Finch: Humanizar o robô, para nos humanizar a nós?

Pablo González Blasco Filmes Leave a Comment

Finch. Diretor: Miguel SapochnikTom HanksCaleb Landry  Jones. 115 min. USA:  2021

Existem atores que enchem a tela. Não porque pequem de narcisismo ou de arrogância estúpida, mas porque funcionam muito bem nesse registro. Também não quer dizer que sejam os melhores, mas que em voo solo sabem incarnar o papel:  dão o recado, desdobram o miolo da mensagem e chegam facilmente no coração e na cabeça do espectador. Porque, isso sim, os atores de performance solitária,  estão necessariamente atrelados a alguma carga de profundidade que destila dos fotogramas. Foi assim recentemente com Sandra Bullock em Imperdoável. É o caso de Tom Hanks em Finch, que agora toma conta destas linhas.

Hanks tem já um bom percurso neste modelo. Naufrago, sem dúvida, um exemplo emblemático, impossível não evocar enquanto assistimos o filme que nos ocupa. Mas também outras atuações como Greyhound ou Sully. E também atuações onde as outras personagens não passam de coadjuvantes, porque o protagonista carrega tudo nas próprias costas. Ai está A Ponte dos Espiões; e, naturalmente Forrest Gump,  o ponto fora da curva, que vive num mundo dele (que gostaríamos fosse o nosso).

Finch é outra versão de naufrago, agora num mundo perdido pela radiação. As reflexões que destilam dos gestos e ações do protagonista solitário precisam também de um interlocutor. Se em Naufrago, era a bola com nome -Wilson!- agora é um robô, também personalizado: Jeff.

Gostei demais do filme, embora trocando ideias -algo inevitável nos cinéfilos- recolhi opiniões diversas. Tudo depende do que se enxerga, ou melhor, do que se espera; e, certamente, daquilo que se aproveita dos fotogramas, pois esse é afinal o meu olhar constante sobre o cinema: lições para a vida. Não para uma vida fictícia, de outra galáxia, mas para a vida nossa, do dia a dia. Aquela que, no dizer de Fernando Pessoa, “é terra, mas vira lodo quando se vive”. Quer dizer, a teoria quando chega à prática, meleca mesmo, impregna e suja. Nada é como no script.

Um cachorro encontrado por acaso, restos de uma tragédia de humanos desumanizados; um robô para cuidar do cachorro, a percepção da finitude humana. Coordenadas simples para nos servir uma realidade contundente, de modo suave, sem criar anticorpos. Eis um velho tema que, junto com o cinema, me ronda continuamente: as verdades expostas a través de metáforas que se acoplam à superficialidade reinante, para evitar espantar o público. Há muitos anos, li que a simplicidade contundente é própria das crianças, dos loucos e dos santos. A criança que fala na lata o que pensa, o louco que carece de ressortes de contenção, o santo que atua de cara à eternidade, prescindindo da ridícula plateia humana. Apresentar santos, sem mais, seria violento; daí que os filmes tragam crianças (filmes ‘infantis’) ou loucos (um espectro de gente pouco convencional, que vai de Rain Man, até Forrest Gump, passando por Uma lição de amor,  O Show de Truman, O Oitavo Dia por colocar exemplos) para colocar as verdades, sem incomodar excessivamente. Mas, a reflexão pessoal, encarrega-se de dar volume à verdade, provocando o golpe necessário.

É memorável a aula que Finch dá ao Jeff, já treinado nas habilidades materiais do ser humano, buscando agora a educação em tema espinhoso. As emoções, a afetividade, algo que o robô não pode conhecer, e com o qual vai se deparar. A imprevisibilidade do ser humano. Quer dizer, para funcionar neste mundo, não basta ter um conhecimento imenso (a base de dados do Jeff é fabulosa, a capacidade de cálculo enorme), mas não é suficiente, sua carência pode ser fatal. É preciso contar com aquilo que não é calculável, e que costuma chegar embrulhado nas imprevisíveis emoções do ser humano. Jeff escuta, assente, parece entender, embora não saiba muito bem o que fazer com esses dados…não computáveis.

Consegui me emocionar vendo uma máquina aceitar docilmente os conselhos do cientista -que aliás é movido todo ele por uma ação não racional, fora de contexto- e ver surgir, como efeito, um comportamento criativo, não programado, movido por algo fora de protocolo. O robô superando as próprias expectativas de programação. E a emoção deu lugar à reflexão sobre o paradoxo, que motiva rascunhar estas linhas.

Finch tenta “humanizar” Jeff, porque somente ai conseguirá que o robô cumpra a missão para a qual foi destinado. Enquanto isso, no dia a dia  -na educação, na formação médica que ocupa minha atividade, para ser exato- comprovo exatamente o contrário. Vejo estudantes e jovens profissionais sendo ‘programados’ com protocolos e guidelines, observo no seu atuar aplicar a segurança em formato blindado, tudo por conta da “ciência” e das “evidências” (uma espécie de oráculo de Delfos, que justifica qualquer absurdo, além da incompetência descarada). E quando estes profissionais que foram programados com segurança para o que está no script,   se deparam com o normal, com o imponderável, com o ser humano e a tormenta de emoções, reclamam, dizem que é uma guerra, que aquilo não é possível. Passam a vida reclamando –eis um sintoma curioso dos tempos dos jovens de hoje- e só faltaria ligarem para o Procon, alegando que ninguém contou para eles como as coisas se passam.

Evidentemente a culpa não é deles, mas dos formadores -entre os quais me incluo- que não alertamos o educando para essa dimensão essencial, para a vida como ela é, que diria Nelson Rodrigues. E também não os preparamos para que quando a vida, da terra  vira lodo, seguir com o conselho do poeta que recomenda a solução: “tudo é maneira, diferença ou modo. Em tudo quando faças sé só tu; em tudo quanto faças sé tu todo!”. Nem precisa citar explicitamente Pessoa, porque isso seria já muito pedir. Uma coisa por vez.

O problema é sério e preocupante. Porque se o jovem reclama da vida, o formador reclama do jovem, que não sabe o que quer, que não decide se casa ou compra uma bicicleta. Alguns, ingenuamente, propõem soluções fast-food, e montam cursos de humanização……Humanizar os humanos!!! Gostaria de saber o que Finch, ou melhor, Jeff tem a dizer dessas ideias peregrinas.

Não tem solução? Estamos diante de uma catástrofe nuclear que assola o planeta, como Finch, Jeff e  o cachorro? Felizmente, existe luz no final do túnel. Mas a solução -ou melhor, a prevenção- é dolorosa e, essa sim, será impiedosa com os formadores, eliminando como a radiação nuclear, como um anjo exterminador de pragas, as cabeças dos educadores de protocolos que são a verdadeira pandemia da educação médica atualmente.

C.S. Lewis, no seu instigante ensaio sobre “A abolição do homem” tem umas palavras que, cada vez que as leio, me sacodem com violência, fazendo-me enfrentar minhas responsabilidades como educador. Transcrevo: “Extirpamos o órgão, e exigimos a função. Fazemos homens sem coração e esperamos deles virtude e iniciativa. Damos risada da honra e nos estranha ver traidores entre nós. Castramos e exigimos deles que sejam fecundos”.  Complementação que chega nas palavras daquele médico e educador americano, Paul Batalden: “Todo sistema está perfeitamente desenhado para entregar o produto que de fato obtém”.

Quer dizer, vamos parar de reclamar, fazer a nossa parte, viver a vida, e ensinar a vive-la aos jovens, que ainda não sabem da missa a metade. Essa é a verdadeira humanização da qual carecemos!

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