Um Conto Chinês: A disponibilidade que nos engrandece

Gabriel Brandão Filmes 7 Comments

Un cuento chino [2010] Argentina. Diretor: Sebastián Borensztein. Ricardo Darín, Ignacio Huang, Muriel Santa Ana, Ivan Romanelli 93 minutos

     Vários amigos têm comentado que minhas críticas de filmes são excessivamente longas. Na verdade, eu nunca me propus fazer análises «do filme», mas apenas utilizá-lo para dar recados. Alguns já estão dissolvidos no meio dos fotogramas; outros, talvez os mais, são reflexões pessoais que a fita me provocou. De qualquer forma, é sinal de sabedoria aprender a ouvir os amigos. Se, como reza o ditado, Vox Populi, Vox Dei, com maior motivo a voz dos amigos merece atenção.

     Um filme argentino brinda uma ótima oportunidade para colocar em prática o modelo de recados pontuais. As produções argentinas que temos assistido nos últimos anos têm surpreendido agradavelmente. Roteiros simples, orçamentos enxutos, situações muito humanas, cálidas, em sintonia com a sensibilidade latina. São filmes de modestas dimensões, miniaturas estéticas, mas redondos, bem acabados. A crise que sucateia o pais vizinho, rende um cinema de primeira. Acontece como com o tango, que afundando suas raízes em carências e tragédia, decola como melodia transcendente, impactante, única. Já dizia Al Pacino no seu inesquecível «Perfume de Mulher»: ‘O tango não é como na vida; se você erra, continua dançando. Isso é o que faz do tango algo especial’.

     Um conto chinês é um desses filmes; pequenos, encantadores, pontuais. Um bom começo com um acertado título cuja tradução ao português perde força. Explico. Quando em espanhol se fala de ‘un cuento chino’, significa que o tema em pauta é algo pouco confiável. Não me venhas com ‘cuentos chinos’ se poderia traduzir como «não me venhas com historias». No filme há chineses, e também há quem conta histórias inverossímeis – ou melhor, quem as coleciona: Roberto de Cesare, – uma interpretação soberba de Ricardo Darin que é noventa por cento do filme- dono de uma loja de ferragens, um misantropo brigado com o mundo e consigo mesmo.

     O conto chinês surge, feito pessoa e com toda sua imprevisibilidade, invadindo a vida –privada, fechada, e cinza- do protagonista. São as vicissitudes que salpicam nossa biografia, transtornando nossos projetos, ou mesmo, a falta de projetos como parece ser o caso do comerciante que se refugia na imaginação e nos recortes de jornal, para suportar uma existência pesada e densa. Por que logo comigo? O que eu tenho a ver com tudo isto? Será que não posso cuidar da minha vida e que os outros me deixem em paz? Os interrogantes não se explicitam, mas aparecem inevitavelmente na cabeça do espectador.

     A vida nos é disparada a queima roupa, diz Ortega. E na resposta a esses disparos -que não são agradáveis, nem previstos- radica nossa grandeza. A ausência de pressões e de problemas apagaria nossa vida –continua o filósofo espanhol- porque nosso viver é um constante aceitar feridas e responder com energia a essa vulneração. Não se pode viver sem problemas: ao contrário, todo indivíduo, todo povo, vive dos seus problemas, do seu destino. A vida é uma permanente criação, não um tesouro que vem de graça. E não existe destino tão desfavorável que não possa ser fertilizado aceitando-o com jovialidade e decisão. Desse atrito surge a capacidade para as grandes verdades históricas. Não duvidemos: na dor nos construímos e no prazer nos desgastamos.

     Entender isto não e difícil; resulta atraente e convidativo. Mas colocar em pratica já é outros quinhentos. Neste mundo corrido em que vivemos, saber abrir mão dos planejamentos pessoais em função das necessidades alheias –que sempre chegam quando não estavam previstas- é tarefa quase heroica. Alguém já disse que a esmola mais difícil é dar do próprio tempo. Uma verdade contundente que requer um exercício contínuo, praticar o que poderíamos denominar uma ginástica da disponibilidade.

     Roberto quer desligar-se da situação, romper com um mundo que considera absurdo. Mas não consegue. O destino lhe cerca, lhe envolve. E ele que jurou inúmeras vezes cuidar da própria vida, se deixa conquistar, uma vez e outra, pelas circunstâncias que lhe interpelam. Quer ser indiferente, mas não consegue. É bem possível que o espectador veja aqui refletido vivências análogas e impulsos nem sempre exemplares. Quer saber? Vou cuidar é do meu quintal, os outros que se explodam! Por que sempre tem de sobrar para mim? Felizmente, nem sempre cumprimos esses juramentos extemporâneos, algo nos segura, como ao Roberto. E descobrimos que nesse esforço –verdadeiro atrito entre a generosidade que nossa alma encerra e o egoísmo que culturalmente nos cerca- é de onde nasce a grandeza que podemos almejar: ser úteis.

     Sempre existe o risco de pensar que há pessoas que são feitas para isso, para estar disponíveis, enquanto nós carecemos desse predicado. O ser humano consegue enganar-se com suma facilidade. Assim, é comum invejar nos demais caraterísticas que nunca será possível atingir –a cor dos olhos, a estatura, mesmo a inteligência ou especiais habilidades- enquanto nos desculpamos por não ter outras qualidades que seriam perfeitamente adquiríveis, como a pontualidade, o bom humor, a generosidade. Invejamos o que vêm de fábrica –e não temos- e dispensamos os acessórios que poderíamos conquistar com esforço. «Eu não tenho jeito para isso. Fulano, esse sim, consegue chegar antes e estar a postos». Quando se requer colocar o ombro, sempre há os que têm jeito, e aqueles que não nasceram para isso. Como se a virtude fizesse parte do hardware de fabricação.

     Responder com generosidade às solicitações alheias –mesmo que não falte algum que outro resmungo- é porta que descortina horizontes formidáveis, perspectiva que coloca em jogo os talentos que Deus nos deu, e os faz render. Servir é sempre caminho de crescimento. E todos têm jeito para isso, basta querer. Fica aqui este oportuno recado para o Natal que se aproxima.

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