Granizo: Incertezas e culpados. Retrato da realidade atual com sabor de Tango.

Pablo González Blasco Cinema, Filmes 2 Comments

Granizo. Diretor: Marcos Carnevale. Guillermo Francella. Peto Menahem, Romina Fernandes. Argentina, 2022. 118 min.

Chegou-me a sugestão de uma colega: “Agora que chegaste nos 65, gostarás deste filme singelo, despretensioso, mas cheio de sabedoria,  roteiro criativo, leve e divertido. Entre  tecnologia e  conhecimento,  riscos e  precisão, entre fatos e afetos,   a honestidade e a compaixão entre as incertezas e a esperança. A dimensão humana é transgeracional”. Com semelhante apelo, não tive -nem quis- evitar a luva que me era dirigida, e parti para o duelo, sabendo que, apesar da leveza, não me pouparia sentar, pensar, e escrever. Nisso estamos.

Começo pelo final do título que, sem muito pensar, veio-me à cabeça e que me fez lembrar da sabia frase de Frank Slade/Al Pacino  em Perfume de Mulher.  “O tango não e como a vida; se você erra, continua dançando”. Aquela Cena Inesquecível que nunca nos cansamos de rever.

O cinema argentino -cada vez melhor para o meu gosto- tem sabor de tango. A comédia e o sorriso, alternam-se com as durezas -nunca tragédias- para dar um recado que é simples, pequeno, mas frequentemente contundente, redondo.  O tango não é agitação desmedida, como o Charleston ou o Foxtrote. O movimento, importante, é ressaltado pelas paradas, como alguém me comentou certa vez: o mais importante no tango, não é como te mexes, mas como sabes parar, no momento certo, com a cara certa! Os filmes argentinos, movem-se no argumento -nunca complicado- e sabem introduzir as paradas que te fazem pensar, sorrir, chorar, refletir. E sempre, com elegância, com sabor clássico. Um tango que é muito mais de Gardel, do que de Piazzolla, que exige uma performance mais atlética, menos comedida.

Argumento simples : o homem do tempo, um meteorologista estudado, que ao invés de simplesmente informar -como faria, por exemplo, um alemão ou um escandinavo- , parte para o espetáculo: lá vem o Tango, e as pessoas cobram pelos ingressos e pelos resultados do show. Como não poderia deixar de ser. E como a vida não é como o Tango -de novo Al Pacino- as coisas não funcionam com a previsibilidade que a ciência moderna oferece. Caos, revolta, a tragédia, como nas corridas de cavalos Por una cabeza, ou nos desenganos do amor –Cuesta Abajo

A situação tragicómica do protagonista fez-me pensar, e muito. O exagero da situação -sabor tango, tem que ser assim- carrega nas entrelinhas uma mensagem de peso, um diagnostico que revela a situação precária da sociedade atual:  a incapacidade absoluta de lidar confortavelmente com as incertezas.

Não é uma doença epidémica, sobre a qual não temos controle. Não. Somos vítimas da cultura da segurança -falsa segurança- que foi se infiltrando no nosso quotidiano, até tomar conta de nós, do modo de pensar, agir, de ver o mundo. Quando as ações mais corriqueiras, se resolvem -pensamos que se resolvem, melhor dizendo- à distância de um click no celular, tudo o que sai desse protocolo nos produz inquietude.

Uma bela análise desta situação já foi comentada a propósito do recente livro de um badalado filósofo sul coreano/alemão. Vale reproduzir um par de parágrafos: “Sentimo-nos livres, mas somos completamente explorados, monitorizados e controlados. O smartphone não é um ursinho de pelúcia digital. Pelo contrário, é um objeto narcisista e autista em que não se sente os outros, mas antes e sobretudo a si próprio (…) Não vivemos num reino de violência, mas num reino de informação disfarçada de liberdade. Em vez de armazenarmos memórias, armazenamos imensas quantidades de dados. Como caçadores de informação, tornamo-nos cegos a coisas silenciosas e discretas, incluindo o habitual, o pequeno ou o lugar-comum. Os impulsos de informação não  são descanso para  a vida. Não é possível deter-se na informação. Vive-se do estímulo da surpresa que, pela sua transitoriedade, desestabiliza a vida, e  exige constantemente a nossa atenção”.

Evidentemente, com um modus operandi como o acima descrito, a incerteza não tem vez. Quer dizer, não forma parte da equação normal da vida, e quando surge -sempre surge, a vida como ela é em palavras de Nelson Rodrigues– desconcerta, incomoda, revolta e produz a desorientação e até o Burnout e as depressões reativas. Hoje, mais do que nunca, é preciso buscar a origem desses quadros depressivos (e das consequências trágicas) nesse esquema mental, que falsamente construímos.

Entrando -ou, melhor, continuando- no campo que me diz respeito, a medicina e a educação, a incapacidade de lidar com as incertezas é o pão de cada dia. “Hoje -me dizia uma colega numa reunião há um par de semanas- os jovens médicos já não tem dúvidas, nem incertezas. Quer dizer, tudo o que não é seguro, não se encaixa em protocolos ou processos, na prática não existe, o ignoram”. Sorri enquanto lhe respondia: “Pois é, vamos ver quem vai cuidar de nós”.

A dúvida faz parte da profissão médica, porque faz parte da vida. Sempre foi assim. Mas parece que a própria academia insiste em negar o óbvio. Há alguns anos, um dos professores que trabalha comigo, estava se qualificando para a sua tese doutoral: um original estudo sobre como lidam os jovens médicos com a incerteza e como a incapacidade de fazê-lo bem produz a decepção profissional e o Burnout. Um integrante da banca de qualificação atreveu-se a afirmar que se ensinasse melhor a ciência -a Medicina- essa incerteza desapareceria. Perplexidade do candidato que se limitou a sorrir, o que não é pouco esforço. A vontade era sugerir que o jovem médico frequentasse os clássicos da literatura, onde as dúvidas humanas se personalizam. Mas teria sido escorraçado com semelhante ousadia….não contemplada no curriculum científico!

Lembro desse triste episódio sempre que mergulho na nossa Tertúlia Literária. Atividade aberta onde participam pessoas aposentadas, muitas de grande sabedoria, o que me faz sentir diante de uma plateia que supera, com muito, qualquer dos grupos de pós-graduação em Medicina, aos quais dei aula. Infelizmente, é mínima a participação de estudantes de medicina e de jovens médicos no fórum da Tertúlia. Devem estar muito ocupados buscando as evidências que dirimam todas suas incertezas!

Na relação de livros que leio e comento um terço correspondem aos abordados na Tertúlia Literária. Lá se encontra um espectro imenso das incertezas humanas, cristalizadas na literatura clássica, como reflexo da vida. Lá estão Dostoievski, Flaubert, Tolstói, Cervantes, Balzac. E os italianos como Tamaro, Calvino, Buzzati. Os britânicos também contribuem nesse aprendizado das incertezas ( Dickens, Wilde, Huxley), assim como os americanos ( Harper Lee, Salinger, Willa Cather). Sem deixar de lado os centro-europeus (Durrenmatt, Sandor Marai, Svetlana Alexievich), os turcos (Pamuk) e japoneses ( Ishiguro). que dissecam a alma com formatos alheios aos latinos. E, também, os nossos brasileiros ( Guimarães Rosa, Machado de Assis ) que oferecem esse aprendizado para aqueles que encontram tempo para ler.

Após este breve passeio pelas obras citadas, sinto uma espécie de vertigem e de consternação, relembrando aquele conselho insensato  da academia médica, recomendando engolir manuais e guidelines para sair da incerteza…que aos médicos nos chega através do ser humano. Parece que a academia – o olimpo intelectual-  mergulhou no analfabetismo cultural, acabou de esquecer o óbvio. E quando esquecemos o óbvio -diz um filósofo espanhol contemporâneo- as coisas costumam entortar. Também o nosso Nelson Rodrigues, advertiu-nos do tema, com sua costumeira ironia.

Outra lembrança de há mais de 40 anos acode à minha mente. Um famoso professor de Patologia -estava se aposentando na época- deu uma aula magnífica de abertura de curso. Disse que tinha feito mais de 50 mil autopsias: todo um crédito inegável de conhecimento científico. Pouco lembro da aula, a não ser uma afirmação que provocou escândalo: “Senhores, Pasteur nos enganou a todos! Vocês pensam que o mesmo germe provocará a mesma doença em pessoas diferentes? Errado. Fomos enganados”. Lá ficou a afirmação, até que duas décadas depois, enquanto eu cursava os créditos para o Doutorado, um professor esperto em Malária disse: “Faz muito tempo que trabalho com malária. E até hoje não sei por que o mesmo plasmódio que mata alguém em uma semana, em outros se torna crónico em vida”. Lembrei do velho professor, de Pasteur, das evidências que não são tais. E, recentemente, durante a pandemia, observando as respostas variadíssimas ao mesmo agressor, tudo isto veio à tona.

Os culpados! Eis o segundo termo da equação do título. Quando não se toleram as incertezas -eliminam-se ontologicamente- e as coisas não correm como o esperado, é preciso encontrar um responsável, um culpado. Não vamos alongar-nos em exemplos que, por outro lado, estão na mente do leitor, e de quem escreve. Insucessos e fracassos políticos, sociais, de saúde pública, e até catástrofes naturais tem de ter um responsável. É a resposta medular -nunca cortical, racional- para justificar o que não funcionou como as minhas certezas prediziam.

Mas também há outro elemento que convoca os culpados, em atitude inquisitorial, muito mais subtil. Por exemplo, um modo cômodo de isentar-se da própria responsabilidade. Haja visto as tragédias com as chuvas de verão -fenômeno repetitivo como as monções na Índia- com derrubamento de terrenos e encostas, e centenas de mortes. Já houve quem culpou até S. Pedro por conta das chuvas torrenciais. Quer dizer, em matéria de meteorologia , o protagonista do filme nada tem a reclamar, pois nem S. Pedro foi poupado. Seria cômico, se não fosse trágico

Muitos outros recados estão presentes no filme: a reconstrução de uma relação, saber conhecer o outro – de quem não fazemos a mínima ideia- , a tentação da vaidade, que não poupa ninguém;  o serviço aos demais como caminho de redenção.  O tango é articulado, com variedade de movimentos; impossível esgotar todos numa descrição sumária. Longe nos levou este filme leve e sem compromisso -vou cobrar da colega que se atreveu a qualificá-lo assim. Embora, é verdade, que as reflexões são por minha conta, nada a culpar o filme-tango argentino. Sem culpados.

Enquanto finalizo estas linhas, por algum motivo que não sei, outro tango acode à minha cabeça, para suavizar o impacto dos pensamentos pulando na minha cabeça, pedindo espaço, querendo se manifestar. Não deixarei, é suficiente. Ai está Madreselva,  onde se fala que “aprendi a fingir para viver decentemente, que o amor e a fé são mentiras, e as pessoas riem da dor”. E se recorre à ingenuidade da “infância, ao primeiro amor, às humildes carícias do carinho nunca olvidado”. Crianças que nada sabem -nem querem saber- de certezas, nem buscam culpados. Uma atitude sábia para enfrentar as loucuras da sociedade atual, e manter o bom humor!

Comments 2

  1. Muito bom. Obrigado por ver que ainda existem médicos de bom senso. Algo tão simples, mas que se perdeu em muitas esferas da vida humana. Vou assistir ao filme com certeza.

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