Alessandro D’Avenia: “O que o inferno não é".

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Alessandro D’Avenia: “O que o inferno não é”. Ed Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2017. 382 págs.

A tertúlia literária é o resultado desta viagem a Sicília através das páginas de um livro, e da mão do seu autor, natural de Palermo. Por isso, nos fala da máfia, das injustiças, do crime e da vingança numa cidade “em que o caos é apenas um tipo diferente de ordem:  Neste mundo, há quem nasce presa e quem nasce caçador. É a natureza que decide onde você tem de se colocar, o resto é coerência”.

Mas fala-nos, sobretudo, de que na vida o importante são as opções e as escolhas que cada um faz. É, pois, natural, que o escritor se auto represente no protagonista, Frederico, um jovem rapaz que percebe uma inquietude diferente na alma.  “Por que todo aquele nascer todas as manhãs? Não tem resposta o rapaz para o qual as pétalas caídas de uma rosa doem mais do que os espinhos e que todas as manhas se olha no espelho como um náufrago. O rapaz tem 17 anos e a vida para inventar. 17 não promete boa ventura, até mesmo os atores são feios e não acreditam que vão ficar bonitos. O sangue é quente e, quando aperta o coração com força, obriga-nos a decidir o que fazer com ele”

Frederico -ou Alessandro, porque parece-me que são a mesma personagem, o livro se revela inevitavelmente auto biográfico- é sensível, artista, poeta. “Graças à minha paixão por Dostoievski, ganhei o apelido de idiota: meus amigos passaram a me chamar assim no dia em que falei do livro com o entusiasmo de um cdf durante a prova oral de italiano, porque nele está escrito que a beleza salva o mundo”. Sua defesa da literatura e dos clássicos é contundente, o que corresponde à formação do próprio autor. Eis um diálogo com um companheiro da escola:

-E para que mais serve a literatura? Para fazer as provas orais ou para levantar questões?

-Sei lá, está no programa. Para que serve?

– Para nos libertar dos lugares-comuns Para não aceitar nada como certo Para pôr os esquemas a prova …Para saber claramente, que o que agrada ao mundo é breve sonho (Canzoniere de Petrarca).

A trama se abre quando Frederico vai iniciar as férias de verão e tem programada uma viagem para Inglaterra. Mas o encontro com o padre Pino Puglisi (conhecido como 3P) vai mudar a sua vida, e tirá-lo da área de conforto, na qual já se encontrava inquieto. “Aos 17 anos, nada é mais sonhado do que uma piscina, talvez  porque  a vida comece a parecer tão vasta que é melhor cerca-la. Desde essa época a piscina me parece uma substituição ao mar aberto, onde os marinheiros se afogam. Éramos nadadores de piscina; nós, peixes dourados em garrafa. Nada sabíamos do mar e da sua crueldade. Continuo a me sentir mais seguro nessa água perfeitamente iluminada, nesse paralelepípedo em que tudo parece controlado e controlável. Sem ondas, sem redemoinhos, sem correntes. O sentido asséptico da tranquilidade”.

O padre Pino é quem articula, à força de amor e de dedicação, as opções que conseguem mudar as pessoas, enveredar as crianças de um bairro monopolizado pela máfia, pelos caminhos do bem.  “As crianças, vão à escola de manhã, e a tarde ao centro do Padre Nostro. Somente assim será possível tirá-las da rua e de suas regras. Somente se tocarem um pedacinho de beleza é que poderão deseja-la. O inferno é o lugar em que o espaço para os desejos já está todo ocupado (…) Assim são todas as crianças de Brancaccio: são iniciadas no inferno, organizando duelos mortais entre cães vadios, torturando gatos que servirão de comida aos mesmos cães de guerra ou serão enforcados. Depois há o tráfico de drogas, os furtos, as brigas, a prostituição….A luz vai escurecendo e é substituída pela raiva de quem destrói e nem mesmo sabe por quê, de quem aprende a dominar antes de amar, de quem não sabe que amar acrescenta alguma coisa à vida, ao passo que odiar subtrai, mas odiar é mais fácil e imediato. É uma espécie de anestesia que não permite que se sinta a vida e a luz”.

Frederico enfrenta-se com essa realidade de miséria que lhe parecia tão distante. O padre Pino lhe adverte: “Dar a vida pelos amigos. O que significa? Defendê-la e enriquecê-la com a própria. Como? Com o próprio tempo (…) Os loucos são os que amam. Você sempre pode amar, este é o paraíso. Enquanto não tirarem de você a capacidade de amar, sempre poderá fazer alguma coisa. O inferno é perder também a liberdade de amar

O dilema surge na frente do protagonista. É preciso fazer opções na vida, e comprometer-se com elas. “O problema é saber o que significa ser homem. Saber fazer escolhas e responsabilizar-se pelos próprios erros. Não ter medo de ficar sozinho por ser determinado. O contrário de um homem é um camaleão, alguém que se adapta, que se mimetiza, que não escolhe”. A reflexão em voz alta é densa, contundente, sincera: “Embora eu seja uma série de emboras, só tenho pensamentos de amor, porque talvez seja o amor a unificar as peças, os pedaços, os fragmentos e a fundi-los em ouro. Se meus pensamentos ecoassem fora da minha cabeça, acho que eu acabaria num hospital psiquiátrico”. E, paralela, à gratidão ao irmão que lhe espicaça o tempo todo:  “Sem meu irmão  eu seria apenas uma hipótese de homem”.

As inquietudes de Frederico, o despertar para novas responsabilidades, são conduzidas com mão sábia e suave pelo padre Pino. “Se não aprender a amar você também vai permanecer um menino. Amar os que são como ele é a única política que muda Brancaccio. Julgar é fácil demais. Culpar o sistema político? Também. É preciso deixar o trigo e a cizânia crescerem juntos. A cizânia é muito rápida, tem raízes superficiais e se mimetiza perfeitamente em meio ao trigo; você não consegue arrancá-la sem danificá-lo. Não há bons e maus, mas há o trigo e a cizânia em todo o mundo. A diferença se vê no momento certo. É preciso reduzir aos poucos a zona de influência da cizânia”.

Lúcia, uma outra figura incrustada no coração desse bairro infame, é também luz de que Frederico precisa para começar a enxergar o panorama que se descortina diante dele. “Lucia está vestida de si mesma. A simplicidade plena é uma característica sua. Graças a ela aprendi a diferença entre uma garota que se mostra e outra que se manifesta. A primeira interpõe entre si e os outros uma demonstração de quem quer ser e, antes de lidar com ela, você precisa superar algumas camadas de insegurança dissimulada; a segunda não é protegida por nenhuma demonstração, limita-se a ser a obra de si mesma”. Quando visita a casa de Lúcia, o deslumbramento mistura-se com a falta de jeito, enfrenta o contundente impacto da simplicidade: “Na casa dos meus amigos, a certos cômodos correspondem certos comportamentos, e aqui não sei que posição tomar, há muitos lugares ao mesmo tempo. Nem sei onde colocar as mãos e para onde olhar. Os bolsos acabam sendo úteis para eu esconder as mãos”.

Lucia e o padre Pino, os guias de Frederico no seu novo itinerário que, mais do que uma atividade social implica uma transformação de si mesmo, do modo de encarar a vida e a missão que lhe cabe. “O inferno é quando você já não sente a dor da destruição, já não a sente na espinha dorsal, na medula, na cabeça nem no coração. O inferno é a anestesia de já não sentir viver o que é vivo. Esse menino só queria ser amado e não sabia como, por isso chamava a atenção destruindo, única regra que a vida lhe ensinara. Destrói quem não sabe como se constrói. E talvez destrua o que os outros constroem para aprender como se faz para construir ou, pelo menos, para existir um pouco”.

Continuam as explicações do seu mentor, agora misturadas com as próprias reflexões: “A gente sabe que na escola se ensinam as coisas como devem ser, não como são de verdade. Da para mudar uma nação com cem mil jovens. Mas também dez mil podem bastar para uma revolução. Todo professor é o potencial bélico mais perigoso de um Estado, fusão capaz de ativar reações atômicas insuspeitas.  Por isso somente as crianças sabem ouvir uma história, mesmo que ela seja sempre a mesma, pois nunca se cansam de ouvir a verdade. Se continuarem a guardar a verdade no sótão, cedo ou tarde também vamos esquecer que um dia houve alguma”.

Dificuldades, medos, sangue, tragédia. Também estão presentes no romance, e as boas intenções de Frederico correm o risco de abalar-se. A voz do padre Pino sai ao encontro dos medos e hesitações do jovem. Sem impor-se nunca, apenas como pauta de reflexão, como alavanca para superar os próprios medos que é a única barreira infranqueável. É deste modo como as ponderações do protagonista em transformação cristalizam e se misturam com o amor pela sua terra. “Basta uma gota do sangue de Deus para salvar o mundo inteiro, imaginem um bairro de Palermo. Mas a onipotência fraca de Deus sem o homem nada pode fazer. A liberdade do homem é a barreira em que Deus quis confinar sua onipotência (…) Aos 20 anos você tem a cara que te deram, mas aos 50 tem a que merece. Todos pensam que é a vida que nos deve fazer felizes, mas uma coisa aprendi: para ser feliz, basta apenas ter coragem. É preciso de muita para acolher o céu e a terra no peito”. 

O que o inferno não é? A pergunta fica no ar, D’Avenia não é explícito na resposta. Mas cutuca nossa vulgaridade ao denominar infernal circunstancias do dia a dia, desafios do quotidiano. É o momento de parar com os complexos de tragédia e seguir as dicas de Frederico que nos diz, sim, o que é realmente o inferno: perder a liberdade de amar, não deixar espaço para os desejos, não sentir a dor da destruição, a anestesia da  alma que não sente a vida nem os que vivem.

O que o inferno não é? A coragem de responder positivamente a todas essas questões, seguindo as sábias palavras de Pino Puglisi: “Lembre-se de que se você colocar o amor onde não há, colherá o amor. Reparar é muito mais heroico do que construir. A máfia é potente, mas Deus é onipotente. Você encontrou o amor. Sempre acontece isso quando a pessoa não se poupa ou não se deixa aprisionar pelos medos”.

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