Jonas Jonasson. O Ancião que Saiu Pela Janela e Desapareceu.

Pablo González Blasco Livros 2 Comments

Jonas Jonasson. O Ancião que Saiu Pela Janela e Desapareceu Ed Record. Rio de Janeiro, 2013. 358 págs.

Leituras na Pandemia – 2

Parece que foi o avô do autor, o jornalista sueco Jonas Jonasson, quem inspirou este livro singular. Dele fala no prefácio: “Ninguém conseguia prender a atenção de uma plateia como o vovô, parcialmente apoiado em sua bengala, quando ele se sentava em seu banco favorito, mascando tabaco. — Mas vovô… É verdade? — perguntávamos nós, os netos, com os olhos arregalados. — Quem só fala a verdade nem vale a pena escutar — respondia vovô. Este livro é dedicado a ele”. Confesso que esta frase transportou-me imediatamente até aquele filme de Tim Burton, Peixe Grande e suas histórias maravilhosas. De fato, sugeri para um amigo,  grande leitor e de vasta cultura, que me comentou exatamente o mesmo: “lembra Big Fish, muita história, mas pouco valor literário”.

Mesmo sem pretensões de transformar-se num clássico com impacto, o livro vendeu mais de 4 milhões de exemplares pelo mundo, traduzido a diversos idiomas. E, também devo confessar, que a ideia de trazê-lo para nossa tertúlia literária, chegou-me de uma colega de trabalho que tinha se divertido muito com ele: “É bom para descontrair. Um passeio pelo século XX, em ficção repleta de bom humor”. Como o nosso grupo de pensadores- leitores, já avançava no segundo mês da quarentena, e a leitura de A Peste assumira formas escuras, pareceu-nos adequado dar uma folga às reflexões densas e relaxar.

De fato o humor se faz presente desde o primeiro momento, em formato que poderia ser inglês pelo que traz de flegmático, não fosse sueco:  “Logo em seguida morreu seu pai, que afundara no brejo enquanto tentava salvar uma bezerrinha. Outra grande perda para Julius, que era muito apegado a tal bezerrinha (…) Ele achava que formol era bom para embalsamar, não para dar vida eterna a almôndegas”

Allan Karlson, nosso protagonista que foge pela janela do residencial de idosos, e vive aventuras divertidas, alterna as novas peripécias com flashbacks que experimentou na sua vida centenária, enquanto o destino o levava ao redor do mundo. Assim fala-nos do seus envolvimentos diversos: da Revolução Russa até a de Mao Tsé-Tung, passando pela guerra civil espanhola, a bomba atómica, a guerra fria, e algumas outras variações da história do século XX.

Todas contadas através da visão de Allan e sua lente peculiar: “Sete de dez bolcheviques não sabiam ler. Podemos passar o governo para um monte de analfabetos? Entretanto, era justamente nesse ponto que o pai de Allan defendia os bolcheviques, nas cartas para a família em Yxhult. ‘Vocês nem imaginam como é o alfabeto russo. Não é de admirar que o povo continue analfabeto’, escrevia ele (….)  Allan gostava de sua própria companhia; o que era bom, porque ele era muito só. Por não ter aderido ao movimento trabalhista, era desprezado nos círculos socialistas, ao mesmo tempo que, trabalhando muito e sendo filho de quem era, tampouco podia ocupar um lugar nos salões da burguesia”.

Evidentemente a ficção preside todas as recordações e sua relação com as personagens que traçaram o destino da humanidade no passado século. Mas mesmo assim, despontam da ficção duas caraterísticas: a serenidade a prova de qualquer desafio, e o não envolver-se em partidarismos. Allan é um experto em explosivos, faz o seu trabalho, entrega, e cai fora, refratário aos meandros das intrigas políticas. De fato, e nos tempos que correm, não é de se desprezar o valor agregado desta atitude.

“Não era que Allan tivesse uma opinião contrária em relação ao assunto, respondendo com contra-argumentos. Não, ele simplesmente não se interessava (…) Vingança não traz nada de bom. É como a política: uma coisa leva à outra até o ruim ficar pior, e o pior ir se transformando em algo ainda pior (…)  Quanto mais o oficial da imigração conseguia tirar de Allan, mais ele via o quão distante o sueco estava de ser fascista. Tão pouco era comunista. Ou socialista. Ele não era nada, pelo visto, a não ser especialista em explosivos (…) A vida era assim, nem sempre o certo era o certo, e sim o que a pessoa no comando dizia ser o certo”

As personagens que surgem nas novas aventuras de Allan -já em presente, com 100 anos e uma fuga às costas- são absolutamente peculiares. E parece que o ancião consegue contagiar todos dessa sadia indiferença por temas que provocam brigas e ansiedades. O gangster que acaba unindo-se à turma, que “em cerca de 20 anos como empresário no ramo de assaltos houve apenas algumas poucas férias compulsivas, e assim mesmo curtas”. O jovem ingênuo que começou a estudar inúmeras carreiras e não acabou nenhum, tendo chegado “quase lá em quase tudo”: “Na qualidade de quase médico ele tinha que pensar em sua quase ética. Estava fora de questão deixar o semimorto ficar sentado ali nas ferragens sangrando até morrer”. E outro, Pico, que “não estava certo se tinha o devido respeito pelas autoridades fiscais e seus impostos para poder abrir uma empresa com um comissário de polícia, mas assim mesmo agradeceu a Allan a sugestão”. E Herbert, um fictício irmão de A. Einstein, bastante limitado intelectualmente,  “que corava com um elogio, ao mesmo tempo que dizia que não era difícil fazer o papel de bobo quando se sentia assim. Allan respondeu que nem imaginava se era difícil ou não porque os bobos que havia conhecido até então tinham todos tentado parecer o contrário”.

Allan dá a tônica para viver numa partitura diferente, em outro patamar, com absoluta descontração, numa sabedoria instigante: “Quando você está fazendo hora extra na vida, é fácil tomar certas liberdades”. Liberdades estas que tem tradução diária, no modo de encarar as dificuldades, a vida mesma. “Allan viajara pelo mundo e se havia aprendido alguma coisa era que os maiores e aparentemente mais insuperáveis conflitos tinham sua origem no seguinte diálogo: ‘Você é bobo; não, você que é bobo; não, é você o bobo’.  Muitas vezes a solução foi a de tomar uma garrafa de vodca juntos e olhar para a frente  (…) Sabia que a diferença entre a loucura e a genialidade era milimétrica (…) Não que Allan tivesse medo de contar, mas é que justamente nesse caso estava em jogo um jantar com uma boa bebida. Quando se trata de comida e aguardente, raciocinava Allan, a verdade pode ser colocada temporariamente de lado”.

Andar pela vida sempre em presente, capitalizando  as lições aprendidas do passado, mas sem angústias e neuroses sobre um futuro sobre o qual não temos controle. E com bom humor, sempre.  “O senhor promotor acha que eu possa ter sido a origem do cheiro? Não estou morto, é verdade, mas já sou tão velho… Será que o cheiro de cadáver não pode ter se adiantado?”. Impossível não esboçar um sorriso -muitos houve ao longo da leitura, é preciso ser franco- diante desses comentários. Lembrei de Bergson e do seu ensaio sobre O Riso (Le Rire : essai sur la signification du comique). O sorriso que  tira força a tragédia, transforma Aquiles dos pés ligeiros num mortal quando vemos que boceja como qualquer pessoa. Realismo, viver o presente, não dar-se importância, semear bom humor. Além de ser um programa sadio para enfrentar as amarguras que nos cercam, quem sabe não é também uma boa receita para a longevidade. Não é pouca sabedoria.

Comments 2

  1. Rir ainda é o melhor remédio.

    Concordo com isto.

    Pretendo comprar este livro, por dois motivos: adoro rir e , considerando-se o nome do autor, antevejo uma boa leitura e boas risadas.

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