Roger Scruton: “Bebo, logo existo”.

Pablo González Blasco Livros 5 Comments

Roger Scruton: “Bebo, logo existo”. Octavo. São Paulo 2011. 299 págs.

Faz alguns meses ganhei este livro de um amigo e colega, médico culto, apreciador do vinho, predicados que não raramente caminham juntos como podemos comprovar passeando pelas páginas que o autor salpica dessa substância que ele diz ser “ provavelmente tão antiga quanto a civilização; eu prefiro dizer que ele é a civilização  e que a distinção entre países civilizados e incivilizados é a distinção entre os lugares onde o bebem e os lugares onde não o bebem”.   

Guia de um filósofo para o vinho. Esse é o subtítulo que figura nesta intrigante obra de Scruton. Na verdade, o que ele quer é juntar duas paixões claras: a enologia (nota-se que bebeu de tudo, em amplo espectro) com a filosofia (isso já sabíamos, que tinha lido de tudo). O vinho é uma desculpa agradável, palatável, para dar os recados costumeiros -sutis alguns, cargas de profundidade outros- do pensador britânico. 

O primeiro esclarecimento já é um cruzado de esquerda nos abstêmios ideológicos:  “Tenho duras palavras a dizer sobre os fanáticos por saúde, os mulás malucos e quem quer que prefira se sentir ofendido ao considerar o ponto de vista de outras pessoa. Mas meu objetivo é defender a opinião atribuída a Platão de que ‘os deuses jamais concederam ao homem algo mais excelente ou valioso que o vinho (…) É contra a falsa santidade e a prudência covarde que se dirige a minha discussão, não a fim de fomentar o vício, mas para mostrar que o vinho é compatível com a Virtude. (…) Os fanáticos por saúde, que tem envenenado todos os nossos prazeres naturais, devem ser reunidos e trancafiados juntos num lugar onde se possam entediar mutuamente, empanturrando-se com suas inúteis panaceias para a vida eterna. (..) Minha opinião é que o vinho é um excelente acompanhamento para a comida; mas é um acompanhamento ainda melhor para a reflexão. Na minha experiência o vinho ajuda a transformar eros em ágape, deixar de desejar alguém para desejar a felicidade dessa pessoa”. Um golpe contundente….com apoio filosófico para o amor de doação que transforma o eros egoísta no ágape de coração aberto. E ainda esclarece: “Enquanto a caridade nada pede em troca o amor erótico dá apenas o que visa receber. Daí o fato de eros ser restringido pelo ciúme, ser infinitamente vulnerável à rejeição e precisar se proteger com a vergonha”

E os que se perdem com a bebida, poderíamos nos perguntar? Scruton adianta-se novamente e adverte: “A embriaguez nos bares, exagerada, como a que levou à lei seca, acontecia porque as pessoas consumiam a bebida errada e do modo errado (…) Graças ao empobrecimento cultural os jovens não têm mais um repertório de músicas, poemas, discussões ou ideias com o qual possam entreter uns aos outros em suas taças. Eles bebem para preencher o vazio moral gerado por sua cultura, e embora tenhamos conhecimento dos efeitos adversos da bebida num estômago vazio, estamos agora assistindo aos efeitos bem mais devastadores que a bebida gera numa mente vazia”. 

Impossível não evocar as situações diárias da juventude que não sabe degustar um vinho -bebem chá sem açúcar acompanhando a comida vegana- e no final de semana dão conta de algumas garrafas de vodca…..Paradoxo de mentes vazias, está tudo dito. E para que não reste dúvida, ainda anota Scruton: “Daí que o vinho, quando bebido adequadamente, pode fazer parte de uma educação na moderação, e é por essa razão que os adolescentes devem ser judiciosamente exposto a ele e não, como em USA, proibidos de prova-lo enquanto não tiverem aprendido a se embriagar com todas as outras bebidas”. 

Aponta novamente o pensador com a alavanca filosófica “O vinho não é apenas um objeto de prazer, mas também um objeto de conhecimento; e o prazer depende do conhecimento (…) Em tudo o que é necessário para a vida humana devemos defender o local sobre o global; e em tudo o que é supérfluo devemos conceder ao global o desfrute do seu triunfo vazio (…) Esta é, na minha experiência, uma das melhores dádivas do vinho: ele nos capacita a sustentarmos diante da mente o problema do eu sem cairmos no abismo cartesiano (…) Quando erguemos uma taça de vinho até nossos lábios, estamos saboreando uma coisa viva. É como se o vinho fosse outra presença humana em qualquer reunião social, um foco de interesse igual ao das outras pessoas que estão ali. O vinho servido adequadamente desacelera tudo o que acontece à volta, estabelecendo um ritmo de tranquilos goles no lugar de tragos glutões”. 

O capítulo que intitula Le Tour de France  é um passeio incrível pelas regiões francesas, com os vinhos correspondentes. Uma cultura exaustiva de um enólogo acurado. Anota Scruton durante sua turnê francesa: “Ao contrário dos ecolamentadores eu não me oponho às viagens por causa da energia que elas consomem. Oponho-me as viagens em que as pessoas vagam por lugares aos quais não pertencem perturbando quem ali se estabeleceu e dispersando o capital espiritual armazenado em todos os locais onde se investiu amor”. 

Também o anedótico faz presença, condenando “os entendidos em vinho” que são esnobes sem rumo. “Steve Spurrier (trinta anos atrás) um negociante de vinhos ingleses, apresentou numa degustação às cegas em Paris os vinhos da California ao lado dos clássicos franceses. Os especialistas franceses ficaram horrorizados ao ver que tinham preferido os invasores americanos.  Uma juíza pediu que devolvessem os cartões com suas notas; outros alegaram que Spurrier havia organizado a degustação de forma a influir no seu resultado”. E acrescenta: “Degustações a cegas supõem que o vinho se dirige unicamente aos sentidos e que o conhecimento não tem nenhum papel na sua apreciação. Pensar que se pode julgar um vinho pelo seu sabor e aroma é como pensar que se pode julgar um poema chinês  pelo seu som, sem entender o idioma”. 

Bom senso, ironia e humor acompanham esta viagem enológica. “Hoje me parece que o melhor de todos os remédios para o orgulho é o vinho…Depois de uma taça ou duas eu me sinto capaz de fazer o que todos nós devíamos fazer, mas somos proibidos pelo orgulho: rejubilar-me com o sucesso dos meus rivais ….O vinho oferece um vislumbre do mundo sub specie aeternitatis, em que as boas coisas mostram seu valor, independentemente da pessoa que as revela (…) O pior uso do dinheiro é quando ele faz aumentar a coleção de carros antigos ou o número de casas kitsch. O melhor uso é comprar vinhos caríssimos, transformando seu dinheiro em urina biodegradável e devolvendo-o para o fluxo primordial”

Não faltam as considerações com desdobramentos teológicos, como é próprio de Scruton: “Não se dá testemunho da fé cristã anunciando-a, e ainda menos matando inimigos. O testemunho é dado com obras de caridade e com o perdão (…) Nós criaturas fúteis e voluptuosas cuja tentativas de santidade começam toda manhã e no fim da tarde já foram esquecidas podemos contudo adquirir uma ideia  disto tomando uma taça de vinho à noite e assim percebendo um caminho para a interioridade das coisas. (…) Quando bebido adequadamente, transfigura o mundo para o qual olhamos, iluminando o que é precisamente mais misterioso nos seres contingentes que nos cercam: o fato de que eles são – e também que eles podem não ser.  (…)”. E comenta sobre a cerimônia da rolha, e o porquê não beber vinho com rolha de rosca…..que não permite um ritual de apresentação e um efeito de som sacramental”. 

A crítica habitual de Scruton à hipocrisia faz presença nesta degustação enológico-filosófica: “Alguém definiu o puritanismo como ‘o temor persistente de que alguém, em algum lugar, esteja feliz’ (….) Imagens de fumantes famosos como Churchill e Sartre sofreram alterações feitas pelo Ministério da Verdade para que o artigo transgressor fosse retirado de entre seus dedos, e no mural da escola o edito absolutista ‘não fumarás’ está ao lado do poster que orienta os garotos e garotas de doze anos sobre sexo seguro e aborto livre”

Sugestivo e ameno é o apêndice do livro: o que beber com quê, onde associa as bebidas mais adequadas ao pensamento dos filósofos. Algo muito peculiar e divertido. “Devemos beber aquilo que gostamos, na quantidade que gostamos. Isso pode apressar a nossa morte, mas esse custo baixo será compensado pelos benefícios a todos os que nos rodeiam (…) Em nossa estrada tenho encontrado latas de cerveja e de refrigerante, garrafas de água, vasilhames pequenos de uísque e embalagens de papelão para refrigerante, mas nunca encontrei uma garrafa de vinho. Assi, como devemos culpar a poção bestial pelo caráter bestial, devemos ver no comportamento respeitador dos nossos enófilos a Virtude moral do que eles bebem”. 

Fala-se de Agostinho, Boécio, e de Tomás de Aquino de quem afirma que “poucas pessoas chegam na secunda secundae sem a ajuda de algumas garrafas de uísque escocês”. Para ler Kant, sugere uma garrafa de Malbec argentino, porque não é má ideia combinar a crítica da razão pura com algumas histórias de Borges. Para enfrentar Nietzsche melhor beber com uma porção de Beaujolais num copo com água gasosa até a boca, poção franzina e hipocondríaca. E da filosofia existencial de Heidegger em que a nada nulifica, talvez uma taça vazia e sentir a sua descida -nada, nada, nada ao longo de toda a extensão do tubo, experiência que encantará o verdadeiro conhecedor. 

O livro não se presta a um resumo porque é uma experiência fenomenológica, que pode ser temperada também com a bebida adequada. Fechamos esta viagem -e o agradecimento ao colega que me presenteou com o livro- com um recado de Scruton verdadeiramente aproveitável: “O antigo provérbio nos diz que a verdade está no vinho (in vino veritas) . A verdade não está no que o bebedor percebe, mas no que ele revela por estar com a língua afrouxada e o comportamento mais desembaraçado….Isso explica as virtudes sociais do vinho assim como a sua inocência epistemológica”. 

Comments 5

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.