O FEITIÇO DO TEMPO

Pablo González Blasco Filmes Leave a Comment

Groundahog Day. Diretor: Harold Ramis. Bill Murray, Andie MacDowell. USA 1990. 97 min.

Eis um filme agradável, de bom gosto. Uma amostra de que com um pouco de imaginação, um argumento bem tratado, e atores “ad hoc” pode se fazer um cinema sob medida para a família. O feitiço do tempo é um típico filme-família, para assistir todos juntos, já que para todos tem seus recados.

Uma sequência contínua de situações engraçadas, onde o pitoresco protagonista se encaixa maravilhosamente, fazem deste filme uma comédia atrativa e elegante. Mas não é apenas uma comédia. Por trás da ficção e do absurdo existe encerrado todo um realismo que cativa o público. O filme não demora em estabelecer um diálogo com o espectador. Conforme a fita avança bastam algumas indiretas para que os assistentes captem o sentido.

É difícil não lembrar, assistindo o filme, do cinema de Frank Capra (“A felicidade não se compra”) ou de René Clair (“O tempo é uma ilusão”), onde também por trás de situações cômicas e imaginativas, estes grandes mestres davam suas mensagens para a vida. São filmes de duplo efeito, ou, se preferirmos, “filmes em camadas”: conforme aprofundamos é possível extrair materiais diferentes e, não raramente, nos deparamos com uma jazida de pedras preciosas.

Os artistas sempre reclamam de que os críticos acabam encontrando nas suas obras de arte, significados que eles mesmos nunca quiseram embutir nelas. Temos de lhes dar a razão, mas ninguém pode nos impedir de que, com motivo da sua produção, tiremos nossas conclusões pessoais. Afinal, isto não lesa os direitos autorais e pode ser de grande utilidade por fazer-nos pensar na vida, da qual a arte sempre nos aproxima. O cinema é, dentre as artes, uma das mais sugestivas e muito se presta a ser ponto de partida para que cada um vá capitalizando ensinamentos.

O tempo, tema do filme, que preenche tantas conversas pobres em assunto e sobre o qual todos se entendem nos bate-papos caseiros, é conceito que escorrega entre as mãos quando tentamos defini-lo com rigor científico. Tal vez por isso é uma das realidades mais controvertidas para os filósofos. Tempo objetivo, tempo subjetivo, medida do movimento, duração real; enfim, matéria na qual é difícil pôr-se de acordo. Felizmente não é preciso chegar a uma definição filosófica para o objetivo que nos ocupa; trata-se de aproveitar o filme como pista de decolagem para algumas considerações. Não precisamos definições porque não é isto que o filme pretende. Basta a intuição para nos guiar com proveito.

Voltemos ao filme. O protagonista – que para maior ironia é meteorologista televisivo, “homem do tempo”- encontra-se preso no tempo. As sequências se repetem, e o dia é “reeditado” uma vez e outra. Variações sobre o mesmo tema, ficando estas, as variações, por conta da iniciativa do simpático personagem. Apesar do absurdo, o espectador sente-se solidário, de certo porque acusa o recado de que a novidade depende muito mais de nós do que das circunstâncias que nos vêm dadas. Já dizia alguém que rotina não é fazer as coisas de sempre, mas fazê-las como sempre. A novidade é necessariamente versatilidade interior, arranca de dentro, do coração, do amor. A partitura é sempre a mesma; a arte está na interpretação, no que o artista consegue arrancar da letra escrita colocando sua alma de per meio. 

O nosso meteorologista, restabelecido da perplexidade inicial, começa a desconfiar que o seu tempo seja eterno, e vai construindo as variações ao compasso da condição humana. E por isso despontam variações egoístas, de levar vantagem, de aproveitar a vida. As tentativas de enriquecer, iniciativas amorosas, conquista de sucesso concluem sempre num engasgamento; do tempo, primeiramente, e anímico depois, pois o protagonista vai se entediando com sua eternidade. Não assim o espectador que desfruta com cenas francamente divertidas, leves, muito bem conduzidas.

Conclusões podem ser tiradas muitas. Mas, como em qualquer caso já estamos de acordo que é difícil adivinhar quais são as intenções do diretor – por aquilo das “camadas”- de modo que  nos contentaremos com achar nosso filão de ideias.

Qual é o ensinamento apaixonante que surge por entre os fotogramas de O Feitiço do tempo? Algo próximo de uma lição de administração de capital. O tempo é o capital, do qual somos donos. Podemos fazer com ele o que bem entendermos, empregá-lo de um modo ou outro visando o maior lucro, o melhor rendimento em satisfação e realização pessoal. Mas na hora dos dividendos, acabam se colhendo surpresas desagradáveis. E com elas, não raramente, tristeza, desânimo, fastio, perda do sentido vital.

A solução emerge nos compassos finais do filme. Paradoxalmente, um investimento para os outros, uma dedicação altruísta do tempo -no fundo, tornar-se útil- é a melhor aplicação do tempo. Neste momento, o tempo resulta elástico, maleável, multiplicador. E como rendimentos altíssimos, chegam por tabela, a alegria, a felicidade, a consciência do homem realizado porque  se sente útil aos demais, e de fato é proveitoso.

Recado profundo para um filme comedia. Mas na vida as coisas são assim; o mais importante, os valores autênticos sempre vêm envolvidos numa atmosfera de simplicidade. E deste modo, sem prefácios nem prolegômenos, este fita faz decantar no coração gotas de sabedoria. Com destaque para uma das grandes descobertas à qual o homem tem de chegar se quer ser feliz: vale a pena ser útil!

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