Devagar: Como um movimento mundial está desafiando o culto à velocidade

Pablo González Blasco Livros Leave a Comment

Carl Honoré, Record. 2019. 280 págs

Carl Honoré: “Elogio de la lentitud”. RBA Bolsillo. Barcelona. 2004.

Lembro de ter lido este livro há quase 20 anos, pouco tempo depois de ser publicada a versão espanhola. Vejo agora que foi publicado em Português, acessível aos leitores que gostam de comprar por internet. Uma lentidão… de acesso rápido.

Na época em que li, tomei algumas notas, mas deixei-as repousando nos meus arquivos, não me ocorreu escrever sobre o livro. Recentemente, por conta de umas aulas de pós graduação que tive de preparar, tropecei com alguns slides antigos, onde citava o pensamento do jornalista canadense. Recuperei as notas, e decidi costurar estas linhas. Se há 20 anos isto era importante, hoje, saturados de informação -de inquietudes e nervosismos informáticos- parece-me muito mais relevante.

Entre as anotações que fiz na época, lembro de ter destacado que era um livro que promovia a filosofia Slow, sem grandes profundidades antropológicas. No fundo, um elogio global à lentidão e parcimônia, como um oásis para se refugiar da velocidade tóxica. Mais do que um tratado, é uma largada para que cada um pense, e tire as consequências de que for capaz para a sua vida do dia a dia. E o melhor capítulo é o primeiro, a introdução, de onde tirei todas as ideias que recolhi, e agora costuro aqui.

Um ponto que me chamou a atenção é que a velocidade que consumimos, nada tem a ver com as possibilidades tecnológicas (que por outra parte aumentaram sensivelmente nas últimas duas décadas). Diz Honoré: “Ao contrário do que podem pensar as pessoas, a discussão sobre a velocidade nunca se centra realmente no estado atual da tecnologia. Na verdade, é mais profunda, atinge o desejo humano da transcendência. É difícil pensar que vamos morrer; é desagradável, de modo que continuamente procuramos maneiras de distrair a consciência da nossa mortalidade. A velocidade, com toda a revolução sensorial que implica, é uma espécie de estratégia de distração”.

E também que a velocidade, a rapidez em resolver as questões -somente de modo aparente- gera um estado tóxico nas pessoas: “Ai é aonde conduz nossa obsessão pela rapidez e o poupar tempo de qualquer jeito. A raiva paira na atmosfera: raiva pelos congestionamentos dos aeroportos, pelas aglomerações nos centros comerciais, pelas relações pessoais, pela situação no nosso posto de trabalho, pelos tropeços nas férias, pelas esperas na academia de ginástica, …..Por causa da velocidade, vivemos a era da raiva”

O restante do livro, transita por situações variadas, fazendo sempre a apologia da filosofia Slow. Aventura-se na medicina, e apela para os tratamentos holísticos e naturais, a medicina alternativa. Duas décadas atrás o movimento da Slow Medicine ainda não tinha dado o ar da sua graça. Hoje seria imprescindível citá-lo no livro. Eu mesmo tive a oportunidade de conhecer os impulsionadores do movimento no Brasil, publiquei algum comentário de filme no Blog deles, e mantenho uma amizade cordial com os que pilotam essa interessante variante para Humanizar a Medicina.

Discorre também fazendo a apologia deste estilo de vida no trabalho, no amor, nas pausas para meditação, e no ócio. A frase citada de B. Russell é provocadora: “Ser capazes de preencher o tempo de ócio de maneira inteligente, é o último produto da civilização”. Uma verdade incisiva que, cada vez mais, surpreende pela sua ausência. E chega até o capítulo da educação dos filhos, onde postula uma educação pausada e calma, apoiando-se num pensamento de Platão: “A educação mais eficaz consiste em fazer com que a criança brinque com coisas belas”. Outro desafio imenso, que afasta telas e vídeo jogos , apelando para a criatividade. A dos pais, dos educadores, entende-se.

Volto às minhas notas do primeiro capítulo que resgatei junto com slides feitos há mais de uma década. Leio um pensamento contundente que me fez refletir, e espero que funcione para os meus alunos: “Muito já foi destruído. Temos esquecido a espera das coisas e a maneira de gozar do momento quando ele chega. Nos restaurantes são cada vez mais os clientes que pedem a conta, pagam, e solicitam um táxi enquanto estão ainda comendo a sobremesa(….)Depois está a maldição da multiplicidade de tarefas. Fazer duas coisas ao mesmo tempo parece muito inteligente, eficiente e moderno; porém, costuma traduzir-se em fazer duas coisas não tão bem como deveriam ser feitas. (..) Nesta época saturada de informação, repleta de dados, de zapping e jogos eletrônicos,  temos perdido a arte de não fazer nada, de fechar as portas ao barulho de fundo e às distrações, de diminuir o passo e permanecer a sós com nossos pensamentos”

E a última anotação, outra carga de profundidade: “Boredom, a palavra inglesa que significa aborrecimento, não existia 150 anos atrás; o fastio é uma invenção moderna. Se eliminamos todos os estímulos, ficamos nervosos, entra-nos o pânico e procuramos algo, seja o que for, para empregar o tempo. Quando vimos por última vez alguém que simplesmente olhava pela janela do trem? Todo o mundo está muito ocupado lendo o jornal, absorvido por um videogame, escutando música, trabalhando com o laptop, conversando no  celular… Em vez de pensar com profundidade, ou deixar que uma ideia se cozinhe ao fogo no fundo da mente, gravitamos de maneira instintiva para o barulho mais próximo”.

Uma situação que leva fatalmente à superficialidade epidémica. É o que comprovamos diariamente, a toda hora, onde todos sentem-se no direito de emitir opiniões sobre tudo. Anota Honoré: “Hoje em dia tanto os correspondentes no campo de batalha como os pensadores realizam análises imediatos dos acontecimentos no mesmo momento em que se produzem. Com frequência, sua percepções resultam equivocadas, mas isso carece de importância; no pais da alta velocidade, aquele que tem resposta imediata é o Rei. (..)São os fast thinkers, pessoas que sem deter-se a pensar um instante, são capazes de dar uma resposta eloquente a qualquer pergunta.” Lembrei da frase de Pascal quando aponta que muitos dos males que acontecem no mundo, e a decorrente infelicidade do ser humano, começa porque o homem é incapaz de ficar no seu quarto sozinho com os seus pensamentos. Precisamos de mais silêncio, mais reflexão. E também de gastar tempo -gastar mesmo- com os outros, nessa aparente inutilidade que é tão proveitosa. É o que o autor lembra com humor, invocando uma frase de Oscar Wilde: “Depois de um bom jantar, somos capazes de perdoar a qualquer um, mesmo aos parentes”. Outra enorme verdade!

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