Maria Dueñas: SIRA

Pablo González Blasco Livros Leave a Comment

Maria Dueñas: SIRA Ed. Planeta. Madrid. 2021. 648 págs.

Por conta da Tertúlia Literária deste mês debruço-me sobre a segunda parte de O tempo entre costuras que, agora estampa como título o nome da protagonista: Sira. Mas, por aquilo de que segundas partes são sempre suspeitas, decido antes, reler -com rapidez e voracidade- a primeira. Consulto as notas que tomei naquela ocasião, embora, inevitavelmente surgem outras que não incluo aqui, para não me estender desnecessariamente.

Mesmo assim, não consigo evitar dois rápidos aspectos que iluminam, em zoom mágico, as páginas de Sira. O primeiro é relativo à protagonista e seus predicados, dois em concreto: a criatividade maravilhosa da costureira, o segundo as mudanças de identidade à qual o destino a empurra continuamente. Uma costureira espiã, de elegância ímpar. Traduzo livremente do original em espanhol, que obviamente foi o que eu li, por questão telúrica, de raízes.

 “E então o inesperado aconteceu. Nunca poderia imaginar que a sensação de ter uma agulha entre os meus dedos pudesse ser tão gratificante. A satisfação de costurar de novo foi tão agradável que durante algumas horas me levou a tempos mais felizes e conseguiu dissolver temporariamente o peso de chumbo das minhas próprias misérias. Era como estar de volta a casa. Quando trabalham bem, as costureiras são capazes de ganhar lealdades até à morte”

Reaparecem as mudanças de identidade que são também parte integrante da trama anterior e, naturalmente, da presente. “Em apenas alguns meses, tinha batido com a porta na cara de todo o meu ontem; eu tinha deixado de ser uma humilde costureira para me tornar, alternativamente ou em paralelo, um bando de mulheres diferentes. Eu era uma candidata pouco incipiente a um emprego, beneficiária de uma grande propriedade industrial, amante de um canalha que dominava o mundo, aspirante a gerente iludido de um negócio argentino, mãe frustrada de uma criança por nascer, suspeita de ser vigarista e ladra até às sobrancelhas em dívida e traficante de armas camufladas sob o disfarce de uma nativa inocente. Em menos tempo ainda teria de encontrar uma nova personalidade, porque nenhuma das antigas já me servia de nada. Para o fazer tive de esquecer o passado, apressadamente inventar um presente e projetar um futuro tão falso quanto esplêndido”.

A maturidade de todas estas mudanças cristaliza-se na protagonista, na segunda parte, no livro que nos ocupa; “Tinha aprendido a desenvolver a arte de voar sempre que sentia a ameaça da melancolia a aproximar-se. Tinha passado por assuntos obscuros, sentimentos, responsabilidades e pessoas diversas que me abriram os olhos para o melhor e o pior da condição humana, e me ensinaram a perceber onde se esconde a mesquinhez e de onde emerge a integridade e a decência.  Os meus anos de colaboração meticulosa com os serviços secretos tinham-me ensinado não só a ouvir com muita atenção, mas também, pelos meus silêncios, a provocar outros a continuarem a falar (…) Todos os meus medos, toda a minha insónia e saltos sem rede acabaram por servir um propósito: não só para recolher informações úteis à arte suja da guerra, mas também, e acima de tudo, para provar a mim próprio e aos que me rodeiam até onde eu era capaz de ir”.

O segundo aspecto que é preciso invocar da primeira parte, é o aprendizado com o fator humano, não apenas com as pessoas, mas com os homens em concreto, e no jogo traiçoeiro do amor. Assim anotei da primeira entrega: “Nunca tinha sentido nada disso em nenhum outro homem, nunca me tinha achado capaz de despertar tal atração carnal em ninguém. Mas da mesma forma que os animais cheiram comida ou perigo, com o mesmo instinto primordial as minhas entranhas sabiam que Ramiro Arribas, como um lobo, tinha decidido vir por mim”. E os conselhos que no seu dia, deu-lhe o Inspector Vázquez: “É o que todos da sua laia dizem, mas não se engane. Tipos como ele só se amam a si próprios. Podem ser afetuosos e parecer generosos; são muitas vezes encantadores, mas quando se trata disso, só estão interessados na sua própria pele e, na primeira vez que as coisas escurecem, saltam por cima do que for necessário para salvar a pele”. Continua Sira com suas reflexões: “Um dos efeitos da paixão louca e obsessiva é que se sobrepõe aos sentidos para perceber o que está a passar à sua volta. Corta a sensibilidade, a capacidade de perceber. Obriga a concentrar a tua atenção e te isola do resto do universo; prende você  numa concha e te mantém afastada de outras realidades, mesmo que estejam apenas a um passo da tua cara”. Lembrei daquela frase chavão, tão feminina, tão real: “homem não presta”. Embora as que o dizem, no frigir dos ovos, costumam esquecer.

A nova entrega, a segunda parte da saga de Sira, transita por vários locais, tendo já como pano de fundo essa armação de personalidade e de experiência acumulada.

Jerusalém, o final do poderio Britânico na Palestina, os distúrbios crescentes “Essa agressividade entre árabes, judeus e britânicos nada teve a ver comigo, já tinha sofrido a guerra do meu próprio país, já tinha colaborado voluntariamente com os britânicos na deles, a minha quota estava coberta. Lamentei a situação dos judeus sem pátria, dos árabes ameaçados pelo voraz sionismo e dos compatriotas do meu marido desprezados por ambos, mas nem o meu bebé nem eu tínhamos qualquer negócio nesse enxame sanguinário (…) Apertei bem os meus olhos e implorei ao Javé de uns,  ao Alá do outros e ao Deus dos cristãos para fazer algo para trazer paz e sanidade àquela terra. Infelizmente, todos fizeram ouvidos surdos”.

A vida com Marcus Logan, que resulta ser Mark Bonnard, e os tropeços trágicos. “Estava errada ao pensar que me tinha faltado a coragem para comprar o bilhete de barco. Era o oposto, exatamente o oposto. Não, a coragem não estava em tomar a firme decisão de desaparecer para fugir dos problemas. A ausência de cobardia estava ao lado daquele que precisava de mim: ao seu lado sem fissura, partilhando, dando encorajamento. Não, eu não ia partir, nem ia separar o meu filho do seu pai. O meu lugar era ao lado de Marcus, e não devido à minha obrigação conjugal, mas por amor, responsabilidade e compromisso (…) Os velhos pulôveres de Marcus, esvaziados da sua presença, tornaram-se parte do meu guarda-roupa, até desmontei os seus casacos de tweed e voltei a montá-los para caberem no meu corpo, como se ainda o pudesse sentir perto de mim”.

Percebemos, dentro de uma magnífica narrativa que te agarra, difícil de deixar de lado e parar, o crescimento desse monumento de mulher….que desperta a emulação em todos. Assim foram os comentários de tertúlia: eu quero incorporar um pouco de Sira dentro de mim. “Não tinha ninguém com quem partilhar a minha perplexidade, ninguém a quem pedir as minhas dúvidas ou obter conselhos. Sem família, sem amantes, sem amigos. A mulher cuja imagem vi no espelho era a única capaz de me ajudar a tomar decisões: eu própria, a mesma de sempre e, ao mesmo tempo, uma imagem diferente. As lágrimas ameaçavam aparecer de vez em quando; felizmente usava óculos de sol grandes para me proteger tanto da luz do início de Junho como dos episódios indesejáveis de melancolia”.

Após Jerusalém e Londres, toca a vez a Espanha para cobrir -sob nova identidade- a viagem de Eva Perón no final da década dos 40. Ficção dentro da realidade (comentou-se que no Youtube podem se ver muitas das cenas e discursos da primeira dama argentina nessa viagem). E, sempre, a prosa afiada, precisa, elegante. “Enquanto Evita falava dos descamisados o suor tomava conta de alguns dos líderes pró-Franco que ocupavam a parte de trás da varanda principal, e mais de um pensamento ouviu ecos de uma Pasionaria com um sotaque portenho…Uma Cinderela dos Pampas, como a prestigiada revista americana Time a chamou”. Eva Perón se fantasia com sobretudo de peles no meio do verão madrilenho, e “para não a deixar sozinha na sua extravagância, a esposa de Caudillo e outras ilustres senhoras resgataram apressadamente as suas próprias peles das traseiras dos guarda-roupas e exibi-las-iam também à noite, mortas de calor para não serem menos do que a argentina; não iam deixar por menos.”

Junto com Eva Perón, aparecem personagens que, como todos, estão maravilhosamente desenhados: “Com aquela tendência que homens com um ego bem colocado têm frequentemente, Alberto Dodero tomou a palavra e entrou num eu, para mim, comigo que nos levou quase à sobremesa (….) Fiquei novamente tocado pela sua sinceridade não filtrada: o funcionário público colonial, endurecido nas cenas e no trabalho em África, estava a pisar poças no meio da turbulência da alma feminina, em frente de uma estranha e rodeado por uma multidão de senhoras a conversar sobre cortinas e almofadas, tendências primaveris ou as ridiculamente tortuosas dores de cabeça do serviço doméstico”

E, no capítulo final, novamente Marrocos, onde toda a saga das costuras começou. Com identidades que continuam cambiantes, como ao longo de toda a trama. “A dúvida instalou-se, talvez porque era demasiado tarde e eu já estava exausta de fingir ser quem não era, ou talvez porque as complexidades da alma humana estavam a tornar-se cada vez menos compreensíveis para mim.  Agarrado em algum lugar, fiquei com uma pitada de nostalgia profunda. Ela foi a única coisa que me ligou à essência da garota que em tempos fui, e que acabei por perder pelo caminho”.

Mas as idas e voltas, as mudanças de identidade, as aventuras arriscadas e temerosas, tem sempre um porto seguro onde voltar: a costura. “Ir para casa, isso é o que Dolores, a costureira da rua Redondilla, teria me recomendado. Como se eu soubesse, nestas alturas, onde estava a minha casa. Segurar novamente esses tecidos preciosos nas minhas mãos, estar novamente rodeado de tecido, agulhas, tesouras e fios deu-me uma espécie de emoção momentânea, como uma agradável reunião com a mulher que um dia fui”

A costuras e a própria mãe, que é a mesma coisa. As raízes: “A minha mãe, ali estava ela, vestida de malva, sem sombra de maquiagem supérflua. A integridade feita pessoa, a voz da minha consciência. Dignidade com nome próprio, aquela que me trouxe ao mundo sozinha e me criou com sacrifício até que eu, a sua criatura, decidi deixar o seu lado para seguir um cretino”.

Nos momentos finais de tertúlia, nessa volta às raízes, lembrei de uns versos que na minha família, um dos meus irmãos, costumava recitar para minha mãe. Dizem assim em tradução livre : “Levo-te sempre comigo, porque o homem, como o vinho, se conhecem pela mãe”. Madre do vinho, o lugar onde fermenta,  torna-se maduro, desenvolve sabor e aroma, personalidade própria. Como acontece com Sira, com todos nós, porque somos, sem dúvida, nossas raízes.

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