Rifkin’s Festival.Woody Allen, as saudades do bom cinema…. e da transcendência

Pablo González Blasco Filmes 3 Comments

Diretor Woody AllenWallace Shawn, Gina Gershon, Elena AnayaSergi López,  Enrique ArceChristoph Waltz. USA- Espanha, 2020. 92 min

Já ouvi -talvez li- em algum lugar, que os filmes de Woody Allen são como o aniversário da avó. Chega todo ano, o bolo enfeitado com a marca registrada. Pode ser melhor ou pior, mas é garantido. E, nesta altura do campeonato, quando o nosso judeu do Brooklin de classe média (ele que diz isso, não eu) já chegou aos 85, não seria elegante faltar nesse aniversário. 

De modo que, todo ano, estamos lá na expectativa. E, convenhamos, por pior que seja o bolo, o confeiteiro tem muitas horas de voo, de modo que algo mediano por parte dele, vale o tempo a ser investido. Que aliás, nunca é muito, nada de grandes super produções -banquetes pantagruélicos…..Com a idade, é preciso comer menos, talvez de jeito mais sofisticado. Como dizia um amigo -e bem poderia tê-lo dito o próprio Woody- após uma certa idade, só com olhar para a comida, já engordas….Embora, concluía -meu amigo, não Allen- que, sendo honesto, a gente não somente olha…..mas come mesmo. 

A outra ideia que sempre está presente -no aniversário fílmico de Woody- é que as personagens são sempre… ele. Um alter ego completo. Isso sim, parece-me lembrar que foi ele quem disse como resposta a esse interrogante que é evidente. “Woody, mas as personagens parecem-se com você. Por que colocar outro atores?” – Ele desconversou -alter ego, é quase assunto freudiano, também do gosto do diretor- e saiu pela tangente: “ Não tenho já idade para interpretar todas as personagens que estão na minha cabeça”. Creio ter comentado isso, naquele filme que me impactou, Meia Noite em Paris, onde quis fazer as pazes -render quase um tributo- ao baixinho. 

Os 85 anos de Woody Allen, transitam permeados de saudades. Levou-nos  até Barcelona,  Paris,  Roma como desculpa para seus últimos filmes. Agora é San Sebastian, e o festival de cinema. Um charme  duplo, da cidade do século XIX e do bom cinema.  Daquele que ele gosta, e naturalmente o protagonista, seu alter ego: professor de cinema e que faz questão de dizer que não se faz cinema -nem diretores, podemos entender no recado- como antigamente. 

A trama em si, é o de menos, pura desculpa. Conflitos conjugais, desses que nunca acabam, com flertes de per meio, suspeitas, e sonhos. Não os sonhos do sedutor -aquele filme onde Allen rende homenagem a Bogart, baixinho e feio, mas de sucesso colossal no mundo feminino. Os deste filme são outros sonhos, mas também permeados de cinema, dos clássicos, do verdadeiro amor de Woody. Vai ver que esse é o problema: que ele ama mesmo o cinema, e a música. O restante na sua vida -mulheres, pessoas, amantes- é puro figurante transitório. 

Sonhos que em S. Sebastian, Mort Rifkin -seu alter ego- estampa em branco e preto, como não poderia deixar de ser. Lá está o garoto com o trenó, uma variante de Rosebud, evocando Orson Welles em Cidadão Kane. Lá está Godard, e Truffaut, com Jules, Jim e a mulher para dois, cena da bicicleta incluída onde está o próprio Mort, quer dizer, Woody reencarnado. E Claude Lelouch, com o carro, a chuva, a garota e a trilha sonora inesquecível de Um homem, uma mulher. Os grandes diretores europeus, diz Mort-Allen, que fazem amadurecer os finais, aqueles que John Ford e Howard Hawks tinham alinhavado, porque também se fala deles. 

Woody nos dá uma aula de cinema, em versão psicanálise, onde os sonhos pipocam de modo desordenado, emergem do subconsciente, e se materializam em cenas emblemáticas. E visto que ninguém parece lhe escutar -a mulher está ocupadíssima cobrindo as rodas de imprensa de diretores meia boca em S. Sebastian- nós viramos o seu público, e seu analista. Em mano a mano -tudo deve ser reconhecido- com a simpática médica espanhola (que naturalmente estudou em USA, morou em Nova York, e frequentava o Central Park) que é também a muleta que o protagonista utiliza para suas catarses fílmicas. Aliás, esse é o outro amor de Woody que esqueci de elencar, somando-se ao cinema e à música: New York. 

Saudades imensas do cinema -do feito, do vivido- mas também do sentido da vida, dos interrogantes que, nesta altura da existência, Allen expõe sem receios. Lá surgem as perguntas vitais, no meio das figuras grotescas de Fellini na qual se metamorfoseia a própria família do protagonista. Mais sonhos em branco e preto, outra enxurrada com o design do diretor italiano, que também amava o cinema, e se confessava um romântico incurável….talvez por causa de Giulietta Masina, sua encantadora mulher. Senti falta dela aqui, Woody, fica a sugestão para a próxima!

Voltamos ao protagonista, que se entende como judeu displicente: não respeita o Sabah, ridiculariza a religião, e nunca foi a Israel. Mas sente-se atraído pelas igrejas, lugares de culto, pela estética da liturgia. Leu a Bíblia de cabo a rabo, enamorou-se de Eva, da mulher de Job, de Dalila…enfim, das mulheres malignas, como diz o seu psiquiatra. Reconhece -sempre as reflexões de Mort-Allen- que o novo testamento é mais indulgente, até aparece o Messias, que aliás tem jeito de ser um sujeito normal, que deveria ter ressuscitado no dia do trabalho por ser um carpinteiro, alguém que estava no batente….Allen não consegue livrar-se da ironia, mesmo em momentos transcendentes. Ou talvez é que não precisa, porque ele é assim mesmo. E quero pensar que Deus -o de Israel, e o do Novo Testamento- já sabe disso, e não o leva em conta.

Os sonhos psicanalíticos rendem um gran finale com sabor Bergman, que também não poderia faltar neste elenco de ídolos fílmicos. Surge a morte, a de Bergman no Sétimo Selo jogando xadrez com o protagonista, incarnada em Christopher Waltz, um ator imenso, para cinco minutos sublimes de interpretação. Outra extravagancia de um diretor maduro e, certamente, o reconhecimento do ator que lhe concede esse privilégio. 

Enquanto o protagonista esboça uma confissão que encaixa completamente em  Woody Allen -sou um snobe, um intelectual pedante que acaba enchendo as pessoas- a morte lhe adverte que a vida não está vazia, mas que simplesmente lhe falta sentido. Como preencher? -pergunta Mort-Allen. E, novamente a ironia, para não pecar por excesso de transcendência: trabalho, família, amor, as bobagens de sempre….mas funcionam, responde a morte. E como não é chegada ainda a vez dele, segue a recomendação de evitar gorduras saturadas, tabaco, e de fazer a colonoscopia regularmente para adiar o encontro definitivo. 

Rifkin’s Festival: um Woody Allen em plenitude. Amor pelo cinema e sua particular busca de sentido, que não acaba de encontrar, mas busca com sinceridade. Ou pelo menos isso consigo ler nas entrelinhas. E, por esses arcos voltaicos da imaginação, acaba de me ocorrer que, se algum dia, Woody faz as pazes consigo mesmo e com Deus, e abre mão dos ceticismos -nem que seja um pouco-  será colocado perto de Chesterton, para desfrutar das ironias e dos paradoxos na eternidade. 

Comments 3

  1. Sensacional É o Codinome, dele, irretocável tudo que comentastes dessa figura desigual, e acrescentaria em relação a Gula, meu Querido Pai costumava dizer a gente morre pela boca, como Peixe, e voltando a W. Allen Ele consegue ser Brilhante até na simplicidade de suas próprias palavras e fatos que encaixa as cenas de cada filme e Pensamentos! VALEU AMIGO PABLO!

  2. Caro Dr. Pablo,
    Meu comentário, primeiramente, é um agradecimento por tantas sutilezas e gentilezas para conosco.
    Sei que seu tempo é precioso, mas não esquece do nosso grupo.
    O dr. fez uma “ressonância psicologia” e foi “além” para comentar “Allen”… incrível!
    Para mim, seus comentários são “receitas comportamentais” pq mudaram meu olhar para o observar e perceber detalhes tão sutis nos filmes, nos livros e nosso dia a dia a cada 24hs.
    E a cada 8 hs., com meus filhos, netos e de mais pessoas.
    E a cada 24 hs., tentando exercer a sua terapia de “humanismo” nesse período de tanta falta de humanismo.
    Agradeço por nos proporcionar um olhar mais cardíaco nesse tempo tão diferente em que vivemos hoje.
    Muito obrigada 🙏

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