Irene Vallejo: O Infinito num junco

Pablo González BlascoLivros 1 Comments

Irene Vallejo: O Infinito num junco. A Invenção do livro na Antiguidade, e o nascer da sede de leitura. Bertrand Editora. Lisboa. 2020. 500 págs.

A leitura deste livro é uma viagem, longa no tempo, mais de 25 séculos, percorrendo as estradas que os livros palmilharam antes de nós. É por tanto, fora de cabimento, qualquer tentativa de resumir o que lá se contém. Até porque, como dizia Fernando Pessoa, as viagens são os viajantes, e o que vemos não é que vemos, mas o que somos. Pode-se apenas, apresentar -a modo de trailer convidativo- algumas fotografias, deste percurso que me atrevi a fazer há alguns meses. Fotos instantâneas, quase polaroid antigas, nunca as modernas “selfies”, que são a versão impressa de um narcisismo por vezes doentio, já que as viagens e o que vemos, é muito maior do que nós mesmos, do que o próprio umbigo!.

Como começou Irene Vallejo, esta professora aragonesa, com cara de menina e cultura enciclopédica, sua viagem pelos livros? “Assusta-me sempre escrever as primeiras linhas, atravessar o limiar de um novo livro. Quando percorri todas as bibliotecas, quando os cadernos transbordam de notas febris, quando já não me lembro de pretextos razoáveis, nem sequer insensatos, para continuar à espera, atraso-o ainda vários dias durante os quais chego à conclusão que é apenas cobardia. Simplesmente, não me sinto capaz (…) O livro superou a prova do tempo, demonstrou ser um corredor de longas distâncias. Sempre que acordámos do sonho das nossas revoluções ou do pesadelo das nossas catástrofes humanas, o livro continuava ali. Como diz Umberto Eco, pertence à mesma categoria do que a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Depois de inventados, não se pode fazer nada melhor (..) Não esqueçamos que o livro foi nosso aliado, há muitos séculos, numa guerra que os manuais de história não registam. A luta para preservar as nossas criações valiosas: as palavras, que são apenas um sopro de ar; as ficções que inventamos para dar sentido ao caos e sobreviver nele; os conhecimentos verdadeiros, falsos e sempre provisórios que vamos arranhando na dura rocha da nossa ignorância”. E conclui, comparando-se aos antigos,  antes de mergulhar na aventura: “Mas parece-me que, ao procurarem o rasto de todos os livros como se fossem peças de um tesouro disperso, estavam a estabelecer, sem sabê-lo, os alicerces do nosso mundo”.

A viagem de Irene Vallejo em busca de livros, tem apenas dois capítulos, cada um de vários séculos: Grécia e Roma. E no percurso cronológico, vai misturando lembranças pessoais, reflexões, uma explosão de cultura -não de erudição arrogante, pois nota-se que o tem muito assimilado e vibra quando o comparte com o leitor. Do muito lido -as contas de quando e como, com a idade que tem não fecham na minha cabeça- posso dizer ao contrário de D Quixote (que passava as noites em claro lendo), que não perdeu o juízo, mas o aprumou, com maturidade e classicismo. A leitura, a viagem da mão dela, é uma verdadeira experiência, uma fenomenologia da leitura degustada.

Vamos por tanto ao álbum de fotografias extraídas desta leitura que, no dizer de Mario Vargas Llosa numa entrevista  que caiu nas minhas mãos, será um livro que se continuará lendo durante muitos séculos. Um álbum de fotografias às quais me atrevi a colocar um pé de foto, uma tentativa de dar nome ao impresso no meu entendimento. Quase um nominalismo fenomenológico.

A primeira, se intitula Dos livros, da tradição oral….e do excesso de informação. “Na época de Sócrates, os textos escritos ainda não eram uma ferramenta habitual e continuavam a despertar receio. Consideravam-nos um sucedâneo da palavra oral — leviana, alada, sagrada. Embora a Atenas do século v a. C. já tivesse um incipiente comércio de livros, só um século depois, no tempo de Aristóteles, é que se chegou a contemplar o hábito de ler sem estranheza. Para Sócrates, os livros eram ajudas da memória e do conhecimento, mas pensava que os verdadeiros sábios fariam bem em desconfiar deles”

“Esta questão inspirou um diálogo platónico intitulado Fedro, que decorre a poucos passos das muralhas de Atenas, à sombra de um frondoso plátano na margem do rio Ilissos. Ali, na hora morna da sesta, com a banda sonora das cigarras, nasce uma conversa sobre a beleza que deriva misteriosamente para o ambíguo dom da escrita. Há séculos, diz Sócrates a Fedro, o deus Theuth do Egito, inventor dos dados, do jogo das damas, dos números, da geometria, da astronomia e das letras, visitou o rei do Egito e ofereceu-lhe estas invenções para ele as ensinar aos seus súbditos. Traduzo as palavras de Sócrates: ‘O rei Thamus perguntou-lhe então que utilidade tinha escrever, e Theuth respondeu-lhe: — Este conhecimento, oh rei, tornará os egípcios mais sábios; é o elixir da memória e da sabedoria. Então Thamus disse-lhe: — Oh Theuth, por seres o pai da escrita dás-lhe vantagens que não tem. O que as letras produzirão é esquecimento em quem as aprender, ao descurar a memória, já que, fiando-se dos livros, chegarão à recordação desde fora. Será, portanto, a aparência da sabedoria, não a sua verdade, o que a escrita dará aos homens; e, quando tiver feito deles entendidos em tudo sem uma verdadeira instrução, será difícil suportar a sua companhia, porque se julgarão sábios em vez de o serem’ (…) Sócrates temia que os homens abandonassem o esforço da própria reflexão por causa da escrita. Suspeitava que, graças ao auxílio das letras, se confiaria o saber aos textos e, sem o empenho de compreendê-los a fundo, bastaria tê-los ao alcance da mão. E assim já não seria sabedoria própria, incorporada a nós e indelével, parte da bagagem de cada um, mas sim um apêndice alheio. O argumento é sagaz, e ainda nos impressiona”

“Neste momento estamos mergulhados numa transição tão radical como a alfabetização grega. A Internet está a mudar o uso da memória e da própria mecânica do saber. Uma experiência realizada em 2011 por D. M. Wegner, pioneiro da psicologia social, mediu a capacidade de recordar de uns voluntários. Só metade deles sabia que os dados a reter eram guardados num computador. Quem pensou que a informação ficava gravada relaxou no esforço para aprendê-la. Os cientistas chamam «o efeito do Google» a este fenómeno de relaxamento da memória. Temos tendência para recordar melhor onde se alberga um dado do que o próprio dado. É evidente que o conhecimento disponível é maior do que nunca, mas armazena-se quase todo fora da nossa mente. Surgem perguntas inquietantes. Sob o aluvião de dados, onde fica o saber? A nossa preguiçosa memória é afinal uma agenda de moradas onde procurar informação, sem rasto da própria informação? No fundo, somos mais ignorantes do que os nossos memoriosos antepassados dos velhos tempos da oralidade? A grande ironia de todo este assunto é que Platão explicou o menosprezo do mestre pelos livros num livro, conservando assim as suas críticas contra a escrita para nós, os seus futuros leitores”.

Mais adiante, em outro trecho, outro fotograma completa este pensamento de excesso de informação e perda de prioridades e de sabedoria na biblioteca de Babel: “E esse é o grande paradoxo. Pelos hexágonos da colmeia vagueiam caçadores de livros, místicos, fanáticos destruidores, bibliotecários suicidas, peregrinos, idólatras e loucos. Mas ninguém lê. Entre a esgotante sobre abundância de páginas ao acaso, extingue-se o prazer da leitura. Todas as energias se consomem na procura e na decifração. Podemos entendê-lo simplesmente como um conto irónico construído a partir de mitos bíblicos e bibliófilos (…) Contudo, para os leitores de hoje, a biblioteca de Babel fascina-nos como uma alegoria profética do mundo virtual, do excesso da Internet, dessa gigante rede de informações e textos, filtrada pelos algoritmos dos motores de pesquisa, onde nos perdemos como fantasmas num labirinto”.

Da alfabetização, uma revolução à qual nos acostumamos e a segunda fotografia tomada nesta viagem fascinante. “Nós, habitantes do século XXI, assumimos que toda a gente aprende a ler e a escrever na infância. Parece-nos um conhecimento acessível, ao alcance de qualquer um. Nem sequer imaginamos que possam existir entre nós pessoas analfabetas. Mas existem (670 000 em Espanha, em 2016, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística1). Eu conheci uma. Testemunhei a sua impotência perante situações quotidianas como orientar-se na rua, encontrar a plataforma correta de uma estação, decifrar a fatura da luz — embora me pergunte se alguns de nós, que sabemos ler, entendemos a confusão das tarifas elétricas —, poder votar ou escolher um prato num restaurante. Só os lugares conhecidos e as rotinas repetidas acalmavam a sua angústia num mundo no qual era incapaz de se orientar como os outros. Dedicava um esforço esgotante a ocultar a sua condição de analfabeta — «esqueci-me dos óculos em casa; não se importa de me ler isto?» —, e essa necessidade de fingir acabava por marginalizá-la das relações normais com os outros. Lembro-me sobretudo do desamparo, do  repertório de pequenas mentiras necessárias para pedir ajuda aos desconhecidos sem passar vergonha, da minoria de idade sem fim”

“Lemos mais do que nunca. Estamos cercados por cartazes, rótulos, publicidade, documentos. As ruas estão a transbordar de palavras, desde os grafites das paredes até aos anúncios luminosos. Piscam nos telemóveis e nas telas dos computadores. Textos em diferentes formatos convivem conosco na nossa casa como calmos animais de estimação. Nunca tinha havido tantos. Os nossos dias estão atravessados por contínuas rajadas de letras escritas e alarmes que anunciam a sua chegada. Dedicamos várias horas da nossa jornada e do nosso ócio a tamborilar sobre diferentes teclados. Quando nos pedem para preenchermos um formulário diante de um guiché, nunca ninguém tem a cortesia de nos perguntar se sabemos ler. Até nas situações mais correntes seríamos excluídos se não fôssemos capazes de escrever com rapidez”

E a seguir uma anedota divertida: “Ana María Moix contou-me uma vez que, nos anos setenta, acabou num almoço com a prodigiosa camada do boom latino-americano: Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Bryce Echenique, José Donoso, Jorge Edwards… Entraram num restaurante de Barcelona onde era preciso apontar o pedido e entregá-lo por escrito ao empregado. Mas eles, a beber e a conversar, ignoraram o menu e as aproximações interrogativas dos empregados. No fim, o maître teve de interrompê-los, irritado com tanta conversa fiada apaixonada e tão pouco interesse gastronómico. Aproximou-se deles e, sem reconhecê-los, perguntou com uma voz irritada: «Mas nesta mesa ninguém sabe escrever?»”.

A instantânea seguinte a intitulei Da educação Humanística, e assim anotei: “Que tipo de educação recebiam aqueles gregos? Um banho de cultura geral. Ao contrário do que nos acontece a nós, não lhes interessava em absoluto especializarem-se. Menosprezavam a  orientação técnica do conhecimento. Não estavam obcecados com o emprego; depois de tudo, para trabalhar bastavam-lhes os escravos. Quem se podia permitir evitava aprender algo tão aviltante como um ofício. O elegante era o ócio — ou seja, o cultivo da mente, da amizade e da conversa; a vida contemplativa. Só a medicina, inquestionavelmente necessária para a sociedade, conseguiu impor um tipo de formação própria. Pelo contrário, os médicos tinham um claro complexo de inferioridade cultural. De Hipócrates a Galeno, todos repetiam nos seus textos o mantra de que um médico também é um filósofo. Não queriam ficar fechados dentro da sua esfera particular, pois esforçavam-se por se mostrarem cultos e usarem alguma citação dos poetas imprescindíveis nos seus escritos. Para os restantes, os ensinamentos e as leituras eram, essencialmente, os mesmos em todo o império, o que criava um poderoso fator de unidade colonial”. Confesso que senti o golpe e pensei: se aqueles médicos tinham que insistir em que eram cultos (e de fato o eram) imaginemos hoje, nessa fauna de quase analfabetos com certificados dos Conselhos Médicos para exercer uma profissão….Um desastre.

Continua Vallejo: “Este modelo educativo permaneceu vigente durante muitos séculos — o sistema romano foi apenas uma adaptação do próprio conceito —, e encontra-se na raiz da pedagogia europeia. O imperador Juliano, o Apóstata, explicou num ensaio as saídas profissionais que se abriam diante de um estudante formado de acordo com a tradição greco-latina dos conhecimentos amplos. Juliano diz que quem teve uma educação clássica, ou seja, literária, poderá contribuir para o avanço da ciência, ser líder político, guerreiro, explorador e herói. Naquela altura, os leitores aplicados usufruíam de amplos horizontes laborais”.

Quem bancava a educação humanista? Os mecenas da educação, que é a seguinte fotografia. “Já disse que entre os séculos III e I a. C. a alfabetização ganhou terreno, inclusive para além das classes dirigentes. O Estado começou a preocupar-se por regulamentar a educação, mas a sua estrutura era demasiado arcaica e os mecanismos administrativos demasiado fracos para assumirem o desafio de um autêntico ensino público. Os estabelecimentos educativos foram incluídos dentro das competências municipais, e as cidades recorriam à generosidade dos benfeitores — eles chamavam-lhes evergetes — para financiarem este e outros serviços de interesse geral. A civilização helenística, tal como depois a romana, foi essencialmente personalista e liberal. Naquela altura abundavam os Bill Gates que exibiam a força das suas enormes fortunas fazendo donativos para obras públicas — caminhos, escolas, teatros, banhos, bibliotecas ou salas de concertos — e financiando os gastos das festas padroeiras. O evergetismo era considerado uma obrigação moral das pessoas ricas, especialmente quando aspiravam a cargos políticos (…) Uma inscrição do século II a. C. encontrada em Theos, uma cidade da costa da Ásia Menor, recorda um benfeitor que cedeu uma quantia capaz de assegurar «que todas as crianças nascidas livres recebam uma educação». O doador deixou estabelecido que seriam contratados três professores, um para cada grau de instrução, e para além disso especificava que os três deviam ensinar meninos e meninas. Em Pérgamo descobriu-se uma inscrição, datada do século III ou II a. C., que também documenta a presença de meninas nas escolas, já que estão entre as vencedoras nas competições escolares de leitura e caligrafia. Gosto de imaginar essas meninas enquanto desenhavam as letras com ar sério, com a língua a espreitar entre os lábios entreabertos, prestes a conseguirem um dos primeiros prémios da História para meninas. Pergunto-me se sabiam que eram pioneiras, se nas suas fantasias mais ousadas sonhavam que, vinte e cinco séculos mais tarde, continuaríamos a recordar as suas vitórias contra a ignorância.

Outra instantânea necessária é a Biblioteca de Alexandria, e tudo o que circula no seu entorno, começando obviamente por Alexandre Magno:  “Embora não exista informação a esse respeito, atrevo-me a imaginar que a ideia de criar uma biblioteca universal tenha nascido na mente de Alexandre. O plano tem as dimensões da sua ambição, leva a marca da sua sede de totalidade. «Considero a Terra», proclamou Alexandre num dos primeiros decretos que promulgou, «como minha». Reunir todos os livros existentes é outra forma — simbólica, mental, pacífica — de possuir o mundo. A paixão do colecionador de livros é parecida com a do viajante. Toda a biblioteca é uma viagem; todo o livro é um passaporte sem data de caducidade. Alexandre percorreu as rotas de África e da Ásia sem se separar do seu exemplar da Ilíada, ao qual recorria, segundo dizem os historiadores, em busca de conselhos e para alimentar o seu afã de transcendência. A leitura, como uma bússola, abria-lhe os caminhos do desconhecido”

Comenta sobre a Biblioteca: “Talvez àquela altura, o século III a. C., tenha sido a única e última vez em que foi possível tornar realidade o sonho de juntar todos os livros do mundo, sem exceção, numa biblioteca universal (…0 Perguntava a Demétrio de Faleros, o encarregado da organização da Biblioteca, quantos livros já tinham. E Demétrio atualizava-o sobre o valor: «Já há mais de vinte dezenas de milhares, oh Rei; e empenho-me para completar em breve o que falta para os quinhentos mil.» Em Alexandria, a fome de livros desenfreada começava a converter-se num surto de loucura apaixonada (…) Acho que a grande originalidade dos sábios da Biblioteca de Alexandria não tem que ver com o seu amor pelo passado. O que os tornou visionários foi entender que Antígona, Édipo e Medeia — esses seres de tinta e papiro ameaçados pelo esquecimento — deviam viajar através dos séculos; que não se podia privar milhões de pessoas ainda por nascer dos mesmos; que inspirariam as nossas rebeldias, que nos recordariam o quão dolorosas podem ser certas verdades, que revelariam os nossos recantos mais obscuros; que nos esbofeteariam sempre que nos orgulhássemos demasiado da nossa condição de filhos do progresso; que nos continuariam a importar”.

O hábito da leitura, como se ganha o gosto, e o papel das mulheres contando histórias, seria o título de outra instantânea. Irene lembra-se de quando criança, que “embora eu abrisse o livro no lugar oportuno, assinalado pelo marcador, não serviria de nada, pois só veria linhas cheias de patas de aranha que se negariam a dizer-me uma mísera palavra. Sem a voz da minha mãe, a magia não se tornava realidade. Ler era um feitiço, sim; conseguir que esses insetos estranhos pretos dos livros, que então me pareciam enormes formigueiros de papel, falassem (…) Se alguém lê para ti, deseja o teu prazer; é um ato de amor e um armistício no meio dos combates da vida. Enquanto ouves com atenção sonhadora, o narrador e o livro fundem-se numa única presença, numa só voz. E, da mesma forma que o teu leitor modula para ti as inflexões, os sorrisos ténues, os silêncios e os olhares, a história também é tua por direito inalienável. Nunca esquecerás quem te contou uma boa história na penumbra de uma noite”.

O parágrafo sobre a presença feminina contando histórias é magnífico, e não somente Vallejo, como o leitor lembra destes momentos, das histórias das mães, das avós: “Ao longo dos tempos, foram sobretudo as mulheres que tiveram de desfiar a memória das histórias à noite. Foram as tecedoras de relatos e retalhos. Durante séculos enovelaram histórias ao mesmo tempo que faziam rodar a roca ou trabalhavam com a lançadeira do tear. Elas foram as primeiras a expressar o Universo como malha e como redes. Seguravam com nós as suas alegrias, ilusões, angústias, terrores e crenças mais íntimas. Tingiam a monotonia de cores. Entrelaçavam verbos, lã, adjetivos e seda. É por isso que os textos e os tecidos partilham tantas palavras: a trama do relato, o nó do argumento, o fio de uma história, o desenlace da narração; puxar o fio da meada, alinhavar uma história, urdir uma intriga. É por isso que os velhos mitos nos falam da mortalha de Penélope, das túnicas de Nausícaa, dos bordados de Aracne, do fio de Ariadna, da linha da vida que as moiras fiavam, da tela dos destinos que as nornas cosiam, do tapete mágico de Xerazade”.

Mais uma fotografia, desta viagem, Ser professora:  “Anos depois, quando eu própria tive de enfrentar a vertigem de uma aula, compreendi que precisamos de gostar dos nossos alunos para despirmos perante eles aquilo que amamos: para nos arriscarmos a oferecer a um grupo de adolescentes os nossos autênticos entusiasmos, os nossos próprios pensamentos, aqueles versos que nos emocionam, sabendo que poderiam fazer troça ou responder inexpressivamente e com uma evidente indiferença”.

E o poder imenso do livro, da palavra que sana: “Antifonte foi o primeiro a ter a intuição de que curar graças à palavra se podia converter num ofício. Também compreendeu que a terapia devia ser um diálogo exploratório. A experiência ensinou-lhe que convém fazer falar aquele que sofre sobre os motivos da sua dor, porque, às vezes, procurando as palavras encontra-se o remédio. Muitos séculos depois, Viktor Frankl, um discípulo de Freud, sobrevivente dos campos de concentração de Auschwitz, desenvolveria um método parecido para ultrapassar os traumas da barbárie europeia da sua época (…) O próprio Frankl escrevia depois que, paradoxalmente, muitos intelectuais suportavam melhor a vida em Auschwitz, apesar de terem uma pior condição física, do que outros presos mais robustos. Afinal de contas — diz o psiquiatra de origem judaica —, quem era capaz de se isolar do terrível meio à sua volta, refugiando-se no seu interior, sofria menos. Os livros ajudam-nos a sobreviver nas grandes catástrofes históricas e nas pequenas tragédias da nossa vida”.

E também a leitura que inquieta: “A maravilhosa e perturbadora Flannery O’Connor escreveu que quem «só lê livros moralizadores está a seguir um caminho seguro, mas um caminho sem esperança, porque lhe falta a coragem. Se alguma vez, por acaso, lesse um bom romance, saberia muito bem que lhe está a acontecer qualquer coisa». Sentir um certo incómodo faz parte da experiência de ler um livro; há muito mais pedagogia na inquietação do que no alívio. Podemos mandar para o bloco operatório toda a literatura do passado para submetê-la a uma cirurgia estética, mas então deixará de nos explicar o mundo. E se nos metermos nesse caminho não devemos estranhar que os jovens abandonem a leitura e, como diz Santiago Roncagliolo, se entreguem à PlayStation, onde podem matar imensa gente sem que ninguém levante problemas”.

Depois de toda esta viagem com fotos, chegamos a um ponto chave: afinal, o que são os clássicos? “Quantos mais anos leva um objeto ou um hábito entre nós, mais futuro tem. O mais novo, em média, perece antes. É mais provável que no século XXII existam freiras e livros do que WhatsApp e tablets. No futuro haverá cadeiras e mesas, mas plasmas ou telemóveis talvez não. Os clássicos são grandes sobreviventes”.

Após esta afirmação contundente continua Irene Vallejo:  “Na linguagem ultra contemporânea das redes sociais, poderíamos dizer que o seu poder — a sua riqueza, em termos censitários — se mede no número dos seus seguidores. São livros que continuam a atrair novos leitores cem, duzentos, dois mil anos depois de serem escritos. Estão para além das variações do gosto, das mentalidades, das ideias políticas; das revoluções, dos ciclos mutáveis, do desapego das novas gerações. E nesse trajeto, onde seria tão fácil perder-se, conseguem aceder ao universo de outros autores, aos quais influenciam. Continuam a subir para os palcos dos teatros mundiais, são adaptados à linguagem do cinema e emitidos pela televisão, até se desprenderam da encadernação e da tinta para se mostrarem na Internet. Cada nova forma de expressão — a publicidade, a manga, o rap, os videojogos — adota-os e realoca-os”.

E ainda sublinha: “Os clássicos são esses livros que, como os velhos roqueiros sempre em ativo, envelhecem em cima do palco e se adaptam a novos tipos de público. Os mitómanos pagam muito para irem aos seus concertos, os irreverentes parodiam-nos, mas ninguém os ignora. Demonstram que o novo mantém com o velho uma relação mais complexa e criativa do que parece à primeira vista. Como escreveu Hannah Arendt, «O passado não leva para trás, mas sim impulsiona para a frente e, ao contrário do que se poderia esperar, é o futuro que nos conduz para o passado».

“Entender o passado como uma força que modela o presente. «O que é que fica do clássico, se há algo que fica depois de ser historizado, que ainda nos possa continuar a falar através das épocas?», pergunta-se um escritor sul-africano. O clássico ultrapassa os limites temporais, retém um significado para as épocas vindouras, vive. Emerge, ileso, do processo de ser posto à prova dia após dia. Embora atravesse épocas obscuras, a sua continuidade não se quebra. Ultrapassa mudanças históricas, até sobrevive ao beijo da morte da sua consagração por parte de fascismos e ditaduras. Algo continua a impressionar-nos nos filmes propagandísticos de Einsestein para os comunistas soviéticos, ou nos de Leni Riefenstahl para os nazis”. Impressionou-me esta afirmação, que quase parece um dogma ex-cathedra de uma leitora empedernida!

Nosso álbum fotográfico, deve acabar. Já se alongou demais, apesar das tentativas de selecionar as melhores instantâneas. E, para finalizar, ocorre-me que a melhor é esta, onde se revela aquilo que suspeitamos ao longo de toda a leitura desta obra singular: o amor aos livros, ou melhor, os livros como uma manifestação de amor. Copio literalmente: “Quando umas páginas nos comovem, a primeira pessoa a quem falaremos sobre elas será um ente querido. Ao oferecer um romance ou um livro de poemas a alguém com quem nos preocupamos, sabemos que a sua opinião sobre o texto se refletirá sobre nós. Se um amigo, uma amada ou um amante coloca um livro nas nossas mãos, rastreamos os seus gostos e as suas ideias no texto, sentimo-nos intrigados ou visados pelas linhas sublinhadas, iniciamos uma conversa pessoal com as palavras escritas, abrimo-nos com maior intensidade ao seu mistério. Procuramos no seu oceano de letras uma mensagem numa garrafa para nós”.

A familiaridade com os livros, reconhecer que somos seres que contam histórias: “Desde a antiguidade, de geração em geração, os seres humanos contam uns aos outros os acontecimentos históricos que deixaram marcas na memória de gerações, mas temos o hábito recorrente de transformá-los em lendas. Mas, tal como o cinema nos ensinou a apaixonar-nos pelas paisagens poeirentas e grandiosas do Faroeste, pelos territórios fronteiriços, pelo espírito pioneiro e pela vontade de conquistar a terra; Homero comoveu os gregos com as suas histórias violentas e vibrantes do campo, da batalha e do retorno dos veteranos para casa”.

Daí nasce essa intimidade com os livros, o hábito da leitura, que é o saldo magnifico que se recupera no investimento com esta leitura através dos séculos: “Certas leituras são uma forma de quebrar barreiras, certas leituras nos recomendam ao estranho que as ama  (…) Stefan Zweig no final memorável de Mendel, o dos livros: “Os livros são escritos para unir, acima de nossa própria respiração, os seres humanos, e assim nos defender do reverso inexorável de toda a existência: a transitoriedade e o esquecimento”.

Sirva esta última instantânea para colocar o fecho de ouro, no livro de Irene Vallejo: “Apesar do impulso do marketing, dos blogs e das críticas, as coisas mais bonitas que lemos são quase sempre devidas a um ente querido – ou a um livreiro que se tornou amigo. Os livros continuam a unir-nos e a amarrar-nos de uma forma misteriosa”. 

Agora sim: boa leitura, boa viagem para você leitor!

The Offer: Os bastidores de um clássico e a arte da negociação.

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The Offer. 2022. 18. 9 h 46 min. Criação. Leslie Greif. Michael Tolkin. Atores: Miles Teller. Matthew Goode. Dan Fogler. Burn Gorman. Giovanni Ribisi. Juno Temple .

Não sou de assistir séries, salvo poucas exceções. Apenas quando reputo o argumento  como consistente, ou quando a produção merece respeito.   Conheço-me  e sei que o perigo das séries é a adição, efeito fácil de conseguir com a simples interrupção da trama….que pede uma continuação. Como a seguinte dose do entorpecente…..sem mesmo atender para a qualidade do produto, basta um crack meia boca para ir tocando……

The Offer cativou-me desde o início. Os bastidores da filmagem de O Poderoso Chefão. Uns bastidores reais -apoiados no livro de memórias de Albert Ruddy, o produtor que tornou possível a primeira entrega de The Godfather. São 10 capítulos de 1 hora, que não tem desperdiço. Elegância, realismo verossímil, cativante. Um luxo para os olhos -e para a memória- , dos que vivemos aqueles tempos dos anos 70, quando o filme foi apresentado. Como sempre comento neste espaço, é fora de propósito descrever a trama. E mormente neste caso, porque o resultado é perfeitamente conhecido. Mas o que seduz nesta série são os caminhos que Al Ruddy teve de percorrer para juntar todas as peças e entregar o filme inesquecível, com a marca Paramount!

Mario Puzzo, um escritor desacreditado, decide mergulhar na sua origem italiana, para contar uma história que não é apenas ficção, mas apoia-se na realidade. A comunidade ítalo-americana de Nova York dos anos 60, que acompanha o desenrolar dos fatos -algo que pouca gente devia conhecer- é crédito mais do que suficiente para a ficção dos Corleone. O resultado já sabemos: um best-seller inigualável. Entraves, dificuldades, ameaças e gangsters. Por não chamar máfia, nome proibido entre eles. Acordos, mudanças de roteiro e nomes, articulação de todos os lados, conduzidos com paciência e foco por Ruddy.

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Joseph Pérez : La légende noire de l’Espagne

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Joseph Pérez : La légende noire de l’EspagneLibrairie Arthème Fayard, 2009,  246 págs.

Conheço o autor, de quem li uma excelente biografia do Cardeal Cisneros, e outra de Teresa de Ávila . Reconhecido historiador francês, filho de espanhóis, especialista no século XVI espanhol, conhecido como o século de ouro. Tropeçar com esta obra dele, ao alcance de um click, foi tentação à qual não quis resistir. Leio o original em francês, traduzo livremente, e anoto algumas ideias que já tenho baralhado neste espaço. Uma bela síntese, que complementa comentários anteriores sobre a Imperiofobia, e sobre a Globalização Espanhola.

Já na introdução, Pérez, assumindo a sua condição “espanhola”, vai direto ao ponto, em primeira pessoa: “A ideia que os estrangeiros têm de Espanha hoje é quase sempre negativa. Pior: na energia e no ardor que colocam para nos denegrir, às vezes encontramos ódio. Todos falam mal da Espanha hoje; muitos denigrem, menosprezam ou estigmatizam a Espanha de ontem. O que reforça essa tendência, além da má-fé, é que nós mesmos esquecemos nossa própria história”. Eis um recado repetido várias vezes: os espanhóis não somos alheios à lenda negra, porque nós mesmos acabamos assumindo.

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Roberto Minadeo : “O Talismã Oculto”.

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Roberto Minadeo : “O Talismã Oculto”. AZ7 Editora 2022. 229 págs.

Quando recebi o livro, diretamente do autor, com carinhosa dedicatória, pensei que se tratasse de uma versão literária daquele filme intrigante e inspirador: O sexto sentido. A cena onde o menino diz ver mortos que não sabem que estão mortos, circulou inúmeras vezes nas minhas palestras de educação medica e formação de pessoas. O mais difícil é tentar ajudar a quem nem sabe -nem quer saber- que precisa.

Mas o livro, e o Talismã, não tem nenhuma relação que esse cenário. Consiste na sequência de narrativas dos poderes de Paul, desde detetive até bombeiro, passando por salvador de inocentes. Mas falta uma trama que construa tudo isso de um modo lógico e atrativo.

Seria uma espécie de anjo da guarda? Muito acelerado me parece. Uma figura incansável, numa enxurrada de narrativas e ações, sem nenhum parágrafo de reflexão, de transcendência, em puro ativismo , que torna o livro cansativo. Sai da leitura  fatigado, próprio de quem escreve sem pontuação, ao estilo Saramago, mas também com uma trama que se perde. Muita árvore para nunca saber onde está o bosque, ou se o bosque existe. Falo com sinceridade, porque o livro me lembra o meu amigo, professor e escritor, que tem essa mesma caraterística. Um furação de ideias e de ações.

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Kyung-Sook-Shin: “Por favor, Cuide da Mamãe”

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Kyung-Sook-Shin: “Por favor, Cuide da Mamãe” . Ed Intrínseca. Rio de Janeiro, 2011. 236 págs.

Foi a veemente recomendação de um amigo –professor e humanista- o empurrão que me fez aventurar-me nesta leitura. Tratando-se de uma autora coreana, devo confessar que o mundo oriental não é a minha inclinação natural.  Deve ser, sem dúvida, uma deficiência da minha sensibilidade, pois há muito que aprender do humanismo, subtil e encantador do oriente, mas nem todos possuímos essa sintonia peculiar.  Anotei o nome do livro, procurei-o na internet –onde me deparei com um alerta que qualificava a obra como romance lacrimogêneo- e o encomendei através do estantevirtual.com, recurso maravilhoso para adquirir a preços módicos todo tipo de livros. Felizmente, a sugestão do meu amigo prevaleceu, e parti para a leitura.

O argumento é simples: uma senhora de idade, com certo grau de demência, perde-se no metrô de Seul. A família –quatro filhos e o pai- inicia a busca. E a busca mergulha nas lembranças que se transformam numa descoberta daquela mulher, mãe e esposa, que mal conheciam. A perdida física é apenas desculpa para revelar uma carência substancial de conhecimento daquela que convivia e cuidava de todos, com esmero e dedicação. O livro é um buquê de reflexões das filhas, dos filhos, do esposo que, agora, sentem falta dela e lamentam a indiferença com que a tratavam.Leia mais

Domenico De Massi: Alfabeto da Sociedade Desorientada.

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Domenico De Massi: Alfabeto da Sociedade Desorientada. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro, 2017. 600 págs.

Eis um livro difícil de ler, incômodo. Ou talvez não é para ser lido, apenas consultado. Essa foi a conclusão à qual cheguei após iniciar a leitura, parar, retomar, parar novamente, e enfrentar, agora sim, com leitura dinâmica, em diagonal. Porque no fundo, não é propriamente um livro -onde se desenvolve uma tese, um pensamento ou ensaio- mas um acúmulo de conhecimentos (ninguém pode negar isso ao autor), empilhados a modo de dicionário, ou, talvez de enciclopédia. Daí o nome, alfabeto, que é apenas um recurso para falar de tudo, atrelado à cada letra.

Vale a pena ler a orelha. Mas querer falar de tudo é um pouco cansativo. Ninguém le um dicionário por mais informação que isso lhe traga. Erudição enorme, que na prática é difícil transformar em cultura. Um índice de verbetes no final -um dicionário deste dicionário- ajudaria na hora de consultar. Ler direto é tarefa inglória. O tempo do enciclopedismo já passou. Se isso é árduo para os que nos consideramos leitores razoáveis, pode se imaginar o desânimo que causa nos menos familiarizados com os livros, e  para os jovens de hoje. Por outro lado, o formato não permite usá-lo como obra de consulta -que seria utilíssima. Enfim, uma erudição de difícil aproveitamento. O muito que eu não sei…..Mas embora a ideia seja guiar, não nos dá uma pauta de prioridades. Pode ser que a emenda saia pior do que o soneto. E afinal, quando há muitas árvores, acabamos não enxergando o bosque.

Dito isto -sem perder o respeito pelo autor, que já conhecia e admirava pelo conceito muito bem desenvolvido do ócio criativo- é justo apontar alguns trechos que, nessa leitura rápida -como um drone, desde a altura- me chamaram a atenção.

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Um segundo: Poesia na tela, um Cinema Paradiso chinês!

Pablo González BlascoFilmes 2 Comments

Direção: Zhang Yimou.  Yi Zhang,  Haocun Liu , Wei Fan,  Ailei Yu ,  Shaobo Zhang ,
Fotografía: Zhao Xiaoding. Montaje: Yuan Du. Música: Lao Zai. 105 min.

Comentei, a propósito de Sombra, o último filme de Zhang Yimou que assisti, que não sou versado em cinema oriental. Mas também adverti que quando me aventuro nesses caminhos, acabo por surpreender-me. Com Yimou tem sido assim….desde longa data. E, Um segundo (coloco o link porque até onde consigo ver, carece de nome em português), foi outra agradável surpresa. Mas surpresa oriental, como aquela porcelana chinesa que no início se percebe, nos acostumamos a ela, e com o passar do tempo, sentimos falta de revê-la, de contemplá-la. Suave, delicada, sem barulho. Cinema em low profile, mas que o tempo faz decantar e inserir-se na alma.

Um sujeito caminhando no deserto. Uma órfã malandra que rouba celuloide. Uma criança maltratada porque desbaratou um abajur ….de celuloide. Um empresário que projeta, uma vez e outra, o mesmo filme, um filme propaganda do partido comunista chines. O filho desajeitado que quase deita a perder o filme. As mulheres limpando, lavando, secando as fitas do filme, penduradas como roupa num varal. Um documental prévio, onde a filha do homem do deserto -um presidiário- aparece um instante…..um segundo! E assim, nessas miniaturas delicadas -porque mais do que porcelana, são miniaturas chinesas de velhos códices- Zhang Yimou desenha o seu próprio Cinema Paradiso!

Essa foi a minha conclusão, não quando assisti, porque de início pareceu-me um filme menor. Mas, depois, pensando, tudo foi tomando forma. O cinema oriental, o bom, tem esse efeito retardado, Slow-release como os médicos denominamos algumas apresentações de fármacos. A órfã que rouba celuloide para proteger o irmão; o presidiário que zela pelo filme -que o recupera da ladra, e bate nela- para proteger aquele segundo onde a filha aparece. E o empresário -Sr. Filme, diz a legenda traduzida- que capta o drama, emenda os rolos, e deixa passando, uma vez e outra aquele segundo impactante para um pai dolorido. E o povo que quer ver o filme -filhos e filhas heroicos, diz a tradução- não por estarem alinhados com o partido, mas porque amam o cinema. Amam a projeção, o local desajeitado -quase a praça da cidade onde Alfredo projeta a tela para Totó –Alfredo é belíssimo!!- em Cinema Paradiso, enquanto a trilha de Morricone embrulha o momento. Amam a preparação, e por isso limpam e lavam o celuloide, e circulam entre as fitas dependuradas secando, quase como as roupas no varal, aquelas que Nelson Gonçalves canta em Chão de Estrelas. E o espectador, sem saber exatamente o motivo, sente-se envolvido também naquele palco iluminado da vida, como um palhaço das perdidas ilusões……

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Franz Kafka: “O Processo”.

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Franz Kafka: “O Processo”.Digital Source . 252 págs.

A Tertúlia Literária leva-nos desta vez até um clássico de Kafka, sabendo que podemos esperar tudo dele, menos um argumento lógico. Se no outro clássico A Metamorfose, o protagonista vê-se transformado numa barata no dia do seu aniversário, agora, também no aniversário deste outro, o que surge é uma detenção, surpreendente, inexplicável, enigmática, de um funcionário aparentemente exemplar de um banco.

A experiência de Josef K (e eu gosto de imaginar que o K, não é de graça, mas um alter ego do escritor), não lhe ajuda a entender o que está acontecendo: “K. sempre manifestara inclinação para encarar todas as coisas com a maior ligeireza possível, em acreditar no pior somente quando o pior se apresentava, a não nutrir grandes cuidados pelo futuro mesmo quando tudo tivesse um aspecto ameaçador. Neste caso, porém, não lhe pareceu adequado levar o assunto em brincadeira”

O diálogo com os guardas e, posteriormente, com o inspector nada ajuda na perplexidade provocada pela situação: “Estes senhores que vê aqui, e eu, desempenhamos um papel completamente acessório em seu assunto, do qual, para dizer a verdade, não sabemos quase nada. Se trouxéssemos nossos uniformes do modo mais regulamentar possível, nem por isso sua causa estaria melhor do que está. Muito menos lhe posso dizer, a você, de modo algum que está acusado, ou, dizendo melhor, não sei se o está. O certo é que está detido. Isto é tudo quanto sei  (…) Se você continua tendo tanta sorte como na designação de seus guardas pode alimentar esperanças”.

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España, la primera globalización.

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España, la primera globalización. Direção. José Luis López-Linares. 2021. 1 h 50 min.

O filme é em espanhol, feito por espanhóis e, imagino -como se verá depois- para que os espanhóis o vejam….e revisem suas próprias ideias. Mas faço questão absoluta de escrever em português em atenção aos meus leitores habituais. Até porque, como bem apontam os que intervêm neste filme-documentário magnífico, o império espanhol -com duração de três séculos- não foi apenas um assunto dos espanhóis, mas algo que afetou o mundo e a civilização.

O convidativo chamado da primeira globalização, é apresentado de modo simples e direto. A China, na dinastia Ming, decidiu que a partir de certo momento (no século XVI) os tributos não seriam mais pagos em espécies, mas em prata. O problema é que não havia prata na China, e os grandes estoques de prata eram espanhóis, na Nueva España, quer dizer, no México. Cria-se uma ponte entre os Ming e os Habsburgo, -a casa de Áustria como a chamam os espanhóis- para resolver esta questão. De um lado os imperadores da China, do outro Felipe II, a quem por sinal, devem seu nome as Ilhas Filipinas (algo que, comprovei, nem todo o mundo sabe).

Após Colombo chegar na América -as Indias ocidentais- , e tendo sido avistado o Pacífico por Núñez de Balboa, Magalhães consegue entrar no novo oceano, através do estreito que leva seu nome. E de lá até Asia -Filipinas, Polinésia, Índia- e retornar contornando o cabo de Boa Esperança, para a península Ibérica. Houve tentativas de fazer o caminho de volta pela mesma  que se utilizou para chegar na Ásia, -das Filipinas até América, e de lá cruzar o Atlântico-, mas todas infrutuosas por conta das correntes. Somente em 1578, um frade estudioso -Urdaneta- e um navegador espanhol -Legazpi- conseguem acertar com a rota que saindo de Filipinas, regressa até Acapulco. Está feita a ligação, através do Pacifico, entre as necessidades da China, e a prata espanhola, convertendo-se Manila no centro das transações comerciais. E, nesse mesmo momento, Felipe II reivindica por direito sucessório que lhe cabe a coroa Portuguesa; quer dizer, o senhor de meio mundo.

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Elsa Morante: A História

Pablo González BlascoLivros 2 Comments

Ed. Record. Círculo do Livro. São Paulo. 634 págs. Editora ‏ : ‎ Relógio d” Água”. 2018) Lumen- Random.  Barcelona 2018. 775 págs. Record, 2009, 700 págs,

Tinha este livro em vista há tempo, desde uma leitura de Fabrice Hadjadj onde cita a Morante. Não lembro em qual dos livros dele o faz, porque o autor é instigante, polifacético, desconcertante. Talvez foi naquele sobre a família,  ou sobre a mística dos sexos. Em qualquer caso, estava com vontade de ler, tomei nota e agora lhe chega o momento, a propósito de nossa Tertúlia Literária mensal.

Abro o livro (edição em espanhol que tinha à mão), e me encontro com estes comentários que já me espicaçam: “Elsa Morante foi minha professora. É fascinante. Tentei aprender com seus livros, mas os considero insuperáveis”-diz Elena Ferrante. E outro, de uma autora que conheço, Natalia Ginzburg: “Como romancista e como leitora, o que senti ao ler A História é um sentimento de profunda gratidão para com Elsa Morante”.

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