Oslo: o esforço tremendo para compreender o outro.

Pablo González Blasco Filmes Leave a Comment

Oslo. Diretor:  Bartlett SherRuth Wilson, Andrew Scott, Itzik CohenIgal NaorRotem Keinan,  EE.UU. 2021. 118 min.

Debrucei-me sobre o filme sem grandes expectativas. Tinha lido uma crítica positiva sobre esta versão dos acordos de paz em Oslo, em 1993, entre palestinos e judeus. Quase 30 anos depois já sabemos no que deu: em nada, ou quase nada. Fosse pouco, tropecei nestes mesmos dias com a passagem bíblica onde tudo começou: Abraão, por insistência da sua mulher Sara, expulsa a escrava Agar e seu filho (que era também filho de Abraão). Deus promete que fara de Ismael, o filho expulso, a origem de um grande povo também. Não o povo eleito -isso foi exclusivo para Abraão- mas um povo a final de contas. O resto da história já conhecemos. 

Com este contexto em mente, comecei a ver o filme….e me enganchou. Aqui tem muito mais do que articulação política, pensei. Logo mais, imaginei que poderia ser um bom “case” de estratégia de negociação quando vi Terje, o marido de Mona, explicando em que consiste a tal estratégia: deixar de lado as diferenças, focar-se naquilo que é comum. Lembrei das sessões no master de alta direção de empresas, na tática win-win, e todas essas articulações necessárias, onde se deixa de fora a emoção  e a vontade de ganhar em todos os campos, para chegar a um acordo favorável a ambas as partes. Mas logo percebi que o filme era muito mais do que isso. Não apenas política , ou negociação de um conflito milenar (põe milenar nisso, está enunciado no primeiro livro da Bíblia), mas algo muito maior: um esforço imenso de compreensão, de entender o outro. 

A prima dona da compreensão é Mona, outra mulher, que vai mostrando os caminhos -difíceis, com feridas imensas de ambos lados- de uma possível cicatrização. Ocorreu-me pensar que se foi uma mulher -Sara- a que deflagrou o conflito, seria sensato que outra mulher -Mona- pudesse vir costurar o rasgão da túnica semítica. E com esta perspectiva em mente, adentrei-me nos fotogramas do filme. 

Não adianta entrar no argumento, porque o assunto é historicamente conhecido. O valor da produção é quase fenomenológico, porque a fita transforma-se em vivência, em reflexão. O quanto isso pode aproveitar no conflito milenar, não cabe a mim dizer. Mas o cruzado de esquerda surge quando nas reflexões que se desprendem das cenas, reparamos nos nossos próprios conflitos e no desafio, sempre imenso, de tentar compreender o outro. 

Para compreender é preciso conhecer. E conhecer implica estar disposto a enfrentar a surpresa, as categorias alheias, o modo de ver o mundo que, certamente, não é o mesmo que o nosso, aquilo que eu vejo. Lembrei de Susanna Tamaro, quando fala do provérbio índio: para entender o outro, é preciso andar três luas nos seus mocassins. Lembrei de Edith Stein e da sua tese doutoral sobre a empatia que lança uma advertência sobre essa atitude aparentemente simples: quando a gente se coloca no lugar do outro, o faz com as próprias categorias. Em outras palavras, não basta colocar-se nos sapatos do outro, porque o pé continua sendo o nosso. E muito provavelmente o sapato vai apertar, não é o confortável que imaginávamos ser. 

E, lembrei de Ortega , eu sou eu e as minhas circunstancias, e pensei que não basta colocar-se nas circunstâncias do outro, porque o problema é que não abrimos mão do eu. O que nos dificulta a compreensão do outro, não é ignorar como colocar-se nas circunstâncias dele, mas simplesmente não arredar pé do meu eu! E por lembrar, até Sartre  -por contraste- veio à memória  e pensei que o inferno não são os outros: o inferno é o meu eu gigante e intocável!

Tudo isto pode parecer muito filosófico. De fato é mesmo, porque são as ideias as que constroem o mundo, e nos constroem, ou nos liquidam. Para descer à realidade -deste mundo de ideias- basta pensar nos nossos conflitos diários que vão desde as discussões em família e no trânsito, até os grupos de WhatsApp, que tem se transformado em verdadeiras “faixas de Gaza” do cidadão comum. Aquilo que se escreve, o que se responde, os silêncios, as saídas do grupo, as mensagens ‘no privado’, enfim, intifadas domésticas que provocam feridas imensas. 

Como sair desta enrascada que é desafio para toda a vida? Essa é a temática que pulsa por trás dos fotogramas deste filme impactante. E visto que as invocações filosóficas não param, lembrei também de Santo Agostinho, -aquele de ama e faz o que quiseres, naquela outra expressão explicada por Ortega no seu magnífico ensaio Estudios sobre el amor: “Santo Agostinho, um dos homens que mais profundamente pensaram sobre o amor, talvez o temperamento mas gigantescamente erótico que existiu, consegue liberar-se da interpretação que faz do amor um simples desejo ou apetite, e diz em lírica expansão: Amor meus, pondus meum; illo feror, quocumque feror. Meu amor é o meu peso, minha densidade. Com ele vou onde ele me leva. Amor é gravitar em direção ao amado”. O amor é o que nos guia. Não parece existir outra saída. 

Mas o amor sabe descer até o concreto, conquistar no detalhe. É o que Mona faz, estimulando a concórdia com o tempero dos deliciosos waffles, que nada sabem de partidos nem de litígios bíblicos. Uma solução muito feminina, para reparar a cisão de Sara. Desses expedientes também nos fala outro livro encantador de Miriam Weinstein: as comidas em família, como um recurso para ser sábios e felizes. Podemos brigar a vontade, mas à mesa, com boa comida, tudo parece mais fácil. E de fato assim é. 

Como organizar esses armistícios de paz, para nossas ‘faixas de gaza quotidianas’ em tempo de home office, de educação à distância, de cada um na sua toca, de pijama, tentando resolver tudo na tela do computador? Difícil, complicado; sem opção culinária, nem sabor de waffles. 

E o amor, quando espicaçado, também apela: não existe neutralidade em quem faz questão de encontrar uma solução para as brigas dilacerantes. “Entrem nessa sala e, por favor, encontrem uma solução. O mundo lava-se as mãos, os soldados ocupam território que gostariam de deixar. Vocês não podem deixar passar esta chance. É agora”. No fundo, o recado é claro: pensem no outro como se fosse você. O amor sabe estimular a melhor versão de nós mesmos. 

Mona, a mulher conciliadora, desabrocha uma liderança feminina imensa com a sua atitude. Faz dessa missão a sua própria vida. Como você entrou nisto? -perguntam-lhe. “Anos atrás, no oriente médio, vi dois jovens lutando, um contra outro, assustados. Nenhum deles queria estar lá matando um ao outro. Senti que precisava ajudar, e  fiz disso a minha opção de vida”.   A história nos mostra que os anseios de Mona não resultaram naquilo que ela talvez sonhasse. Mas ela fez a parte que lhe correspondia, e aqui está o grande recado do filme, o golpe que o espectador recebe, se está aberto à reflexão. 

Nos créditos finais, enquanto alinhavo estas ideias, vem à memória o poema de Fernando Pessoa no seu canto aos reis de Portugal, em Mensagem:  “Meu dever fez-me, como Deus ao mundo/ Cumpri contra o Destino o meu dever/ Inutilmente? Não, porque o cumpri”. E, como as coincidências não foram poucas durante esta aventura fílmica, anoto a frase de um professor de filosofia que saltou de um livro que estava lendo. Diz assim: “Vale mais propor-se a meta da excelência e não atingi-la, do que a da mediocridade e alcança-la”. Sobram comentários. Resta apenas a reflexão pausada e sincera. Com sabor de waffles. 

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