente. Foi uma vingança do além-túmulo (…) Um cão com dono e esfomeado prediz a ruína do estado. Os animais mostram a verdade sobre um país — eu disse. — A atitude em relação aos animais. Se as pessoas tratarem os animais com crueldade, não adiantará de nada a democracia ou qualquer outra coisa. Tristeza, senti uma grande tristeza, e um luto interminável por cada animal morto. Termina um luto e logo começa outro, então estou em constante luto. É meu estado natural (…) A senhora sente mais pena dos animais do que das pessoas. — Não é verdade. Sinto pena de ambos, de modo igual. Contudo, ninguém atira contra pessoas indefesas — disse ao funcionário da Guarda Municipal naquela mesma noite. — Ao menos nos dias de hoje — acrescentei. — Sim, é verdade. Somos um estado de direito — o guarda confirmou. Pareceu-me bondoso e pouco sagaz”. 

Junto com os animais, a astrologia -outra das paixões de Janina (quem sabe da escritora também?) que tornam, na minha opinião, o relato por vezes tedioso, embora conecte com a realidade: “Gosto particularmente quando os mapas mostram a pressão que explica a inesperada resistência na hora de se levantar da cama ou a dor nos joelhos, ou ainda outras coisas — uma tristeza inexplicável que tem exatamente o mesmo caráter de uma frente atmosférica, uma caprichosa figura serpenteando na atmosfera terrestre”. 

Mas as paixões ecológicas -animais, natureza- combinadas com os mapas astrais não liberam Janina da profunda tristeza que toma conta do seu ser. “Enquanto olhava para o planalto e sua paisagem em branco e preto, entendi que a tristeza é uma palavra importante na definição do mundo. Constitui a base de tudo, é o quinto elemento, a quintessência(…) Os morcegos veem o mundo; queria, ao menos uma vez, sobrevoar o planalto em seu corpo. Como todos parecemos aqui embaixo quando somos vistos por seus sentidos? Essencialmente, tinha muito em comum com eles — eu também enxergava o mundo em outras frequências, às avessas. Eu também preferia o crepúsculo. Não prestava para viver ao sol”. 

O pessimismo toma conta da protagonista, e o leitor se pergunta se todas as paixões ecológicas e astrológicas não serão um substituto para as decepções sofridas com …..o ser humano: com os outros, com ela mesma. Sob esse prisma, vale reler com calma estas considerações pinçadas ao longo do romance, que são verdadeiras cargas de profundidade: antropológicas, psicológicas, um grito buscando a solidariedade.

“Hoje em dia ninguém mais tem a coragem de inventar algo novo. Fala-se apenas sobre como as coisas já são e se continua lançando as mesmas ideias antigas. A realidade envelheceu e ficou senil; está sujeita às mesmas leis que qualquer organismo vivo — envelhece. Assim como as células do corpo, seus componentes mais elementares — os sentidos — sucumbem à apoptose. A apoptose é a morte natural, provocada pelo cansaço e pelo esgotamento da matéria. Em grego essa palavra significa “a queda das pétalas”. As pétalas do mundo caíram (…)  Não suporto isso nas pessoas — essa ironia fria. É uma postura muito covarde; tudo pode ser ridicularizado, desrespeitado, não é preciso se envolver em nada ou estabelecer qualquer laço. Como um homem impotente que não consegue sentir prazer, mas fará de tudo para estragar o prazer dos outros. A ironia fria é o armamento da impotência. Os irônicos sempre têm uma visão de mundo da qual se gabam triunfalmente. Entretanto, se alguém começar a insistir e os questionar sobre os pormenores, descobre-se que ela é composta de trivialidades e banalidades”. 

A crítica social, política e, como não poderia faltar, aos meios de comunicação está presente: “As pessoas em nosso país não possuíam absolutamente nenhuma capacidade de se associar ou constituir uma comunidade, mesmo sob o estandarte de um cogumelo. É um país de individualistas neuróticos que, no meio de outras pessoas, começam a instruir, criticar, ofender e demonstrar sua indubitável superioridade (…)Os jornais procuram nos manter num estado de desassossego permanente para manipular nossas emoções, desviar nossas atenções do que realmente importa. Por que deveria me submeter ao seu poder e pensar da maneira que eles obrigam a pensar?”. 

Aparece a formação acadêmica, a modo de explicação desta catarse de sentimentos: “Acho que a psique humana se constituiu para nos incapacitar de enxergar a verdade. Para nos impedir de ver o mecanismo sem obstáculos. A psique é nosso sistema de defesa — é responsável por não nos permitir entender aquilo que nos rodeia. Ocupa-se principalmente de filtrar as informações, embora as possibilidades do cérebro sejam enormes. Seria impossível suportar tamanho conhecimento, visto que todas as partículas do mundo, por menores que sejam, estão compostas de sofrimento. As pessoas são capazes de entender apenas aquilo que inventam para si mesmas e é com isso que se alimentam”. 

No final do túnel, uma luz, esperança, saudades de um mundo melhor que, certamente existe, como o das crianças que “são flexíveis e maleáveis, abertas e despretensiosas. E não se ocupam das conversas fiadas com as quais qualquer adulto consegue complicar sua vida”. Por isso lembra: “Quando se olha para certas pessoas, a garganta fica apertada e os olhos se enchem de lágrimas de emoção. É como se elas guardassem uma forte memória da nossa antiga inocência, como se fossem uma anomalia da natureza, não totalmente atingidas pela queda. As histórias da vida de alguém não são um assunto para ser discutido. Deve-se ouvi-las e retribuir na mesma moeda (….) Nessas horas não precisava esconder a mais problemática de minhas moléstias — o choro. Lá, as lágrimas podiam fluir, limpando os olhos e melhorando a vista. Talvez esse fosse o motivo pelo qual eu enxergava mais que as pessoas com olhos secos”. 

É a redenção de Janina, da escritora, de cada um de nós que se abre à transcendência, à beleza, às possibilidades do ser humano. “É um grande mistério como os desafios despertam em nós forças verdadeiramente vivificantes”. E para facilitar a catarse e a redenção, nada como escrever: “Quando não se pode falar, é preciso escrever — disse. — Isso ajuda muito — acrescentou e se calou”. Escrever, cada um do seu jeito, lavando a alma e a mente, abrindo o coração. Sem pretensões. Embora, por vezes, essa atitude que nos torna claros a nós mesmos -e não somente aos outros, como quando simplesmente falamos- pode até render um prêmio Nobel.

Roger Scruton: “Bebo, logo existo”.

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Roger Scruton: “Bebo, logo existo”. Octavo. São Paulo 2011. 299 págs.

Faz alguns meses ganhei este livro de um amigo e colega, médico culto, apreciador do vinho, predicados que não raramente caminham juntos como podemos comprovar passeando pelas páginas que o autor salpica dessa substância que ele diz ser “ provavelmente tão antiga quanto a civilização; eu prefiro dizer que ele é a civilização  e que a distinção entre países civilizados e incivilizados é a distinção entre os lugares onde o bebem e os lugares onde não o bebem”.   

Guia de um filósofo para o vinho. Esse é o subtítulo que figura nesta intrigante obra de Scruton. Na verdade, o que ele quer é juntar duas paixões claras: a enologia (nota-se que bebeu de tudo, em amplo espectro) com a filosofia (isso já sabíamos, que tinha lido de tudo). O vinho é uma desculpa agradável, palatável, para dar os recados costumeiros -sutis alguns, cargas de profundidade outros- do pensador britânico. 

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