MARTY

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(Marty) Diretor: Delbert Mann. Ernest Borgnine, Betsy Blair. USA 1955. 91 min

Pode-se esperar poesia quando se tem como matéria prima algo vulgar? Um açougueiro, gordo, com pouco atrativo físico é tudo o que contamos para iniciar nosso poema. Fosse pouco, Marty -esse é o nome do nosso açougueiro- é um sujeito tímido, convencido de que nunca deixará de ser o solteirão sem remédio. “Já fiz várias tentativas -diz à mãe num diálogo dramático onde verte todos os seus complexos e limitações- e só arrumei dor de cabeça. Quando se convencerá de que tem na família um filho gordo e feio, um solteirão sem jeito?”. Marty é mesmo, como se diz vulgarmente, a história do “encalhado”.

            Logo nas primeiras cenas reparamos que Marty tem uma simpatia peculiar. Trabalhador, brincalhão com os fregueses no açougue, falador, entrosado no ambiente da colônia italiana. Os amigos -tem amigos que o apreciam- convidam-no para os programas de sábado. Frequenta o “Poeira de estrelas”, uma versão anos cinquenta das nossas discotecas-danceterias de hoje. Mas não passa disso. Marty tem fundo, pensa e vive seu drama interior. Sabe que os seus amigos são tão tímidos quanto ele, mas tem lábia e presença. De qualquer modo o resultado deles é o mesmo: o insucesso com as moças, sem resultado estável, que vingue. Marty está farto dessa simulação, do programa sem objetivo, da pesca sem peixe. Está preso nas próprias limitações.

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A PRINCESA E O PLEBEU

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A PRINCESA E O PLEBEU. (Roman Holiday) Diretor: William Wyler. Gregory Peck, Audrey Hepburn. Eddie Albert. USA. l953. ll9 minutos.

Poderíamos resumir este filme assim: um romance entre um jornalista e uma princesa, que quer ser Cinderela por um dia. Mas tratando-se de um clássico, é preciso dizer algo mais, a começar pelo diretor. Wyler é um grande diretor, em sentido pleno. Sabe transmitir dramas e emoções, paixões e alegrias. Sabe filmar a vida, em todos seus gêneros. Desde a mulher má,  encarnada em Bette Davis (“Jezebel”, “A carta”), dramas humanos (“Os melhores anos da nossa vida”, “Chaga de fogo”), até épicos com heróis de provada virtude (“Ben-Hur”). Dele podemos esperar sempre um filme de qualidade.

            “A Princesa e o Plebeu” foi a descoberta de Audrey Hepburn, atriz genial, eterna menina, que associa ingenuidade e candura, com uma personalidade forte na interpretação. É uma atriz expressiva: diz tudo com os gestos, com o sorriso, com o olhar. Matiza, com sua mímica, as situações. Wyler sabe disto e tira partido. Audrey ganha seu Oscar com mérito. Gregory Peck desenvolve um papel que lhe quadra bem. Alguém disse que é pouco natural, talvez pôr ser desajeitado quando se movimenta. Mas, nos primeiros planos leva sempre vantagem. Peck é um ator para ser visto de perto, não em perspectiva de fundo. Por isso se encaixa bem nos papeis dramáticos, conflitantes.

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ESPÍRITOS INDÔMITOS

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ESPÍRITOS INDÔMITOS. (The Men) Diretor: Fred Zinnemman. Marlon Brando, Teresa Wright. USA 1950. 85 min

Conforme os anos passam, sentimos a necessidade inconsciente de aproveitar o tempo. Gastar os minutos com a prudência de quem sabe que o seu capital‚ é limitado. Comprar a mercadoria certa, eliminar caprichos, não arriscar por vício. Tornamos nosso tempo denso, selecionando as atividades, investindo no seguro. Deve ser este mais um instinto humano -como o de sobrevivência, o de maternidade- embora menos estudado. O instinto da economia do tempo, que supervisiona a atuação madura, impregnando de realismo, sereno e urgente, os ideais que norteiam a vida.

            Quando se trata de ver um filme, sempre sinto este instinto funcionar. Por isso, nunca fui partidário de mergulhar no desconhecido, assistindo filmes dos quais nada sei, nem ouvi falar. Vez por outra se torna necessário folhear os livros de cinema, estacionados na prateleira da biblioteca, para não perder a sintonia.

            Cinema é como uma língua; se não se pratica, se esquece. E se deixamos empoeirar os livros e passamos por alto os artigos de crítica cinematográfica -mesmo os de conteúdo muito discutível, se não há  nada de melhor à mão- a linguagem cai no olvido. De nada adianta ver filmes, mesmo por atacado como hoje é uso comum, se não se assimilam. Não sei por que me lembra as invasões bárbaras devastando as bibliotecas do decadente Império Romano. Bem‚ é verdade que, cada vez mais, é preciso garimpar entre as inúmeras opções disponíveis para encontrar cinema. Filmes, isto é celuloide, há toneladas; mas Cinema, com maiúscula, já é outra questão que requer procura atenta. Não é quantificável no peso, como as laranjas da feira; nem no visual da capa, excelente chamariz para os desinformados.

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A FELICIDADE NÃO SE COMPRA

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A FELICIDADE NÃO SE COMPRA. (It’s a wonderful life). Diretor: Frank Capra. James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore, Tomas Mitchell. USA 1948. 129 min.

Lembro deste filme com um carinho especial. Tinha nove anos quando o vi por primeira vez.  Passaram-se mais de 50 e a lembrança continua viva, como se tivesse sido ontem. Era aquela, a época em que as crianças não assistíamos TV à noite, pois acordávamos cedo para ir no colégio. A proibição dos programas noturnos era a solução caseira mais natural, na tentativa de poupar o guindaste matutino para nos arrancar da cama. Penso que isso sempre foi assim, com ou sem TV à noite.

            Naquele dia, um Domingo se mal não lembro, estando já deitados, meu pai entrou no quarto e acendeu a luz. “Levantem. Vão ver um filme com seus pais porque vale a pena duas horas de sono”. Estas ocasiões eram tão raras que a novidade já tornava o filme ótimo. E como o gosto pelo cinema em casa era algo “quase genético”, não houve dificuldade em obedecer a ordem; na verdade não era ordem, simplesmente um convite carinhoso.

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