Dominique Enright: “A Verve e o Veneno de Winston Churchill”

Pablo González Blasco Livros Leave a Comment

Dominique Enright: “A Verve e o Veneno de Winston Churchill” Odisseia Editorial. 2009. Rio de Janeiro. 175 págs.

Winston Churchill certamente inclui-se nesse grupo de escritores muito citados, e muito pouco lidos. E, confesso, que devo vestir a carapuça, porque ainda tenho pendente na minha estante, Uma História dos Povos de Língua Inglesa., que me foi recomendada por um amigo já falecido que, ele sim, tinha lido tudo sobre Churchill e do próprio Churchill. 

Foi ele, aliás, quem me emprestou este pequeno livro, a modo de diversão. Por isso, com sentimento de gratidão, desentoco agora as anotações -breves- que fiz no dia em que li este livro curto, sugestivo, ameno. Trata-se de uma coletânea de frases celebres do escritor que nos ocupa porque, é bom lembrar, além do papel político relevante que teve na Europa, Churchill era um escritor, um conhecedor profundo da cultura, e ganhou o prêmio Nobel em 1953, por méritos literários, não apenas políticos. 

Devo também confessar -escrevo para mim mesmo em primeiro lugar, depois para os que queiram se aventurar com estas linhas- que a carência absoluta de lideranças que nos cerca neste momento, fez-me evocar estas anotações que dormitavam num canto do meu computador. 

Uma postura definida perante os desafios, sem nenhuma preocupação de ser politicamente correto. Copio textualmente: “Embora seja bastante difícil definir o que é e o que deixa de ser um sindicato, a maioria das pessoas de bom senso reconhece o sindicato quando se depara com um deles. É como tentar definir um rinoceronte: sem dúvida difícil, mas quando o vemos, logo o reconhecemos (….) Conciliador é aquele que alimenta um crocodilo na esperança de que o devore por último (…) Fanático é aquele que não é capaz de mudar as ideias, nem o assunto”.

 Naturalmente os desafios que enfrentava na trincheira estão presentes nestas frases repletas de ironia. As ameaças bélicas em primeiro lugar: “Se Hitler invadisse o Inferno, eu faria pelo menos algumas referências favoráveis ao Diabo na Câmara dos Comuns”. E o seu estado de saúde cujo descaso escandalizaria qualquer médico hoje, e na sua época. Parece que alguém lhe perguntou como bebendo como bebia e fumando como fumava, conseguia manter-se em forma. A resposta que me chegou é variada: “No sports”, parece que disse. E outra versão: “O que possas fazer deitado, não o faças sentado. E não faças de pé, o que podes fazer sentado”. Daí que uma das frases recolhidas neste livro faça perfeito sentido: “Sir Winston, é uma maravilha tirar o seu retrato aos oitenta anos. Espero realmente ter a oportunidade de repetir a foto nos seus cem anos. WC respondeu: Meu jovem, você me parece gozar de boa saúde e aparenta estar em boa forma. Não vejo razão alguma que o impeça”. 

Uma das frases do livro, a utilizamos num dos artigos recentes publicados, convocando à serenidade diante das incertezas: das pandêmicas e das que nos chegam da própria vida. Lá está a modo de epígrafe, a postura recomendada ao líder: “Antes que possa levar a plateia à emoção é preciso que ele próprio se deixe arrebatar. Se quiser despertar indignação, seu coração tem que transbordar de ódio. Antes de provocar lágrimas, terá de derramar as suas. Para convencer alguém, ele tem que ser o primeiro a acreditar. Suas opiniões podem mudar à medida que as impressões esmoreçam, mas todo orador crê no que diz quando profere as palavras. Jamais é conscientemente insincero”. 

E uma última frase, de enorme utilidade na hora de contemplar a história, para saber decepar a tentação de julgar outras épocas com os olhos do presente. Por sinal, uma arrogância extremamente frequente: “Se o presente tentar julgar o passado, perderá o futuro”. 

Encerro estas anotações com o propósito de ler Churchill, e espero que sirvam de incentivo para animar os leitores. É uma consequência da reflexão sobre o orador, acima referida: para citar Churchill convém primeiro ler as fontes. Não basta reproduzir mensagens com a cara dele. A ignorância costuma ser muito atrevida: a frase não é de Churchill, embora ele assinaria em baixo. É de um provérbio secular. 

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