Escritores da Liberdade: a coragem de ensinar

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Os filmes de professores contam, quase sempre, a mesma história. Os desafios que alguém, apaixonado pela educação, tem de enfrentar com a rebeldia dos alunos, a indiferença hipócrita do sistema e a passividade da sociedade. As histórias, embora semelhantes são também, justo é reconhecê-lo, reconfortantes, um facho de luz e um ponto de esperança sobre a mediocridade que nos envolve. Desta vez é a uma magnífica Hilary Swank que decide aposentar a luvas de Box da Menina de Ouro, para transformar-se num monumento de mulher. Erin Gruwell é uma professora que veste tailleur elegantíssimo, e faz questão de usar um colar de pérolas para dar aulas num colégio que é obrigado a aceitar um programa de integração social. Latinos, negros, e orientais, agrupados nas correspondentes gangs, sem nenhuma vontade de ser educados e ansiosos por brigas são a platéia que lhe corresponde. A sala 203, o quartel geral de Erin, mais parece um campo de batalha, permeado de ressentimentos e ódios, do que uma classe. A professora novata tem a paixão ingênua do principiante. Arruma-se com cuidado, cada manhã, enquanto pergunta ao marido que a contempla surpreso: “Diga-me, pareço uma professora?”. E confessa abertamente, à chefe do departamento: “Quando se defende um garoto no tribunal penso que já perdemos a batalha. Temos que ganhá-la antes, aqui, na sala de aula”. Um olhar cético é a única resposta de quem já tem muitas horas de vôo e pensa que esse excesso de entusiasmo se irá apagando com o tempo. Mas a Sra. Gruwell não desiste. O mesmo sorriso que acompanha as inúmeras tentativas de aproximação dos alunos e conquista espaços, começa a incomodar os colegas professores que vêm na jovem sonhadora uma ameaça para o sistema instalado, e para a própria carreira. O colégio, que no passado teve avaliações ótimas, perdeu muitos pontos por que foi obrigado a incorporar o programa de integração social. Os bons alunos, assustados com as novas turmas –a ralé da sociedade- abandonam o colégio, as médias diminuem, piora a reputação do centro docente. Essa parece ser a única preocupação dos diretores e professores que se limitam a tolerar a escória, esperando que desistam para não piorar ainda mais a imagem do colégio e a própria. “Não se preocupe, tenha paciência que você ensinará no terceiro ano. Os alunos, com o tempo, param de aparecer”. Erin olha perplexa, não acredita no que ouve: “Talvez eles façam fila para entrar na minha aula”. Um sorriso no qual está implícita a consideração “coitada, ela é tão ingênua” acompanha o comentário que fecha a questão: “Você não pode obrigar a ninguém a querer ser educado. Contente-se com ensinar disciplina”. O mundo é dos que sonham, e somente através dos sonhos é possível fazer nossa parte para melhorá-lo. Os sonhos de Erin tropeçam com a esperteza dos traquejados, das velhas raposas que são já aposentados na alma e para quem o aluno é um incômodo do qual é necessário livrar-se o quanto antes. O filme, que pela sua temática já teria força suficiente, se agiganta pela semelhança, assustadoramente análoga, com a realidade que vivemos hoje na educação. É uma verdadeira bofetada que faz refletir a todos os que, de um modo ou outro, estamos envolvidos com a formação de pessoas. É bem sabido que qualquer projeto educacional deve contemplar um conteúdo de conhecimentos a ser ensinado, umas habilidades a serem desenvolvidos, e umas atitudes que devem ser promovidas. Medir conteúdos é relativamente simples, mediante as provas de modalidades variadas; o mesmo acontece com as habilidades, embora essas medidas nem sempre são atendidas na formação já que a vida se encarregará de avaliá-las. Restam as atitudes que por serem difíceis de medir – até porque não é possível medi-las como se medem os conhecimentos- deixamos de avaliá-las. E como todo o que não se avalia não é possível cobrar, acaba-se passando batido e, por um esquecimento voluntário, são sumariamente eliminadas dos objetivos educacionais. O diretor do Colégio Wilson sabe que os alunos estão envolvidos em brigas e tiroteios noturnos, onde houve vítimas. Mas deixa claro que “nossa política é não discutir nada disso na sala de aula”. Isto é: vamos nos preocupar dos conteúdos, vamos dar o programa que é extenso, e não vamos perder tempo com detalhes, e com problemas pessoais. Estamos aqui –parece dizer- para ensinar e não para resolver os problemas de cada um destes alunos complicados. A semelhança com o dia a dia, nos colégios e, pior, na Universidade é enorme. Os professores são responsáveis por um programa, por uma grade acadêmica, geralmente apertada, duas ou três talhas maiores do que o tempo que se dispõe para vesti-la. E ninguém quer ceder tempo para discutir “detalhes”, isto é, para conhecer o aluno, saber dos seus problemas pessoais, dos seus sonhos, bloqueios e medos. Afinal isso que o faça outro professor: minha matéria é sumamente importante. Vamos despachar a matéria, fazer de conta que ensinamos, eles fazem de conta que aprendem. E, nesta comédia, onde os atores têm mestrados e doutorados ninguém é preparado para a vida real. Doutorado, afinal, vem de doceo, ensinar em latim; de nada serve ter doutorado se não se ensina o que realmente importa. Mas parece que as comissões de pós-graduação esqueceram-se das etimologias latinas porque estão extremamente ocupadas avaliando os projetos que chegam às dúzias. Erin sonha, tem paixão por educar, e encontra os caminhos reais para se aproximar dos alunos. Quase trinta adolescentes que nunca ouviram falar do nazismo, mas experimentaram, todos, brigas com armas de fogo, e perderam amigos e familiares na guerra que corre solta nas ruas. Erin tenta entendê-los, colocar-se nos seus sapatos e andar várias luas com eles, como diz o provérbio indígena. Quem são eles? Qual é a sua história? Está dada a bandeirada de saída para os diários destes Escritores da Liberdade, que traz a tona histórias de vida, sofrimentos e medos, vivências enormes –não detalhes, como dizem os acadêmicos- que devem ser entendidas, trabalhadas, compreendidas, para depois encaminhá-las pela trilha da educação. É preciso ter a coragem de falar com o aluno do que realmente importa. E o que importa não vem determinado pelo programa do professor, mas pelas inquietações reais do aluno. É preciso ter a coragem de escutar, de envolver-se com os questionamentos do estudante. Aqui se encerra, sem dúvida, o grande desafio das mudanças na educação. É muito mais fácil ter a lição pronta, do que estar disponível para aquilo que o aluno vem questionar. Isto último requer criatividade, excelência docente – que não se mede pelos títulos de pós-graduação-, valentia e compromisso. Educar é também arte e, como tal, implica em ser criativo, arriscar, inovar. Mas nem todos estão dispostos, e muitos menos estão preparados para esse desafio. Afinal, ser professor é essencialmente ter vocação docente: algo muito diferente de um emprego, ou mesmo de uma brilhante carreira de investigação e publicações. Já dizia Ortega que a Universidade deve ser a projeção institucional do estudante. A Universidade não é para os professores, nem para os pesquisadores. A Universidade é para os estudantes. Se faltar ensino, o colégio, a Universidade, qualquer centro docente, não passa de um circo de figurantes que se consome em brigas de poder e vaidades feridas, e se transforma num aborto de projeto educacional. Com freqüência releio trechos de um belíssimo livro que ganhei de uma colega, também professora de Medicina de Família em USA. Intitula-se “A coragem de ensinar” ( Parker J. Palmer: “The Courage to Teach”. Jossey-Bass. S.Francisco. 1998.), e o autor atreve-se a definir a vocação como “o lugar onde se encontram a profunda alegria pessoal com as verdadeiras necessidades do mundo”. Ser útil e trabalhar com alegria: duas características da vocação quando verdadeira. Num outro capitulo, o professor Palmer define as verdadeiras características da vocação docente. Quase todos os professores se perguntam o quê tem de ensinar, os conteúdos. Alguns param para pensar, como ensinar esses tópicos. Poucos refletem sobre quem são os alunos a quem devem ensinar. E quase ninguém se atreve a fazer a pergunta tremenda: “Quem ensina?”. E conclui: “Por que, queiramos ou não, acabamos ensinando o que somos”. É a força do exemplo que está implícito na verdadeira coragem de ensinar. Aumentam os atritos com os colegas docentes, já em guerra declarada com Erin Gruwell que ataca diretamente: “Por que eles vão perder seu tempo, se sabem que nós não acreditamos no que fazemos, e pensamos que isso não vai funcionar?” O aluno não é tonto: sabe quem é o professor que de verdade se interessa, que se compromete e acredita no que ensina. A ele, somente a ele, tributa o respeito e a veneração que merecem. Dos alunos vem o verdadeiro aval de qualidade de qualquer professor. Os colegas, consumidos pelos ciúmes que nem fazem questão de disfarçar, soltam o veneno: “Você pensa que mais ninguém tem competência nesta escola? Isso que você faz não é possível de reproduzir, é um estilo que funcionou agora, mas não temos garantias de que se possa repetir. Deixe que outros ensinem os seus alunos melhor do que você, sem inventar modas….” Erin não tem nada a perder; “Como você vai ensinar eles se nem sequer os conhece, não os ama. Nos os transformamos em família, eles encontraram o lar que não tinham na sala 203”.O professor Palmer, que também tem muitas horas de vôo, adverte no seu magnífico livro que os professores, quando nos juntamos, somente falamos dos alunos, especialmente dos que nos trazem problemas. Nunca falamos de nos mesmos, não nos corrigimos, nem nos apoiamos. Falamos de terceiros, nunca de nós. Dos alunos, da grade, dos horários, das normas. Silenciamos nossos medos, nossas dificuldades, nossos sentimentos de fracasso que cobrimos com um perfume acadêmico com data vencida, démodé. Um perfeito caldo de cultura para as vaidades frustradas.Erin Gruwell e seus Escritores da Liberdade publicaram seus diários, estabeleceram uma fundação para reproduzir o modelo e perpetuar o sucesso da coragem de ensinar. Isso é a prova de que não é apenas carisma de uma sonhadora, mas capacidade de comprometer-se, e de ter a valentia de admitir que para educar não se pode colocar a vida entre parênteses. É preciso educar na vida mesma, na realidade que nos circunda. E, nessa realidade, dar o melhor de nós. Esse é a verdadeira qualidade que se espera de um professor.Escritores da Liberdade (Freedom Writers) Diretor: Richard LaGravenese. HilarySwank, Patrick Dempsey, Scott Glenn, Imelda Staunton, April L.Hernandez. 123 min.

A Sabedoria da Maturidade: Quando os atores envelhecem

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     Com os atores acontece o mesmo que com o vinho: ficam melhores com o passar do tempo. É bem possível que não sejam apenas eles, mas também nós, espectadores, os que mudamos o nosso olhar, aprendemos a gostar do gesto ponderado, da sabedoria que a maturidade destila. Borges dizia que mesmo cego, continuava a comprar livros, a rodear-se da amável presença dos volumes. E gostava, uma vez e outra, de voltar sobre os mesmos livros –que tinham de ler para ele- porque pareciam diferentes a cada leitura. Isso, dizia o escritor, porque não é livro, mas sim nós os que mudamos como o rio de Heráclito, onde não conseguimos tomar banho duas vezes na mesma água.

     Stallone volta a ser Rocky Balboa, agora um cinqüentão maduro, dono de um restaurante italiano, perdidamente apaixonado pela mulher a quem vai visitar no túmulo diariamente, e conversa com ela sentado na cadeira que deixa na árvore do cemitério. Um romântico que gosta de contemplar os bons momentos vividos, como quem degusta um vinho de qualidade. Ninguém pode me tirar o que vivi –parece dizer Rocky- sou dono da minha biografia, e do amor que eu tenho por ela. Não sentimentalismo, mas profundidade vital, a mesma que o professor V. Frankl recomendava aos que padeciam a incurável doença da viuvez: “ninguém pode tirar o que vocês viveram juntos”. Logoterapia da melhor espécie no olhar sereno de Rocky.

     Rocky quer voltar a lutar, nada sério, apenas algumas lutas locais, por que sente que “tem que terminar algo”. Os acadêmicos do Box não ajudam, tem medo da coragem de alguém que sente pulsar no seu íntimo o desejo de fazer o que os lutadores fazem: lutar. É a turma do “deixa disso”, os pro forma, os que envelhecem sem amadurecer porque enterram antes de tempo qualquer tipo de ideal e são incapazes de novos desafios. Aposentados da alma, que não fazem planos, esperam a morte.

     Doença esta –a aposentadoria precoce, vestida de falsa prudência- que atinge também os jovens, acomodados, bem planejados, com MBA e uniformizados com terno Armani. O filho de Rocky enfrenta o pai. “Não faças loucuras….”, diz, mas no fundo quer dizer. “Você vai me deixar em ridículo….Logo agora, que estou no meio de uma brilhante carreira”. E Rocky olha para ele, e responde sem negociações: “Você é meu filho, e sempre será. Tenho paixão por você. Mas em algum ponto, você perdeu o norte e acreditou que para triunfar na vida é preciso que a platéia te aplauda.” São os que vivem para os outros, os que precisam que os outros falem deles para demonstrar a própria existência. Parece que não são reais, se ninguém os considera. “Nada bate tão forte como a vida, meu filho. E o importante é saber levantar-se sempre, de cabeça erguida.” Dá meia volta, sorri, e deixa cair a recomendação final: “Não esqueça de visitar sua mãe”. Amar alguém –dizia Gabriel Marcel- é dizer ‘tu não morrerás jamais’. Sem amor apaixonado, que supera as barreiras do tempo, também não se conquista a dignidade, nem se luta por um ideal. Rocky tem tudo isto, e sabe que não precisa dever nada a ninguém para se doar o tempo todo. E surpreende a garota –que conheceu menina- com sua generosidade. E encontra o apóio singelo nela.

     O adversário de Rocky é um campeão sem interlocutor. Ninguém é páreo para ele, e por isso –porque lhe falta a adversidade- não amadurece. A sabedoria vem desta vez nos conselhos do seu treinador. “Tens de apanhar, tens de sofrer para conquistar o único respeito que vale a pena ter: o respeito próprio”. Um conselho que encaixa sob medida no campeão de Box, e no executivo engravatado.

     O respeito próprio, a sabedoria de saber conhecer os limites, entender quando é preciso sair dos primeiros planos e do papel de protagonista, para formar outros e fazer escola. Agora é Kevin Costner, outro maduro, que é retirado da linha de frente e destinado para ser professor. Lá estão os mergulhadores de elite, os melhores dos melhores, que gastam a vida resgatando vítimas no mar gelado do Alaska. Numa madrugada, tira os jovens aprendizes da cama e mergulha com todos eles num tanque gelado, testando a resistência, mostrando-lhes como é estar sozinho no mar, sentindo paralisarem-se todos os músculos, esperando a morte por congelamento. Os acadêmicos protestam contra os métodos do veterano alegando que o programa de treinamento é suficientemente bom, que não é preciso inventar moda. “Existe um grande espaço entre o que vocês ensinam aqui e a vida real. Estou aqui para ver se consigo diminuir esse espaço”. Frase contundente, um verdadeiro recado para os acadêmicos que formam profissionais em estufas, em bolhas universitárias, e não os preparam para a vida. Uma fábrica de pós-graduados que são incapazes de sobreviver no ar rarefeito da selva diária; e passam a vida publicando trabalhos, e fazendo pesquisa com dinheiro público, sem comprometer-se em absoluto com a resposta de cidadania que se deveria esperar de um intelectual.

     Cresceu Kevin Costner, ficou bom, convincente. Adianta-se às crises do jovem em quem visualiza um verdadeiro líder, alguém em quem é preciso investir. E lhe ensina como lidar com os fracassos –necessários- que são o cinzel que esculpe o homem maduro. “Salve aqueles que puder salvar, e deixe ir os outros”. Passar a vida entre desculpas e complexos de culpa é postura cômoda que isenta de futuras responsabilidades. Levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, como diz a música é próprio de quem vai conquistando a sabedoria e com ela o conhecimento dos próprios limites.

     Correm rumores dos recordes do veterano. Diz-se que salvou mais de 200. “Qual é o seu número?” – pergunta curioso o jovem que já o admira. “Vinte”. Como assim? Vinte apenas? “Vinte é o número dos que perdi”. Um líder maduro somente conta os que não consegue salvar, porque os resgatados são apenas cumprimento do dever, simples obrigação, nunca motivo de vaidade. Descobre no trabalho a reflexão que leva até sua vida pessoal. “Vi um homem que para sobreviver apoiava-se na mulher para flutuar, você sabe, simples instinto de sobrevivência.” É um belo pedido de desculpas para a sua esposa a quem não dá atenção. “Demorei algum tempo para ver que eu sou esse homem”.

     As lições que destila a sabedoria da maturidade se levantam diante de mim como um verdadeiro desafio. Como fazer chegar isso aos jovens, como ser um verdadeiro professor da vida? Paciência, saber escutar, e não deixar-se iludir por conhecimentos de plástico, técnicas aprendidas não nos livros, mas na web, com respostas fáceis, mas absolutamente carentes de conteúdo. A associação de idéias –e de cenas de filmes- rodeia a memória, cerca-a de exemplos. Agora é o psiquiatra que tenta amansar o gênio indomável. “Você pode me dizer tudo sobre Michelangelo, porque o leu nos livros. E declamar Shakespeare, para me falar da guerra. Mas nunca segurou a cabeça do seu amigo moribundo no colo, nem sentiu o cheiro da Capela Sixtina”.

     Ensinar sobre a vida, vivendo-a junto com eles. Essa é a função do professor, do formador, do líder. Depois de ver Rocky e o oficial Randall, não há desculpas de idade para desistir. Li alguns meses atrás um texto que apontava como os que já temos horas de vôo nesta vida podemos formar e servir os que nos rodeiam. O resumo é muito simples: mostrar, com um sorriso, que vale a pena viver a vida. Ser positivos. Um desafio necessário para os tempos que vivemos e que devemos temperar com a sabedoria da maturidade.

Coragem e liderança nas Cartas de Iwo Jima

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Assistindo “Cartas de Iwo Jima” veio à memória, por alguma curiosa associação de idéias, o livro que rendeu o Prêmio Pulitzer a John F. Kennedy, anos antes de se tornar presidente de Estados Unidos. Li o livro este ano, também por coincidência. “Profiles in courage”, escrito na convalescência de uma das muitas cirurgias de coluna a que teve de se submeter, é um esboço da vida de oito senadores americanos que souberam carregar as responsabilidades de um cidadão que ama o seu pais, e não negocia a honra. Todo ele é sobre a Coragem – “grace under pressure”; poderosa definição que Kennedy importa de Hemingway no prefácio do livro. Na dificuldade, na adversidade, forjam-se os homens de caráter. Somente quando há oposição e aperto, a coragem aparece com o seu brilho genuíno. Não sei como foram parar, no mesmo recanto da memória –ou melhor, do coração- o filme de Clint Eastwood, que canta a coragem dos japoneses e o livro de Kennedy que, por sinal, lutou contra os japoneses na guerra do pacífico. Vai ver que são as virtudes as que aproximam os homens, mais do que a nacionalidade ou os interesses bélicos. Na virtude, na coragem, se encontramos as pessoas da mesma raça, da mesma etnia da alma.O General Tadamishi Kuribayashi é enviado para defender a ilha de Iwo Jima, ponto de honra para o império japonês. Homem culto, educado, inteligente, descobre logo nos primeiros momentos da sua chegada que aquilo é carta marcada; marcada e perdida, para o exército japonês e para a guerra. Mas a virtude do comando está presente e Kuribayashi vai fazer o melhor que pode – his best, a famosa limonada do limão, como gostam de dizer os americanos. Conhece o adversário, conviveu com ele, aprendeu a respeitá-lo. E isto –mesmo que levante suspeitas nos seus colegas oficiais- nada diminui o seu amor pelo Japão e a lealdade que deve ao Imperador. Honra e coragem, com estratégia, com inteligência, e com cuidado –verdadeiro carinho- por todos e cada um dos seus homens. Leia mais

A necessidade da reflexão para o aprendizado e motivação

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Nos aprendizados da vida muitas das coisas mais importantes não se transmitem por argumentação, através do raciocínio lógico especulativo, mas através de outros caminhos que tem a ver com o amor que se coloque no processo de educar, e com a conseqüente educação da afetividade. Nas culturas antigas é fato que o meio principal da educação moral era contar histórias, como o substitutivo lógico para a impossibilidade de que todos os homens se possam submeter às experiências intensas de situações humanas. Assim, as artes que contam histórias –teatro, literatura, ópera, cinema- teriam um papel de suprir as experiências que nem todos podem vivenciar. É deste modo como se pode produzir o que Aristóteles denominava Catarse – purificação-, caminho obrigatório no pensamento grego para chegar ao reconhecimento do belo, e do bom. Sem dúvida, o mais catártico é a realidade vivida, mas as histórias de vida , quando bem colocadas, têm um importante papel. Quer dizer: não é função da arte “contadora de histórias” o simples divertir, ou passatempo; mas sim provocar sentimentos -alegria, entusiasmo, aprovação, rechaço, condena- que configuram o “coração das gentes”. Este era o papel da tragédia grega. Estas histórias, as tragédias, provocavam a catarse , que pode entender-se num duplo sentido. O primeiro, imediato, é a liberação dos sentimentos, como uma limpeza orgânica, como um purgante. O segundo, muito importante, é que mediante a catarse “colocam-se no seu lugar” todos estes sentimentos acumulados –emoções- que não poucas vezes se armazenam de modo desordenado. Leia mais

O Resgate do Soldado Ryan

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“Saving Private Ryan” Dir: Steven Spielberg. Tom Hanks, Edward Burns, Tom Sizemore, Matt Damon, Jeremy Davies. 169 min.

Saving private RyanDiz o ditado popular que acerca de gostos, nada está escrito, não existe consenso. Quando do gosto se passa à interpretação da obra de arte, as opiniões movem-se no amplo espectro da sensibilidade que permeia o ser humano. Interpretar os filmes é ainda tarefa de maior diversidade, pois nem sempre se trata de encontrar significados nas entrelinhas dos fotogramas. Ás vezes, muitas, é o filme quem encontra, dentro de nós mesmos, significados que estavam ocultos, latentes. Assistimos a produção relaxados, querendo nos divertir, e de repente, o filme vira um problema, e faz emergir dentro de nós temáticas que estavam esquecidas, aposentadas. O feitiço vira-se contra o feiticeiro.

Preciso confessar que “O Resgate do Soldado Ryan” me trouxe vivências especiais, variadas. Um bom amigo, professor de história, comentou-me que vendo o filme lembrava das narrativas que o seu avô, veterano da guerra civil espanhola, lhe tinha contado anos atrás. O assobio das balas, que o soldado sente próximo dele, sem saber se aquela bala que está ouvindo parará no seu corpo. “Neste filme você ouve o assobio das balas. É exatamente o que meu avô me contava. Eu nunca tinha visto um filme tão realista: não apenas nas cenas, mas nos ruídos”.  Outro amigo, médico, homem culto e vivido, me disse quando lhe perguntei sobre o filme: “Isso é um tango de Gardel! ”. A minha cara de surpresa poupou a pergunta, e ele continuou: “Você nunca ouviu aquele tango da mãe, que tinha cinco filhos que foram para a guerra na França, lá morreram todos, e a velhinha ficou sozinha, com cinco medalhas que a pátria lhe entregou por cinco heróis”. Sim, lembrei na hora do tango, que o meu avô gostava de entoar: ‘Silencio en la noche, ya todo está em calma….’ E depois fala da velhinha, das medalhas, dos homens que se matam nos campos de França.

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Sentimentos e aprendizado são as bases de reflexão

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Os sentimentos são modalidades, ou modificadores dos estados de consciência, mas não conteúdo desses estados. A chuva que para alguns inspira poesia, para outros, que estão se molhando em baixo dela, provoca irritabilidade. A chuva é a mesma, o índice pluviométrico não varia um milímetro, mas os resultados subjetivos são completamente diferentes. Analisado com objetividade o fenômeno é único, e os sentimentos –de inspiração poética ou irritação- em nada afetam o fato em si. Do ponto de vista objetivo os sentimentos não são nada, mas –e aqui está o ponto de inflexão- do ponto de vista subjetivo, os sentimentos são tudo. É fácil estabelecer, no processo de aprendizado, uma relação entre a inteligência e a vontade com os conteúdos dos âmbitos cognitivos e o desenvolvimento de habilidades psicodinâmicas. Mas, qual é o papel que cabe aos sentimentos no processo de aprendizado? Como é que influenciam e o que determinam? Se afinal, aprendizado é aquisição de conhecimentos e aplicação prática em habilidades qual seria a função dos sentimentos e a reclamada importância da educação da afetividade? Na verdade a pergunta é mais retórica do que real. Todos sabemos, porque o comprovamos inúmeras vezes nos outros e de modo convincente em nós mesmos, que o progresso formativo não vem determinado apenas pelo que se conhece e pelo que se faz, mas pelo modo como se conhece e como se executa. Os sentimentos promovem uma ponte entre o que se conhece – a idéia, o conceito, situado no âmbito do cognitivo – e o que se quer, o que se executa, situado no âmbito da vontade. É experiência universal que não basta saber as coisas para executá-las, mas é preciso querer fazê-lo, e esse querer vai além da simples imposição da vontade. É uma questão de motivação. Os sentimentos, de algum modo, personalizam o conhecer, revestem o conhecimento com roupagem pessoal, e facilitam o querer –a execução- porque são a base da motivação. Uma coisa são as idéias e conceitos e outra é o que são as idéias para mim, qual é o “sabor” que essas idéias têm ao paladar afetivo. Leia mais

Educar as emoções

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Educar com o Cinema é tema que me tem acompanhado nos últimos anos. Tive ocasião de escrever artigos, publicar livros, dar conferências em congressos internacionais, apresentar-me em programas de TV. E, em quase todos os cenários, a pergunta que surge é similar: “Você não é médico? E isto do cinema, como se encaixa na sua vida?”. A pergunta procede e, até tal ponto, que mesmo quando não a fazem eu mesmo a coloco e respondo. Afinal, é necessário justificar o tempo que se dedica a um trabalho que já ultrapassou de longe as proporções de um simples hobby.Dizer que os médicos de hoje estão munidos de excelente preparação técnica, não é novidade. Como, infelizmente, também não o é afirmar que carecem, na maioria, da sensibilidade suficiente para lidar com o ser humano doente, que sofre e se confia aos seus cuidados. Fala-se em humanizar a medicina, quando na verdade o que se gostaria é de injetar doses de humanidade nos médicos para ver se o paciente consegue, de algum modo, se fazer entender pelo profissional que está destinado a cuidá-lo e, muito absorvido pela técnica moderna –e necessária- parece esquecer o paciente, ocupando-se apenas com a doença. Leia mais

Uma segunda chance

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(Regarding Henry) Diretor: Mike Nichols. Harrison Ford, Annette Bening. USA 1991. 107 min.

Regarding henryMergulhados, como vivemos, num cinema de paixões e violência, respiramos aliviados quando a imprensa notifica o aparecimento de um filme “romântico, como os de antigamente”. E sem ligar para toda essa “água com açúcar” que a crítica – intelectual, adulta, etc.- nos despeja, vamos à procura do filme.

Lá deve estar perdido, empoeirado, nas prateleiras da locadora mais próxima. Esse era o meu ingênuo pensar quando fui atrás de “Uma segunda chance”. Não está? Mas, como é possível? Nenhuma das cinco cópias? E não estava mesmo. Foi preciso cinco semanas e várias tentativas -sem êxito- de reserva para, finalmente ontem, pegar da mão de um usuário, a fita que estava devolvendo. Por que tanta dificuldade tratando-se de um filme doce, sem pretensões? Água, açúcar…… A turma gosta mesmo é de bala, pensei. E me instalei na frente do vídeo, disposto a desvendar o mistério.

Harrison Ford, o ator de moda. Lá está ele. Uma bala no cérebro. Beirando a morte, a lenta recuperação. E as surpresas. Não vou contá-las, perderia força. Toda uma filosofia da conversão, envolvida em celuloide: a metodologia da mudança. Um reflexo oculto daquilo que muitos desejariam, nem que fosse às custas de uma bala no lobo frontal. Isso é o que atrai neste filme de Mike Nichols.

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Dr. Pablo González Blasco entrevistado pela revista Médico Reporter

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Dr Pablo2Apesar da implantação do programa “Saúde da família”, a formação de profissionais especializados na área de medicina da família ainda não é representativa nas universidades brasileiras. Atuando nesse vácuo, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa) procura desenvolver um trabalho de capacitação de profissionais para atender a essa demanda da população, através de cursos e programas de residência médica para recém-formados.

Entrevistado pela revista Médico Repórter, o Dr. Pablo González Blasco, diretor científico da entidade, fala das dificuldades enfrentadas por um médico de família no País e também da relação desse profissional com a população, com a área acadêmica e com as autoridades governamentais. Apesar da implantação do programa “Saúde da família”, a formação de profissionais especializados na área de medicina da família ainda não é representativa nas universidades brasileiras. Atuando nesse vácuo, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família (Sobramfa) procura desenvolver um trabalho de capacitação de profissionais para atender a essa demanda da população, através de cursos e programas de residência médica para recém-formados.

Entrevistado pela revista Médico Repórter, o Dr. Pablo González Blasco, diretor científico da entidade, fala das dificuldades enfrentadas por um médico de família no País e também da relação desse profissional com a população, com a área acadêmica e com as autoridades governamentais.

Clique aqui e confira a entrevista na íntegra.

O médico de família, hoje

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     Medicina de família, médico de família. Uma moda que volta? Um retrocesso saudosista que abre mão dos progressos da ciência e da medicina? Ou talvez um oportunismo no vácuo de um programa do Governo –Programa de Saúde da Família- que chega com ares messiânicos como solução de todos os problemas de saúde do cidadão comum? Afinal, o que é medicina de família, onde estão os tais médicos de família?

     Duas historias para esclarecer os termos. Em certa ocasião, já faz alguns anos, atendi um chamado médico na casa de uma família que me procurou, por indicação, sem conhecer-me. Apresentei-me na porta, atendi o paciente, expliquei para a família o que estava acontecendo, fiz as prescrições necessárias, assim como as recomendações para cuidar do enfermo, e aceitei, de bom grado, o cafezinho que me ofereceram. Neste momento de descontração, cumprido o dever profissional, a filha do paciente confessou:

– Posso lhe dizer uma coisa. Doutor?
Assenti com um sorriso.
– A amiga que me recomendou o Sr, disse-me que era médico de família. Eu, para ser franca, esperava ver entrar pela porta um velhinho com aquelas malas antigas, vestindo um terno com colete e….
– Ficou decepcionada? –perguntei.
– Não, de modo algum. Mas é que hoje em dia não se vem médicos de família por ai. Eu lembro quando era criança que o médico da cidade do interior onde a gente morava, sempre ia em casa, e mal entrava já sabia o que nós tínhamos… Morreu faz tempo, nós mudamos e nunca mais tivemos um médico assim. Hoje é tudo muito complicado, exames, hospitais, e a gente não sabe o que acontece com a gente…..
– Mas, a senhora pergunta para os médicos?- Eles não explicam nada, falam entre eles numa linguagem que a gente não entende. Hoje o médico nem te examina, pede exames, não olha para você. Uma pena isso de não ter mais médicos de família, aquilo sim que era bom.
– Mas, minha senhora está falando com um deles… – Será que isso vai voltar, doutor?
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