Anton Tchekov “As Três Irmãs”

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Anton Tchekov “As Três Irmãs”

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Um livro, para quem tem enraizado o hábito de ler, leva geralmente até outro. Essa quase compulsão de que falava Borges que, mesmo cego, continuava comprando e rodeando-se de livros, da sua amável presença. Foi assim como cheguei até esta pequena obra de Tchekov, decolando da leitura de um livro de memórias de um autor que ama o teatro e exerce como crítico. Chamou-me a atenção o que Marcos Ordóñez comentava a propósito da idade que avança inexoravelmente, e que sentia-se, por vezes, como o médico Tchebutikin, da obra que nos ocupa: “Se vocês não gostassem de mim, já há muito estaria morto”. O fato de ser velho foi o que tocou o autor das memórias;  e o de ser médico, certamente o emparelha com Tchekov que, embora conhecido mundialmente como escritor e contista, era também médico e fazia questão de afirma-lo:  “A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante.”

Difícil narrar um argumento que está escrito para ser interpretado. Como diz Ordóñez um bom ator é capaz de reescrever uma peça de teatro sem mudar uma vírgula. Tudo está na intepretação.  Por que então estes comentários? Apenas a modo de aperitivo, para despertar o gosto, o que parece ser importante. Eu, pessoalmente, que não sou muito propenso ao teatro -falta de costume e, certamente, uma carência cultural- acompanho colegas meus de colégio que estão envolvidos em escrever, adaptar, dirigir peças. E todos coincidem que é preciso ler teatro, não só assistir. Suponho que se trata de uma educação do paladar dramático.

A peça de Tchekov, nos leva até o interior da Rússia no cenário, e até a intimidade dos sonhos e anseios de três irmãs. Uma vida monótona, que se consome em expectativas -que nunca se cumprem- e descuida o quotidiano. Falta do que fazer, poderíamos concluir. Mas o escritor russo diz o mesmo de um modo elegante, sugestivo: “Tem muito mais valor não apenas o homem que trabalha, mas o boi também, e o cavalo de carga, do que uma jovem casada que acorda ao meio-dia, tem seu café da manhã servido na cama, demora duas horas para se aprontar… Ai, como isso é terrível!”. Irina, a mais jovem, insiste no tema: “Estamos tristes e temos uma visão tão sombria da vida porque não conhecemos o trabalho. Descendemos de pessoas que desprezavam o trabalho”.

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Milagre na Cela 7 : Um amor forte como a morte

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Koğuştaki Mucize. Diretor:  Mehmet Ada Öztekin. Aras Bulut IynemliCelile Toyon UysalDeniz Baysalİlker AksumMesut AkustaNisa Sofiya Aksongur. Turquia 2019. 132 min.

Quando chegam  pisando firme produções de países, vamos dizer, não convencionais é preciso estar de olho aberto. Assim foi com libanês  O Insulto uma magnífica apologia do perdão; ou com o finlandês- estoniano O Esgrimista que nos fez vibrar com a paixão por ensinar. Agora surge sem fazer barulho, através de Netflix, este filme turco singular. Justamente em momentos de confinamento e pandemia, onde o desespero corre solto e a busca por respostas se faz esperar, um homem oligofrênico, injustamente encarcerado, nos oferece um exemplo resumível numa palavra: amor!

“Teu pai tem a mesma idade que você” -explica a avó matriarca para a menina que se perguntava o que havia de errado com o pai dela. A história remete, como arco voltaico, para aquela interpretação sublime de Sean Penn em Uma Lição de Amor. Se naquele filme o duelo era entre a legalidade da custodia da criança e o amor insubstituível de um pai,  neste caso é a vida a que está em jogo. Mesmo assim, as armas do homem diminuído -do retrasado mental- são as mesmas. “Ele tem o cérebro do tamanho de uma ervilha” -diz o companheiro de cela, o durão que controle os  presos. Mas, em palavras bíblicas, o amor é forte como a morte, e no caso que nos ocupa nunca a sentença foi tão apropriada.

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Jordan Peterson: “Mapas do Significado. A Arquitetura da Crença”.

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Jordan Peterson: “Mapas do Significado. A Arquitetura da crença”. É Realizações. São Paulo. 2018. 696 págs.

Animado por alguns comentários que tinha escutado sobre este autor, e talvez por manifestá-los em voz alta -devo ter dito que nunca tinha lido nada dele- eis que caiu no meu colo este livro no último Natal. Toca enfrentar as quase 700 páginas. E com alguns dias de relativa folga pela frente, dediquei-me à tarefa.

Um verdadeiro tour de force, que me deixou esgotado, ou melhor, desnorteado. Tinha tanta árvore por lá que não conseguia enxergar o bosque. Lembro que alguém me perguntou: “Afinal, qual é a tese dele?”. Eu tinha lido 150 páginas e confesso que não consegui me situar.  A tentativa de centrar  o tema -nessas 150 páginas – ficava embaçado por ser repetitivo. Também me surpreendeu o excesso de “aspas”. Sempre pensei que quando se colocam muitas aspas é que falta solidez ao conceito, ou pobreza de vocabulário; ou, neste caso, a carência pode correr por conta da tradução.

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Immaculée Ilibagiza; “Sobrevivi para contar”

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Immaculée Ilibagiza; “Sobrevivi para contar”. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro. 2006. 340 pgs.

“Se não podemos mudar uma situação, mudar a nós mesmos se torna o desafio”. Esse pensamento de Viktor Frankl encontra-se estampado na primeira página deste livro singular. Confesso que me ajudou logo de cara: estava num avião, no assento do meio –não consegui marcar o lugar com antecedência- com uma viagem de 6 horas por diante, entre Nova York e Dublin. Acomodei-me do melhor modo possível e dei sequência à leitura. Li o livro em dois tempos, sendo que no segundo me encontrava um pouco mais confortável, no assento do corredor, voo de volta entre Dublin e São Paulo. Mais 10 horas de aperto.

     Mas nessa altura eu já estava dando risada de gol contra depois de surpreender-me com a história desta jovem de 24 anos que ficou fechada num banheiro, de pouco mais de 1 mjunto com outras seis mulheres, por quase três meses. Minha situação era, por tanto, de um conforto equivalente a um hotel de 5 estrelas, e o serviço de bordo equiparável aos melhores restaurantes do planeta. Vamos parar de reclamar. Foi a frase que me acudiu à cabeça: não sei se a formulei em voz alta, ou se foi um propósito para incorporar na minha vida, ou se foi alguém –uma voz divina, como as que Immaculée escutava no seu cativeiro- quem a formulou com clareza meridiana.

     O cenário do livro é o genocídio que aconteceu em Ruanda na década de 90, onde morreram milhares de pessoas, em assassinatos sangrentos, praticados pelos Hutus contra os Tutsis, etnia esta à qual pertence a autora do livro. Tentar entender o tamanho deste drama está fora do propósito do livro. E penso que está fora do alcance de qualquer estudo sociológico que os intelectuais dos assim chamados países civilizados costumam produzir. É algo incompreensível, perante o qual se pode reagir com revolta, desespero, sede de vingança, descrédito absoluto pela humanidade. Ultrapassa os parâmetros racionais, supera a ficção, e não adianta perguntar-se quem são os bandidos e quem os mocinhos da história. É uma tragédia social e pública.

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