Fabio Rosini: A arte de Recomeçar.

Pablo González Blasco Livros Leave a Comment

Fabio Rosini: A arte de Recomeçar. Ed. Vozes. São Paulo. 2021. 224 págs.

Não é costume neste espaço, comentar livros,  -como diríamos?-  confessionais, publicações de caráter espiritual formativas. Mas abro aqui uma exceção, que se justifica não apenas pela qualidade da obra, mas também espicaçado pelo comentário inicial do autor. Diz ele que escreve este livro para todos aqueles que, como ele próprio no passado, pensam que é impossível recomeçar depois de uma certa idade, e de um acúmulo de experiências.

E se tivesse que fazer um resumo, talvez um pouco tosco, da obra em uma frase, diria que o livro lembrou-me Nelson Rodrigues, em A vida como ela é. Quer dizer, um apelo formidável ao realismo, ao que temos para hoje, que é a condição essencial para qualquer retomada dos projetos nos quais estamos envolvidos. Rosini é categórico neste ponto, tanto quanto Nelson. Escreve: “Para começar de novo, este é o primeiro obstáculo contra o qual é saudável tropeçar: você parte das coisas como elas são, e não como ‘deveriam ser’. A sabedoria não é uma teoria que força situações com golpes de martelo. Estamos diante da realidade e o único caminho inteligente é aceitá-la (…) O problema é que existem dois criadores: Deus Pai e nossa cabeça. Um cria a realidade, o outro a interpreta. Mas se partimos de um erro, devemos sabê-lo: todos os erros da nossa vida – e repito esta afirmação apodítica: todos – provêm, pelo menos em parte, deste erro: não ter respeitado as coisas como elas são. Não ter os pés firmemente plantados na realidade”. Está servido o cenário no qual o livro se desenvolve.

Recomeçar implica discernimento, entender a realidade. Escreve Rosini, obviamente com sentido religioso, pois afinal é um sacerdote quem escreve: “Por discernimento entendemos aquela dinâmica que orienta internamente quem vive na presença de Deus. O discernimento é a orientação profunda do ser. Não é uma escolha singular, mas subsiste em todas as opções. Um filho de Deus não tem discernimento sobre a vontade de Deus porque leu um livro ou porque assistiu a centenas de catequeses, mas porque “sente o cheiro” do Pai nas coisas, pois o conhece. Discernimento não é uma habilidade. É uma identidade redimida posta em ação, é a relação dos filhos com o Pai que se torna sensibilidade, visão aguçada, ouvido atento”.

Discernimento não é apenas entender, mas também sentir e palpar, todo o apaixonante tema da estética para construir a ética, algo cada vez mais necessário num mundo presidido pelo mal gosto: “É o conhecimento e a memória do belo que dá discernimento. Se você conhece um bom vinho, não quer mais o ruim. Se você conhece a sinceridade, a hipocrisia o repele. Se você conhece a beleza, a mediocridade te choca. Se você conhece o amor, o pecado não é mais agradável para você (…) Quando você sai sem luz você pensa que pode improvisar seu discernimento. E quando se começa sem disciplina, é comum pensar que basta olhar as coisas para saber distingui-las e subdividi-las, segundo a própria impressão, por instinto. Sem nenhum treinamento. Não funciona assim. É necessário pelo menos um zero ortogonal. Um parâmetro. Caso contrário cada avaliação não vai muito longe, é pontual, hormonal.  Você não pode seguir em frente assim. E você não pode recomeçar levianamente. Como evitar o império dos hormônios?”.

Outro grande tema abordado no livro, em variações sobre o mesmo tema, são as prioridades, algo essencial no realismo e no recomeço: “As prioridades vêm em primeiro lugar, por definição. Uma pessoa que não respeita suas prioridades continua enchendo aleatoriamente a mala de sua vida. Deve ser feita uma distinção de importância capital: as prioridades opõem-se às emergências. As prioridades vêm antes dos eventos, enquanto as emergências chegam até mim durante os eventos (…) Parto de uma definição axiomática: quem negligencia as suas próprias prioridades para ser apanhado em emergências é um tolo. Quem se livra das emergências para permanecer fiel às suas prioridades é um homem sábio. São as prioridades que selecionam as emergências, e não o contrário! Quem vive de emergência não constrói nada. Ele chega no fim do dia, ou no fim da vida, e apenas sobreviveu. Quem se mantém fiel às suas prioridades tem identidade, sabe por que dizer sim ou não e, como na analogia da mala, tem espaço para as coisas. Aqui está o ponto crucial: as prioridades não são decididas. As prioridades são reconhecidas. Eles se acolhem. As prioridades não são escolhidas, são admitidas. Quantas pessoas confundem as próprias prioridades! Porque eles as escolhem, ao invés de aceita-las. Quando você entra na vida e começa a juntar os cacos, percebe que, em vez de prioridades erradas, eram emergências disfarçadas de prioridades”. Magnífico pensamento, que tenho também resumido num pequeno quadro no meu escritório, onde se lê: que o urgente não nos faça esquecer o importante.

Prioridades e limites, algo que tem de ser reconhecido, aceito. “Poderíamos dizer que na nossa existência – praticamente em qualquer área – a relação com o limite é decisiva. Aceitar ou rejeitar o limite orienta dramaticamente a nossa atividade, a nossa inteligência, os nossos sentimentos. A rejeição de um limite é causa de desastre. (…) Aceitar a pretensão de compreender tudo certamente significa autodestruição. Abordar a vida como algo que deve caber na minha lógica equivale a começar a viver mal, contra os factos e rejeitar o incompreensível. Goste ou não, os limites são verdadeiros. Existir. O mito atual do homem que se liberta de qualquer limitação é apenas a amplificação de um problema da adolescência. Que mediocridade!”.

Limites que nos chegam não apenas das situações, mas do outro, do próximo (que quando não o aceitas dizes que é o inferno, em versão Sartre). Escreve Rosini: “O limite não é um imposto. É o outro. É o fim da solidão. Amar implica que os relacionamentos são mais relevantes que os apetites. E mil vezes, se eu amo, devo negligenciar uma necessidade minha. Estas são as grandes ideias, as descobertas maravilhosas que confundem as pessoas e que têm a sua origem na rejeição do presente, do que é real. Não aceite a precariedade e a imprevisibilidade das curvas da vida, tentando forçá-las a serem retas”. E ainda acrescenta, de modo explícito: “Outro parâmetro essencial é a comunhão com as pessoas. É perigoso seguir pensamentos que não levam em conta a comunhão, a construção de relacionamentos, o crescimento na conexão com os outros. A defesa da comunhão é, em geral, uma inspiração; A afirmação de uma atividade que se realiza a todo custo, apesar da comunhão, é em geral uma sugestão: se tenho razão, mas destruo a comunhão, o diabo me guia; se, pelo contrário, renuncio ao meu direito de salvar a comunhão com um irmão ou com a comunidade, isso vem do Espírito Santo”.

Reconhecer os limites implica buscar orientação, algo que na prática não gostamos muito. Diz o autor: “O grande Chesterton disse que a inteligência moderna não aceita nada que venha da autoridade”, e acrescenta “São Bernardo de Claraval dizia: aquele que se torna mestre de si mesmo, torna-se discípulo de um tolo”. O que implica também escolher quem vai te guiar: “Nunca assine contrato com alguém que te apressa: com certeza vai querer te enganar. Você acaba comprando algo que não tem nada a ver com a sua vida”.

Realismo que entra capilarmente no meio das considerações espirituais. Rosini advoga por um espiritualismo realista, ancorado no material, naquilo que temos diante: “Alessandro Giuliani, cientista multifacetado e comunicador muito alegre, de quem sou um querido amigo há 41 anos, diz que os cristãos são os verdadeiros materialistas, porque não dão supremacia às ideias, mas à realidade. Sacrossanto. A realidade impõe a sua verdade e ela não pode ser arrancada com pretensões de qualquer espécie. A realidade sempre vencerá. Porque é real…Na vida espiritual não se pode avançar pelo extraordinário, é preciso partir do simples. Há pessoas que vão de padre em padre, de escola espiritual em escola espiritual, em busca de experiências apaixonantes, chocantes, emocionantes. E eles estão sempre no mesmo ponto”.

Um realismo que chega até o cerne, a base, do relacionamento do homem com Deus, e do sentido da própria vida: “No final da vida, o Senhor não me perguntará se fiz coisas boas, mas sim se usei os talentos que Ele me confiou. Se eu cumpri minha missão. Na verdade, há poucas coisas que podem ser feitas. E isso deve ser feito a qualquer custo. E é assim que se começa a reconstruir. Obedecendo a esta sabedoria (…) A vida é uma decisão de Deus e Ele a abençoa. Não é minha responsabilidade me torturar para justificar que existo e, portanto, não é minha responsabilidade valorizar meu direito de viver. A vida não é escolhida. É acolhida”. E, mesmo neste contexto, não lhe falta a pitada de humor que ajuda também no realismo: “Um axioma: se você deve defender as obras de Deus, elas não são mais de Deus, você se apropriou delas. Deus se defende maravilhosamente. Diga-me: como Deus guiará sua vida se acontecer apenas o que você programa?”

Anota Rosini, já quase no final do livro: “Toda a nossa jornada neste livro é uma operação de libertação do falso eu. Todo o trabalho, desde as primeiras evidências às prioridades, passando pelos limites, distinguindo as inspirações das sugestões, e capitalizando graças e humilhações, e o esforço do caminho para si mesmo sob o olhar terno de Deus, que nos vê tão infiéis ao que que ele nos deu, tão ignorantes da nossa glória (…) Já afirmamos algo que não pode ser esquecido: a vida não é como a pensamos, como a projetamos, a vida é como ela é. Eu deveria tentar viver com o que sou e, em vez disso, concentro-me, como a maioria da humanidade, em modelos externos, em parâmetros de todos os tipos, que nas Escrituras são chamados de ídolos”.

Muitas mais coisas poderiam ser incluídas e comentadas. Mas nada substituirá a leitura pausada desta obra. Uma verdadeira chacoalhada de realismo, caraterística presente nos grandes santos -também nos místicos- como, por exemplo, Santa Teresa que dizia que Deus está no meio das panelas da cozinha…..Um livro instigante, que nos traz lembranças variadas, no amplo espectro do realismo. Desde Nelson Rodrigues até Teresa de Avila.

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