Fúria em Alto Mar: Liderança desde a trincheira.

Pablo González Blasco Filmes 4 Comments

Hunter killer. Diretor: Donovan Marsh. Gerard Butler. Gary Oldman. Adam James. Michael Gor. 121 min. USA, 2018.

Assisti este filme há quase um ano, por indicação de um colega, em conversa informal. Sinto-me em falta porque, embora o tenha lembrado e até invocado como modelo nas tarefas do dia a dia, não sentei para alinhavar os pensamentos e as reflexões que me tem inspirado. Vale dizer, que não me sinto em débito -com todo o respeito- pelos possíveis leitores destas linhas, mas comigo mesmo. 

Porque quando escrevemos, ordenamos as ideias, ponderamos as reflexões na sua proporção adequada, as digerimos e assimilamos. As inspirações que nos chegam dos filmes -ou dos livros, da arte em geral- deixam de ser espasmos passageiros, emoções fugazes, para converter-se em matéria própria; incorporam-se à nossa estrutura de pensamento e de visão do mundo e da vida: nisso consiste a cultura, aquela que -no dizer de Ortega- nos salva do naufrágio vital. Como ouvi há muito tempo de um colega, quando temos uma página web ou um BLOG, o primeiro é principal destinatário somos nós mesmos, para lembrar-nos de quem somos, e do que temos de fazer. 

O submarino americano -um Hunter Killer- acomete uma tarefa peculiar em aguas soviética, e sua aventura desenha um filme atrativo, de ação e suspense, cujo argumento obviamente omitirei, como é do meu costume. Relatar a história é empobrece-la e, mais ainda, amputar as vivencias que cada um terá ao assisti-lo. Dessas vivencias e das reflexões que se decorrem tratam estas linhas que, atrasado com meu próprio compromisso, esboço rapidamente. 

A liderança -postura essencial na vida de quem tem responsabilidade e pessoas dependentes- passou a ser, infelizmente, um lugar comum. Neste mundo virtual, agora turbinado pela necessidade do “home office”, pipocam os cursos de liderança, a modo de receita de bolo: “como virar um líder em 10 lições” e coisas do gênero. Bibliografias variadas em versão autoajuda, grupos que se assemelham àqueles de vendedores em processo de ‘conscientização’ (vamos triunfar hoje!) e, naturalmente, a empáfia das academias que  embrulham com uma camada de “ciência”  toda essa liderança em moldes congelados e de fast-food, tremendamente indigestas e sem nenhum gosto. 

Até o ponto de que quando aparece uma liderança real, na trincheira, na vida como ela é que diria o Nelson Rodrigues, as pessoas olham como se fosse um extra terrestre. É a surpresa dos marinheiros quando descobrem quem é o novo capitão do submarino, que não fez nenhum curso, nem esteve na academia. “Como um de nós? Onde você viu um capitão que seja um de nós?” Até os liderados estão conformes com o modelo engessado, aquele que sempre lhes foi vendido e eles compraram. Talvez porque nunca viram outro, nem o sentiram, nem lhes foi ensinado. O capitão Glass abre o jogo logo no início: “Não aprendi na sala de aula….perdi cinco eleições, superbowl, casamento familiar e até a morte do meu pai. Sempre estive aqui em baixo, no batente. Sou um de vocês. Sou vocês! Mas isso não significa que vou pegar leve. Vou garantir que o trabalho de cada um será feito”. Recado dado, abertura feita; agora tem de mostrar como isso funciona na prática. 

Confesso que o tema da liderança tem me acompanhado insistentemente nos últimos anos. Talvez mais do que o tema seja a percepção da ausência, aquilo que Ortega assemelhava ao membro fantasma: a dor do que já não existe mais, do que foi amputado. Não teria nada de particular -há muitas outras virtudes que hoje brilham pela ausência- não fosse a curiosa lembrança sobre o tema que, também ininterruptamente, martela na mídia social. Em outras palavras: enquanto vivenciamos uma carência enorme de lideranças, nunca se falou e se vendeu tanto o assunto. 

Cursos de coaching, canais de internet, educação a distância prometendo que, agora sim, você vai ser um líder, um sucesso, um triunfador…..como eu, que estou te vendendo este pacote, e que você compra com gosto!. Lembro sempre do comentário de um velho amigo a propósito destes passaportes para o sucesso -que já tiveram inúmeras versões, a liderança é a agora a bola da vez : A culpa não é de quem vende,  mas de quem compra. Um negócio como qualquer outro. 

A verdadeira liderança que este filme invoca, não é a do líder de sucesso, animador de auditório, showman de multidões que se assemelham a rebanhos perdidos. Aquele que comodamente instalado no seu cenário blindado, desvenda os caminhos para triunfar na vida, enquanto observa o engrossar da suas receitas com as contribuições dos cordeirinhos que anseiam por metamorfosear-se num leão. Um processo que dificilmente acontece, e não tem como reclamar no site do Procon, porque o insucesso é sempre culpa do consumidor que não seguiu à risca as instruções do líder carismático. 

A verdadeira liderança não faz barulho, constrói-se no dia a dia, em cultivo lento, ao fogo das virtudes e do exemplo que inspira e descortina novos horizontes. Dizia Saint Exupéry: “Se queres construir um barco não comeces buscando madeira, cortando tábuas, distribuindo o trabalho. Evoca primeiro nos homens e mulheres o desejo do mar livre e infinito”. Uma liderança que envolve as pessoas no projeto, como se adverte num magnífico ensaio sobre a Liderança Afetiva :“O líder afetivo é aquele capaz de gerenciar expectativas e produzir confiança entre os que estão à sua volta”

Não se ensina liderança por atacado, em ritmo de produção em série, esquentando quatro ideias fast-food no micro-ondas. A pedagogia de liderança mais se assemelha à construção de uma catedral, onde o projeto é claro, os avanços lentos, e não se consegue avaliar em curto tempo o desempenho. Mas ai está, contemplando o passar dos séculos, com sua presença silenciosa e majestosa. 

O verdadeiro líder, o evocado pelo Capitão Glass, possui uma caraterística essencial: participa do mesmo risco que o time liderado. Não se trata de fazer o mesmo que os outros –a divisão do trabalho é imprescindível-,  nem de ações demagógicas. Mas o risco que envolve suas decisões atinge o líder em primeiro lugar, daí a força do seu comando, porque estão, de fato, no mesmo barco….ou no mesmo submarino como é o caso que nos ocupa. Vale, pois, desconfiar de lideranças onde não há participação do risco: enquanto o professor de liderança está comodamente instalado, o time permanece na trincheira. Uma liderança apócrifa ou, em linguagem de hoje, um líder fake. 

A verdadeira liderança tem de ser ética, comprometer quem comanda o processo. Esse é o título de um magnífico livro que comentei anos atrás, onde se adverte: “Um dos mistérios mais desconcertantes da psicologia humana é que o fato de ter um ideal de vida excelente não é suficiente para vivê-lo, para colocá-lo em prática. Quantas empresas proclamam seus valores e missão e depois aquilo não acontece. Não basta com proporem-se altos ideais, mesmo com grande convicção: é preciso chegar aos fatos.” 

A liderança de risco, que se exerce desde a trincheira, é a que permite ao capitão inovar, reparar que no desenrolar da trama, ninguém está seguindo o manual. Pode, então, perceber que não se trata de mocinhos e bandidos, de inimigos  ou aliados, mas de entender a verdade: “Não é o teu lado ou o meu; é o futuro, o que temos de construir, a força da verdade. Afinal, o que é mais importante: ter razão ou estar vivo?”. Liderança de risco que faz abrir-se às possibilidades humanas, e à esperança que deve contemplar-se quando se enfrenta a consciência de um ser  humano íntegro. 

Sem dúvida, é muito mais fácil e simples catalogar as pessoas, colocá-las na classificação das nossas categorias prévias -já sabemos que fulano é assim,  isto são as coisas de fulaninha- e cerrar-se a qualquer surpresa, na qual não acreditamos. Mais fácil, mas muito menos eficaz. Amputa-se a capacidade de sonhar e de abrir-se à liberdade do outro, que é traço importante num líder. Como dizia alguém, um líder sempre compra as pessoas na alta, porque espera delas o seu melhor.  Compra as possibilidades que a pessoa encerra. O ceticismo é incompatível com a liderança

“O homem seleto não é aquele que se crê superior aos demais, mas quem se exige mais do que os demais”. São as palavras contundentes de Ortega y Gasset na sua conhecida obra, A Rebelião das Massas, um verdadeiro tratado sobre a liderança, cuja leitura é imprescindível. “São esses homens -aponta o filósofo espanhol- aqueles para quem a vida não é uma reação, mas ação consciente. A nobreza se define pela exigência, pelos deveres, não pelos direitos. Noblesse oblige”. E, para maior iluminação sobre as lideranças fakes já comentadas, anota  a pé de página o significado da palavra Snob: “Na Inglaterra, nas lista de vizinhos, indicava-se junto do nome o ofício e o título da pessoa; por isso, junto dos simples burgueses, aparecia a abreviatura s. nob, sine nobilitate”. Um belo complemento para lidar com essa fauna de profetas de liderança, snobes de carteirinha. 

Continua o filósofo: “Nada se pode esperar de homens que não sintam o orgulho de possuir mais duras obrigações que os demais. A nobreza no homem, assim como no animal, é um privilégio de obrigações. O cavalo de raça, é tal, porque tem a obrigação de correr mais do que o vulgar, de resistir melhor”. Otimismo, participação do risco, exigência consigo mesmo. E também disponibilidade, que é sempre desprendimento: “Não estar disponível, significa estar muito ocupado consigo mesmo”- dizia Gabriel Marcel. Um fatorial das atitudes do verdadeiro líder que o filme evoca. Esse sim é um verdadeiro curso de liderança, na vida como ela é, desde a trincheira. 

Comments 4

  1. Parabéns!
    É preciso mostrar que o verdadeiro paoel do líder não é encenar seu sucesso em frente a uma plateia.
    É conduzir todos a um caminho produtivo e ético que traga um retorno positivo para a sociedade.
    É ter disciplina para abrir mão de muitas opções pessoais de prazer para atingir o objetivo almejado.
    Obrigada!

  2. Ser um bom líder não é fácil! Porque não é facil esquecer-se de si mesmo para pensar no outro! E todos devemos ser bons líderes! Vamos em frente! Muito boa reflexão!

  3. “Se queres construir um barco não comeces buscando madeira, cortando tábuas, distribuindo o trabalho. Evoca primeiro nos homens e mulheres o desejo do mar livre e infinito”.

    Parabéns Prof. Dr. Blasco e obrigado por compartilhar estas maravilhosas mensagens de incentivo.

  4. Pablo
    Mais um presente que você nos dá! O texto é ótimo per si, leva à reflexão e aguça a vontade de assistir ao filme! Obrigada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.