O HOMEM QUE NÃO VENDEU A SUA ALMA

Pablo González Blasco Filmes Leave a Comment

(A man for all seasons) Diretor: Fred Zinnemman. Paul Scofield, Robert Shaw,  Wendy Hiller. Inglaterra 1966. 120 min. 

 Fred Zinnemman é um diretor que tem queda por personalidades fortes. O homem  frente ao seu destino é sempre pano de fundo dos seus filmes. “Matar ou morrer”, “A um  passo da eternidade”, “Espíritos Indômitos”, e tantos outros que podem ser lembrados,  com destaque, na filmografia dos anos 50 e 60.  

 A vida de Thomas More, é, por assim dizer, um prato cheio para este diretor que,  com fidelidade elogiável, leva ao cinema os principais aspectos biográficos de quem foi  primeiro ministro de Henrique VIII – Lord Chanceler de Inglaterra-, às portas do cisma  anglicano. Sir Thomas More, o humanista e intelectual de renome, o advogado  incorruptível, o dedicado pai de família, o estadista notável, aparece desenhado com  acerto no filme de Zinnemman. Mas é sobretudo a figura do homem íntegro, de  convicções firmes e de lealdade impar “ao Rei e primeiramente a Deus”, o que faz deste  filme um espetáculo singular, mais ainda nos tempos que correm.  

 A produção é cuidadíssima, com excelente fotografia e muito bem ambientada na  época histórica. São, provavelmente, os diálogos, de grande agilidade e sutileza, o melhor  do filme, sem esquecer a soberba interpretação de Paul Scofield -ator inglês de teatro que encarna More.  

 Vivemos tempos carentes de valores e a ética é procurada como tábua de salvação,  muitas vezes até de modo curioso. Ética nas empresas, ética na política, ética contra a  corrupção, ética na vida social, ética das comunicações. E ética que é ministrada em  palestras, cursos de fim de semana, programas de excelência profissional ou assim  chamados de qualidade total. Quer dizer: estamos descobrindo que ser virtuoso,  comportar-se de acordo com padrões éticos é necessário para o bom funcionamento da  sociedade, dos negócios, da vida pessoal. O que ainda está por descobrir -ou melhor, por 

admitir- é que dificilmente poderá suprir-se com cursos intensivos as virtudes que não  foram assimiladas no berço, no lar. Daí a frustração, quando se comprova que não são os  cursos os que mudam as pessoas, principalmente em matéria tão delicada como o atuar  moral.  

 Uma outra questão coloca-se em relevo: toda a confusão sobre a ética do homem  público. Para que o atuar público seja correto é preciso que privadamente o homem se  conduza com integridade, sendo fiel às convicções que possui e às normas morais. Não  existe moralidade para fora, na atuação, se não há esforço pessoal por viver eticamente  de portas para dentro. A ética é uma questão de virtudes, e as virtudes se adquirem como  hábitos que são, no esforço individual, diário; não são as virtudes uma simples questão  de treinamento técnico para atuar bem. A observância puramente extrínseca dessas  normas de atuação fornece, na melhor das hipóteses, algumas balizas no agir, uma ética  desencarnada, que se limita a proibir o “que não é certo”. Somente a virtude é criativa e  leva a fazer todo o bem que poder ser feito sem contentar-se apenas com não incorrer no  erro.  

 Em acertada analogia, Ortega y Gasset compara a pessoa -a personalidade em  formação- com uma esfera, inicialmente oca. O homem recebe da sociedade a parede  exterior: as ideias que todos pensam, os impulsos de conduta, as preferências e repulsões  comuns ao atuar social. Mas é preciso que sua intimidade -o interior da esfera- vá  engordando com atitudes morais que nascem do seu interior. Isto é o mais valioso, o que  torna um homem superior. São os critérios decisivos -intelectuais e morais- os que,  quando possuídos no fundo, firmemente, como algo próprio e não enfeite pendurado,  fazem daquele homem uma verdadeira pessoa moral. E conclui: “Quem só possui o  repertório de modos recebidos -quer dizer, a casca exterior, formas vazias, a ética como  um manual de boas maneiras- somente agirá com correção nas situações rotineiras  previstas. Mas se é colocado numa circunstância nova -difícil, crítica- não saberá como  agir: falta-lhe a usina criadora dos critérios próprios”. Ética de fundo, raiz moral,  que se identifica com a pessoa na sua intimidade. E não apenas verniz ético, spray de  etiqueta moral, para Inglês ver; no caso que nos ocupa, nunca melhor dito.  

 Thomas More aparece no filme de Zinnemman como um gigante de virtudes,  cuja honestidade atrai primeiro a amizade do rei e, depois, o conduz ao heroísmo e ao  martírio. Uma figura atraente que despertará em todos os que têm um mínimo de  capacidade crítica, uma saudável inveja, mostrando que fazer o bem compensa. E que  não existe melhor finalidade na vida de um homem do que colocar-se,  incondicionalmente, ao serviço de um ideal maior do que ele mesmo. Tudo com bom  humor, consciência serena da situação, com lealdade heroica. 

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