Paola Peretti: “A Distância até a cerejeira”.

Pablo González Blasco Livros 1 Comment

Paola Peretti: “A Distância até a cerejeira”. Ed. Outro Planeta. São Paulo 2019. 224pgs.

Eis um livro surpreendente, sugestivo e encantador. Não doce, nem meloso, porque encerra um drama em cada linha: uma menina que padece cegueira progressiva, a Doença de Stardgardt, uma degeneração macular sem remédio. O encanto fica por conta das reflexões da nossa protagonista, Mafalda. A surpresa é saber que a autora, uma jovem jornalista italiana, padece dessa mesma doença, está ficando cega aos poucos. O encanto vem servido por esse cenário peculiar, temperado pelos comentários dos pensadores da nossa Tertúlia Literária. 

Mafalda é uma criança, muito feminina, que transpira perspicácia. Descreve a emoção através das mudanças nos óculos e do relacionamento com o seu gato: “alerta vermelho, óculos embaçados…. algumas notícias deveriam se dar sempre quando temos um gato para abraçar”. Sabe que está ficando cega e gosta de ler, de que lhe contem histórias: “Quem vai ler para mim? Quem vai ler histórias para mim quando eu estiver no escuro e mamãe e papai estiverem trabalhando? (…) Para mim as palavras dos livros são muito pequenas, ainda são formigas pretas que não querem dizer nada”. 

E como toda criança, faz aquelas perguntas difíceis de responder, e as verdades tremendas, contundentes, de quem não tem preocupações politicamente corretas. “Quando alguém da sua família lhe dá roupas, eles sempre estão errados no tamanho e muitas vezes pensam que você gosta de uma cor, quando na verdade você a odeia. Mas você não pode dizer nada porque é rude. E toda vez que você vai visitar essa pessoa, você tem que colocar o suéter que não cabe em você”. Os questionamentos de difícil resposta, motivados pelo seu amor pela cerejeira, e pelas árvores que quando ficam adoentadas “tem de cortar porque estava doente, tinha piolho, mas acho que teria bastado se cortássemos as folhas. Quando pegamos piolhos na escola, eles só cortam nosso cabelo, não nos matam”. 

Por isso gosta de Estella, a funcionária do colégio, uma romena muito especial. “Talvez seja por isso que sempre venho vê-la: ela não finge. Mamãe e papai sim. Os professores também e as outras crianças. Só Estella e “Óptimo Turcaret” agem com sinceridade, e isso é importante para mim. Ou talvez eu goste de estar com Estella apenas pelas histórias que ela conta”

Óptimo Turcaret é o nome do gato, importado dos contos de Italo Calvino que o pai lê para ela (quero até imaginar que é autor da devoção da escritora…). Calvino parece que foi conhecido da avó da Mafalda: “A avó disse que conhecia o escritor, que eram amigos, tão amigos que quase o amou. Não entendo bem essas coisas, acho que ou você é amigo ou ama alguém, porque se há duas palavras diferentes para dizer a mesma coisa, não pode ser a mesma coisa”. Mafalda entende de amizade, mas é cedo para aventurar-se no amor, e lá vem outra verdade: “Talvez essa seja a diferença entre amizade e amor;  a amizade é fácil e, em vez disso, o amor enche sua cabeça de confusão, um pouco como a névoa de Stargardt em seus olhos”

A descrição da escuridão progressiva é estremecedora, chocante, real. “A escuridão não é uma sala sem portas ou janelas. A escuridão é um monstro que come todas as suas azeitonas pretas e sonhos. É estranho, pensei que no escuro tudo era preto e pronto. Mas não, as mães são vistas mesmo na escuridão mais escura. Eles podem ver no escuro, como gatos. Para encontrar seus filhos em perigo”. A passagem do tempo – em contrarrelógio com a progressão da cegueira- chega em descrição lírica: “A escuridão que tenho dentro dos meus olhos vai muito mais rápido do que preciso para crescer (…) Na minha opinião, todo mundo tem seu próprio cheiro quando chora. Mas não posso começar a chorar de novo porque, se o fizer, perco tempo”. 

Onde entra a cerejeira nesta vivência crua de Mafalda, que arrepia o leitor? “Seria divertido contar quantos passos existem entre onde posso ver minha árvore e onde ela está” – afirma. Aos poucos, a distância necessária para enxergar a árvore, vai se fazendo menor porque a cegueira aumenta. Os capítulos são os passos -60, 40, 30- desde onde ela consegue enxergar a cerejeira. Passos que vão em decréscimo, como a perda da visão. 

Surge aqui a conexão com os comentários dos nossos leitores da tertúlia: todos também vivemos um processo análogo, onde os dias decrescem -como a distância até a cerejeira- para chegarmos ao final. Vivemos numa permanente contagem regressiva, a mesma que amputa a visão de Mafalda, vai mermando aos poucos a nossa existência. Ao escutar isto, lembrei do comentário de um conhecido -há muitos anos- quando dizia que com o tempo, é preciso usar um pouco mais de perfume…. porque vamos morrendo aos poucos! Nesse contexto, a pergunta que Mafalda se faz assume proporções existenciais: “Ainda somos capazes de recuperar o essencial, o verdadeiramente valioso de nossa experiência de vida? É possível manter o que conhecemos e amamos e, ao mesmo tempo, dar um salto para o desconhecido?”. 

A lista que a menina elabora, das coisas que não poderá fazer mais quando a cegueira se instalar por completo, lembra-nos -mesmo que não o queiramos reconhecer- da importância que assume a sabedoria das prioridades. Decidir o que podemos fazer, o que não vamos fazer, e onde investir o tempo de que dispomos que, sempre, será muito menor do que aquele que imaginamos. Sobre essa sabedoria, evoquei um comentário que a esse propósito fiz quando me delicie com aquele filme dos monges da Argélia, Deuses e Homens

A passagem do tempo é o nosso dilema vital que se vê retratado na distância -cada vez mais curta- para Mafalda enxergar a cerejeira. Dilema cantado no Bolero  que pede para o relógio não marcar as horas, numa tentativa de adiar o amanhecer. Ou nas famosas elegias  daquele poeta do século XV, Jorge Manrique, quando evoca a morte do pai dele.  

Para amealhar a sabedoria das prioridades, as recomendações de Mafalda tem igual valor: “A vovó disse que você não consegue entender as coisas se não as vivenciar. É por isso que as experimento”. Viver cada momento com vibração de eternidade, dizia um santo contemporâneo: foi isso que lembrei quando li o conselho da avó da menina. E depois, outro conselho de Estella que ressoa na cabeça da menina: “Quem tem medo não vive, Mafalda. Eu sorrio de orelha a orelha e meus olhos ardem. Quem tem medo não vive, quem tem medo não vive”. Outro arco voltaico pipoca na minha mente: “Viver com medo, é como viver pela metade” – diz a protagonista daquele simpático musical, Vem Dançar Comigo

Uma anotação final, onde até a raposa do Pequeno Príncipe vem auxiliar Mafalda -e o leitor- nessa tarefa, tão difícil como essencial, de saber o que realmente importa, o que vale a pena: “É muito simples: só vemos bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. A cegueira progressiva de Mafalda, e o nosso tempo que se consome –Tempus Fugit! – mais do que obstáculo, pode ser o recurso para crescer na sabedoria das prioridades.


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