Edmondo de Amicis: “Cuore”.

Pablo González Blasco Livros 1 Comment

Edmondo de Amicis: “Cuore”.Ed. Autêntica. Belo Horizonte. 2019. 282 págs.

Leituras na Pandemia – 9

Foi uma paciente, há mais de 30 anos, quem me falou deste livro por primeira vez. Ela uma senhora avançada na década dos 50, eu um médico jovem mas já com o gosto humanista que sempre me perseguiu, trocava ideias de livros e de arte com os meus pacientes. Aprendi -e aprendo- muito com eles. “Sim, doutor, livros inesquecíveis, como aquele Coração de Edmondo de Amicis, que todas liamos na escola normal”. Parece-me lembrar que ela era professora, e que o livro em questão tinha um significado especial para as moças que estudavam magistério.

Por isso não é de se estranhar quando  na abertura deste diário de um garoto, e da suas vivencias no colégio, encontramos esta overture do professor: “Temos de passar um ano juntos. Estudem e sejam bons. Eu não tenho família. A minha família são vocês. No ano passado, eu ainda tinha a minha mãe, mas ela morreu. Fiquei sozinho. Não tenho mais ninguém no mundo, não tenho outros amigos nem outro pensamento senão vocês. Eu lhes quero bem, é preciso que vocês também me queiram bem. Não quero ter de castigar ninguém. Mostrem-me que vocês têm coração; nossa escola será uma família e vocês serão a minha consolação e o meu orgulho. Não peço que me prometam com palavras; tenho certeza de que, nos seus corações, vocês já me disseram “sim”. E eu lhes agradeço”.

Cuore impactou no público da Tertúlia Literária. Uma linguagem aparentemente ingênua, uma imensa saudades dos valores de antes -de sempre!- que parecem perdidos, uma regressão de cada um aos seus anos moços de estudante. As virtudes não surgem por geração espontânea, é preciso semear, regar, mostrar o caminho: um itinerário que o livro mostra de modo transparente. A educação da afetividade nas crianças exige que os pais mostrem de modo explícito a compaixão e a empatia. “ – Viu só que aperto passa aquele menino pra conseguir estudar? E você, que tem de tudo na maior comodidade, ainda acha que estudar é duro! Ah, meu filho! Um só dia de estudo daquele menino vale mais do que o seu ano inteiro. Para meninos como ele é que a escola deveria dar prêmios  (…) Sorte a sua, que tem o tempo todo pra estudar e ainda pode sair pra passear. Sorte a sua! − foi o que ele me disse. Que nada, Coretti. Você é que é feliz, porque estuda e trabalha, ajuda muito mais seu pai e sua mãe, porque você é bom, cem vezes melhor do que eu, meu querido colega!”.

O diálogo do garoto Enrico com o pai, é o gabarito que vai lhe mostrando o caminho da virtude e da sensibilidade. “Não se acostume a passar indiferente diante da miséria que lhe estende a mão, e muito menos diante de uma mãe que lhe pede uma moeda para sua criança (..) Os pobres preferem a esmola dada pelas crianças, porque essa não os humilha, e porque as crianças, que precisam dos adultos, são mais parecidas com eles. A esmola dada por um adulto é um ato de caridade; a de uma criança é um ato de caridade mas é também um carinho, compreende (…) Aquilo que se faz pelo trabalho não é sujeira: é poeira, cal, verniz, seja lá o que for, mas não é sujeira. O trabalho não suja. Nunca diga sobre um operário que volta do trabalho: ‘Está sujo’. Diga: ‘Traz na roupa os sinais, os traços do seu trabalho’ (…) Eu, pelo menos, tenho meu coração em paz, quando estou na escola e sei que o meu pai está em casa, sentado a uma mesa, longe de qualquer perigo; mas quantos dos meus colegas ficam pensando que seus pais trabalham em cima de uma ponte altíssima ou perto das engrenagens de uma máquina, e que um gesto, um passo em falso pode lhes custar a vida! São como tantos filhos de soldados, quando os pais estão em alguma batalha”.

Diálogos com o pai e as reflexões do garoto, rendem o impulso para tirar dele o seu melhor. Uma verdadeira educação –educere, do latim tirar de dentro-  que ajuda a descobrir o valor único de cada pessoa, e Enrico faz desfilar no diário todos seus colegas de turma; “Abriram o pacote e se espantaram: era o famoso álbum com a coleção de selos o que o coitado do Garoffi tinha trazido! A coleção de que ele vivia falando, sobre a qual tinha tantas esperanças e que lhe tinha custado tanto esforço… Ali estava o seu tesouro, pobre garoto, era a metade do seu sangue que estava dando em troca do perdão (…) Eu gosto muito do Garrone. Ele fica todo contente quando aperto sua mão enorme, tão grande que parece a mão de um adulto. Tenho certeza de que ele arriscaria a própria vida pra salvar a de um colega, e deixaria até que o matassem pra defender um de nós. Dá pra ler isso nos seus olhos. Parece que está sempre resmungando, com aquele vozeirão, mas a gente sente que é a voz de um coração generoso e nobre (…) Eu também tenho inveja dele. Mas depois, quando volto pra escola e ele chega assim, sorridente, bonito, tranquilo, e ouço-o responder às perguntas do professor com franqueza e segurança, quando vejo como é sempre gentil e quanto todos gostam dele, a amargura, o despeito desaparecem do meu coração, e até fico com vergonha de ter tido esses sentimentos. Eu gostaria de estar sempre perto do Derossi, de poder estar sempre na mesma classe que ele, porque o seu jeito, a sua voz me dão coragem, alegria e prazer pra estudar”.

A presença paterna é direta, contundente, sem esses receios modernos de pecar de bullying ou de autoritarismo. “Quando cheguei em casa, disse pro meu pai: – Não entendo: o Stardi não tem talento, não é bem educado, é uma figura quase ridícula; mas faz eu me sentir meio inferior a ele… E meu pai respondeu: – É porque ele tem caráter. (…)  E eu acrescentei: – Durante a hora inteira que passei com ele, não me disse nem cinquenta palavras, não me mostrou nem um brinquedo, não deu nenhuma risada – mas eu fiquei com prazer. Meu pai respondeu: – É porque você gosta dele, estima-o (…) E pensava no conselho que meu pai me teria dado: “Você está errado? Então, peça-lhe desculpas.”  Mas eu não tinha coragem de fazer isso, tinha vergonha de me humilhar sentia o quanto gostava dele e dizia a mim mesmo: “Coragem!” – mas a palavra “desculpe!” ficava presa na garganta (…) Deus lhe deu grandes talentos. A única coisa que você tem de fazer é cuidar pra não desperdiçá-los (…) Eu te amo, meu filho, você é a esperança mais preciosa da minha vida, mas prefiro ver você morto do que ingrato para com a sua mãe. Por um bom tempo, nem chegue perto de mim para me fazer carinho: eu não poderia retribuir, sinceramente. O homem, por mais admirado que seja, que ofende e magoa a própria mãe é, na realidade, uma pessoa infame”

O romance-diário, escrito pouco depois da unificação italiana no século XIX transpira também amor à pátria e cidadania nas redações mensais que Enrico copia no seu diário. “ O capitão franziu as suas grandes sobrancelhas brancas e olhou fixamente o tamborzinho, estendendo de novo a coberta por cima dele; depois, lentamente, quase sem pensar, e sempre olhando para o garoto, levou a mão à cabeça e levantou o quepe em sinal de respeito. – Senhor capitão! – exclamou o menino, espantado. – O que está fazendo, senhor capitão?! Para mim! E então aquele rude soldado, que nunca tinha dito uma palavra amável a um inferior seu, respondeu com voz incrivelmente carinhosa e doce: – Eu sou apenas um capitão; tu és um herói. Depois abraçou o tamborzinho e o beijou três vezes sobre o coração (….) Dar a vida por seu país, como o menino lombardo, é um ato de grande coragem, mas não descuide das pequenas virtudes do dia a dia (…) Respeite a rua. A educação de um povo se julga antes de tudo pelo jeito com que se comporta na rua. Onde você encontrar maldade pela rua, vai encontrar maldade também dentro das casas”.

E a cidadania que implica saber relacionar-se com todas as classes sociais. No colégio público onde Enrico estuda há todo tipo de pessoas, de berços muito diversos. Novamente o conselho do pai que ajuda na formação: “O homem que frequenta só uma classe social é como um estudioso que lê a vida toda o mesmo livro (…) Prepare-se, portanto, desde já, para conservar esses bons amigos quando seus caminhos cotidianos estiverem separados, e comece desde já, justamente porque são filhos de operários. Ouça: os homens das classes privilegiadas são como os oficiais e os operários, como os soldados do trabalho. Na sociedade, como no exército, o soldado não é menos nobre que o oficial, porque a nobreza está no trabalho e não no valor dos salários ou na aparência dos trajes, nos galões de seus uniformes; além do mais, se existe superioridade de mérito, pertence ao soldado e ao operário, porque são os que tiram menor proveito da própria obra. Portanto, ame e respeite especialmente, entre seus colegas, os filhos dos trabalhadores, admire neles o cansaço e os sacrifícios de seus pais, e despreze as desigualdades vindas de riqueza e de prestígio social, pois só gente ruim é que guia seus sentimentos e seu comportamento por essas diferenças”.

Enrico cresce, amadurece nas reflexões, sempre guiadas pelo pai, pelos professores. Um exemplo dos resultados que deveria render a educação: muito mais do que conhecimentos -hoje ao alcance de qualquer um, na palma da mão conectada à internet- mas esculpir atitudes. “Lembro-me mais dos melhores e dos piores, daqueles que me deram muitas satisfações e daqueles que me fizeram passar momentos tristes; porque também tive alguns que eram verdadeiras serpentes, claro, no meio de um número tão grande de alunos! Mas agora, compreende, é como se eu já estivesse no outro mundo, e quero bem igualmente a todos (….) Quero parar de uma vez de me arrastar nessa vidinha frouxa e indolente que me desmoraliza e entristece os outros. Ânimo, Enrico, ao trabalho! Ao trabalho com toda a alma e com todos os nervos! Ao trabalho que torna o repouso agradável, as brincadeiras gostosas, o jantar alegre; ao trabalho que vai me devolver o sorriso do meu professor e o beijo do meu pai”.

A gratidão pela educação recebida – o reconhecimento- é o grande protagonista deste livro singular. “ Todo dia, de manhã, quando sair para a escola, pense que, no mesmo instante, na sua própria cidade, outros milhares de meninos como você também vão se fechar por algumas horas numa sala de aula para estudar (…) Imagine só esse formigueiro imenso de garotos de centenas de povos distintos, esse vasto movimento do qual você também participa… Pense que, se esse movimento for interrompido, a humanidade pode cair na barbárie, porque esse movimento é o progresso, a esperança e a glória do mundo (….) Vá, coragem, meu soldadinho desse enorme exército que luta pelo conhecimento! Suas armas nessa guerra contra a ignorância são os seus livros, a sua turma na escola é a sua brigada, o campo de batalha é o planeta inteiro e a vitória é o aperfeiçoamento, o desenvolvimento da humanidade… Não seja um soldado covarde, meu filho.  Como é grande o ensino, e que imensa promessa são as escolas para o mundo! E o senhor, professor, ainda tem muitos filhos, espalhados pelo mundo, que se lembram do senhor, como eu sempre me lembrei”.

Educação que é a única base sólida capaz de construir um caráter, fazer a diferença, preparar pessoas para o mundo, capazes de melhorá-lo. Começar quanto mais cedo melhor, sem demoras ou falsas compaixões pela terna idade, estimulando a virtude: “Numa criança que ainda não tem ambição de aparecer ou qualquer outro interesse pessoal, numa criança que, quanto menos força tem, mais coragem tem de ter; na criança, a quem nada pedimos, porque ainda não se espera nada dela; que já nos parece muito nobre e digna de ser amada, sem ser preciso que faça sacrifícios, apenas que compreenda os dos outros… na criança, o heroísmo tem alguma coisa de divino”. E perder o medo a sofrer -aquela triste deformação de viver numa bolha, protegendo-a de tudo, num mundo de faz de conta: “É necessário superar a dor! Vencer o que a dor tem de menos santo e de menos purificador, aquilo que, em vez de melhorar a nossa alma, enfraquece-a; mas a parte nobre do sofrimento, a que engrandece e eleva a alma, essa deve ficar contigo e não abandonar-te mais”. É daí que emerge o título deste livro,  Cuore: “ a coragem de um coração que não calcula, que não vacila, que vai em frente, cego como um raio, quando ouve o grito de alguém em perigo; sem deixar a serpente da inveja entrar no corpo: uma serpente que rói o cérebro e corrompe o coração”. Um programa de educação que entusiasma. Um verdadeiro tour de force, tão desafiante como necessário.

Comments 1

  1. ” Escrever é uma forma de terapia; algumas vezes me pergunto de que modo os que não escrevem nem compõe ou pintam conseguem escapar da loucura, da melancolia e do medo aterrador inerentes à condição humana. ”
    * Graham Greene

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