Vidas passadas: Um Casablanca Coreano.

Pablo González Blasco Filmes Leave a Comment

Past Lives. Direção: Celine Song. Greta LeeYoo Teo. John Magaro, USA 2023. 106 min.

“Quem são esses três?” Uma voz em off, se pergunta, ou melhor, nos pergunta.  E vai tecendo hipóteses: “Um casal da oriental com o americano, e o outro é irmão dela? Estranho, o americano está fora da conversa….Talvez um casal de orientais e o americano é o amigo? Ou o guia deles em New York? Mas, tudo isto às 4 horas da manhã, conversando? Não, nada disso”. Essa é a largada deste filme singular, que, imediatamente nos transporta em flashback duas décadas antes. Coreia, dois adolescentes na escola. Brincadeiras, competição nas notas, empatia que pode virar namorico…..E a despedida, ao pé de uma escada, o rapaz segue caminho, a menina sobe….primeiro a escada, depois num avião.

Passam 12 anos, e o Facebook primeiro, logo a  Internet aproxima os amigos, não mais adolescentes. Cada um cuidando da sua vida, Coreia, China, Canadá, USA. Conexões rápidas, sorrisos demorados, longos silêncios, timidez e encabulamento. Uma visita possível? Não parece, todos muito ocupados. Sentimos certa eletricidade nas conversas, torcemos para que aconteça o que não vai acontecer.

Outros 12 anos se passam, no rápido suceder dos fotogramas. Um filme lento nos gestos, nos pensamentos, que abarca um quarto de século como se fossem alguns minutos.

O encontro, a surpresa, todos meio sem jeito. “Você era um amigo na infância, depois uma foto no Facebook, agora é real”. A atriz, Greta Lee, imensa, transpira expressividade num sorriso abrangente, global. “Eu sou um homem normal, muito normal. Você é das que vai embora, quer comer o mundo, porque tudo é pequeno para você. E desapareceu da minha vida de repente”. O ator, Yoo Teo, engenheiro competente, que trabalha num sistema operacional misturando curiosidade, fantasia e timidez, tudo muito natural, um modo de ser absolutamente aceitável, de quem tenta encontrar seu lugar nesse cenário.

Porque o tal cenário é um triangulo amoroso, delicado e subtil, que tem um terceiro vértice, o americano no canto da foto. “Isto é o que você sonhou? Estar casada com um judeu que escreve livros que não passam de medianos? Porque nos encontramos num hotel, éramos solteiros e você precisava do Green Card?”. – Isto não é brincadeira para mim, nunca foi – Você torna minha vida muito maior. E eu para você? Sabia que você sonha numa linguagem que eu não entendo? Vai ver que por isso quero aprender coreano”.

Não. Não estou contando o filme -nunca o faço- mas apenas rascunhando as impressões que pipocaram no meu interior quando o assisti. E, assisti de novo, para me certificar desse emaranhado de percepções, de um romantismo subtil, elegante, comovente. Mas também incômodo, porque a beleza -estamos falando de um filme bonito, de uma experiência estética- mexe, molesta, incomoda.

Em paralelo com o filme, defrontei-me com um livro também coreano, de um pensador atual, que está na crista da onda. Sempre um mano a mano do cinema com a literatura, um binômio humanista, a tábua da cultura que nos salva do naufrágio vital, no dizer de Ortega.

A salvação da beleza, chama-se o livro, um opúsculo de 80 páginas. E lá lemos algo que projeta luz sobre todas essas percepções estéticas: “Um julgamento estético pressupõe uma distância contemplativa. A arte do liso e do polido elimina-o.  A negatividade é essencial para a arte. É a ferida dele. É o oposto da positividade do polimento. Há algo nisso que me choca, que me emociona, que me questiona, de onde surge o apelo de que você tem que mudar de vida. Hoje, a própria beleza se revela acetinada quando toda negatividade, todas as formas de choque e violação são removidas. A beleza se esgota no “curtir”. A estetização revela-se anestesiada. Sede a percepção”

E, sem querer esgotar o tema (é necessário ler o livro, ou pelo menos o resumo que fiz dele), ainda me atrevo a copiar algo que mexe fundo com a nossa superficialidade tosca quando nos deparamos com a beleza: “O sentido do tato é o mais desmistificador dos sentidos, ao contrário da visão, que é o mais mágico. A visão mantém a distância, enquanto o tato a elimina. Sem distância o misticismo não é possível. A desmistificação torna tudo palatável e consumível. O toque destrói a negatividade do completamente diferente. Ele seculariza o que toca. Ao contrário do sentido da visão, o tato é incapaz de surpreender (…) É por isso que o touchscreen polido, é um lugar de desmistificação e de consumo total. Ela gera o que se gosta . A informação é uma forma pornográfica de conhecimento. Falta aquela interioridade que o caracteriza (o sublinhado é meu, porque a frase é redonda!!!).

Continua o pensador:  “ Firmeza e perseverança não conduzem ao consumo. Consumo e duração são mutuamente exclusivos. É a inconstância e a evanescência da moda que a aceleram. É assim que a cultura do consumo está eliminando a duração. Caráter e consumo são opostos. O consumidor ideal é um homem sem caráter. Essa falta de caráter é o que possibilita o consumo indiscriminado. Quanto menos caráter e forma você tiver, mais suave, polido e escorregadio você terá e mais friends você terá. O Facebook é um mercado de falta de caráter.”

Dito isto -que conste que é um coreano quem escreve, como a diretora do filme, Celine Song, coreana emigrada ao Canadá- melhor parar e refletir. Somente assim pode-se enfrentar os compassos finais deste concerto delicado e harmônico, degustá-lo com fruição e prazer. Sim, mais um exemplo de final impossível, como já foi comentado a propósito de aquele filme emblemático, de 50 anos atrás, A Princesa e o Plebeu.

“Não pensei que gostar do teu marido, doeria tanto”. É o engenheiro falando, mas poderia ser perfeitamente Rick, no aeroporto de Casablanca, quando diz a Ilsa que tem de subir no avião, porque do contrario se arrependerá, talvez não hoje, não amanhã, mas algum dia e para sempre. Aqui não tem aeroporto, nem o inspector Renault, nem os suspeitos habituais. Tem uma porta de garagem, um Uber a caminho, e um marido bom, compreensivo, que espera na porta da casa. “Nós teremos sempre Paris”, diz Bogart a Ingrid Bergman, na versão clássica deste drama. Aqui não é Paris, mas In YUN, camadas de outras vidas, até 8 mil camadas de vidas passadas que nos fazem sonhar e pensar que em algum momento, esbarramos um no outro ao cruzar a rua.

Um filme delicado, sensível, intimista, elegante. Um canto à liberdade humana, e a beleza que incomoda, e te faz buscar o teu lugar na vida. Essa vida que é o que fazemos dela, como disse Fernando Pessoa. Um triangulo amoroso, com pessoas sensíveis, repleto de silêncios, de sorrisos, que servem os temas essenciais sobre a mesa. Compromisso, responsabilidade, integridade nas decisões da vida. Como me dizia uma aluna há muitos anos, a propósito de Casablanca: “Professor, o difícil é subir no avião. E ninguém vai fazer isso por mim”. Vidas passadas: um Casablanca coreano, em seu melhor estilo!

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