Fiodor Dostoievski : “O Idiota”

Pablo González Blasco Livros Leave a Comment

Fiodor Dostoievski : “O Idiota”.Ed. 34. São Paulo, 2015. 688 págs.

A  Tertúlia Literária mensal, leva-me de volta até as páginas de Dostoievsky, lidas há muitos anos, mas sempre surpreendentes, instigadoras, por vezes enigmáticas. Dou uma olhada por cima em anotações que fui fazendo ao longo da leitura, que teve para mim um sabor de novidade: lembrei do que dizia Borges:  quando  voltamos a um livro passados os anos, e parece outro; na verdade, somos nós os que mudamos. E me pergunto como alinhavar tudo isto num comentário. Não é simples: nem a tentativa, nem, muito menos, o pensamento do escritor.

A descrição das personagens, ao longo do relato, é uma radiografia, ou melhor, uma disseção da alma. Aí radica um dos pontos fortes de Dostoievski que o torna um clássico perene. Fala dos “jovens, ambos quase sem bagagem, ambos vestidos sem elegância, ambos de semblantes bastante formosos e ambos com vontade de finalmente começar a conversar”. E dos “senhores sabe-tudo que às vezes são encontrados, até com bastante frequência, em certo segmento social. Sabem tudo, toda a intranquila curiosidade da sua inteligência e a sua capacidade tendem irresistivelmente para um aspecto, é claro que pela ausência de interesses e concepções de vida mais importantes, como diria um pensador de hoje. É a pura verdade, só fazem se apropriar de graça de todas as potencialidades russas”.

O general, outra personagem singular, que “nunca se queixou de ter casado cedo, nunca tratou seu casamento como um enlevo da mocidade imprevidente, respeitava a esposa e às vezes a temia a tal ponto que até a amava”. Os convidados -muitos sempre em todas as festas- multidão que era “constituída inclusive de pessoas bastante simples que, aliás, em sua presunção nem sabiam elas próprias que tinham muita coisa de bom — mero arranjo do qual, ademais, elas não tinham culpa porque o haviam recebido de forma inconsciente e por herança”. E Gania, um “tipo que era a personificação, a encarnação e o cúmulo da ordinariedade mais descarada, mais presunçosa, mais banal e abjeta! – O senhor é a ordinariedade pomposa, a ordinariedade sem dúvidas e olimpicamente tranquila; o senhor é a rotina das rotinas!”

Nastácia Filíppovna, personagem fonte de ciúmes, de amor e desentendimentos, transita por todo o romance. “Não tinha apreço por nada, e menos ainda por si mesma, estava em condição de arruinar a si mesma, de modo irreversível e revoltante, pagando com a Sibéria e trabalhos forçados, contanto que ultrajasse o homem por quem nutria uma aversão tão desumana. Em torno a ela criou-se uma estranha fama: todos sabiam da sua beleza, e só; ninguém podia gabar-se de nada, ninguém podia contar nada: a reputação, a instrução dela, suas maneiras elegantes, seu senso de humor. era sempre irrefreável nos seus desejo e implacável se resolvia enunciá-los, ainda que fossem os desejos mais caprichosos e até mais inúteis para ela. Nastácia acredita no príncipe “como pessoa verdadeiramente fiel pela primeira vez em toda a minha vida. Ele acreditou em mim ao primeiro olhar, e eu acredito nele”. E o príncipe corresponde: “A senhora precisa muito de cuidados, Nastácia Filíppovna. Eu vou cuidar da senhora. Não faz muito, vi o seu retrato, e foi como se tivesse reconhecido um rosto conhecido. No mesmo instante tive a impressão de que a senhora parecia me chamar… Eu… eu vou respeitá-la a vida inteira, Nastácia Filíppovna — concluiu de súbito o príncipe, como se repentinamente recobrasse os sentidos, corando e compreendendo o tipo de pessoas diante de quem falava”.

Mas as personagens são tantas e tão variadas -não vale a pena tentar ir registrando tudo o que se lê, porque continuam aparecendo de acordo com a importância- que Dostoievski se pergunta: “o que o romancista tem a fazer com pessoas ordinárias, totalmente comuns, e como colocá-las diante do leitor para torná-las minimamente interessantes? Evitá-las por completo na narração é totalmente impossível, porque as pessoas ordinárias são, a todo instante e em sua maioria, um elo indispensável na conexão dos acontecimentos cotidianos; portanto, evitá-las seria violar a verossimilhança. A nosso ver, o escritor deve empenhar-se em descobrir os matizes interessantes e ilustrativos até mesmo entre as ordinariedades”. Em outro ponto complementa: “Há pessoas de quem é difícil dizer alguma coisa que as represente de uma vez e integralmente, no seu aspecto mais típico e característico; são aquelas habitualmente chamadas de pessoas comuns,  e que, de fato, constituem a imensa maioria de qualquer sociedade. Em seus romances e novelas, a maioria dos escritores procura pegar os tipos da sociedade e representá-los em imagens e forma artística — tipos que se encontram integralmente com extraordinária raridade na sociedade e ainda assim são quase mais reais que a própria realidade”.

O autor utiliza recursos que encontramos em outras obras suas. Assim a narrativa de Hippolit, é uma história dentro da própria trama, como a lenda de Inquisidor se introduz nos Irmãos Karamazov. Narrativas no meio de uma história, em conexão livre, onde parece que se perde o argumento para depois recuperá-lo. Afinal, são as narrativas as que conseguem esculpir as personagens com acerto.

Uma variante surpreendente é o tempo sentido como vivência vitalista: o tempo que transcorre desde a sentença de morte até a execução. Ou da áurea até a crise convulsiva (para falar de algo que o escritor conhecia muito bem,  na própria pele) . Anota: “Uma vez esse homem foi condenado com outros ao patíbulo e foi lida para ele a sentença de morte por fuzilamento por crime político. Uns vinte minutos depois foi lido também o indulto e designado outro grau de punição; mas, não obstante, no intervalo entre as duas sentenças, vinte minutos ou ao menos quinze, ele passou na indiscutível convicção de que alguns minutos depois ele morreria de repente. Eu tinha uma vontade terrível de ouvi-lo quando vez por outra ele recordava as suas impressões daquele momento e várias vezes me pus a interrogá-lo. Ele se lembrava de tudo com uma nitidez incomum e dizia que nunca iria esquecer nada daqueles instantes (…) Matar por matar é um castigo desproporcionalmente mais terrível que a morte cometida por bandidos. Mas, no caso de que estou falando, essa última esperança, com a qual é dez vezes mais fácil morrer, é abolida com certeza; aqui existe a sentença, e no fato de que, com certeza, não se vai fugir a ela, reside todo o terrível suplício, e mais forte do que esse suplício não existe nada no mundo”. O mesmo acontece com o aviso, aura, da crise epiléptica, “algo cheio daquela expressão estranha pela qual alguns percebem epilepsia no indivíduo à primeira vista” .

O protagonista que dá nome ao livro, é o Príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin, um jovem em quem “as frequentes crises de sua doença fizeram dele um idiota quase completo”.  Dostoievski desfruta na descrição peculiar desta personagem desconcertante, que continuamente divide as opiniões e abafa com a sua bondade ingênua, quase patológica.

“O príncipe tinha um traço peculiar, que consistia na ingenuidade incomum da atenção com que ele sempre ouvia alguma coisa que o interessava e das respostas que dava quando a ele faziam perguntas a respeito. Em seu rosto e até na postura do seu corpo manifestava-se de certo modo essa ingenuidade, essa fé que não suspeitava nem de zombaria, nem de humor (…) Ou o príncipe era algum devasso e ali comparecera forçosamente a fim de pedir por causa de sua pobreza, ou o príncipe era simplesmente um bobo e sem ambição, porque um príncipe inteligente e ambicioso não estaria sentado numa sala de recepções e conversando com um criado sobre os seus problemas”.

Míchkin não é alheio às perplexidades que causa: “Se me receberem, tudo bem, se não me recebem, talvez também esteja tudo muito bem. Só que, parece, não podem deixar de receber: a generala, é claro, gostará de ver o mais antigo e único representante da sua linhagem, e ela tem muito apreço por sua estirpe, como ouvi com precisão a seu respeito (…) Nesse instante havia tanta doçura no olhar do príncipe, seu sorriso estava tão isento de qualquer matiz, por ínfimo que fosse, de antipatia oculta, que o general parou de súbito e meio repentinamente olhou de outro jeito para o seu visitante; toda a mudança do olhar se deu em um abrir e fechar de olhos”.

O príncipe tem uma sintonia especial com as crianças cuja ingenuidade parece reproduzir a todo momento, porque -afirmação contundente do escritor russo- “por intermédio das crianças cura-se a alma”. Daí a narrativa do príncipe:  “Pode-se dizer tudo a uma criança — tudo; sempre me deixou perplexo a ideia de como os grandes conhecem mal as crianças, os pais e as mães conhecem mal até os seus próprios filhos. Não se deve esconder nada das crianças sob o pretexto de que são pequenas e ainda é cedo para tomarem conhecimento. Que ideia triste e infeliz! E como as próprias crianças reparam direitinho que os pais acham que elas são pequenas demais e não entendem nada, ao passo que elas compreendem tudo. Os grandes não sabem que até nos assuntos mais difíceis a criança pode dar uma sugestão sumamente importante  (….)  Decidi ser gentil e franco com elas na primeira oportunidade; porque ninguém vai exigir mais de mim. Talvez aqui também me achem uma criança — que achem! Também me acham idiota sabe-se lá por quê, eu realmente estive tão doente naquela época que parecia mesmo um idiota; mas que idiota sou agora, quando eu mesmo compreendo que me consideram um idiota? Entro em algum lugar e penso: ‘Pois bem, me consideram idiota, mas apesar de tudo eu sou inteligente e eles nem adivinham’ Essa ideia me ocorre frequentemente”

As reações dos interlocutores falam por si só. “Oh, príncipe, que bela e ingênua alma, pode-se até dizer que o senhor tem uma visão pastoril da vida. E de onde eu fui tirar ainda há pouco que o senhor é um idiota! O senhor percebe o que os outros nunca irão perceber. Dá para conversar com o senhor, mas é melhor não falar! (…) Vim aqui procurar a sua amizade, meu amável príncipe; o senhor é um homem incomparabilíssimo, isto é, um homem que não mente a cada passo e talvez nunca minta, e eu preciso de um amigo conselheiro para um caso, porque agora estou terminantemente entre os infelizes. (…) Não é fácil conseguir o paraíso na terra; e apesar de tudo o senhor conta um pouco com o paraíso; paraíso é coisa difícil, príncipe, bem mais difícil do que parece ao seu maravilhoso coração”.

E as reflexões dos que com Míchkin tropeçam, ressumem bem esta personagem, mistura de fascínio e de perplexidade: “Eles dizem que o príncipe é um excêntrico, mas eu sei distinguir. Porque o coração é o que importa, o resto é bobagem (…) Há muito tempo teria atentado para o fato de que esse ‘idiota’, que ele estava espezinhando tanto, às vezes era capaz de compreender tudo imediatamente e nas sutilezas e transmitir de maneira extremamente satisfatória”.

Nas obras de Dostoievski o argumento, geralmente simples, é salpicado com verdadeiras cargas de profundidade, que, aliás, costuma ser o que permanece, aquilo que é invocado nas citações. Impossível trazer aqui todas à tona, contento-me com alguns destaques, começando pelas paixões, sempre um prato forte. Tema que  o escritor muito bem resume neste pensamento: “Não esqueçamos que as causas das ações humanas costumam ser inumeravelmente mais complexas e diversas do que depois sempre as explicamos, e raramente se delineiam de maneira definida. Às vezes o melhor é o narrador limitar-se à simples exposição dos acontecimentos”.

Transcrevo: “É sabido que o homem excessivamente envolvido por uma paixão, sobretudo se já está entrado em anos, fica totalmente cego e disposto a suspeitar de esperança onde ela absolutamente inexiste; além disso, perde a razão e age como uma criança tola, mesmo sendo um poço de sabedoria (…) É por causa da indolência humana que as pessoas se classificam umas às outras a olho e não conseguem chegar a nada (…) Uma mulher é capaz de atormentar um homem com crueldades e zombarias, e nenhuma vez sentir remorso porque ela irá sempre pensar consigo, olhando para ti: Agora mesmo eu vou atormentá-lo até a morte, mas em compensação depois eu vou recuperá-lo com meu amor (…) Porque em você tudo é paixão, você converte tudo em paixão (….) Sabendo com que facilidade se inoculam os hábitos do luxo e com que dificuldade se renuncia posteriormente a ele quando o luxo vai se transformando pouco a pouco em necessidade”.

Amor e sentimentos se destacam luminosamente ao longo da narrativa. “Eu mesmo te expliquei que eu não a amo por amor, mas por compaixão. Acho que estou definindo isto com precisão  (…)Sei muito bem que todos sentem vergonha de falar dos seus sentimentos, mas eu estou aqui falando e não sinto vergonha na sua presença. Por que você se envergonha de seus sentimentos? São os seus melhores sentimentos, por que se envergonha deles? (…) A compaixão é a lei mais importante e talvez a única da existência de toda a humanidade. Você não tem ternura: só verdade, portanto, é injusto (…) Com você eu quero falar de tudo, de tudo e até do mais importante quando me der vontade; por sua vez, você não deve esconder nada de mim. Ao menos com uma pessoa eu quero falar de tudo como se falasse comigo mesma”.

E, também,  a aristocracia e o amor pela pátria, tema sempre presente nos russos: “Até no próprio inimigo da sua pátria o coração russo pode distinguir um grande homem! (…)  Nessa nova terra é difícil decifrar novas pessoas”. Ademais, começava a acreditar apaixonadamente na alma russa. Concluíra muita, muita coisa que lhe era totalmente nova nesses últimos seis meses, coisa imprevisível, inaudita e surpreendente! Mas a alma alheia é escuridão, e a alma russa também é escuridão; para muitos é escuridão (…) A todo instante se queixam de que entre nós não há gente prática; de que políticos, por exemplo, há muitos; generais também há muitos; administradores vários hoje existem em profusão, e no número que se fizer necessário — mas gente prática, não. Pelo menos, todo mundo se queixa de que não há.  A praticidade em que o homem russo tanto falha, em linhas gerais”

Religião e Transcendência, tema central, sempre presente em Dostoievski, é parte essencial das cargas de profundidade. “Em Deus ele não acredita. Só uma coisa me surpreendeu: ele parecia não falar absolutamente do que estava falando, o tempo todo, e me surpreendeu precisamente porque ainda antes, por mais que eu encontrasse pessoas descrentes e por mais que lesse livros dessa natureza, eu tinha sempre a impressão de que tanto o que falavam quanto o que escreviam nos livros nada tinha a ver com o que propagavam, embora na aparência dessem a impressão de que falavam do que propagavam (…) É disso que eu gosto! Não, isso é que é o melhor de tudo! — gritava ele convulsivamente, quase sufocando-se. — Um não acredita absolutamente em Deus, e o outro acredita tanto que degola pessoas rezando… Não, isso, meu irmão príncipe, não se inventa! (…) A descrença no diabo é uma ideia francesa, uma ideia leviana. O senhor sabe quem é o diabo? Sabe o nome dele? E sem saber sequer o nome dele, o senhor ri da sua forma, a exemplo de Voltaire, ri dos cascos, do rabo e dos chifres dele, que o senhor mesmo inventou; porque o espírito mau é um espírito grande e temível (…) Quando Deus deseja castigar, a primeira coisa que faz é encantar a razão”.

Um sentimento religioso delicado e por vezes emocionante, como o que o príncipe recolhe nesta narrativa: “A mulher ainda era jovem, a criança tinha umas seis semanas. A criança lhe sorriu e, pela observação dela, pela primeira vez desde o seu nascimento. Vejo de repente ela se benzer com devoção, com muita devoção. “Que está te acontecendo, jovenzinha? — perguntei”. (É que naquela época eu perguntava tudo.) “É porque, diz ela, do mesmo jeito que a mãe sente alegria quando recebe o primeiro sorriso do seu recém-nascido, Deus sente essa mesma alegria sempre que vê do céu um pecador se posicionando de todo coração para orar diante Dele.” Foi uma mulher que me disse isso, quase com as mesmas palavras, e expressou esse pensamento tão profundo, tão sutil e verdadeiramente religioso, esse pensamento em que toda a essência do Cristianismo foi expressa de uma vez, isto é, todo o conceito de Deus como nosso pai querido e da alegria de Deus com o homem como a alegria do pai com o seu filho querido — a ideia central de Cristo!”

Religião e alma russa, numa simbiose inseparável, sublinhado pelo escritor mais uma vez: “Aí há qualquer coisa sobre a qual irão escorregar eternamente os ateísmos e da qual irão dizer eternamente coisas diferentes. No entanto, o principal é que a gente percebe isso com mais clareza e antes de tudo no coração russo, eis a minha conclusão! É uma das minhas primeiras convicções que eu extraio da nossa Rússia (…) O homem russo se torna ateu com mais facilidade do que todos os outros homens em todo o mundo! E os nossos não só se tornam ateus como passam a crer forçosamente no ateísmo como se fosse numa nova fé, sem absolutamente se darem conta de que passaram a acreditar no nada. É essa a nossa sede! “Quem não tem o solo debaixo dos pés não tem Deus.” Esta expressão não é minha. Esta expressão é de um comerciante adepto dos velhos ritos, que eu encontrei quando viajava. É verdade que ele não se exprimiu assim, ele disse: “Quem renunciou à terra pátria, renunciou ao seu Deus”. Arrepia ler isto, e saber o que aconteceu -e acontece- com a Rússia nos tempos que sucederam a Dostoievski.

Na edição consultada, as muitas notas dão ideia da imensa cultura do escritor. Cita-se D. Quixote, a modo de cavaleiro pobre, “um homem capaz de ter um ideal, e em segundo lugar, uma vez que se propôs o ideal, foi capaz de acreditar nele e, tendo acreditado, de lhe dedicar cegamente toda a vida”. Eu pensei que D. Quixote leu demais sem assimilar, e chegou onde chegou, algo similar aconteceu com o próprio Dostoievski: leu muito, de inúmeros autores, e aquilo que não lhe deu tempo de assimilar acaba creditando ao príncipe. Mais uma confirmação de que para escrever, para se exprimir, é preciso ler, lapidar as formas, rodear-se de livros, como também dizia Borges quando já cego, continuava comprando livros para sentir a sua presença. Um desafio para os tempos de analfabetismo digital que vivemos….

E deixo para o final a carga de profundidade mais citada desta obra: a beleza. Por sinal, o príncipe nunca pronunciou a famosa frase, mas a referência vem de outros, neste diálogo:

– Príncipe, é verdade que o senhor disse uma vez que a beleza salvará o mundo? Senhores — gritou alto para todos —, o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo! Mas eu afirmo que ele tem essas ideias jocosas porque atualmente está apaixonado. Senhores, o príncipe está apaixonado; quando ele entrou há pouco eu me convenci disso. Não core, príncipe, vou sentir pena do senhor. Qual é a beleza que vai salvar o mundo?

-É difícil julgar a beleza; eu ainda não estou preparado. A beleza é um enigma

O príncipe Míchkin, o idiota, de quem lembro ter comentado há muitos anos que mais do que idiota me parecia um romântico. Era também a visão da minha própria juventude. Hoje, passados muitos anos, vislumbro uma profundidade maior na sua figura, que deixa em evidência nossa própria pobreza interior. “Eu discordo e fico até indignado quando o chamam — bem, quando alguém o chama — de idiota; o senhor é inteligente demais para receber tal denominação; mas o senhor também é estranho o suficiente para não ser como todas as pessoas. Quem quiser poderá enganá-lo, e quem quer que o engane ele depois perdoará, a todo e qualquer um (….) A delicadeza e a dignidade é o próprio coração que ensina e não um mestre de dança (…) No amor abstrato pela humanidade você quase sempre ama apenas a si mesmo” (o que me lembrou A vida de D. Quixote e Sancho de Miguel de Unamuno quando diz que amar à humanidade é como amar-se a si próprio….O desafio é amar a Sancho e nele a toda a humanidade.

Profundidade infantil que desperta a inveja boa, a emulação, nestas anotações:

-Príncipe! O senhor é tão bom, tão simples que às vezes eu até tenho pena do senhor. Olho para o senhor enternecido; oh, Deus o abençoe! Oxalá sua vida comece e floresça… no amor.

-Como nós ainda somos crianças! E… e… como é bom que somos crianças” — exclamou finalmente, embevecido. —

-Veja só o que o senhor lamenta! — riu o príncipe. — Quer dizer então que a seu ver eu estaria mais feliz se estivesse preocupado? . Passe ao largo da gente e nos perdoe pela nossa felicidade! — pronunciou o príncipe em voz baixa.

Uma voz que é um sussurro, penetrante, que atinge nossa alma como o vento gelado da estepe russa, mas também a aquece com essa felicidade invejável do idiota. Julgar os outros? Pretender que os entendemos? É hora de olhar com respeito, com a ingenuidade das crianças que curam nossa alma.

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