Miss Austen: Elegância, a Boa Literatura e o Papa Francisco

Pablo González BlascoSerie Leave a Comment

Reino Unido, 2024 Direção e Criação: Aisling Walsh Andrea Gibb. Atores:  Keely Hawes, Patsy Ferran, Rose Leslie, Phyllis Logan 4 episódios de 50-60 min.

Tinham me chegado comentários sobre a série que pensei, equivocadamente, tratava apenas da escritora inglesa. Digo equivocadamente, porque embora Jane Austen é presença obrigatória, quem pilota a série, em magnífico protagonismo é sua irmã, Cassandra. Ela é quem em flashback conta a vida de Jane e a dela. Um primor cinematográfico que plasma na tela um tema sempre presente nos romances de Austen: o relacionamento entre duas irmãs, e a família como cenário de fundo.  

Miss Austen são as irmãs Austen, e sua família. Ai está a vida real, em cenário elegante, com interpretação magnífica, adubando o terreno do que depois seria escrito, em , Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, e os sólidos princípios de Mansfield Park, confirmando-se o que já comentamos neste espaço em outra ocasião: “a história criada por Jane Austen, torna-se a nossa própria história, quer gostemos ou não, soando um pouco como a própria vida de todos nós”. E também outro Touché importante emprestado da própria vida das irmãs Austen: “Os romances de Austen são romances de cortejo centrados em heroínas, e não manuais de conduta disfarçados de romances. Seus romances não são histórias nas quais a heroína se apaixona à primeira vista por um belo estranho que se transforma no marido ideal. O belo estranho acaba por ser uma aposta desastrosa”.

Volto sobre o que escrevi a propósito de um livro que me pareceu muito interessante –A verdadeira Jane Austen– e agora penso ser necessário para melhor entender esta série que nos ocupa. O livro mostra um conhecimento enorme da obra da escritora e também das suas cartas, um admirável epistolário que na série funciona como a bússola de Cassandra para contar a história.  Eis um parágrafo esclarecedor: “As personagens dos romances são representadas dizendo coisas chocantes para suas irmãs mais velhas, provocando tanto sua indignação como o seu riso. Essa atitude é muito parecida com a de Austen em suas cartas à irmã mais velha, Cassandra. Como diz Elizabeth Bennet em Orgulho e Preconceito, “quanto mais observo do mundo, mais me decepciono; e cada dia que passa confirma minha crença na inconsistência do caráter humano e na pouca confiança que se deve ter nas aparências de mérito e sensatez”. É algo que Jane Austen poderia ter dito perfeitamente em uma de suas cartas”.

As cartas são, sem dúvida, os bastidores dos romances de Austen e o fio condutor da série. Lemos no livro citado: “Escrevia o tempo todo, também inúmeras cartas: numa época de viagens globais e império emergente, as cartas eram de tremenda importância. Páginas e mais páginas escritas na escrivaninha portátil de Austen (um estojo que contém informações preciosas e particulares, que pode ser trancado com segurança e ser levado consigo nas viagens; a versão georgiana do laptop). O experimento epistolar deu a Austen a chance de encontrar vozes para os tipos específicos. Razão e Sensibilidade chamou-se inicialmente Elinor e Marianne, um romance epistolar. Depois foi reformulado, por conta de uma grande cirurgia para entrelaçar as cartas entre as irmãs dando lugar ao nome que passaria à posteridade”. Quer dizer, o fundamento histórico desta produção magnífica, a base epistolar, é um verdadeiro acerto histórico e fílmico.

O resultado destes bastidores epistolares é peculiar e encantador: Cassandra Austen tem muito a dizer sobre sua irmã e sobre si mesma, sobre o valor de uma vida mal interpretada por seus parentes mais próximos. E a posta em cena, impecável, com atrizes de enorme qualidade que parecem saídas diretamente do século XIX britânico. “Um mergulho delicado num grupo de personagens selados pelo amor romântico, incapazes de se tornarem cúmplices do hedonismo narcisista” – li em um comentário sobre a série, de autoria confiável.

E por algum motivo, por essas conexões que o coração te coloca e que a razão não entende, como diria Pascal, pulei da série para a releitura da carta que o Papa Francisco escreveu em Julho de 2024, sobre O papel da literatura na educação. E lá encontro, em palavras, algo que se acopla, como a luva à mão, aos ensinamentos que foram pipocando durante a série, assistida com vagar, em degustação.

O que tem a ver o Papa Francisco com Jane Austen, cujo pai era um pastor anglicano? Aparentemente nada. Mas na literatura -nos livros e na vida- as almas se encontram. E desse encontro, usufruímos todos como se mostra na carta quando Francisco cita C. S. Lewis: “Quando leio boa literatura, torno-me mil homens e continuo sendo eu mesmo. Como o céu noturno no poema grego, vejo com mil olhos, mas ainda sou eu quem vê. Então, como na fé, no amor, na ação moral e no conhecimento, ultrapasso-me a mim próprio e, no entanto, quando o faço, sou mais eu do que nunca”.

Como a literatura nos transforma? Será isso possível nos tempos que vivemos, rápidos, saturados de espasmos áudio visuais? Assim escreve Francisco: “Ao contrário dos meios audiovisuais, onde o produto é mais completo, e a margem e o tempo para “enriquecer” a narrativa ou para a interpretar são geralmente reduzidos, o leitor é muito mais ativo quando lê um livro. De certo modo, reescreve-o, amplia-o com a sua imaginação, cria um mundo, usa as suas capacidades, a sua memória, os seus sonhos, a sua própria história cheia de dramatismo e simbolismo; e assim surge uma obra muito diferente daquela que o autor pretendia escrever. Uma obra literária é, portanto, um texto vivo e sempre fértil, capaz de falar de novo e de muitas maneiras, capaz de produzir uma síntese original com cada leitor que encontra. Este, enquanto lê, enriquece-se com o que recebe do autor, mas isso permite-lhe, ao mesmo tempo, fazer desabrochar a riqueza da sua própria pessoa, pois cada nova obra que lê renova e expande o seu universo pessoal”.

A literatura, pausada, degustada, cada um no seu ritmo e no gosto daquele momento, sem onerar-se com deveres de leitura. Disso fala maravilhosamente Pennac naquele livro necessário, Como um Romance. Esse é o ritmo fisiológico que faz crescer a cultura e nos ajuda na busca de nós mesmos. Continua o Papa na mesma sintonia que o educador francês: “A literatura tem a ver, de uma forma ou de outra, com o que cada um de nós busca na vida, pois entra em íntima relação com nossa existência concreta, com suas tensões, desejos e significados essenciais. Em última análise, o coração continua a buscar, e cada pessoa encontra seu próprio caminho na literatura (…) Cada pessoa encontrará aqueles livros que falam da sua própria vida e se tornarão verdadeiros companheiros de viagem. Não há nada mais contraproducente do que ler algo por obrigação, fazendo um esforço considerável só porque outros disseram que é essencial. Não, devemos selecionar nossas leituras com abertura, surpresa e flexibilidade, permitindo-nos ser aconselhados, mas também com sinceridade, tentando encontrar o que precisamos em cada momento de nossas vidas”.

Ortega y Gasset, quando fala da leitura nos seus ensaios sobre a geração do 98, aponta a missão da leitura: “A leitura, na sua mais nobre forme, constitui um luxo espiritual: não é estudo, aprendizado, aquisição de notícias úteis para a luta social. É um  aumento e dilatação que oferecemos às nossas germinações interiores. Graças a ela conseguimos realizar o que palpitava dentro de nós como simples possibilidade”. Quer dizer, a leitura consegue dar à luz ideias que temos dentro, torna-as claras, conseguimos organizá-las e incorporá-las no repertorio da própria cultura que é, também no dizer de Ortega, o que nos salva do naufrágio vital.

Mais uma sintonia que o Papa Francisco sublinha na sua carta: “Muitos cientistas argumentam que o hábito da leitura tem efeitos muito positivos na vida de uma pessoa; ajuda-a a adquirir um vocabulário mais amplo e, consequentemente, a desenvolver vários aspetos da sua inteligência. Também estimula a imaginação e a criatividade. Ao mesmo tempo, permite-lhe aprender a expressar as suas histórias de uma forma mais rica. Também melhora a concentração, reduz os níveis de declínio cognitivo e acalma o stress e a ansiedade. Melhor ainda: prepara-nos para compreender e, portanto, lidar com as diferentes situações que podem surgir na vida. Ao ler, mergulhamos nas personagens, nas preocupações, nos dramas, nos perigos, nos medos de pessoas que finalmente superaram os desafios da vida, ou talvez, durante a leitura, damos conselhos às personagens que mais tarde nos serão úteis”.

Francisco convoca na carta escritores que estão em sintonia, como Proust: “Os romances desencadeiam em nós por uma hora, todas as alegrias e infortúnios possíveis, dos quais nos levariam muitos anos de vida para experimentar alguns, e os mais intensos nos escapariam porque a lentidão com que ocorrem nos impede de os perceber”. Também T.S Eliot, que definiu a crise religiosa moderna como ‘uma crise de uma incapacidade emocional generalizada’. Na realidade, hoje o problema da fé não é primariamente o de crer mais ou menos em proposições doutrinárias. Ele está relacionado, antes, à incapacidade de muitos de se comoverem com Deus, com a sua criação, com outros seres humanos. Aqui, portanto, surge a tarefa de curar e enriquecer nossas sensibilidades”.

Educar a sensibilidade, o bom gosto, os sentidos num mundo espasmódico em imagens, saturado de solicitações vertiginosas, cercado de um analfabetismo tanto linguístico como emocional: eis um desafio enorme e necessário do nosso tempo. Também disso se fala na carta do Papa: “A literatura é como um laboratório fotográfico, no qual é possível processar as imagens da vida para que revelem seus limites e nuances. É para isso que serve a literatura: desenvolver as imagens da vida, questionar seu significado. Em suma, ela serve para experimentar efetivamente a vida (…) O olhar da literatura forma o leitor na descentralização, no senso de limites, na renúncia à dominação cognitiva e crítica, na experiência, ensinando-lhe uma pobreza que é fonte de extraordinária riqueza. Ao reconhecer a futilidade e talvez até a impossibilidade de reduzir o mistério do mundo e dos seres humanos a uma polaridade antinômica de verdadeiro/falso ou justo/injusto, o leitor abraça o dever do julgamento não como um instrumento de domínio, mas como um impulso para a escuta incessante e uma disposição para se engajar naquela extraordinária riqueza da história devido à presença do Espírito, que também ocorre como graça; isto é, como um evento imprevisível e incompreensível que não depende da ação humana, mas redefine o ser humano como a esperança de salvação”.

E não poderia faltar na carta de Francisco uma referência ao grande escritor argentino, Jorge Luis Borges, “que dizia aos seus alunos: o mais importante é ler, entrar em contato direto com a literatura, imergir-se no texto vivo diante de nós, em vez de se concentrar nas ideias e comentários críticos. E Borges explicava essa ideia aos seus alunos dizendo-lhes que talvez a princípio entendessem pouco do que estavam lendo, mas que, em qualquer caso, teriam ouvido ‘a voz de alguém’. Esta é uma definição de literatura que eu gosto muito: ouvir a voz de alguém”.

É preciso perder o medo a ler, a conversar com os livros, a intimar com as personagens. É o caminho acessível, para uma revolução humanitária. Assim o explica o Papa: “Ao abrir o leitor a uma visão ampla da riqueza e da miséria da experiência humana, a literatura educa seu olhar para a lentidão da compreensão, para a humildade da não simplificação e para a doçura de não buscar controlar a realidade e a condição humana por meio do julgamento(…) Ao identificarmos traços do nosso mundo interior em meio a essas histórias, tornamo-nos mais sensíveis às experiências dos outros, saímos de nós mesmos para entrar profundamente neles, podemos compreender um pouco mais suas lutas e desejos, vemos a realidade através seus olhos e, em última análise, nos tornamos seus companheiros de jornada (…) Ao ler um romance ou uma obra poética, o leitor experimenta, de fato, ‘ser lido’ pelas palavras que lê. Ao ler um texto literário, nos colocamos na posição de ver com outros olhos ampliando a perspectiva que expande nossa humanidade”. Aí está a sugestão de uma ótima trajetória para educar no humanismo nos dias de hoje e sempre. A boa literatura, mergulhar nas personagens dos romances de Austen, sempre desafiadores, querendo tirar deles -e de nós! – o que há de melhor. E tudo embrulhado nos fotogramas fascinantes de uma série impecável, que nos estimula a escrever -o resgate epistolar, ao invés de grunhidos coloridos com emoticons. E nas considerações de Jorge Mario Bergoglio -sem falar ex-cathedra, mas como Papa- que nos abre o seu coração de leitor apaixonado.

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