Sheilla Sarra: Quando a tempestade chegar
Urutau. São Paulo. 2025. 115 págs.

Não consegui estar presente no lançamento deste livro de uma colega querida, culta, atenta aos detalhes e às notícias do mundo, e agora escritora. Mas chegou-me um exemplar com dedicatória carinhosa através de outro amigo, também colega de turma e escritor, que se lançou a presidir a AFE (Associação dos Fundidos Escritores) na qual me incluiu. Mas isso é outra história.
Agradeci a ambos o detalhe, e logo nas primeiras páginas algo me fez lembrar daquele livro magnífico do Dino Buzzati, O Deserto dos Tártaros. Os tártaros por aparecer, lembraram-me a tempestade por chegar. E desse modo fiz saber à autora, logo no início da minha leitura.
E como no livro dos Tártaros, que é narrado através da pupila do jovem oficial destinado ao Forte Bastiani, a expectativa da tempestade é filtrada pelo olhar do Pepe, o protagonista. Não apenas pelo olhar mas pelos sentimentos, coração, dúvidas, questões não resolvidas. Enfim, pela vida dele. Como dizia Fernando Pessoa: o que vemos não é o que vemos, mas o que somos.
As variantes são muitas e diversas, tantas como pessoas aparecem na narrativa. Um denominador comum: cada um para si, Deus para todos. Quer dizer, na hora em que o bicho pega -mesmo que nem tenha chegado, e aí está o quid da questão- os interesses coletivos passam a segundo plano, e cada um busca livrar o que é dele. Comenta alguém: “As coisas se resolvem quando há interesse em colaborar. Uma cidade inteira pode sofrer os efeitos de um Tsunami e você só discute os aspectos que parecem relevantes para você e para os seus interesses diretos?” E em outro momento: “Cada um se defende como pode. É o que os outros fariam se estivessem em nosso lugar. Quando submetidas a uma situação de stress, a maioria passava automaticamente para uma linha de pensamento extremamente individualista. Ao invés de unir forças com outras pessoas em busca de uma solução conjunta, optavam por entrar num modo de pensar egoísta e autocentrado que os induzia a cometer diversos erros”.
E antes de surgir a perspectiva da tempestade -ou dos tártaros- como andavam as pessoas, e o próprio Pepe? Na mesmice: “O tempo foi passando e foram se acostumado com aquela suave letargia, deixando se dominar pela inércia e pelo imobilismo”. Lembrei do comentário de Ortega, sobre o homem que se deixa levar, e se contenta em existir: “À medida que avançamos na existência, cansamo-nos de perceber que a maioria dos homens — e mulheres — é incapaz de qualquer outro esforço que não aquele estritamente imposto como reação a uma necessidade externa. Pela mesma razão, os pouquíssimos seres que conhecemos capazes de esforços espontâneos e luxuosos permanecem mais isolados e monumentalizados em nossa experiência. São os homens seletos, os nobres, os únicos ativos, e não apenas reativos, para quem viver é uma tensão perpétua, um treinamento incessante. Treinamento = askesis. Eles são os ascetas”.
Em outro momento, sublinha o filósofo espanhol: “O homem que se impõe uma disciplina mais severa e exigências maiores do que as habituais em seu ambiente seleciona-se a si mesmo, se distingue e se destaca da grande massa indisciplinada onde os indivíduos vivem sem tensão ou rigor, confortavelmente amparados por ressacas. É por isso que o lema decisivo das antigas aristocracias, forjadoras de nossas nações ocidentais, era a sublime Noblesse oblige. Nada se pode esperar de homens que não sentem o orgulho de possuir obrigações mais duras do que os outros. A nobreza no homem, como em seu irmão mais velho, o animal, é, antes de tudo, um privilégio de obrigações. O cavalo puro-sangue o é, antes de tudo, porque é obrigado a correr mais rápido do que o cavalo comum ou a resistir mais tempo”.
Deixando Ortega, e voltando para a tempestade da Sheilla, encontramos Pepe, em expectativa assustada, não sabemos bem se por conta do temporal que pode vir, ou por terem saído do baú da sua consciência, todo tipo de lembranças e incômodos. “Ao olhar para as árvores centenárias, pensou nas inúmeras ocasiões em que se sentiu desamparado e buscou conforto na firmeza e na estabilidade que emanavam vencendo todas as adversidades, com sua persistência e robustez”. Lembranças despertadas pelas coisas simples que na agitação diária não tem tempo de apreciar: “Mesmo agora mais velho, adorava comer os sequilhos; lhe proporcionavam um retorno aos dias felizes do passado (…) O filme despertou em Pepe a vontade de analisar o que motivava o comportamento dos heróis, e que emoções eles despertavam nas pessoas (…) As brigas políticas serviam para aumentar a venda de jornais. O jornalismo ensinou-lhe muito cedo que toda ajuda dependia de uma troca”.
O eco das lembranças avança do simples evocar com saudades, até um mergulho na própria consciência. “Sentiu-se constrangido por ter feito julgamentos precipitados e incorretos. Sentiu vergonha de seus pensamentos, da sua atitude impulsiva e individualista, de ter aborrecido Ana com suas dúvidas descabidas. (…) Tinham muitas diferenças e pontos de atrito que pesavam no relacionamento diário, as a administração das diferenças vinha ajudando na continuidade da relação. Não sabia nada sobre ela, e sua interpretação sobre sua aparência não lhe dava o direito de julgá-la dessa forma. Era o tipo de engano que já havia cometido com várias pessoas e o havia induzido a cometer injustiças”. A réplica que a mulher lhe dá é como um lastro que lhe faz afundar mais nesse mergulho: “Você não consegue entender o que é viver com emoção. Aproveitar o que há de bom e se permitir o prazer de realizar um sonho. Vive dentro de uma lógica fechada e sufocante, e não abre espaço para novas conquistas”.
Onde levou o Pepe a tempestade e os turbilhões interiores? Certamente a um melhor conhecimento próprio, como aponta a escritora: “Era contundente e inflexível. Justificava sua postura sob a ótica de ajudar os outros, evitando que corressem riscos e prejuízos. Mas talvez não fosse só isso. Talvez estivesse tentando neutralizar seu próprio incomodo com as decisões que não conseguia tomar por lhe causarem desconforto. Na realidade não queria ver nos outros as atitudes as quais fugia por medo ou covardia. …Aquele pesadelo em que se sentiu sobrepujado e ameaçado pela força da tempestade, poderia estar relacionado com sua aversão às instabilidades, à falta de domínio sobre as situações. A sua tempestade seria, na verdade, o símbolo do seu desespero para lidar com situações que fogem ao controle”.
E onde nos leva a nós, leitores, esta tempestade da amiga Sheilla? Cada um terá o seu percurso, no mergulho da consciência que é impossível evitar. Sabor bíblico, naquele ver nos outros os defeitos que nós mesmos temos, a palha no olho alheio e a viga no nosso. E também aquela frase contundente, em latim: virtus in infirmitate perfícitur!, a virtude se aperfeiçoa na adversidade.
E nos arcos voltaicos que a memória dispara, volta novamente Ortega na sua Meditação sobre o povo jovem, quando diz trazendo de volta os ascetas: “A ausência de pressão, de problemas, extinguiria a nossa vida, porque o nosso viver é uma aceitação constante das feridas e uma resposta vigorosa a essa lesão benéfica. Nem um indivíduo nem um povo podem viver sem problemas: pelo contrário, cada indivíduo, cada povo vive precisamente dos seus problemas, dos seus destinos. A vida histórica é uma criação permanente, não um tesouro que nos chega como um presente. Para criar, é preciso permanecer perpetuamente em treino. E vale lembrar que a palavra treino nada mais é do que a tradução da palavra askesis, ascetismo, que os gregos usavam nos jogos atléticos e com a qual se referiam ao regime de exercícios difíceis a que os atletas se submetiam para se manterem em forma. Os místicos da Idade Média tomaram emprestada essa palavra do esporte e da vida pagã e a aplicaram à atividade humana, que, por meio do exercício constante, busca manter um estado de graça, estar em forma e alcançar a beatitude. Não há destino tão desfavorável que não possamos fertilizá-lo, aceitando-o com alegria e determinação. Dela, de seu toque áspero, de sua angústia inescapável, as pessoas extraem a capacidade de grandes verdades históricas. Não haja dúvidas: somos construímos na dor e consumidos pelo prazer”. E o jagunço de Guimarães Rosa que diz o mesmo que Ortega, com sabor verde amarelo: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim, esquenta e esfria, aperta e afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza!”. Essas são as tempestades, as lombadas que enfrentamos: não para tropeçar e encontrar culpados, mas para subir nelas e enxergar mais alto e mais a fundo na nossa vida.
Comments 1
Prezado colega e amigo,
Sua interpretação foi brilhante e muito construtiva.
Precisamos, realmente, ter coragem e determinação para aceitar as adversidades e encará-las como oportunidades para crescer e ampliar nossa percepção do mundo e da vida.
Não há como compreendermos o que é a dor das outras pessoas se nunca a tivermos experimentado.
Não há como adquirir a virtude sem os exercícios contínuos de resiliência propiciados pelos problemas.
E fugir seria o mesmo que estagnar ou, mesmo, retroceder em nossa viagem de aperfeiçoamento.
Agradeço muito pela leitura e pelas considerações!