O Pequeno Nicolau: A tremenda simplicidade de uma alegria contagiante.

Gabriel Brandão Filmes 3 Comments

Le petit Nicolas. Director: Laurent Tirard. Maxime Godart, Valerie Lemercier, Kad Merad, Sandrine Kiberlain, Daniel Prévost. 91 min.
    Estar envolvido no universo da educação da afetividade com o Cinema faz com que cada vez que vejo um filme, me pergunte qual é o valor que agrega ao projeto pedagógico ao qual estou atrelado. É um questionamento do qual não me consigo liberar; também não sei se quero fazê-lo, possivelmente não. Mas, como acontece com toda opção, é preciso pagar os impostos. Os impostos são altos, porque os filmes que tenho assistido nos últimos meses, não tem acrescentado grande coisa. E isso depois de um garimpo prudente sobre as inúmeras possibilidades de mercado. Lá se vai o tempo, e pouco sobra para compartilhar com os que têm a paciência de ler meus comentários fílmicos. E para o Natal, o que vou escrever? Na verdade, ninguém me cobra, mas esse é o dever que mais pesa: aquele que ninguém te cobra, o que você mesmo se impõe.




Le petit Nicolas. Director: Laurent Tirard. Maxime Godart, Valerie Lemercier, Kad Merad, Sandrine Kiberlain, Daniel Prévost. 91 min.

    Estar envolvido no universo da educação da afetividade com o Cinema faz com que cada vez que vejo um filme, me pergunte qual é o valor que agrega ao projeto pedagógico ao qual estou atrelado. É um questionamento do qual não me consigo liberar; também não sei se quero fazê-lo, possivelmente não. Mas, como acontece com toda opção, é preciso pagar os impostos. Os impostos são altos, porque os filmes que tenho assistido nos últimos meses, não tem acrescentado grande coisa. E isso depois de um garimpo prudente sobre as inúmeras possibilidades de mercado. Lá se vai o tempo, e pouco sobra para compartilhar com os que têm a paciência de ler meus comentários fílmicos. E para o Natal, o que vou escrever? Na verdade, ninguém me cobra, mas esse é o dever que mais pesa: aquele que ninguém te cobra, o que você mesmo se impõe.

    Assim andavam as coisas, quando decidi assistir Le Petit Nicolas. Sem pretensões; quer dizer, sem pretensões de alta filosofia, com um propósito muito mais simples, treinar o ouvido no meu deficiente francês. Surpreendi-me sorrindo primeiro, dando risada, cheguei até a gargalhada. Tem o seu mérito, porque estando sozinho não há como atribuir a engraçada empolgação ao ambiente. Diverti-me à beça. Logo se percebe que a história está muito bem contada. Aliás, o filme é a versão em celuloide dos gibis produzidos por J.J. Sempé e R. Goscinny – o escritor que deu vida a Asterix- no final da década de cinquenta, começo dos sessenta. E quando um bom comic se leva com acerto ao cinema –o que também não é simples- a história diverte, o sucesso é garantido.

    As personagens estão muito bem construídas, e uns atores magníficos dão vida a caracteres estereotipados, figuras clássicas, responsáveis pelo humor que perpassa os 90 minutos de filmes. São verdadeiros arquétipos dos papeis que representam; não se poderiam imaginar de outro modo melhor. A professora do colégio, o diretor, o inspetor de disciplina, o ministro da educação, os pais do Nicolau e, naturalmente, a variada gama de alunos inquietos e criativos. Todos desfilam com imensa naturalidade, alheios a um mundo que as revoluções de 68 –e nem dizer a sociedade atual- qualificariam de conformista, burguês, repressivo. E, para cúmulo, parecem todos felizes representando o papel que lhes cabe.

    Sem deixar de me divertir com o filme, ocorreu-me pensar como seria difícil explicar hoje por que somente tem meninos na classe do colégio, que nada querem saber das brincadeiras com as meninas, que são educados –domesticados, talvez- por uma professora sofrida e normal, sem aparentes traços homo-afetivos. Ou, pior, por que a mãe suporta um pai machista, reclui-se na cozinha, tem brigas homéricas e tudo acaba bem, sem processos nem denuncias nas delegacias especializadas em violência doméstica.

    Divertia-me, e me preocupava ao mesmo tempo. O tal imposto a pagar, os valores e recados que a gente tem de encontrar nos filmes, onde é que está isso aqui? Que valores afinal podem destilar desta hora e meia de risadas descontraídas? E o filme nem parece real, as situações não são transponíveis à vida de hoje. Imagina só. Uma briga de casal onde ninguém corre atrás dos direitos, e uns pais que acreditam e apoiam o castigo que a professora coloca impiedosamente ao aluno preguiçoso, e nem vão tirar satisfação com o diretor. E o garoto abastado que o mordomo leva ao colégio de Rolls Royce e convive com o filho do gendarme, ou com o colega cujo pai assalariado é explorado pelo patrão. Isto é um mundo diferente, de faz de conta.

    E de repente –por essa associação de ideias que nos salva da mesmice- a música do Gonzaginha veio à minha mente. Não tanto a música, mas a letra: «Eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, é bonita, é bonita». O mundo visto através dos olhos de uma criança, essa é a grandeza e o valor do filme, o seu poder de divertir e de refrescar. Conviver, por alguns minutos com personagens que não tem a vergonha de ser feliz, de cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Porque como diz a música, podemos perguntar a um e outro o que é a vida – aos revolucionários do 68, hoje démodés; ou aos arautos dos direitos humanos, e aos promotores de ONGs pela igualdade sócio-racial-afetiva. Mas no fim, o que a gente gosta é mesmo da resposta das crianças, descobrir com o pequeno Nicolau que a vida vale pelo que fazemos aos outros, por colocar um pouco de alegria, de bom humor; por saber provocar um sorriso que é capaz de resolver tantas tragédias de meia sola, com que os humanos conseguem complicar a existência.

    É um sonho, uma pausa no nosso mundo impiedoso e atroz? Para que poesia em tempos de miséria dizia Holderlin? Temos tanto que fazer, tantos problemas a resolver que não nos permitimos sorrir. Será a nossa a vida real, ou teríamos de ensaiar voltar a ser criança? E apreciar as pequenas coisas da vida, e sorrir, reclamar, conformar-se e saber zerar o taxímetro da nossa lista de afrontas –contabilidade que levamos apuradamente- para perdoar, esquecer, aniquilar da nossa memória afetiva o que nosso orgulho não soube digerir.

    No universo do Petit Nicolas, os adultos seguem a lógica das crianças. Por isso o filme descansa, porque descomplica a vida. E por isso arranca sorrisos, com a ingenuidade com que o fazem as crianças. Crianças verdadeiras, au naturel, e não de plástico, artificias, como as que apresentam alguns filmes assim chamados infantis. Essas, mais do que crianças são adultos disfarçados e problemáticos, que mergulham numa espécie de regressão psiquiátrica para lavar os complexos que alguém lhes colocou, não sem cobrar avultados honorários psicoterápicos.

    E no meio desse universo tão francês, despreocupado de críticas sociológicas decadentes, a alegria, o sorriso; e o poder de alegrar os outros como perspectiva de missão na vida. «Não esqueças que, às vezes, faz-nos falta ter ao lado caras sorridentes» – diz Sulco, um dos meus livros de cabeceira. Uma verdade tremenda, e uma bela proposta para um serviço atual e eficaz: saber sorrir, fazer questão de sorrir, contagiar o bom humor, inundar o ambiente de alegria. A alegria –em palavras de Susanna Tamaro- não é uma linguagem de palavras, mas de olhares; a alegria não convence, contagia. É poderosamente revolucionária.

Um bom amigo, professor de medicina em USA, costuma perguntar aos alunos: «O que é um bom médico?». E, responde: «Não o que sabe muito, ou tem um curriculum volumoso, ou mesmo o que ganha presentes. O bom médico é aquele que consegue que o paciente saia da consulta melhor do que entrou!» Quer dizer, aquele que fez a diferença na vida do semelhante. Algo perfeitamente aplicável à alegria que se transmite, e contamina o ambiente que nos rodeia. É preciso, claro, ter alegria para poder dar aos outros. E encontrar a fonte da alegria. E aprender a não complicar-se a vida, que é o túmulo da alegria.

Vai ver que nos complicamos a vida porque queremos, ou porque nos tornamos exigentes, e choramos de barriga cheia. «Quanto mais coisas negativas desaparecem da nossa vida –escreve Innerarity – mas irritante resulta o negativo que ainda permanece. Quem tem pouco pelo qual sofrer, sofre cada vez mais por esse pouco residual. É o paradoxo do qual fala Tocqueville: quanto mais residual é um fenômeno desagradável, mais insuportável resulta». Talvez nos sobrem comodidades, e tudo o que ofusca o nosso conforto é montanha intransponível, causa de crises tão espantosas como injustificáveis.

Onde buscar a fonte da alegria? Isso mesmo se pergunta Ortega no seu fantástico ensaio onde fala da Cultura do amor. «Quando sentirá amargura esta mulher que arranca sorrisos de tudo quanto a rodeia? Talvez nunca; é invencível, porque tem o segredo de saciar as angustias do seu corpo na torrente da sua alma, que nunca se cansa de existir e de sonhar.»

Não cansar-se de existir e de sonhar. Como as crianças, como o pequeno Nicolas. Atrever-se a ser criança de novo. Parece que compensa, segundo lemos em Holderlin: «Brilhantes deuses etéreos/ Tocam-vos levemente/ Quais os dedos do artista/ nas cordas santas/ Sem destino, como a criança/ Castamente guardado/ Em discretos botões,/ O espírito floresce lhes,/ Eterno/ E os santos olhos/ Veem em silenciosa/ E eterna claridade

Ser criança, contagiar alegria, essa mesmo que desejamos a todos nestas festas de Natal, e no Ano Novo que começa. Felizes festas de Natal, Feliz Ano Novo, com toneladas de alegria.




Le petit Nicolas. Director: Laurent Tirard. Maxime Godart, Valerie Lemercier, Kad Merad, Sandrine Kiberlain, Daniel Prévost. 91 min.

    Estar envolvido no universo da educação da afetividade com o Cinema faz com que cada vez que vejo um filme, me pergunte qual é o valor que agrega ao projeto pedagógico ao qual estou atrelado. É um questionamento do qual não me consigo liberar; também não sei se quero fazê-lo, possivelmente não. Mas, como acontece com toda opção, é preciso pagar os impostos. Os impostos são altos, porque os filmes que tenho assistido nos últimos meses, não tem acrescentado grande coisa. E isso depois de um garimpo prudente sobre as inúmeras possibilidades de mercado. Lá se vai o tempo, e pouco sobra para compartilhar com os que têm a paciência de ler meus comentários fílmicos. E para o Natal, o que vou escrever? Na verdade, ninguém me cobra, mas esse é o dever que mais pesa: aquele que ninguém te cobra, o que você mesmo se impõe.

    Assim andavam as coisas, quando decidi assistir Le Petit Nicolas. Sem pretensões; quer dizer, sem pretensões de alta filosofia, com um propósito muito mais simples, treinar o ouvido no meu deficiente francês. Surpreendi-me sorrindo primeiro, dando risada, cheguei até a gargalhada. Tem o seu mérito, porque estando sozinho não há como atribuir a engraçada empolgação ao ambiente. Diverti-me à beça. Logo se percebe que a história está muito bem contada. Aliás, o filme é a versão em celuloide dos gibis produzidos por J.J. Sempé e R. Goscinny – o escritor que deu vida a Asterix- no final da década de cinquenta, começo dos sessenta. E quando um bom comic se leva com acerto ao cinema –o que também não é simples- a história diverte, o sucesso é garantido.

    As personagens estão muito bem construídas, e uns atores magníficos dão vida a caracteres estereotipados, figuras clássicas, responsáveis pelo humor que perpassa os 90 minutos de filmes. São verdadeiros arquétipos dos papeis que representam; não se poderiam imaginar de outro modo melhor. A professora do colégio, o diretor, o inspetor de disciplina, o ministro da educação, os pais do Nicolau e, naturalmente, a variada gama de alunos inquietos e criativos. Todos desfilam com imensa naturalidade, alheios a um mundo que as revoluções de 68 –e nem dizer a sociedade atual- qualificariam de conformista, burguês, repressivo. E, para cúmulo, parecem todos felizes representando o papel que lhes cabe.

    Sem deixar de me divertir com o filme, ocorreu-me pensar como seria difícil explicar hoje por que somente tem meninos na classe do colégio, que nada querem saber das brincadeiras com as meninas, que são educados –domesticados, talvez- por uma professora sofrida e normal, sem aparentes traços homo-afetivos. Ou, pior, por que a mãe suporta um pai machista, reclui-se na cozinha, tem brigas homéricas e tudo acaba bem, sem processos nem denuncias nas delegacias especializadas em violência doméstica.

    Divertia-me, e me preocupava ao mesmo tempo. O tal imposto a pagar, os valores e recados que a gente tem de encontrar nos filmes, onde é que está isso aqui? Que valores afinal podem destilar desta hora e meia de risadas descontraídas? E o filme nem parece real, as situações não são transponíveis à vida de hoje. Imagina só. Uma briga de casal onde ninguém corre atrás dos direitos, e uns pais que acreditam e apoiam o castigo que a professora coloca impiedosamente ao aluno preguiçoso, e nem vão tirar satisfação com o diretor. E o garoto abastado que o mordomo leva ao colégio de Rolls Royce e convive com o filho do gendarme, ou com o colega cujo pai assalariado é explorado pelo patrão. Isto é um mundo diferente, de faz de conta.

    E de repente –por essa associação de ideias que nos salva da mesmice- a música do Gonzaginha veio à minha mente. Não tanto a música, mas a letra: «Eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, é bonita, é bonita». O mundo visto através dos olhos de uma criança, essa é a grandeza e o valor do filme, o seu poder de divertir e de refrescar. Conviver, por alguns minutos com personagens que não tem a vergonha de ser feliz, de cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Porque como diz a música, podemos perguntar a um e outro o que é a vida – aos revolucionários do 68, hoje démodés; ou aos arautos dos direitos humanos, e aos promotores de ONGs pela igualdade sócio-racial-afetiva. Mas no fim, o que a gente gosta é mesmo da resposta das crianças, descobrir com o pequeno Nicolau que a vida vale pelo que fazemos aos outros, por colocar um pouco de alegria, de bom humor; por saber provocar um sorriso que é capaz de resolver tantas tragédias de meia sola, com que os humanos conseguem complicar a existência.

    É um sonho, uma pausa no nosso mundo impiedoso e atroz? Para que poesia em tempos de miséria dizia Holderlin? Temos tanto que fazer, tantos problemas a resolver que não nos permitimos sorrir. Será a nossa a vida real, ou teríamos de ensaiar voltar a ser criança? E apreciar as pequenas coisas da vida, e sorrir, reclamar, conformar-se e saber zerar o taxímetro da nossa lista de afrontas –contabilidade que levamos apuradamente- para perdoar, esquecer, aniquilar da nossa memória afetiva o que nosso orgulho não soube digerir.

    No universo do Petit Nicolas, os adultos seguem a lógica das crianças. Por isso o filme descansa, porque descomplica a vida. E por isso arranca sorrisos, com a ingenuidade com que o fazem as crianças. Crianças verdadeiras, au naturel, e não de plástico, artificias, como as que apresentam alguns filmes assim chamados infantis. Essas, mais do que crianças são adultos disfarçados e problemáticos, que mergulham numa espécie de regressão psiquiátrica para lavar os complexos que alguém lhes colocou, não sem cobrar avultados honorários psicoterápicos.

    E no meio desse universo tão francês, despreocupado de críticas sociológicas decadentes, a alegria, o sorriso; e o poder de alegrar os outros como perspectiva de missão na vida. «Não esqueças que, às vezes, faz-nos falta ter ao lado caras sorridentes» – diz Sulco, um dos meus livros de cabeceira. Uma verdade tremenda, e uma bela proposta para um serviço atual e eficaz: saber sorrir, fazer questão de sorrir, contagiar o bom humor, inundar o ambiente de alegria. A alegria –em palavras de Susanna Tamaro- não é uma linguagem de palavras, mas de olhares; a alegria não convence, contagia. É poderosamente revolucionária.

Um bom amigo, professor de medicina em USA, costuma perguntar aos alunos: «O que é um bom médico?». E, responde: «Não o que sabe muito, ou tem um curriculum volumoso, ou mesmo o que ganha presentes. O bom médico é aquele que consegue que o paciente saia da consulta melhor do que entrou!» Quer dizer, aquele que fez a diferença na vida do semelhante. Algo perfeitamente aplicável à alegria que se transmite, e contamina o ambiente que nos rodeia. É preciso, claro, ter alegria para poder dar aos outros. E encontrar a fonte da alegria. E aprender a não complicar-se a vida, que é o túmulo da alegria.

Vai ver que nos complicamos a vida porque queremos, ou porque nos tornamos exigentes, e choramos de barriga cheia. «Quanto mais coisas negativas desaparecem da nossa vida –escreve Innerarity – mas irritante resulta o negativo que ainda permanece. Quem tem pouco pelo qual sofrer, sofre cada vez mais por esse pouco residual. É o paradoxo do qual fala Tocqueville: quanto mais residual é um fenômeno desagradável, mais insuportável resulta». Talvez nos sobrem comodidades, e tudo o que ofusca o nosso conforto é montanha intransponível, causa de crises tão espantosas como injustificáveis.

Onde buscar a fonte da alegria? Isso mesmo se pergunta Ortega no seu fantástico ensaio onde fala da Cultura do amor. «Quando sentirá amargura esta mulher que arranca sorrisos de tudo quanto a rodeia? Talvez nunca; é invencível, porque tem o segredo de saciar as angustias do seu corpo na torrente da sua alma, que nunca se cansa de existir e de sonhar.»

Não cansar-se de existir e de sonhar. Como as crianças, como o pequeno Nicolas. Atrever-se a ser criança de novo. Parece que compensa, segundo lemos em Holderlin: «Brilhantes deuses etéreos/ Tocam-vos levemente/ Quais os dedos do artista/ nas cordas santas/ Sem destino, como a criança/ Castamente guardado/ Em discretos botões,/ O espírito floresce lhes,/ Eterno/ E os santos olhos/ Veem em silenciosa/ E eterna claridade

Ser criança, contagiar alegria, essa mesmo que desejamos a todos nestas festas de Natal, e no Ano Novo que começa. Felizes festas de Natal, Feliz Ano Novo, com toneladas de alegria.

    Assim andavam as coisas, quando decidi assistir Le Petit Nicolas. Sem pretensões; quer dizer, sem pretensões de alta filosofia, com um propósito muito mais simples, treinar o ouvido no meu deficiente francês. Surpreendi-me sorrindo primeiro, dando risada, cheguei até a gargalhada. Tem o seu mérito, porque estando sozinho não há como atribuir a engraçada empolgação ao ambiente. Diverti-me à beça. Logo se percebe que a história está muito bem contada. Aliás, o filme é a versão em celuloide dos gibis produzidos por J.J. Sempé e R. Goscinny – o escritor que deu vida a Asterix- no final da década de cinquenta, começo dos sessenta. E quando um bom comic se leva com acerto ao cinema –o que também não é simples- a história diverte, o sucesso é garantido.

    As personagens estão muito bem construídas, e uns atores magníficos dão vida a caracteres estereotipados, figuras clássicas, responsáveis pelo humor que perpassa os 90 minutos de filmes. São verdadeiros arquétipos dos papeis que representam; não se poderiam imaginar de outro modo melhor. A professora do colégio, o diretor, o inspetor de disciplina, o ministro da educação, os pais do Nicolau e, naturalmente, a variada gama de alunos inquietos e criativos. Todos desfilam com imensa naturalidade, alheios a um mundo que as revoluções de 68 –e nem dizer a sociedade atual- qualificariam de conformista, burguês, repressivo. E, para cúmulo, parecem todos felizes representando o papel que lhes cabe.

    Sem deixar de me divertir com o filme, ocorreu-me pensar como seria difícil explicar hoje por que somente tem meninos na classe do colégio, que nada querem saber das brincadeiras com as meninas, que são educados –domesticados, talvez- por uma professora sofrida e normal, sem aparentes traços homo-afetivos. Ou, pior, por que a mãe suporta um pai machista, reclui-se na cozinha, tem brigas homéricas e tudo acaba bem, sem processos nem denuncias nas delegacias especializadas em violência doméstica.

    Divertia-me, e me preocupava ao mesmo tempo. O tal imposto a pagar, os valores e recados que a gente tem de encontrar nos filmes, onde é que está isso aqui? Que valores afinal podem destilar desta hora e meia de risadas descontraídas? E o filme nem parece real, as situações não são transponíveis à vida de hoje. Imagina só. Uma briga de casal onde ninguém corre atrás dos direitos, e uns pais que acreditam e apoiam o castigo que a professora coloca impiedosamente ao aluno preguiçoso, e nem vão tirar satisfação com o diretor. E o garoto abastado que o mordomo leva ao colégio de Rolls Royce e convive com o filho do gendarme, ou com o colega cujo pai assalariado é explorado pelo patrão. Isto é um mundo diferente, de faz de conta.

    E de repente –por essa associação de ideias que nos salva da mesmice- a música do Gonzaginha veio à minha mente. Não tanto a música, mas a letra: «Eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, é bonita, é bonita». O mundo visto através dos olhos de uma criança, essa é a grandeza e o valor do filme, o seu poder de divertir e de refrescar. Conviver, por alguns minutos com personagens que não tem a vergonha de ser feliz, de cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Porque como diz a música, podemos perguntar a um e outro o que é a vida – aos revolucionários do 68, hoje démodés; ou aos arautos dos direitos humanos, e aos promotores de ONGs pela igualdade sócio-racial-afetiva. Mas no fim, o que a gente gosta é mesmo da resposta das crianças, descobrir com o pequeno Nicolau que a vida vale pelo que fazemos aos outros, por colocar um pouco de alegria, de bom humor; por saber provocar um sorriso que é capaz de resolver tantas tragédias de meia sola, com que os humanos conseguem complicar a existência.

    É um sonho, uma pausa no nosso mundo impiedoso e atroz? Para que poesia em tempos de miséria dizia Holderlin? Temos tanto que fazer, tantos problemas a resolver que não nos permitimos sorrir. Será a nossa a vida real, ou teríamos de ensaiar voltar a ser criança? E apreciar as pequenas coisas da vida, e sorrir, reclamar, conformar-se e saber zerar o taxímetro da nossa lista de afrontas –contabilidade que levamos apuradamente- para perdoar, esquecer, aniquilar da nossa memória afetiva o que nosso orgulho não soube digerir.

    No universo do Petit Nicolas, os adultos seguem a lógica das crianças. Por isso o filme descansa, porque descomplica a vida. E por isso arranca sorrisos, com a ingenuidade com que o fazem as crianças. Crianças verdadeiras, au naturel, e não de plástico, artificias, como as que apresentam alguns filmes assim chamados infantis. Essas, mais do que crianças são adultos disfarçados e problemáticos, que mergulham numa espécie de regressão psiquiátrica para lavar os complexos que alguém lhes colocou, não sem cobrar avultados honorários psicoterápicos.

    E no meio desse universo tão francês, despreocupado de críticas sociológicas decadentes, a alegria, o sorriso; e o poder de alegrar os outros como perspectiva de missão na vida. «Não esqueças que, às vezes, faz-nos falta ter ao lado caras sorridentes» – diz Sulco, um dos meus livros de cabeceira. Uma verdade tremenda, e uma bela proposta para um serviço atual e eficaz: saber sorrir, fazer questão de sorrir, contagiar o bom humor, inundar o ambiente de alegria. A alegria –em palavras de Susanna Tamaro- não é uma linguagem de palavras, mas de olhares; a alegria não convence, contagia. É poderosamente revolucionária.

    Um bom amigo, professor de medicina em USA, costuma perguntar aos alunos: «O que é um bom médico?». E, responde: «Não o que sabe muito, ou tem um curriculum volumoso, ou mesmo o que ganha presentes. O bom médico é aquele que consegue que o paciente saia da consulta melhor do que entrou!» Quer dizer, aquele que fez a diferença na vida do semelhante. Algo perfeitamente aplicável à alegria que se transmite, e contamina o ambiente que nos rodeia. É preciso, claro, ter alegria para poder dar aos outros. E encontrar a fonte da alegria. E aprender a não complicar-se a vida, que é o túmulo da alegria.

    Vai ver que nos complicamos a vida porque queremos, ou porque nos tornamos exigentes, e choramos de barriga cheia. «Quanto mais coisas negativas desaparecem da nossa vida –escreve Innerarity – mas irritante resulta o negativo que ainda permanece. Quem tem pouco pelo qual sofrer, sofre cada vez mais por esse pouco residual. É o paradoxo do qual fala Tocqueville: quanto mais residual é um fenômeno desagradável, mais insuportável resulta». Talvez nos sobrem comodidades, e tudo o que ofusca o nosso conforto é montanha intransponível, causa de crises tão espantosas como injustificáveis.

    Onde buscar a fonte da alegria? Isso mesmo se pergunta Ortega no seu fantástico ensaio onde fala da Cultura do amor. «Quando sentirá amargura esta mulher que arranca sorrisos de tudo quanto a rodeia? Talvez nunca; é invencível, porque tem o segredo de saciar as angustias do seu corpo na torrente da sua alma, que nunca se cansa de existir e de sonhar.»

    Não cansar-se de existir e de sonhar. Como as crianças, como o pequeno Nicolas. Atrever-se a ser criança de novo. Parece que compensa, segundo lemos em Holderlin: «Brilhantes deuses etéreos/ Tocam-vos levemente/ Quais os dedos do artista/ nas cordas santas/ Sem destino, como a criança/ Castamente guardado/ Em discretos botões,/ O espírito floresce lhes,/ Eterno/ E os santos olhos/ Veem em silenciosa/ E eterna claridade

    Ser criança, contagiar alegria, essa mesmo que desejamos a todos nestas festas de Natal, e no Ano Novo que começa. Felizes festas de Natal, Feliz Ano Novo, com toneladas de alegria.

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