A PRINCESA E O PLEBEU

Pablo González Blasco Filmes Leave a Comment

A PRINCESA E O PLEBEU. (Roman Holiday) Diretor: William Wyler. Gregory Peck, Audrey Hepburn. Eddie Albert. USA. l953. ll9 minutos.

Poderíamos resumir este filme assim: um romance entre um jornalista e uma princesa, que quer ser Cinderela por um dia. Mas tratando-se de um clássico, é preciso dizer algo mais, a começar pelo diretor. Wyler é um grande diretor, em sentido pleno. Sabe transmitir dramas e emoções, paixões e alegrias. Sabe filmar a vida, em todos seus gêneros. Desde a mulher má,  encarnada em Bette Davis (“Jezebel”, “A carta”), dramas humanos (“Os melhores anos da nossa vida”, “Chaga de fogo”), até épicos com heróis de provada virtude (“Ben-Hur”). Dele podemos esperar sempre um filme de qualidade.

            “A Princesa e o Plebeu” foi a descoberta de Audrey Hepburn, atriz genial, eterna menina, que associa ingenuidade e candura, com uma personalidade forte na interpretação. É uma atriz expressiva: diz tudo com os gestos, com o sorriso, com o olhar. Matiza, com sua mímica, as situações. Wyler sabe disto e tira partido. Audrey ganha seu Oscar com mérito. Gregory Peck desenvolve um papel que lhe quadra bem. Alguém disse que é pouco natural, talvez pôr ser desajeitado quando se movimenta. Mas, nos primeiros planos leva sempre vantagem. Peck é um ator para ser visto de perto, não em perspectiva de fundo. Por isso se encaixa bem nos papeis dramáticos, conflitantes.

            Qual é o encanto de “A princesa e o plebeu”? De gostos nada há de definitivo. Por isso, a título pessoal e respeitando opiniões contrárias, o que nos faz rever este filme com agrado é o efeito “final impossível”. Explicamos.

            Há basicamente três tipos de filmes. Primeiro, os filmes que acabam bem, o clássico “happy-end”. Depois vêm os filmes que acabam mal, de final duvidoso, ou nem acabam. As reações perante este segundo tipo são variadas: perplexidade, sensação de perda de tempo, desejo de rever o filme de novo, e por aí afora. Finalmente, temos os que acabam, acabam bem, o final é lógico mas por alguma curiosa magia, o espectador gostaria que fosse de outro modo. O público tem esperanças do ilógico, do que sabe não acontecerá, e as mantém até o último fotograma. A imaginação ancora-se neste “final com reticências” para trabalhar. Surge o efeito “final impossível”. Assim, estes filmes se reveem com gosto, para tirar partido de cada situação, de cada cena. Numa tentativa de congelar os fotogramas na própria imaginação, vivencia-se o filme cada vez que se assiste, numa tormenta de sentimentos -eternos insatisfeitos que nada querem saber de lógica- e até consegue, o cinéfilo treinado, esquecer o final, colocá-lo entre parênteses. Basta lembrar de “Casablanca”, um exemplo genuíno de final impossível, para entender todo este emaranhado de subjetivismo.

            É toda uma magia curiosa a dos filmes “final impossível”, magia das reticências, que deixa a imaginação trabalhar; um fazer de conta, um “é bom em quanto dura”. E por isso, estes filmes são clássicos, e quem gosta de cinema usa e abusa de cenas, situações, jeitos e diálogos como algo da própria autoria. Uma espécie de plágio desculpável, autonomia de voo, marca passo próprio de quem sente o cinema com o coração. Perante estes filmes, nos descobrimos como espectadores aventureiros, que garimpam de modo incansável cenas, conhecidas de cor, e que se tem prazer em rever. São os filmes de sempre vistos, ou vividos, cada vez com novos olhos, com sentimentos diferentes, à espera da surpresa que sabemos não acontecerá, mas que nos cativa. Uma surpresa que depende muito mais da nossa reação afetiva, do que os fotogramas – conhecidíssimos!- nos trazem. Para os que acreditam no romantismo, para os amantes do bom cinema -que muito entendem de reticências e de finais impossíveis- “A princesa e o plebeu” é sempre uma aventura deliciosa para ser revista e vivida.            

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