Michael Ende: Momo e o Senhor do Tempo. Martins Fontes.

Pablo González Blasco Livros 4 Comments

Michael Ende: Momo e o Senhor do Tempo. Martins Fontes. São Paulo. 2002. 268 págs.

Leituras na Pandemia – 4

Li esta fábula de Michael Ende há muitos anos, e retomei agora por conta da Tertúlia Literária e das leituras pandêmicas……Lembro que na primeira vez, guardei, sim, as reflexões sobre o mistério do tempo, mas parece-me recordar um subtítulo que, desta vez, não encontrei: Momo, a menina que sabia escutar!. Seja como for, o escritor introduz a personagem com esses predicados: “Momo é uma menina com um dom muito especial: só de ouvir ela faz com que todos se sintam melhor. Muito poucas pessoas sabem realmente ouvir. E da forma como ele sabia ouvir Momo era única.  Momo sabia ouvir de uma maneira que pessoas idiotas de repente tinham ideias muito inteligentes. Não porque ela dissesse ou perguntasse algo que levaria os outros a ter essas ideias, não; ela simplesmente estava lá e ouvia com toda a sua atenção e simpatia”. 

Uma escuta ativa, interessada. Algo que cada vez mais brilha pela ausência neste nosso mundo acelerado, ansioso de eficácia. Uma escuta que transforma e cura: “Ela olhava para o interlocutor com seus grandes olhos negros e o outro em questão imediatamente percebia como lhe ocorreram pensamentos que  nunca teria acreditado que estivessem nele. Momo sabia ouvir de uma maneira que pessoas intrigadas ou indecisas de repente sabiam muito bem o que queriam. Os tímidos sentiam-se  de repente livres e corajosos; os miseráveis e oprimidos se tornavam confiantes e alegres. E se alguém acreditasse que sua vida estava totalmente perdida e que era insignificante, apenas um em milhões e que nada importava e poderia ser substituído tão facilmente quanto um vaso de flores quebrado, lhe contava tudo isso a Momo, e de repente se tornava claro que tal como era, somente havia um no mundo, e por isso era à sua maneira importante. Assim escutava Momo!”

A simplicidade de Momo, a sua vontade de escutar, faz as pessoas se perguntar “como poderiam ter passado sem ela antes. E quanto mais a garota ficava com eles, mais essencial ela se tornava; tão essencial que todos temiam que um dia ela pudesse ir embora”. Surge a pergunta ingênua de um dos seus interlocutores: “E quando você nasceu? Momo pensou um pouco e finalmente disse: ‘Pelo que me lembro, sempre existi’. Recordei o pensamento do jagunço de Guimarães Rosa quando diz que “a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe”.

De onde vem esta distração, este deixar passar as coisas que realmente importam? O autor nos dá a pista: “Todos os infortúnios do mundo nasceram de tantas mentiras:  daquelas contadas propositalmente, mas também das involuntárias, causadas pela pressa ou imprecisão”. Tudo é fruto da má gestão desse capital magnífico que é o tempo, o protagonista absoluto do romance de Michael Ende. “Existe algo muito misterioso, mas muito cotidiano. Todos participam, todos sabem, mas poucos param para pensar. Quase todo o mundo simplesmente aceita como vem, sem perguntas. Essa coisa é o tempo. E o tempo é vida, e a vida reside no coração”. Dai as mudanças que a escuta de Momo provoca, “porque escutar leva tempo e tempo era a única coisa que Momo tinha de sobra”.

A chegada dos homens cinzentos é o contraponto de reflexão sobre a gestão desse capital. Criaturas cinzentas, vampiros do tempo dos outros: “sangram o tempo dos homens hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo … Porque os homens não sabem usar sem tempo -diz o cinzento. Nós o guardamos, o armazenamos … Precisamos dele … Nós desejamos … Ah, você não sabe o que significa o seu tempo! … Mas nós sabemos e sugamos na sua pele … E precisamos de mais … Mais e mais … Porque também somos mais … Mais e mais … Mais e mais”. São cinzentos, “porque vivem de algo morto (…_ ) Vivem do tempo dos homens. Mas esse tempo literalmente morre quando é arrancado de seu verdadeiro dono. Porque cada homem tem seu tempo. E apenas enquanto for seu, ele permanece vivo”.

Lembrei daquela definição paradoxal de Ortega sobre a técnica: o esforço para poupar esforços.  A pergunta que cabe -hoje e sempre- é o que fazemos com esse esforço poupado, onde o aplicamos. Tornamo-nos dependente da técnica -que é um inegável progresso- e deixamos de comandar nossa vida, confiando o seu rumo a um aplicativo que faz pipocar mensagens na nossa frente, vivendo em espasmos emotivos (com emoticons incluídos) permanentes!

Surpreendente a descrição que Michael Ende oferece desse processo onde se delega o comando da vida para a técnica que poupa tempo:  “Que doença é essa? – Dificilmente se nota no início. Um dia, você não tem mais vontade de fazer nada. Nada te interessa, você fica entediado. E essa relutância não desaparece, mas aumenta lentamente. Piora dia a dia, semana após semana. Você se sente cada vez mais descontente, mais vazio, mais insatisfeito consigo mesmo e com o mundo. Então, mesmo esse sentimento desaparece e nada é mais sentido. A pessoa fica totalmente indiferente e cinza, todo mundo parece estranho e nada mais importa. Não há mais raiva ou entusiasmo, você não pode mais ser feliz ou triste, você se esquece de rir e chorar. Então esfriou dentro de você e você não pode mais amar ninguém. Quando esse ponto é alcançado, a doença é incurável. Não há retorno. Corre-se de um lado para o outro com um rosto vazio e cinza, tornando-se como os próprios homens cinza. Você já é um deles. Esta doença é chamada de tédio mortal”. Surpreendente e assustadora, de tremenda atualidade.

Esse tédio do sem sentido, está frequentemente embrulhado no ativismo, e por isso foge-se da reflexão e do silêncio. “Mas o mais difícil de suportar foi o silêncio. Porque no silêncio o medo tomou conta deles, porque sentiram o que realmente estava acontecendo com suas vidas. É por isso que faziam barulho sempre que o silêncio os ameaçava”. Viver com música de fundo -no carro, na TV ligada permanentemente, nos auriculares que são já um acessório que faz lembrar o oxigênio necessário para quem padece de pulmões estragados, e tem de estar conectados aos fios que lhe garantem a vida. Uma trilha sonora que elimina qualquer possibilidade reflexiva.

Um processo que não tem volta porque vicia. A menos que olhemos em volta e percebamos o estrago que essa economia do tempo -gente sempre ocupada- consegue causar. “Ninguém percebeu que, ao economizar tempo, ele estava realmente salvando outra coisa. Ninguém queria perceber que sua vida estava ficando mais pobre, mais monótona e mais fria. Aqueles que sentiram isso claramente foram os filhos, porque para eles ninguém tinha tempo”. As crianças tem todo o tempo do mundo, e como Momo são imunes a essa voracidade tóxica. Mas não aprenderam ainda a gerenciar os tempos: plantam hoje a semente e amanhã vão ver se cresceu a planta. Não é atropelo do tempo, é simplesmente falta de conhecimento da realidade.

Mas as crianças são sensíveis ao aprendizado em lentidão. Lembro, com carinho, de ter ido visitar sebos com várias crianças de primário, que olhavam extasiadas para as prateleiras dos livros. O dono do sebo surpreendeu-se de me ver com semelhante companhia: “O que está fazendo? Será que eles gostam disso, hoje que tem tudo ao alcance de um click”. Gostaram, e muito. E quiseram voltar…..para trocar livros que já tinham lido. Lembrei de Borges quando dizia que mesmo cego, continuava a comprar livros, porque sentia-se amparado por eles. Tocar, cheirar os livros, aprendizado em lentidão, aquele que  deixar rasto.

A filosofia que mistura tempo e eficácia é prato forte no romance de Michael Ende. “Momo começou a se surpreender que alguém pudesse andar tão devagar e se mover tão rápido(…) Em contrapartida, os motoristas pisavam no acelerador, as rodas rangiam, mas os carros não saíam do lugar, como se estivessem em uma esteira rolando para trás na mesma velocidade dos carros. Quanto mais eles aceleravam, menos avançavam”. Momo, criança, vai aprendendo a gerenciar o tempo com a tartaruga Cassiopeia. Sente a tentação de ir mais rápido e interpela a tartaruga: “ Mas não posso te levar, para ir um pouco mais rápido? – Não”, dizia na concha de Cassiopeia. – Por que você tem que rastejar? – perguntou Momo. A isso veio a resposta enigmática: ‘O caminho está em mim. Quanto mais lento, mais rápido’ Ela continuou engatinhando, talvez mais devagar do que antes. E Momo percebeu – como da primeira vez – que, exatamente por isso, eles estavam se movendo mais rápido. Era como se a rua escorregasse sob seus pés, quanto mais rápido, mais devagar eles andavam. Este era o segredo daquele bairro: quanto mais devagar andavam, mais rápido iam. E quanto mais se apressavam, menos se adiantava”.

As evocações continuavam desfilando conforme passava as páginas do romance. Desta vez lembrei de Santo Agostinho: “Avança mais o aleijado quando anda pelo caminho certo, do que o atleta correndo fora do caminho”. E a frase definitiva do bispo de Hipona: Bene curris, sed extra via (corres bem, mas fora do caminho). E, de volta a Momo, o complemento apropriado: “O que os homens fazem com seu tempo, eles têm que decidir por si mesmos. Eles também são os que têm que defendê-lo. E todo o tempo que não é percebido com o coração é tão perdido quanto as cores do arco-íris para um cego ou o canto de um pássaro para um surdo. Mas, infelizmente, há corações cegos e surdos que não percebem nada, apesar de bater”.

Somente assim, nessa posse real e consciente do próprio tempo, decidindo onde investir esse capital que nos foi dado é possível derrotar os homens cinzentos que nos espreitam a todo momento do nosso viver. É desse modo, como “eles se dissolvem como flocos de neve, se derretem e tornam-se invisíveis para voltar onde deveriam estar: no coração dos homens, que é onde o tempo pode ser trabalhado (…) Nesse momento, quem foi trabalhar teve tempo de admirar as flores de uma varanda ou alimentar os pássaros. E os médicos tiveram tempo para se dedicar intensamente aos seus pacientes. Os trabalhadores tiveram tempo para trabalhar com tranquilidade e amor pelo seu trabalho, pois não importava mais fazer o máximo possível no menor tempo possível”.

Nesta altura já vamos intuindo que a boa vida não é só viver, mas refletir sobre as vivencias, isso é  o que nos enriquece. E para tal é necessário tempo e paciência. A paciência, esse ‘amor que se faz tempo’ em palavras de Von Balthasar;  sugestivo conceito que o Prof. Ratzinger complementa quando diz ser a paciência ‘a forma quotidiana do amor’. Momo: um belo romance-fábula para descobrir o valor das coisas simples, do que nos faz felizes.

Comments 4

  1. Excelentes reflexões. Obra profunda e de linguagem acessível, altamente recomendada. Este livro é uma porta para descobrir o valor de cada instante, de cada momento, e encará-los todos como flores cujo aroma é de tamanha sublimidade que negligenciar sua beleza se afigura a sacrilégio, a crime contra a natureza humana — contra a própria e contra a dos demais, que também ressentem.

    Flores que nascem no nosso coração e que só dependem de o empenharmos em exibir sua beleza a todos, realmente ‘vivendo cada instante’, buscando transformar toda a existência — ininterruptamente — numa obra de arte, só pelo prazer de deleitar aos demais e, assim, satisfazer aquele profundo desejo de alegria — não somente a alegria própria, mas sobretudo a alegria dos mais (e dos menos) próximos.

  2. Boa noite, Caríssimo Pablo.
    Tudo bem?!
    Meu mais que Amigo, não é de hoje que tento alcançar a coragem, juntamente com as palavras, talvez ainda não tenha alcançado nenhuma das duas, para tentar expressar a satisfação e como me são úteis, tanto espiritualmente quanto profissionalmente, acredito que mais a primeira que muito, me as muito mesmo, auxiliam o desenvolvimento da segunda, as suas, acho que posso nomeá-las desta forma, resenhas escolhidas a dedo, bem como mesmo não sendo médico, apenas os consulto mais do que gostaria, os seus artigos em relação entre outros, da medicina familiar. Artigos esses que apodero-me, sem lhe pagar os devidos direitos autorais, para colocar em prática na minha profissão, os quais também ne levam a um “exame particular”, que podemos chamar de “exame profissional” de como estou pensando e praticando este lado.
    Caríssimo Pablo, só posso lhe garantir que fico contente em ler, embora para meus conhecimentos as vezes tenho de os ler mais de uma vez para melhor compreender, e outras tantas por muito ter gostado logo na primeira leitura, bem como que posso lhe garantir sem a menor dúvida, que você está fazendo o bem sem saber para quem. Muito Obrigado e um Forte Abraço. Durma com Deus. Toninho

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