Nelson Rodrigues: “ A Vida como Ela é…..em 100 inéditos”.

Pablo González Blasco Livros 3 Comments

Nelson Rodrigues: “ A Vida como Ela é…..em 100 inéditos”. Ed. Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 2012. 440 págs.

Não sei se a vida é como Nelson a pinta, repleta de bizarrices, de comportamentos chocantes, de virtude pacata desmascarada na hora do vamos ver. Provavelmente não, porque isto lembra Notícias Populares, onde somente o escândalo retorto tinha vez. A vida não é assim. Mas as paixões são essas mesmas, e pode haver muito disto – e também de virtude, que tem menos apelo literário para crónicas- na hora de narrar uma vida.

Mas o que importa é o modo com o Nelson conta, a força da narrativa, rápida, chocante, mordaz, com domínio da língua e da gíria popular. Algumas pérolas: “Durante seis meses foi o que se chama um viúvo inconsolável. Vestido de preto, de alto a baixo, fazia questão da própria tristeza. Era, em verdade, uma tristeza total e minuciosa, que não admitia um vago, um tenso sorriso (…) Sandoval ficou com os defeitos do pai, da mãe e os próprios. Tinha todos os defeitos deste mundo e do outro e, inclusive, tomava dinheiro de mulher (…) Lourdinha percebeu, então, que fora o som deste riso que a conquistara. Sim, era um riso de muitos dentes, escancarado e vital. Ela não teve mais dúvidas: apaixonara-se por esse homem. Só no fim quando pagou a despesa, já completamente bêbado, ele balbuciou: Sou casado, ouviste? Casadinho!”.

Saborear, dar risada, tirar importância das tragédias que nos mesmos montamos na nossa vida, por vezes tão cinzenta, leva tempo. Carece de demora, como diria Guimarães Rosa. Foi por isso que demorei tempo, mais de ano, em degustar os inéditos da vida que o Nelson afirma ser assim. Uma ou duas por dia, nem todos os dias, com paradas estratégicas, deixando chegar a saudade, para voltar a livro.

Tropecei então com o humor negro, que também sorridente, tinha sua própria luminosidade. “Diante do corpo, (o desconhecido) rompe a chorar alto, chorar forte. Havia, no seu gemido grosso, algo de mugido. A mãe da falecida, or irmãos, o próprio viúvo -todos pararam de chorar, como se os intimidasse uma dor maior”.  La está a mãe do jovem encalhado,  que mata as namoradas, empurrando-as embaixo dos  carros. Uma se safa, empurra a futura sogra, que morre no ato : “quis me empurrar debaixo da lotação. Fui mais forte e a derrubei e corri. Foi tua mãe que matou as outras Assassinou as outras- Apavorado, ele veio espiar no caixão. A morta parecia sorrir (…) Sabe por que nós ainda não morremos de fome? Por causa de gorjetas! Vivo e sempre vivi de gorjetas, porque o ordenado não dá ne para morrer de fome!”

O relacionamento familiar e seu entorno é prato cheio de que Nelson se utiliza para nos servir as histórias salpicadas de grotesco, embora não careçam de um triste realismo. Mais pérolas: “Todo marido é um sujeito horroroso! Ou você pensa que alguma mulher gosta do marido? (…)Não devia existir sogro. Nem sogra. São os maiores empates de todos os séculos (…) Tinha ciúmes de tudo ou, como ela própria admitia numa autocaricatura: tinha ciúmes até de poste (…) Eu sou assim, gosto de um homem até o momento em que ele se declara. Você compreende? O homem que disser para mim ‘eu te amo’ deixa de me interessar, imediatamente. Passo a detestá-lo (…) Não respeitar as cunhadas, não! Escuta aqui. O sujeito que não respeita a cunhada é um canalha abjeto!”.

Releio, volto a dar risada -não sei se do realismo que é cômico por ser imenso e despiedado- ou do  despudor com que Nelson escreve o que muitos pensam, e nem se atrevem a articular. Aliás, falando em descaro ele anota: “Não há mais pudor! Não há mais nada! Aos 11 anos de idade, as meninas já fazem horrores e sabe mais que um velho devasso. As viúvas já começam a namorar no velório do marido! Isso que você está vendo é uma sociedade cancerosa”

E o universo feminino que Nelson conhece, se deleita, e também não deixa títere com cabeça: “Era uma pequena mulher mimada e nervosa cheia de ticos, autoritária. Dela se dizia, à boca pequena, e naturalmente pelas costas, que era ‘feia como a necessidade’  (…) Pelo amor de Deus: não fala! Você parece que engoliu uma agulha de vitrola! (..) Eu, quando gosto, sou pior que carrapato  (…) Era, normalmente, uma boa menina. Mas a falta de amor a tornava intolerante e quase cruel”

Repito, não penso que a vida seja assim. Há outras perspectivas. Mas ler Nelson Rodrigues é sempre uma descontração, um aprender a sorrir diante das crises que nos tiram do sério, como se a condição humana -a própria e alheia- fosse algo novo, desconhecido, inédito. E se aprende também a vestir com linguagem elegante e criativa as situações que, na escrita de outros, seria tosca, incômoda. Não creio que Nelson acreditasse piamente em tudo o que escrevia. Mas agora que  releio o que acabo de anotar, mesmo sem também acreditar, percebo que algo dele grudou em mim. Talvez uma imitação, pobre e desbotada,  do seu estilo. Se assim for, já é um belo aprendizado.

Comments 3

  1. Grande Pablo: como sempre, especial! Também penso que a vida não é assim como Nelson descreve. Contudo, ao ler sua obra, realmente, algo dele gruda na gente.
    Sem dúvidas há muito de Nelson dentro de todos nós.
    parabéns por mais essa rica resenha.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.