Downton Abbey: A elegante cordialidade que nos aproxima dos semelhantes

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Criador: Julian Fellowes. Hugh Bonneville, Laura Carmichael, Jim Carter, Brendan Coyle, Michelle Dockery, Joanne Froggatt, Robert James-Collier, Phyllis Logan, Elizabeth McGovern, Sophie McShera, Lesley NicolMaggie Smith, Penelope Wilton, Kevin Doyle, Allen Leech, David Robb, Siobhan Finneran, Dan Stevens, Raquel Cassidy, Lily James, Jessica Brown Findlay, Samantha Bond, Matt Milne, Ed Speleers, Amy Nuttall, Jeremy Swift, Douglas Reith

Não me lembro quem foi -na verdade, parece-me recordar que foram várias pessoas- que me recomendou assistir esta série. “Muito boa, você vai gostar demais”. Como sempre, a sugestão veio nua de guarnição: ninguém me disse porque eu iria gostar, nenhuma dica de onde colocar o zoom da apreciação. Guardei a indicação, e coloquei-a na lista de espera, sempre crescente, porque o tempo é desproporcional às pendências.

Passaram-se meses, até anos pelo que pude comprovar nas datas da produção.  Enfrentei os primeiros capítulos, fui assistindo em pequenas doses, degustando as histórias. E logo percebi que a série desmembrada em várias temporadas, poderia nunca acabar. Porque afinal, o que lá se relata e que tem como pano de fundo o quotidiano de um lar da aristocracia britânica, é a vida mesma, o viver diário de cada uma das personagens que enriquece esta produção cuidadíssima, de imenso bom gosto.

Os filmes são muitas vezes um corte temporal na vida das pessoas: um argumento que tem início, meio e fim. Uma instantânea das personagens mergulhadas em determinadas circunstâncias. Daí que o espectador manifeste suas inclinações e tome partido por uma ou outra personagem, e até se atreva a qualificá-las. Mesmo sem pecar de maniqueísmo, é fácil decantar-se pelos bons e maus, mocinhos e bandidos, juízo que tem o respaldo das atitudes apresentadas no filme.

Mas numa saga como a que nos ocupa, a tendência a etiquetar as pessoas -que sempre está presente na mente do espectador- acaba sendo desconstruída ao longo da narrativa. A antipatia que suscita essa personagem, pela sua mesquinhez ou pelos ciúmes; a intolerância, a insegurança e as obsessões recorrentes deste, a ingenuidade ou a teimosia daquele são um momentum, e com o tempo, outras virtudes afloram, equilibrando o cenário e a própria personagem.

Daí o curioso encanto das conversas nas refeições -tanto na luxuosa sala de jantar como no refeitório do staff que pilota Downton Abbey desde o servants hall. Opiniões díspares, ironias, comentários sugestivos e um respeito elegante que suspende o juízo de valor enquanto observa a evolução das pessoas. O espectador aprende que o tempo investido para conhecer as histórias de vida de cada um, são elemento imprescindível para fomentar a concórdia, para tentar compreender o interlocutor, mesmo discordando ou desaprovando seu ponto de vista. Lembrei do dístico do Cardeal Newman  – Cor ad cor loquitur– que encaixa neste contexto tão British e sintetiza a cordialidade que nos ocupa.

Foram muitos os aprendizados -ainda continuam- dos encontros com os capítulos desta série. Mais do que um espairecimento ou descanso, logo me vi em atitude de aluno ávido por aprender as lições que, subtilmente, em low profile vão chegando de modo homeopático, respeitando horários e trajes a rigor, com a pontualidade do chá das cinco horas. As lembranças das leituras juntam-se na memória ao tempo que desfilam as cenas. E a consideração de Ortega assume novas perspectivas quando comenta que os ingleses, precisam de manter as formas a qualquer custo, para defender-se da sua origem bárbara. Se abrem mão do estilo, das vestimentas, da pontualidade e do protocolo, veremos surgir os hooligans que destroçam estádios e cidades, revelando sua genética normanda.

Protocolos, hierarquias, costumes centenários, como a grama de Oxford que causou assombro num visitante pelo seu aspecto bem cuidado. O jardineiro esclareceu sem dar-se importância: “É muito simples. Basta regar todos os dias. Durante 800 anos”. Contemplar e entender a situação  e encontrar o lugar que te corresponde a cada momento: eis outro aprendizado enorme. Não misturar-se onde não é a tua competência, deixar por conta dos processos estabelecidos. O Earl, a Condessa, os nobres sabem de tudo o que acontece, mas não se sentem obrigados a dar opinião ou tomar partido, sabem delegar. Para que misturar-se com as intrigas da cozinheira com o camareiro ou dos ciúmes da dama de confiança com o porteiro? É preciso saber sorrir, esperar, estar de braços abertos a todos, e deixar que quem desempenha essa competência venha a resolver. Além do tempo que, como já dito, mostra que as pessoas podem reconsiderar, mudar, adaptar-se, crescer. 

Um sorriso acolhedor, estar aberto para escutar tudo, sem assustar-se com nada. Demostrar carinho com essa atitude, sem necessidade de manifestações exuberantes. Curioso ver como é possível mostrar interesse, e amor verdadeiro, apenas com a palavra bem medida e suave. Sem necessidade  de abraços, beijos, e espalhafatos, quesitos onde os latinos somos prolixos. Não é uma apologia da frieza, mas apenas o bom senso de entender que as expansões afetivas formatadas em abraços ou beijos não são garantia de honrar a palavra, nem sempre representam o interesse sincero, a compreensão e o apoio que o interlocutor precisa. “A falta de compaixão pode ser tão vulgar como o excesso de lágrimas” – aponta a Condessa em certo momento. Menos teatro e mais fatos, demostrar integridade para substituir a pantomima fácil: eis um belo caminho de aprendizado.

Como num arco voltaico surgiu neste ponto das reflexões outra lembrança: um amigo,  professor de história contemporânea na Espanha, comentou-me que a popularidade do Rei Juan Carlos começou a decrescer imensamente após a frase dirigida a Chaves que fez vibrar toda Latino américa: “¿Por qué no te callas?”. Deste lado do Atlântico a celebramos como um gol na final da Champions… mas do outro lado, pegou muito mal. Um rei dirigir-se a um bolivariano, é fora de qualquer protocolo, meter-se onde não se é chamado. O silêncio e  a ignorância discreta seriam a resposta esperada. Mas todos gostamos -também os Reis- de resolver por via rápida as coisas, e acabamos complicando.

Eis outro aprendizado de aplicação fácil e diária que, quase sem perceber, sinto-me incorporando. Nas caminhadas dominicais, ou mesmo andando pelas ruas, não é raro ser desafiado pelo cachorro que escapa do falso controle psicológico que o dono pensa ter sobre ele, e se aproxima latindo ferozmente. Ou também quando os jovens te fecham o passo imaginando que o espaço público é somente deles, alheios à qualquer outro ser humano no entorno. Em outros tempos, minhas reações eram de indignação e juntava a elas exclamações desafiantes. Agora comprovo que o silêncio e o sorriso é muito mais eficaz: desarma completamente a outra parte, mantemos a classe, contribuímos para a paz do mundo e, muito importante, estimulamos o outro lado a refletir para enfrentar os próprios erros alavancados com o nosso sorriso. Se nas discussões antigas a reação era defender-se, agora com o silêncio e o sorriso, se desfazem em desculpas e certamente repensam sua postura. Um sucesso, quase monárquico.

Nessa enorme constelação de personagens -é difícil lembrar a todo momento dos detalhes, como me aconteceu há muitos anos ao ler Guerra e Paz- há um destaque especial para a Condessa viúva, a mãe do Earl-Conde de Grantham. Uma interpretação sublime por conta dessa admirável atriz britânica, Maggie Smith, que incarna Violet Crawley. Ela representa a tradição, os costumes, o modus faciendi da aristocracia. Logo de cara, pode parecer antiquada, mas deixando correr o tempo e os episódios -atitude sempre requerida ao enfrentar esta crônica que se estende por quase 20 anos- é fácil perceber a sua sagacidade, o modo de incorporar as mudanças sem perder o foco e a classe.

Aprendizado imenso para os que têm uma posição -e uma idade- de quem se espera saber observar, entender sem julgar, adaptar-se às necessárias mudanças de cambio de gerações, ao tempo que mantêm a classe, a tradição, e fazem dos jovens a melhor versão deles mesmos, como diz Violet à sua neta Mary no filme que fizeram recentemente, dando um fecho de ouro à sequência da série. É preciso ser um referencial para que as mudanças sejam para melhor. Uma bússola que marca o caminho, deixando à criatividade dos jovens que tomam o relevo, os meios e recursos para chegar ao destino. Dizia a este respeito um bom e sábio amigo, gastando o latim que dominava: “Omnia videre, pauca corrigere, multa laudábitur”. Estar por dentro de tudo, apoiar e promover, fazer as advertências necessárias, geralmente poucas. E sorrir sempre.

A tradição defende os britânicos das formas primitivas, e aos que não somos ingleses também nos ajuda a construir a postura correta que acolhe os câmbios com serenidade. Ao mesmo tempo estimula a manter a classe, a desenvolver a cordialidade num mundo que perde as referências, deixando-se seduzir pelos modismos. Já disse alguém que em tempos de WhatsApp um telefonema é quase uma declaração de amor. Nada contra os modernos recursos de comunicação, utilíssimos; mas esboçar com naturalidade, sem snobismos, os modos clássicos de relacionamento, resgata no interlocutor memórias adormecidas que lhe incitam a subir de patamar, a não conformar-se com o lugar comum.

Faz muitos anos, quando era comum enviar pelo correio cartões de Natal, lembro que meu pai mandava uma lista com os nomes dos amigos -daqueles que tinha conhecido por meu intermédio- para ver se estava faltando algum. “Veja se queres acrescentar alguém. Ou se te parece que deves retirar algum da lista… Eu penso que nunca se deve tirar ninguém”. Passaram-se mais de trinta anos desse conselho que me ficou gravado. Hoje, mesmo parecendo anacrônico, continuo enviando cartões de Natal, e faço questão de manter a lista íntegra, sem retirar ninguém.

Serenidade e cordialidade, paciência para gerenciar o tempo das coisas e das pessoas, elementos que transpiram em cada capítulo desta longa série. Aprender a dizer as verdades -mesmo tremendas- sem perder a classe, sublinhadas com um sorriso ou com um gesto de compreensão. Violet Crawley é um poço sem fundo nestes quesitos: “Nunca tomo partido em casamentos desfeitos porque por mais que as duas partes discutam nunca chegam a ver o problema global”. E a naturalidade para não queixar-se, nem sentir-se na obrigação de dar explicações sobre tudo a todo o mundo. “Never complain, never explain”- diz a certa altura quando interrogada sobre o seu silêncio.  

Enquanto fecho estas considerações, releio tudo o escrito -o que nem sempre faço- e vejo que mais do que uma série sobre os modos e formas britânicos, Downton Abbey resultou-me numa experiência fenomenológica, num mergulho reflexivo, que decantou em inúmeros aprendizados. Desde a cordialidade que figura no dístico de Newman (e no meu perfil de WhatsApp há muito tempo), até o poder do silêncio e do sorriso que acolhe os ritmos dos seres humanos que nos rodeiam. Vale a pena fazer a experiência, abrir as porosidades da alma, deixar-se invadir pela estética elegante e enfrentar as próprias reflexões com paciência e persistência. Como o jardineiro de Oxford.

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