Giovanni Guareschi: “D. Camilo e os cabeludos”.

Pablo González Blasco Livros 1 Comment

Giovanni Guareschi: “D. Camilo e os cabeludos”. Record. São Paulo, 1969. 153 págs.

Confesso que tinha certa expectativa à resposta dos pensadores da nossa tertúlia literária, diante deste livro que li quando criança. Aliás, leram para mim: no colégio, lá pelos 12 anos, tínhamos uma classe peculiar que se chamava Hora Literária. Um professor, em pé diante da turma sentada, e apoiando o livro num atril de pé, com música de fundo, lia durante 45 minutos. E o fazia de um jeito, que ninguém se mexia, todos atentíssimos, desfrutando. Lembro que a figura de D. Camilo e de Peppone, o prefeito comunista/católico, circulava no ambiente e na nossa imaginação. Inesquecível e inspirador recordar como um bom leitor é capaz de cativar uma plateia de garotos inquietos, e além do mais, no período da tarde, após um breve almoço e quase 60 minutos de futebol no intervalo das aulas. Com essas lembranças na memória nos aventuramos na leitura e na Tertúlia.

Um livro divertido e atual -seria a frase que resumiria os comentários, todos animados e apetitosos. Atual, penso, porque sempre que surge uma novidade -que todos acusamos e da qual reclamamos invocando os velhos tempos- estamos como D. Camilo, a quem “ os novos sistemas encontram-no despreparado”.

Salpicado de humor, a obra de Guareschi, serve-nos diálogos e situações curiosas. O prefeito Peppone, que “não consegue deixar de falar em revolução: agora, porém, as suas ideias truculentas são transportadas num carro esporte que, fiel ao sentimento das cores, quis que fosse vermelho”. E as brigas no próprio partido, com suas divisões, porque sempre há os ortodoxos e aqueles que tentam fugir pela tangente:

– “Você, camarada Bottazzi, — dissera Bognoni a Peppone — dá ao povo a ilusão de ter conquistado o bem-estar, esquecendo-se de que a revolução só é possível quando o povo sofre!”.

– Ninguém pode impedir o povo de sofrer, mesmo se possui uma Seicento, televisão, geladeira e máquina de lavar roupa! — retruca Peppone, que, sendo um homem do povo, lhe conhecia os sofrimentos ocultos.

A oposição à revolução proletária, chega à mesma casa de Peppone, atingindo seu filho, que D. Camilo pilota com sabedoria, começando por cortar o cabelo do jovem, que vem sentir-se “como Sansão quando se viu raspado por Dalila e sem força, porque o segredo dessa força estava nos seus cabelos longos”. Peppone se irrita com o filho dissidente e diz que vai matá-lo. E D. Camilo, de bate pronto retruca: “Fazes bem. É muito mais fácil matar um filho do que educá-lo”.

D. Camilo, colega de batalhas de Peppone -ambos lutaram juntos, o clérigo como capelão militar, enquanto o prefeito se ocupava com armas- tem uma arma secreta que, nos comentários que surgiram, descobrimos como um grande aprendizado: o diálogo com o Cristo, que lhe responde sempre, tempera os ímpetos do pároco, traz ele para a realidade. Na verdade, se muitos dos males do mundo -como dizia Pascal- procedem de que o homem é incapaz de ficar no seu quarto e refletir, talvez seja porque não encontra um interlocutor como tinha D. Camilo. Esse foi um dos grandes ensinamentos da leitura do livro que, obviamente, passou-me desapercebido quando criança.

D. Camilo queixa-se, reclama. Do povo, da revolução comunista do prefeito, do novo pároco que lhe enviam para “supervisionar” seus modos antigos demais. “Senhor, a pátria não é aquele pedaço de pano colorido que se chama bandeira. Mas não se pode tratar a bandeira da pátria como se fosse um trapo. E Vós sois a minha bandeira, Senhor”. O Cristo sorri, lhe responde, lhe acalma. “Numa aldeia como esta, onde os mortos são ainda mais loucos do que os vivos, um pároco como tu é talvez o mais adequado”.

Continuam os diálogos ao longo de todo o livro, um toque de humor magnífico: “Senhor, — perguntou Dom Camilo — quereis dizer que o demônio se tornou tão astuto a ponto de, às vezes, vestir-se de padre? — Dom Camilo! — repreendeu-o, sorrindo, o Cristo. — Eu apenas acabo de sair das complicações do Concilio, queres meter-me em novas encrencas?” E conclui Guareschi por sua conta, temperando os ímpetos pós conciliares (época em que escreve), de uns e de outros: “Se Cristo tivesse tomado parte no Concilio, os seus discursos teriam feito rir os doutíssimos padres conciliares.

As idas e vindas das personagens, sempre pivotadas por D. Camilo e Peppone, repletas de viveza e de humor. “Anselma era a mulher do sineiro. Seria melhor dizer o marido do sineiro, pois tratava-se de uma daquelas mulheres que parecem tanques de guerra e que, quando despedem um bofetão, fazem perder o rumo da casa”. As arengas de D. Camilo são aceitas, mas nem sempre digeridas: “Sim, reverendo: o meu cérebro entende isso, mas o meu fígado não”. Daí as conclusões, sempre precipitadas, do bom pároco: “Dom Camilo pensou que, num porco e piolhentíssimo mundo no qual não é possível ter um verdadeiro amigo, é um grande consolo poder encontrar um verdadeiro inimigo (….) Os comunistas me trazem os filhos para serem batizados e se casam diante do altar, enquanto eu concedo a eles, como a todos os outros, unicamente, o direito de obedecer às leis de Deus. O hábito é um negócio tal que nos pode fazer ver até o que já não existe: mas o subconsciente acusa a mudança”.

A personagem que dá um tempero especial a esta aventura de D. Camilo é  a sua sobrinha desmiolada, Cat. Uma moça revolucionária por fora, mas que sabe do riscado. Alguém “que não poderia suicidar-se, como Cleópatra, fazendo-se morder por uma cobra, porque a cobra morreria”, escreve Guareschi, para entendermos o naipe da garota. Na verdade, tem muito mais de aparência do que de realidade, já que “como tantos jovens, está dominada pelo temor de ser julgada uma garota honesta. É a nova hipocrisia: houve tempo em que os desonestos faziam de tudo para serem tidos na conta de honestos. Hoje, os honestos fazem de tudo para serem considerados desonestos”. Numa época ausente de redes sociais, o temor do cancelamento da própria comunidade já existia. Aliás, existiu sempre. O medo ao que vão dizer, que se alimenta dos fantasmas da imaginação, e nutre-se do coletivo.

E aqui surge outro grande aprendizado da leitura. Os jovens, em grupo, são sempre desafiantes, intratáveis, revolucionários. “Para nós, os velhos já morreram. São cadáveres em férias”. Mas no corpo a corpo, no individual -no privado, como diríamos hoje nas redes- comportam-se diferentemente, dão abertura, buscam conselhos. Por que insistir na abordagem coletiva, ao invés de buscar a individualidade, sempre surpreendente. Escreve o autor: “os homens são diferentes e, às vezes, até mesmo em uma cidade basta virarmos a esquina de um beco secundário para nos encontrarmos em um outro mundo”. Tolerar o coletivo, e estar de braços abertos para o individual: grande desafio para os que contamos os anos por décadas. Grande e necessário, para poder ajudar de fato às novas gerações.

Onde nos leva a obra de Guareschi, e do singular D. Camilo? Junto com as ironias, de sabor italianíssimo (“Ainda não entendes que a ineficiência estatal não pode tolerar a eficiência particular?”), a conclusão é estampada com sabor clássico pelo escritor no final do romance-aventura: “Assim acaba esta lengalenga, cujo único escopo era o de demonstrar que o mundo muda, mas os homens permanecem como Deus os criou, porque Deus não fez nenhuma reforma e as Suas leis são perfeitas, eternas e imutáveis”. Mudam as formas, os modos, mas o ser humano, lá no seu íntimo, permanece o mesmo. Belo ensinamento para lembrarmos quando nos sentirmos desafiados pelas novidades. Com serenidade, com um sorriso, sabendo esperar: como o Cristo teima em ensinar a D. Camilo.

Comments 1

  1. Parabéns, Pablo.
    Há muitos anos há não me lembrava de D. Camilo que eu adorava assistir.
    Não lembrava mais das suas peripécias e como o ser humano continua o mesmo e o Guareschi parece retratar isso tão bem.
    Obrigado por relembrar isto para nós.
    Forte abraço.

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