A garota desconhecida & A ausência que seremos: O médico, sua consciência e sua essência em dois filmes.

Pablo González Blasco Cinema, Filmes 2 Comments




A garota desconhecida




A ausência que seremos





Um filme espanhol, com um ator que aprecio, foi o ponto de partida. Um ator nascido em La Rioja – terra de vinhos, Espanha profunda- protagonista de filmes de Almodóvar, e que aqui consegue colocar um sotaque sul-americano, o que tem mérito para os que temos ouvido para essas variações do espanhol falado.

Tudo começou como uma curiosidade e acabou convertendo-se numa reflexão profunda, uma verdadeira catarse. Essa é, por sinal, a função das artes entre as quais o cinema se conta. Diz a mitologia que Zeus, sabendo que o homem é um ser que esquece -esquece o fundamental, o essencial, não os detalhes periféricos- criou as musas e as artes para lembrar-lhe do que, afinal, realmente importa. Um golpe de memória afetiva, um chamado a mergulhar na sua consciência, a redescobrir a sua essência.

A Ausência que Seremos, esse é o título traduzido ao português do filme que conta a história de Héctor Abad, um médico colombiano, professor universitário, pai de seis filhos, líder social e formador de opinião, homem devotado à família e aos seus pacientes. Na verdade, o filme conta parte da história -certamente teve muitas mais coisas importantes- porque é mais fácil usar os lados tendenciosos. E o título é importado de um poema de Borges, (El olvido que seremos) que o médico carregava no bolso quando foi assassinado. O filho de Hector, o único homem entre cinco mulheres, escreve o romance que também serve de roteiro ao filme.

Assisti o filme com emoção. E mal acabou não resisti e mandei uma mensagem a um colega médico, grande amigo, professor da Universidade de La Sabana, próxima a Bogotá. Respondeu de bate pronto: “Muito obrigado. Li o livro faz anos e há alguns meses vi o filme. Héctor Abad, sempre uma inspiração como pessoa, cidadão, sanitarista. Aqui em Colômbia, berço desta e de muitas outras mortes absurdas não deixa de estar vigente. Lendo o poema que inspira o nome do livro do seu filho, sentimos cada vez mais a proximidade “àquele homem” mais do que ao cidadão e ao sanitarista”. Reli o poema de Borges, que já tinha localizado, fiquei pensando…

Pouco depois, me chega nova mensagem do meu colega colombiano recomendando-me outro filme “em sintonia” que eu já tinha visto há alguns anos, mas fui obrigado a rever, agora com novos olhos. Trata-se de A garota desconhecida, um filme belga dos irmãos Dardenne. Uma jovem médica decide não abrir a porta do seu centro de saúde, quando chamam fora do horário de modo intempestivo. No dia seguinte, aparece uma emigrante morta, e a câmera de segurança revela que era ela quem chamava com insistência. Ai decola o filme, e o enfrentamento da médica com a sua consciência. De fato, este filme estava na minha lista de “pendentes a comentar”, mas não me decidia, estava -imagino- como a médica pensando para que abrir a porta, para que pensar e escrever, se ninguém me paga para isso, não é a minha obrigação. A mistura de ambos os filmes, catalisados pelos comentários do meu colega, foi o estopim que gera estas linhas, ou melhor, a minha reflexão da prática médica de mais de quatro décadas, que palidamente tento esboçar aqui.

Afinal, para que sou médico? O despertar vocacional está muito claro na minha memória, quando lembro do meu pediatra visitando todos os irmãos pequenos em casa, e no qual minha avô materna confiava: “não tragam outro médico para mim, eu quero esse” -dizia minha avô Pilar, espanhola de Toledo, uma mulher forte, “de armas tomar” como se diz em espanhol castiço. Eu pensava: quero ser como este senhor!

A questão não é nem de longe uma crise vocacional. Sei que escolhi o caminho certo, o que me encaixa, me realiza, me deixa feliz. O tema é periférico, mas me atinge diretamente como médico e como professor, quer dizer, como alguém que tenta educar e reproduzir esse modelo de prática profissional que te faz apalpar a tua utilidade, e se traduz em realização profissional e felicidade. Diariamente escuto queixas, reclamações, lamentos e decepções: não da medicina, mas dos médicos, ou melhor, do “operacional da medicina” que, antes ou depois acaba salpicando os médicos, porque afinal são os agentes desse modus faciendi.

Há pouco mais de um mês, uma aluna recém formada enviou-me uma mensagem que transpirava desconsolo: “Professor, como o senhor consegue compatibilizar a prática da medicina como deve ser feita e sujeitar-se ao sistema de atender por atacado, como em Tempos Modernos de Chaplin?”. Sorri, pensei, e após algumas horas, mandei uma resposta serena, dizendo que hoje, sozinha, não conseguiria. Eu mesmo -acrescentei- se estivesse por conta própria, sem o apoio de um time que pensa e reflete, que se apoia, teria jogado a toalha faz tempo.

Não é possível ser Batman, porque a Gotham City da medicina penetrou capilarmente no sistema. Não são assassinos, mas sim gente que trabalha com a mediocridade, sucateando os médicos -que se deixam sucatear, tudo seja dito- pensando apenas em resultados na conta corrente (afinal, quem corta o bacalhau são os investidores das seguradoras que exigem dividendos) O paciente é, lamentavelmente, o último fator a levar em conta e, se possível, evitar. O Coringa, hoje, não mata nem explode edifícios; trabalha -sempre com o sorriso sarcástico- no atacadão da saúde, no saldão de usados, onde os médicos -uma verdadeira fauna epidémica produzida por mais de 350 faculdades neste nosso Brasil, e também nos países vizinhos- se sujeitam a um empreguinho que envergonharia a diarista que trabalha honestamente limpando a casa da avô deles, ou da minha.

O que fazer? Explodir o sistema? Suprimir a tábua de salvação que o usuário compra a preço de ouro -compra a hotelaria, o Las Vegas da saúde- e se encontra com um modelo Titanic, lindo e maravilhoso, que está afundando? Obviamente ele nem repara porque lhe servem, no lobby do hospital onde decidiu passar para fazer uns exames (afinal, paga uma nota mensal pelo plano) um Veuve Clicquot geladinho….Mas falar com médico, encontrar alguém que assuma o caso, que “mate a bola no peito e saia jogando”, isso é muito pedir. Aliás, não está no contrato. Você pagou pela hotelaria e pelos acessórios……Não venha exigir o que não temos. A descrição nos levaria longe e também a …..lugar nenhum.

Voltemos aos filmes que é, no meu modo de ver, a única saída. Voltemos à minha resposta para a aluna. Um time de apoio, quer dizer, pessoas que praticam a tua cultura médica, que sabem, gostam e são felizes sendo médicos. Uma resistência. Como a descrita naquele magnífico filme de Truffaut Fahrenheit 451: os homens-livro, que transmitiam a cultura enquanto os bombeiros queimavam os livros, por serem proibidos. É disso que precisamos em primeiro lugar. Ou melhor, em segundo, porque o primeiro é o compromisso pessoal: o mergulho na própria consciência, que foi o arranque deste comentário.

A consciência insubornável de Héctor Abad, que faz o filho pedir perdão pelo comportamento errado, que não pacta com a mediocridade política, que não se poupa em esforços e dedicação. A consciência da médica belga que, mesmo sendo fora de horas -aquilo de “o meu plantão já acabou, não me venha com problemas”- vai buscar o problema porque a possibilidade da omissão frente ao seu compromisso vocacional, lhe oprime. Dizia o Professor Decourt, um exemplo que tive o privilégio de ter por perto, que a medicina é uma confiança (do paciente) perante uma consciência (do médico). Sobram comentários.

Desfilaram pela minha memória muitos exemplos de como os meus pacientes foram moldando e lapidando a minha consciência com a sua postura. Um chamado de madrugada, onde a paciente dizia que o marido insistia que não me chamasse, que incomodaria e ela respondia: “mas ele é médico!”. Outro amigo que me convoca para ver a esposa e eu, médico jovem e inexperiente, fico encabulado na hora em que ele puxa o talão de cheques. “Você tem que cobrar. De graça, só relógio trabalha. E o fato de sermos amigos não implica nada. Ou você pensa que o inimigo vai te chamar para ver a mulher dele?”. E outro, amigo do coração, um homem de integridade imensa, que me deixava um cheque assinado em branco e me dizia: “Preencha com o valor que lhe pareça adequado, e peça para sua secretária me ligar depois informando”. Lembro de tudo isso, com emoção que não quero conter, e agradeço como os meus pacientes foram me formando. Essa é uma dívida que algum dia terei de saldar: as memórias de como um médico jovem foi educado pelos seus pacientes.

Por isso, quando ouço falar do sistema, de alguém a quem culpar “pela medicina de hoje” (o que é verdade); ou dos protocolos e otimização de processos (que deixam de fora o fator humano, e ai entortam de vez); ou das sindicâncias e processos que tomam conta do que chamam de ética médica institucional (quer dizer, como se livrar de um processo), surge como um gigante o poema de Borges, el olvido, a ausência que seremos, se abrimos mão do que é indelegável: a própria consciência.

Também as lembranças positivas neste sentido acodem à memória: há muitos anos um amigo, bom médico e dedicado, virou gestor e me chamou para cuidar da mãe dele. Como assim, perguntei? E os teus pacientes? Ele respondeu: alguém me enganou dizendo que médico troca da carro todo ano, tem uma casa na praia e outra na montanha. Quando vi que eu não conseguiria, decidi mudar para gestor e empresário, porque os pacientes -que amo e respeito- não têm nenhuma culpa da minha possível frustração! Uma conduta coerente, e louvável.

O médico que cuida dos que tem à volta. Que cobra, mais, menos, muito ou nada, porque médico não tem salário tem honorários, coisa que também aprendi com outro professor querido. O médico que é um profissional liberal que sabe dará contas a Deus, à sua consciência, e a confiança que depositam nele. O médico que cuida da comunidade -o que não significa pobres ou ricos, mas todos os que te solicitam. E aqui lembro que eu atendia bem vestido nos chamados de madrugada quando se tratava de uma aristocrata, ou quando tinha de entrar no beco de uma favela. Muitas vezes me fiz acompanhar de alunos -hoje colegas queridos de trabalho, parte da comunidade de cultura que me sustenta – e algum me comentou surpreendido sobre a minha indumentária -elegante, ele dizia- tanto quando acudíamos a uma mansão, como a vestir o cadáver de alguém que tinha falecido, ou até o recanto de um cortiço.

Dois filmes desafiadores para os médicos. Uma pista de decolagem para enfrentar a sua consciência -em silêncio, em solidão, sem deixar-se contaminar com desculpas do sistema. E para revisitar a sua essência, o motivo de ter escolhido esta profissão, ou de sentir-se escolhido, chamado –vocare, latim puro- e de responder afirmativamente. Uma reflexão necessária que renderá dividendos magníficos, enquanto lá no fundo, ecoam os versos do poema de Borges, que me atrevo a traduzir: “Já somos o olvido que seremos, o pó elementar que nos ignora……Não sou o insensato que se apega, ao mágico som do seu nome, penso com esperança naquele homem, que não saberá que existi sobre a terra, sob o indiferente azul do Céu, esta meditação é um consolo”.

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