“O Tempo entre Costuras”María Dueñas

Pablo González Blasco Livros Leave a Comment

“O Tempo entre Costuras”María Dueñas Ed. Planeta. Madrid. 2009. 640 págs.

Disfrutei enormemente lendo o romance de María Dueñas, naturalmente o original em espanhol, porque embora a tradução me consta ser boa, o sabor de frases que evocam a minha infância, quase os cheiros e perfumes daquela época são de todo ponto intraduzíveis.

São 600 páginas de leitura dinâmica, não tive como parar. Essa é a única dificuldade do livro, dosar a leitura, porque no embalo a coisa caminha sozinha. Um fenômeno narrativo que mistura aventuras, suspense, história e saborosos diálogos em boca de personagens magnificamente conseguidos. Isso resume tudo, e assim me recomendaram: mergulha no livro, nem te atreva a ler as orelhas da capa, que perderá impacto. Assim o fiz, e mesmo sem contar nada -nem mesmo as orelhas do livro- não resisto a contar outras coisas. Não do livro, mas de mim mesmo; ou melhor, da interação que tive com o romance nestes dias inesquecíveis de leitura. Do meu diálogo pessoal com ele.

Desde criança sempre me chamou a atenção escutar nas zarzuelas -essa versão tão espanhola de opereta- as canções, que falam de costureiras. Bailes nas quermesses, cheios de personagens únicos -o emproado sujeito conquistador de Madrid, matronas com um poder de fogo tremendo, cavalheiros ao velho estilo…e costureiras. Chamava-me a atenção porque nunca pensei que se poderia fazer tanta poesia com uma costureira, como se fosse uma classe aparte que merecesse ser citada. Embora -tudo deve ser confessado- a única costureira que conheci na infância era uma vizinha, muito amiga da minha mãe. Uma moça alta, de bom parecer, com muita classe, que costurava para as senhoras do bairro e, certamente para muitas outas. Pili (diminutivo carinhoso de Pilar) a chamávamos: Pili, a costureira.

Lembro de ter passado bastantes horas na casa dela -vivia no andar inferior ao nosso- me oferecia uns lanches ótimos (merendas, em espanhol), deixava-me revistas que eu não entendia (cheia de senhoras com vestidos elegantes), que eu olhava pois mal sabia ler naquela época. Pili interessava-se por minhas coisas, perguntava-me como ia no colégio e me dizia -sempre! – que tinha de obedecer a meus pais, que davam um duro tremendo para levar adiante a nossa família, que acabou sendo numerosa.

Pili era solteira e vivia com a mãe dela, viúva. E se dedicava a algo que a mim parecia-me trivial, porque eu via a minha avó fazer isso todas as tardes: costurar. Como criança eu nunca pensei que aquilo fosse um trabalho. Quando cresci e comecei a escutar zarzuelas -minha mãe tinha voz de soprano, e cantava muitas canções com grande estilo- cheguei a pensar que as costureiras eram uma espécie em extinção, e que Pili devia ser uma das últimas sobreviventes.

Tudo isto e muitas coisas mais vieram à memória enquanto lia o livro de Maria Dueñas. Os tempos da guerra civil espanhola -a saudade de uma época que eu nunca vivi, nasci muito depois de acabar, mas tinha ouvido contar muitas vezes. As personagens tão “da gema” como os das zarzuelas, e o saber penetrante de um Madrid que se apalpa nas descrições como se estivesse andando pelas ruas que tantas lembranças me trazem dos tempos de criança.

No final sobra um delicioso sabor de boca, um gosto de tempo bem aproveitado, e a segurança de que quem escreve como o faz a autora, terá leitores incondicionais, entre os que me conto a partir de agora. E, confesso, que o meu respeito pelas costureiras -que, agora sim, entendo como um trabalho- cresceu enormemente e, após pedir perdão a Pili -que estará na glória, sorrindo como sempre- entendi que não é esse um ofício para qualquer um. Faz-se necessário algo muito especial, talvez o que as zarzuelas apontam, que eu não chegava a captar. Como diz a protagonista “quando uma costureira faz bem o seu trabalho vai até o final, e cumpre”. Depois de ler este magnífico romance, não tenho a menor dúvida.

A dúvida que pairava era outra. Será que o gosto imenso com que disfrutei na leitura era por todo esse acúmulo de lembranças da infância, com sabor quase de leite materno? Não faltava receio quando propusemos para a leitura mensal da tertúlia literária. Mas os resultados foram de alto impacto. E não somente na tertúlia literária, mas entre todas as mulheres que se aventuraram a ler. Já tinha ouvido dizer que na Espanha, todas as mulheres tinham lido o livro, e virou até série de TV. Entendo que Maria Dueñas coloca uma fantasia de costureira -isso sim, com todo o respeito que merece- para vestir uma personagem que possui os predicados do eterno feminino, e desperta a emulação de todas as leitoras…e dos homens que nos aventuramos

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